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Bem-vindos ao Som Ambiente desta semana. Eu sou o João Miguel Santos e comigo estão o António Paula Soares, engenheiro biofísico, a Catarina Grilo, bióloga marinha, e a Sofia Guedes Vaz, filósofa do ambiente. Olá, como estão?

Olá.

Olá.

No programa de hoje vamos falar sobre heróis ambientais no cinema, literatura e outras artes. Quem foram as personagens que inspiraram o painel do Som Ambiente e por quê? E na segunda parte recebemos Susana Salvador, secretária-executiva da ACCOBAMS, acordo para a conservação de cetáceos no Mar Negro, Mar Mediterrâneo e zona contígua do Atlântico. Sem mais demoras, e como é hábito no início de cada programa, os sinais. E o sinal vermelho do programa desta semana é do António, para Portugal, que teima em reincidir. É isso, António?

É isso. Esta semana tivemos um relatório dos resíduos urbanos de 2019, que foi fechado pela Agência Portuguesa do Ambiente, em que nesse ano, 2019, apesar de ter havido fortes investimentos na recolha seletiva, continua a mostrar um país que caminha muito lentamente no sentido de aproveitar o seu lixo. Segundo este relatório, ficamos com a certeza que Portugal corre o risco, e já está mesmo a falhar algumas das metas que se tinha comprometido com a União Europeia, nomeadamente já falhámos a da redução dos resíduos por habitante e continuamos a ter uma assustadora quantidade de lixo doméstico que continua a ir para aterro e segundo este relatório, estamos a falar que três em cada cinco quilos de lixo doméstico continuam a ir pra aterro e vamos entrar naquilo que realmente às vezes parece ser a única forma de em Portugal, de algumas coisas serem perceptíveis, que é com a penalização, e sabemos desde já que a partir de setembro deste ano a taxa vai duplicar. Mas isto é um impacto que começa a ser cada vez mais preocupante e falamos bastante no Green Deal e na descarbonização da economia e estamos constantemente a falar na agricultura e na floresta, mas já percebemos por um triste exemplo, que foi o início da pandemia, que realmente as zonas urbanas e as cidades têm que ter um papel mais ativo em todas estas questões e têm que ser parte da solução, e os seus habitantes têm que perceber que estamos a ficar muito atrasados nestas metas e realmente não só a agricultura e a floresta têm uma palavra a dizer, mas realmente as cidades e a gestão urbana têm também que ser cada vez mais uma parte ativa. É um sinal vermelho, pois ficamos sempre com a ideia daquilo que vemos no dia a dia, que Portugal é um exemplo em matérias ambientais, mas depois aparecem estes resultados e verificamos, infelizmente, estamos quase sempre a ficar pra trás.

E o sinal amarelo é atribuído pela Sofia para a petrolífera BP, que quer ser ainda mais verde. É isso, Sofia?

Sim, o meu sinal amarelo vai hoje pra BP, que como sabem quer dizer British Petroleum, mas arrisca-se a não querer dizer isso no futuro. A BP acordou pra urgência climática e apresentou na semana passada a sua estratégia pro próximo decênio. E então, nos próximos 10 anos, a BP está a prometer que vai cortar a sua produção de petróleo e gás em 40%, vai aumentar a produção das energias renováveis em mais de 20% e aumentar, decatuplicar, 10 vezes, o seu investimento em energias de baixo carbono. E a boa notícia é que embora a BP tenha perdido 16 bilhões de dólares durante o confinamento, devido a toda a dinâmica desse mundo, a boa notícia é que com a apresentação desta estratégia, os mercados reagiram positivamente e as suas ações subiram. E eu acho que isto é muito importante. Além disso, houve um ambientalista inglês que ao comentar esta estratégia, disse que finalmente uma petrolífera tinha tido a imaginação pra ver além do petróleo e do gás. E pra mim essa é a palavra-chave do futuro, daquilo que temos que fazer para essas fases de transição que são obrigatórias, e que é imaginação. E sem imaginação, sem vermos além daquilo que é o normal vermos, não vamos a lado nenhum. Portanto, é um sinal amarelo muito esverdeado pra BP e só não é verde porque ainda é uma promessa e é uma petrolífera e não sabemos ainda, sou sempre um bocadinho desconfiada, mas é um amarelo muito esverdeado.

Já o sinal verde é da Catarina, é atribuído à Direção Geral da Saúde. Por quê, Catarina?

Olha, por uma coisa muito prosaica. Finalmente, a Direção Geral de Saúde começou a comunicar a importância de não deitarmos as máscaras descartáveis pro chão. É pouco, é bom que já esteja a acontecer, mas continua, no fundo, ainda a ser focar nas máscaras descartáveis, em vez de ser a promoção das máscaras reutilizáveis, que é aquilo que a maior parte das pessoas que não são grupo de risco deveriam utilizar. Mas é um passo positivo e eu acho que esses passos também devem ser celebrados, por isso é sinal verde pra Direção Geral de Saúde.

E no programa de hoje vou querer saber quem vos inspirou a interessar-se pelas causas ambientais, o cinema, a literatura e a televisão estão cheios de vilões, mas também há heróis. E começo por ti, Catarina, sendo bióloga marinha, foi Jacques Cousteau a tua musa inspiradora para as causas ambientais, ou nem por isso?

Nem por isso. Não, nem por isso.

Era uma provocação.

Eu sei.

Aquática.

Exato. Não sei se foi por isso ou não, isto agora de buscar as causas primárias pra eu também ter interessado e dedicado às causas ambientais. Eