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Bem-vindos ao Sobre Escuta. O nosso convidado de hoje é o almirante Gouveia e Melo, alguém que os portugueses se habituaram a ver, e que muitos conheceram pela primeira vez, como coordenador da task force pra vacinação da Covid-19, mas que tem uma longa carreira militar anterior a isso, e que há cerca de meio ano, de alguma forma, voltou à casa e assumiu as funções de chefe do Estado-Maior da Armada. Senhor Almirante, muito bem-vindo. Sensivelmente seis meses depois de assumir a coordenação da task force, eu fui aos arquivos e percebi que andávamos numa vacinação de cerca de 70% da população portuguesa. Considerava-se um sucesso, Portugal liderava nessa missão, que cumpríamos nessa altura, e que o senhor liderava. O senhor também agora tomou posse, sensivelmente há cerca de seis meses, vai fazer sete. O que lhe perguntava era se já conseguiu deixar alguma marca na Marinha neste período em que está aos comandos do ramo.

A questão não é uma marca na Marinha, a questão é se consegui, de alguma forma, começar a fazer o novo caminho, que sempre desejei que a Marinha fizesse, e esse desejo, que se manifestasse em coisas concretas. E a sensação que tenho, olhando para o que fiz e para o que a Marinha está a fazer, é que esse caminho começou a ser feito. Ou seja, há uma inflexão sobre os processos anteriores, no sentido de uma nova liderança, que naturalmente é a minha liderança, para um caminho que eu sempre desejei como um caminho alternativo pra Marinha. Portanto, quero uma Marinha mais holística. O que isso significa? Uma Marinha mais aberta à sociedade, uma Marinha que não seja só uma Marinha focada nas missões militares, mas uma Marinha muito mais aberta, focada em empurrar, de alguma forma, e em catalisar toda a atividade do Estado português no mar, empurrando a sociedade, também, para o mar, ajudando a catalisar uma nova economia do mar, novas tecnologias. É isso que comecei a fazer e já com algum sucesso.

Já vamos tentar pormenorizar essa ideia de mar. Disse que é um caminho que começa a ser feito, também são seis meses de um mandato bastante mais longo. Tem sentido dificuldades em implementar aquilo que é sua ideia pra Marinha?

As dificuldades, em todas as mudanças, há sempre algumas resistências, mas também há muitas adesões. Portanto, as dificuldades são naturais. Quer dizer, quem não tiver dificuldades também não consegue liderar nada.

E que dificuldades têm sido essas?

Há dificuldades no sentido em que fazer um novo caminho, abrir novas perspectivas, obriga a coordenar muitas vontades, obriga a encontrar parceiros fora da Marinha e parcerias fora da Marinha, que nos ajudem a levar este novo desígnio, que é o mar, claro, com a ajuda do governo. O governo apoia todas estas iniciativas, acho que isso é claro.

É impossível fazer um caminho de costas voltadas para o governo nesse âmbito?

Não, isso é impossível. É importante que o governo apoie as iniciativas, e tem apoiado estas iniciativas, que é virar um bocado o país mais pro Atlântico, e virando o país pro Atlântico, e ganhar uma nova centralidade geoestratégica.

Seja qual for a missão, creio que há um ponto aqui que é fundamental, creio que concordará comigo, que é a questão dos recursos, que é preciso alocar e que é preciso ter, desde logo, pra desempenhar a missão. Este é um diálogo, é uma questão que tem marcado transversalmente as Forças Armadas portuguesas, que tem marcado de forma também muito clara a Marinha, e falo dos recursos humanos, dos militares que estão ao serviço da Marinha. Esse é um problema premente, é um problema particular entre aqueles obstáculos de que falávamos?

Os recursos são sempre escassos. Mesmo quando não o são, as organizações julgam que estão sempre em escassez de recursos, porque têm a ambição de fazer sempre mais. O que eu digo é que, com os recursos que me dão, a minha obrigação é fazer o máximo que posso e conseguir que a minha organização seja o mais eficiente possível. Portanto, se o Estado achar que deve alocar mais recursos, eles serão todos bem utilizados. Se achar que deve só alocar os recursos que tem alocado até agora, o que eu tentarei fazer é, com os recursos que me estão a ser alocados, conseguir fazer o melhor percurso pros objetivos que julgo que unem todos nós, que é olharmos pro mar de uma forma diferente.

Mas isso implica necessariamente fazer escolhas, aquilo que me está a dizer, não é? Com determinados recursos, cumpro determinadas missões, com mais recursos poderei cumprir outras, eventualmente mais ambiciosas. Tem os meios, tem os homens e as mulheres de que precisa pra cumprir as missões que pretendia cumprir ou, neste momento, tem de optar por missões e tem que deixar missões de lado porque não tem recursos?

Eu sempre achei que a imaginação e a capacidade criativa são elementos essenciais do comando e da liderança, e, portanto, com as dificuldades que possa vir a ter, dentro dos recursos que desejava ter, essas dificuldades são também um incentivo a encontrar soluções Diferentes das anteriores. E muitas vezes essas soluções passam por encontrar parcerias e fazer o trabalho com essas parcerias, quando antes fazia o trabalho de forma isolada.

E não abdicar de missões.

E não abdicar de missões.

Não teve que abdicar de missões até este momento?

Por enquanto ainda não tivemos que abdicar. Aliás, as nossas missões sofreram um incremento no sentido de sermos mais ambiciosos. Nós queremos conseguir criar tecnologia, que depois é aplicada à Marinha, mas aplicada também de forma transversal a todas as atividades marítimas, e ao desenvolvermos essa tecnologia, desenvolvermos o nosso tecido económico, o nosso tecido industrial, a nossa própria academia, a ciência. E ao fazermos isso, por incrível que possa parecer, podemos até consumir menos recursos. Por quê? Porque estamos a aplicar tecnologias nacionais que conseguimos, de alguma forma, depois trazer para a organização a preços mais reduzidos, trazendo preços mais reduzidos, por outro lado, estamos a fomentar a economia nacional.

Aquilo que me está a dizer, compreenderá se eu lhe responder com esta ideia de que choca claramente com, por exemplo, aquilo que as associações de oficiais dizem, que as associações de sargentos dizem, que as associações de praças dizem. E estas três associações estão permanentemente em concordância, em coerência, numa ideia de que faltam efetivamente militares às Forças Armadas. Daquilo que me diz, isso não é uma questão para si, não é um problema.

Que faltam militares às Forças Armadas, o que é de conhecimento público e de entendimento generalizado. Que nós, para conseguirmos cumprir com determinados objetivos e missões, só o possamos fazer com recursos de mais militares, é que é discutível. Por exemplo, uma das minhas linhas de ação é a robotização da nossa atividade. Eu chamo de a robotização da guerra, mas não é a guerra, é a robotização da nossa atividade. E conseguir fazer com drones e com capacidades tecnológicas, ações que implicariam muitos mais militares se não tivéssemos essas capacidades. Portanto, isso em si é uma revolução, é uma revolução da forma de estar. É muito natural que pessoas que não estejam a ver ainda esse caminho, achem que para se conseguir fazer determinadas funções, são necessários um conjunto de recursos humanos mais elevados do que de outra forma. Ou seja, nós temos que procurar níveis de eficácia e eficiência nunca alcançados anteriormente e que a tecnologia hoje nos permite fazer. Por isso, um dos meus objetivos básicos na construção e na edificação desta nova Marinha, é uma Marinha tecnologicamente avançada. Ora, eu não consigo é com uma Marinha não tecnológica, portanto, uma Marinha antiquada, reduzir os recursos e simultaneamente fazer mais. O que nós temos que fazer não é reduzir os recursos humanos, mas é aplicá-los da melhor forma, estando estes a operar com novas tecnologias como inteligência artificial, a robotização de funções pesadas, a utilização de drones para ter maiores capacidades de vigilância e um alcance superior nas nossas ações. É todo este conjunto de ideias que tem que ser implementado para que a gente possa poupar recursos, mantendo uma maior eficácia e uma maior eficiência.

Isso exige, e entra aqui o outro lado desta equação, da equação deste problema de que estamos a falar, que é não a captação de mais militares, mas a manutenção, pelo menos, daqueles que estão em funções. Como é que se consegue garantir que os militares que estão ao serviço da Marinha permanecem pelo tempo que têm de contrato e a Marinha não tem de lidar com saídas antecipadas? Qual é o discurso que apresenta para mostrar que este é um caminho viável, que esta é uma carreira interessante?

A Marinha faz parte da sociedade portuguesa e fazendo parte da sociedade portuguesa, sofre o que a sociedade portuguesa sofre. Nós não somos um corpo exógeno à sociedade. Portanto, os nossos ordenados, as nossas retribuições refletem um bocado o que é a sociedade portuguesa como um todo. E quem julgar que consegue construir uma mini sociedade dentro de outra sociedade privilegiada, está enganado, necessariamente.

Mas o que está a dizer então é que, desse ponto de vista, não há solução.

O que eu julgo é que a solução vem com a evolução de toda a sociedade. Portanto, a sociedade tem que evoluir como um todo. E nós, que somos militares, que temos como ethos ou como personalidade, defender o nosso Estado e estar dispostos a grandes sacrifícios para o nosso Estado, temos que acreditar que ao ajudarmos a desenvolver o próprio Estado, ao fazermos as coisas de forma diferente e ao capacitarmos o Estado para outros níveis de desempenho, naturalmente haverá benefícios para o próprio Estado, que serão distribuídos depois pelo Estado para a sociedade como um todo, e iremos beneficiar disso a médio e longo prazo.

Mas esse discurso, por causa do sentido de missão, que é preciso estar inerente a quem integra as Forças Armadas, será suficiente para quem está e para quem possa ponderar seguir esta área como uma carreira profissional?

Pode não ser suficiente, mas também nós não podemos ser mercenários. Portanto, há aqui um equilíbrio que tem que ser encontrado. Não lhe vou dizer se é com os salários atuais ou com salários melhores ou quanto melhores, mas também há outras que é muito importante, há outras motivações de contexto Que não são só o salário. Por exemplo, uma motivação de contexto é: o que eu faço no meu dia a dia? Faço coisas interessantes? Estou a progredir nas minhas capacidades? Faço coisas que além de serem interessantes para mim, também são relevantes para a sociedade?

E vão ser reconhecidas mais tarde quando eles voltarem a integrar a sociedade.

Exatamente. É todo o conjunto destas coisas que faz com que as pessoas ou saiam ou não saiam da organização. Muitas vezes, não é colocar dinheiro em cima dos problemas, que se resolvem os problemas. Não estou a dizer que as remunerações sejam o mais justo ou mais adequado. Não estou sequer a fazer nenhum comentário sobre isso.

Mas não são a questão mais premente?

São questões prementes, mas são prementes para toda a sociedade.

Eu perguntei a si, porque obviamente é o chefe da Armada.

Sim, nós não somos uma sociedade à parte dentro da sociedade. Ninguém compreenderia que os militares ganhassem salários altíssimos e a sociedade, como um todo, não usufruísse das mesmas condições. Também não seria justo que os militares fossem prejudicados perante outras profissões idênticas. É esse equilíbrio que tem que ser encontrado. E eu julgo que o próprio governo está muito atento a esses equilíbrios. E esses equilíbrios hão de ser encontrados, naturalmente.

Tem alguma garantia ou, por outro lado, tem alguma ideia de como é que esse processo de valorização salarial na Marinha, mas imagino que fale com os seus congéneres na Marinha, no Exército, na Força Aérea, como é que o caminho se pode começar a fazer para valorizar a massa salarial dos militares?

Eu estou confiante que o sistema encontrará a solução, porque se não encontrar-

Mas vai ter um papel ativo para encontrar essa solução?

Claro que tenho. Não lhe vou dizer as sugestões que dou ou não dou dentro da minha organização.

O que eu queria perceber era até se dava sugestões ao poder político.

Não, eu digo dentro da minha organização, dentro da minha organização militar, e portanto, claramente, em contacto com o poder político.

Mas que há esse diálogo, há.

Há o diálogo, mas o diálogo tem que ser feito com os pés assentes na Terra e com a percepção que nós não somos uma microssociedade dentro de uma sociedade mais alargada. Nós fazemos parte da sociedade. Há muita gente que tem aspirações de vida e que têm que ser, diversos grupos profissionais, de alguma forma têm que ser atendidos. Mas só podemos fazer isso quando o Estado, como um todo, produzir mais. E para produzir mais, temos que ser todos mais eficientes, mais eficazes.

E mais pacientes.

E mais pacientes, também mais pacientes.

E há pouco estávamos a falar do mar, disse que, e estou a citá-lo, que a sua visão é ter um ramo que consiga operar sistemas complexos no mar, pessoas isoladas das famílias, sem telemóveis, e que tenham a resiliência necessária, por exemplo, para estar dois meses sem atracar. Eu sei que pôs como condição não falar da guerra na Ucrânia. O certo é que já falou em público desta importância geoestratégica do mar. Que importância é essa, particularmente em tempos de tensão internacional?

De uma forma muito simples. A OTAN ou a NATO é uma união de defesa que une duas partes do Atlântico. Uma que é a América do Norte e o Canadá, com a Europa, Europa Ocidental, ocidentalizada.

E que de alguma forma ganham mais vitalidade com este momento que atravessamos.

E o que une esses dois pedaços de território? O mar chamado Oceano Atlântico. Se esse Oceano Atlântico, se o controle sobre esse Oceano Atlântico se perder, nós perdemos a batalha logística. E quem perde a batalha logística, perde todas as outras batalhas a seguir. Por isso, é necessário garantir que esse Oceano Atlântico continue, de alguma forma, a servir os interesses desta grande união civilizacional, que também tem uma expressão militar, que é a NATO, e para que isso seja feito, Portugal está numa posição extraordinária para fazer um papel também extraordinário.

E que papel é que a Marinha, em concreto, pode ter nesse desígnio? Porque ao ouvi-lo, fico aqui com a sensação de que há um discurso militar, necessariamente, mas também um discurso quase económico, com uma vertente econômica. Qual é que é o papel da Marinha, que papel imagina para a Marinha nessa missão?

Eu posso dizer que há dois papéis, o militar e o econômico, como disse, e muito bem. O militar é basicamente garantir que as linhas de comunicação leste-oeste, através do Oceano Atlântico, são garantidas por esta grande coligação que é a NATO. E nós, com os Açores, com a Madeira e com o nosso posicionamento geográfico, temos um papel aí super-relevante. E esse papel deve ser feito por nós, na nossa máxima extensão possível, para não sermos substituídos nesse papel dentro da própria aliança. Isso seria grave porque iria afunilar estrategicamente as nossas opções, mesmo dentro das nossas alianças. Por outro lado, parece-me evidente que se a civilização ocidental não encontrar um mecanismo econômico de desenvolvimento forte, que permita suportar uma liderança mundial, vai perder essa liderança. E que mecanismo é esse e onde é que se encontrará? Em que áreas é que se encontrará? Além de uma economia global, uma economia centrada no Atlântico Norte e no Atlântico Sul. E aí Portugal, mais uma vez, através das suas ligações históricas e do seu posicionamento geográfico e cultural, tem vantagens Que pode usar enquanto abertura das suas relações geoestratégicas e geoeconómicas, ou, se não fizer nada, afunilar em sentido contrário.

Eu queria voltar ao início da sua experiência como chefe do Estado-Maior da Armada. Naqueles momentos anteriores, há, como está ciente, um episódio que envolve o Presidente da República, o seu antecessor no cargo, alguma confusão em público no processo que antecedeu a sua chegada às funções. O que eu queria perguntar era se sente que, de alguma forma, esses episódios o fragilizaram na missão que desempenha agora.

Eu não me sinto fragilizado nas minhas funções atuais e tenho tido toda a colaboração da organização que lidero. Portanto, não me sinto nada fragilizado.

Foi promovido e conduzido entre o Natal e o Ano Novo. Comentou-se isto em público, na altura, pelos analistas políticos, e não só, que se estava, de alguma forma, a tentar acelerar a sua colocação na chefia da Armada. Sente que o processo foi bem conduzido? Falaram consigo na altura? Compreendeu as várias etapas desse processo?

Para mim, o processo foi muito simples. Convidaram-me para ser o chefe do Estado-Maior da Marinha. Eu aceitei o convite, colocaram-me em funções e eu estou em funções. Nós somos militares, obedecemos ao poder político e é assim que deve ser. E, portanto, o poder político decidiu quando decidiu, nas condições que quis decidir, e uma vez feita a decisão, nós assumimos as consequências da decisão, porque é esse o nosso papel enquanto militares.

Teria preferido que o processo fosse mais tranquilo?

Sobre esse aspecto, não tenho nem preferências, nem despreferências. Se tivesse algum problema, poderia não ter aceitado o cargo. Aceitei o cargo, estou no cargo, estou com muita vontade de desempenhar o meu cargo, tenho muito gosto em desempenhar o meu cargo, estou a dar o meu máximo contributo dentro do cargo e, portanto, sou um homem feliz. Não tenho nenhumas preocupações específicas, para além das preocupações normais do cargo.

Precisamente sobre a chegada ao cargo, ela coincide com uma mudança no enquadramento legal das Forças Armadas. Creio que já tinha entrado em vigor a nova Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas. Entende a reserva com que outros chefes militares receberam este novo enquadramento legal, este chapéu legal, sobre os vários ramos? Falou-se numa concentração de poderes muito excessiva no papel do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

O que eu lhe posso dizer sobre isso é que a Terra gira todas as 24 horas e desloca-se e faz o movimento de translação à volta do sol ao longo do tempo. E nada é constante ou se mantém para a eternidade. O mundo evolui, as condições evoluem, a forma de olhar para os problemas evolui e isto é natural, que dessa evolução, as relações tivessem que ser alteradas e tivessem que ter uma evolução. Sinto-me perfeitamente tranquilo com essa evolução. Trabalho dentro deste novo esquema e nova evolução, e estou aqui para apoiar todas as transformações que sejam necessárias para que o sistema seja mais eficiente e mais eficaz. E julgo que é isso que todos nós queremos, incluindo o poder político, como é evidente.

Não sente que, de alguma forma, é um chefe da Armada com poderes reduzidos? Porque este era um discurso que ouvimos de chefes militares, de antigos chefes militares. Sente que, de alguma forma, em relação ao seu antecessor, obviamente, que é um chefe da Armada com poderes reduzidos em relação à realidade que existia antes da sua entrada em funções?

Não sinto nenhum poder reduzido, pelo contrário. Como digo, faço parte de uma Marinha que é holística, que está a fazer e está a olhar para o seu papel dentro da própria sociedade de uma forma muito mais aberta e muito mais ativa e colaborativa, e por isso não sei porquê.

Não entende se quer essa questão.

Não entendo esse problema, porque depende do que se pretende fazer e o que eu pretendo fazer, o que é a minha missão, estão perfeitamente adequados aos poderes que me são atribuídos. Portanto, responsabilidade igual a poder e poder igual a responsabilidade. As missões mudam.

Como é que interpreta? Porque imagino que tenha refletido sobre as posições que foram assumidas publicamente. Como é que interpreta essas posições? O que é que se pretendia com aquilo?

Interpreto que, como o mundo evolui, as pessoas que saíram da organização há 10 anos ou há 20 anos, têm visões que estão datadas do tempo em que viveram nas organizações. Essas visões datadas, muitas vezes, não são consonantes com novas formas de atuar. O mundo mudou muito nos últimos 20 anos. As Forças Armadas participam, além das ações militares anteriores, num conjunto de ações completamente diferentes, desde o apoio à Proteção Civil, o apoio a outras atividades, com o apoio na questão da vacinação e noutras áreas da saúde. Portanto, o mundo mudou muito. A forma como nós temos que nos articular com o mundo civil mudou também muito. E, portanto, quem julga que as soluções de há 20 anos ou de há 10 anos, são aquelas que se aplicam hoje ou para os próximos 20 anos, não percebe que o mundo gira todos os dias Uma vez à volta do seu eixo e está-se a transladar à volta do sol permanentemente.

Voltando a pôr os pés na terra, como há pouco dizia, a verdade é que não foram só antigos chefes militares que tomaram determinadas posições críticas sobre a nova lei de organização das Forças Armadas. Havia chefes no activo que tomaram posições. Aquilo que lhe pergunto é se a própria instituição militar atual precisa de uma revolução de pensamento, até.

Olhe, eu não sou nenhum desses chefes, como compreende.

Claro. Até por aquilo que acabámos de falar.

Pronto. E sou um dos chefes que quer fazer uma revolução, no bom sentido. Portanto, quer fazer uma evolução. E essa evolução requer sacrifícios, novas formas de atuar, novas formas de pensar o próprio poder que nós temos perante a organização e as responsabilidades equivalentes a esse poder. Portanto, eu não me sinto nada diminuído, pelo contrário, sinto-me com o âmbito de atuação muito alargado e que me ocupa toda a minha capacidade no desenvolvimento duma marinha que se quer cada vez mais aberta, mais holística, e eu também julgo que os outros ramos sentirão o mesmo. Portanto, não vejo esse movimento de voltar para trás como um movimento que me diga qualquer coisa sobre o passado. O passado já passou.

Eu ouvi-o agora a falar sobre a necessidade de fazer sacrifícios, o espírito de dedicação que é esperado de um militar, no seu entendimento daquilo que é ser militar. Já o ouvi dizer, ou li, que obviamente ser líder exige determinadas características. Isto é claro, não é?

Sim.

O que lhe perguntava é que características são essas para si?

A primeira característica é ter uma visão, é ter uma ética que acompanhe, que enquadre essa visão e depois ter coragem pra fazer as mudanças e ter o espírito de sacrifício necessário pra suportar os sacrifícios necessários à própria mudança.

E exigir sacrifícios a quem é comandado.

É claro! Quem comanda, deve comandar pelo exemplo. E dando o seu exemplo de sacrifício, também está em melhores condições de exigir os sacrifícios aos outros. Agora, nada acontece por acaso, nem nada acontece sem esforço. E esse esforço obriga muitas vezes a sacrifícios, como digo, nós temos muita gente no mar que não pode estar com as famílias, que tem uma vida muito diferenciada do que é a vida do dia a dia do cidadão normal, mas se não estiver predisposto a esse sacrifício, não pode sequer estar dentro da Marinha.

Falando com algumas pessoas com quem se cruzou no seu percurso, há uma nota que é quase comum a quase todos eles, que é a de que o senhor almirante é alguém que exige bastante. Talvez por isso que me dizia há pouco, porque também procura dar o exemplo a quem comanda. Tendo em conta aquilo que me dizia ainda há pouco, da revolução que é preciso fazer nas Forças Armadas, e em particular na Marinha, sente que essa forma de olhar para a instituição e até pra o exercício da liderança, está em consonância com aquilo que é o sacrifício que os militares hoje estão dispostos a fazer? Ou é também, de alguma forma, uma visão que vem de trás?

Eu julgo que nós temos que inspirar os nossos militares. E temos que inspirar pra um sonho de mudança, porque a mudança é uma constante vida. E eu espero conseguir inspirar os militares da Marinha, com o meu exemplo, com a minha capacidade, com os meus atos, para que eles estejam animados pra um Portugal novo, mais atlântico, como já foi no passado, mais virado pro mar e que tenha um sonho diferente. Nós não temos que estar no fim de nada, nem somos inferiores a ninguém. Portanto, temos um mar gigantesco, temos que o aproveitar, temos que o ocupar, temos que o desenvolver. E é esse sonho que me anima. E, portanto, eu gostaria que os meus militares tivessem o mesmo sonho que eu tenho, e julgo que a maior parte deles tem.

O senhor almirante certamente fala com dezenas, senão centenas de militares todas as semanas, com militares que estão sob o seu comando. É isso que lhe pedem, é inspiração?

Claro que há coisas que são do dia a dia, não é? Que estão no nível das preocupações do dia a dia. Os salários é um exemplo, as pessoas têm que viver. Depois há coisas que estão num outro nível de preocupações. Na nossa escala, na tal escala de Maslow, das necessidades, nós temos necessidades básicas e necessidades menos básicas, portanto, mais do topo da pirâmide. Eu acho que essa relação entre o que são as nossas necessidades básicas e as necessidades de realização, as superiores, não é, são importantes, tem que haver um equilíbrio. E eu tento, de alguma forma, no que é a minha zona de influência, explicar a necessidade desse equilíbrio, mas nunca desistir de inspirar os meus militares para esse topo da pirâmide das necessidades, que é sonhar, porque nós temos que sonhar na vida, temos que ter a capacidade de querer mudar a nossa existência, e sem medo, e sem receios de fazer os sacrifícios necessários pra isso.

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta Estamos aqui a falar de exigência, de dedicação e há aqui um episódio particular que teve repercussões públicas. O senhor afastou, creio que não será exagero dizê-lo, o capelão da Marinha, depois de ele o criticar nas redes sociais, o caso é público, a propósito da suspeita de envolvimento de dois militares fuzileiros na morte de um PSP, um caso com um final trágico. O que queria perguntar era se acha que foi injusto nesse episódio e na forma como o geriu?

Não fui nada injusto. Não vou aqui detalhar pormenores, mas as Forças Armadas são sistemas hierarquizados e disciplinados. Bastava dizer essas duas coisas para lhe explicar que nada do que aconteceu foi injusto. Para além disso, para além de serem necessariamente hierarquizadas e disciplinadas, portanto, não há Forças Armadas indisciplinadas, nem deshierarquizadas, para além disso, que é óbvio, os valores que todos defendemos têm que ser valores humanistas. E nesses valores humanistas, eu não posso, nem posso permitir que se relativize a vida humana em determinadas situações.

Fazia sentido aquela tomada de posição que teve na base do Alfeite, houve um discurso que teve repercussão mediática e nas tais redes sociais. A sensação que ficou, e foi assim que isto foi debatido publicamente, era de que se estava quase a criticar a própria casa, quando a situação envolvia dois militares em particular. Aquilo que lhe ia perguntar era se é injusta a ideia de que quem discorda de Gouveia e Melo é afastado.

Eu acho que é muito injusta essa ideia, porque há muita gente que discorda de mim e não é afastada. Eu privilegio estar reunido de pessoas até que discordam de mim, no sentido em que melhoram a minha performance e a minha capacidade de ver a realidade. Uma coisa é discordar de mim, no campo das ideias, outra coisa é ser indisciplinado ou não lutar por valores que são básicos para a instituição. O que eu fiz, foi determinar à instituição, aproveitando esse evento, uma linha vermelha que não queria que a instituição passasse. E eu falei para a instituição, não falei nem só para os dois fuzileiros que estavam envolvidos, nem para o Corpo de Fuzileiros. Falei para a instituição toda, que havia comportamentos que eu não gostava de ver na instituição, porque eu não me revejo naqueles valores. E como não me revejo nos valores, sendo eu o líder da instituição e o responsável, em primeiro lugar, por exigir referências e valores, que depois são importantes na nossa ética, da nossa ação, eu acho que tive e fiz o que devia ter feito na altura que fiz. Fui dizer claramente à instituição como um todo, há aqui uma linha vermelha e que ninguém vai passar. E essa linha vermelha é uma linha comportamental.

O senhor ganhou créditos, vou chamar-lhe assim, como coordenador da Task Force, para a vacinação. Uma pergunta: já foi procurado pelo poder político para, como se costuma dizer, usar a expressão, para aparecer na fotografia?

Não, julgo que nem o poder político quer isso, neste momento, nem eu me prestaria a isso. O que eu faço é ser militar. Sempre adorei ser militar e, portanto, continuo. A minha natureza é militar, a minha cultura é militar. Eu quero é ser um bom militar e contribuir enquanto militar por este país, que eu julgo que estou a fazer agora, neste momento.

Não lhe terá passado despercebida uma ideia que surgiu aí no espaço público há dias, porque o senhor ganhou uma relevância mediática grande, como eu dizia, com as funções que desempenhou na coordenação da Task Force. A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros disse que nesta nova figura que se vai criar no SNS, quase um CEO do Serviço Nacional de Saúde, que o senhor almirante seria a solução ideal para desempenhar essas funções. Um desafio destes entusiasma-o de alguma forma?

Os desafios que me entusiasmam neste momento são aqueles que eu estou a enfrentar, que é ser o comandante da Marinha e desenvolver a Marinha num determinado sentido, mais holístico, e como catalisador, e ajudar o país a olhar para o mar de outra forma. Isso é o que me entusiasma verdadeiramente, e é por isso que lutei a vida toda.

Só para terminar este tópico, e passo já à frente, mas não lhe será também alheio aquilo que vai sendo discutido em público e uma associação quase a uma ambição política que pudesse ter, eventualmente, para um lugar de Presidência da República. Isto faz algum sentido?

Eu não tenho ambição nenhuma, para além daquilo que eu disse, que é ser militar e desenvolver a minha atividade militar. Muita gente fala sobre muita coisa. O que eu lhe posso dizer? Continuem a falar se quiserem. Eu não tenho nada a ver com isso. São realidades completamente diferentes. Eu sou militar, estou a fazer uma missão militar, estou muito satisfeito com o que estou a fazer, sinto-me plenamente realizado e, portanto, não estou a ver essas preocupações. Soam-me até estranhas, vindas de determinados setores.

Mas as funções que desempenha têm um calendário, têm uma duração limite. Imagino que olhe para além disso no seu horizonte, não é?

Mas quando essa duração limite acabar, também a minha vida, porque eu Já vou sendo parte da faixa mais idosa da população.

Mais experiente.

E mais experiente. Portanto, haverá um dia em que nós temos que sair e irmos gozar, eventualmente, algum tempo de reforma, ou de reserva, o que for necessário. E há outros projetos, há muita coisa que se pode fazer. Eu não vejo a minha vida limitada. Eu neste momento estou a fazer uma coisa que adoro fazer, que eu sempre quis fazer, que é ser marinheiro, e ser marinheiro no posto mais importante, neste momento.

E no depois disso, logo pensará quando for o caso disso.

Logo se vê o que é que acontece, mas não estou preocupado sequer com isso. Eu estou concentrado na minha missão e gostaria que me deixassem concentrar-me na minha missão e não me fizessem a mesma pergunta 300 vezes, que é o que me fazem-

Então vou fazer-lhe mais uma: também não fecha a porta a nada?

Essa pergunta de não fechar a porta a nada, é uma pergunta maliciosa, porque qualquer coisa que eu diga é interpretada num sentido ou noutro. Portanto, eu não vou dizer nada.

Temos só mais um tema que gostava que abordássemos, muito rapidamente. O senhor disse que o processo de vacinação foi um sucesso e objetivamente isso foi reconhecido até em termos internacionais e que as coisas positivas superaram em muito as negativas. O que foi fundamental para esse sucesso?

Um conjunto muito alargado de pessoas que contribuíram para o sucesso. Os enfermeiros, os autarcas, a população, os próprios media, na forma como ajudaram a criar também uma ideia de necessidade e de urgência. Os militares, dos quais me incluo. O sistema de saúde como um todo. O próprio Ministério da Saúde. Portanto, isto foi uma vitória de grupo, foi uma vitória dos portugueses, em que eu fui simplesmente um elemento de cola desse esforço. Fui a ponta do iceberg, mas por baixo d'água está um iceberg gigantesco de pessoas que conseguiram fazer isso, incluindo 10 milhões de portugueses que vieram ao processo de vacinação com poucas dúvidas, porque em muitos outros sítios houve muitas dúvidas.

Muitas mais resistências. Eu perguntava-lhe isto só porque até a pensar num dos grupos que destacou, porque nos últimos meses o país assistiu a uma multiplicidade de serviços de urgência hospitalares que fecharam portas. A razão foi sempre a mesma, falta de profissionais para garantir as escalas que estavam preparadas. Para alguém que teve funções tão ligadas ao setor da saúde, preocupa-o a atual situação deste setor?

Eu não vou fazer comentários sobre isso. Eu estou na minha função militar e a minha preocupação neste momento é a Marinha.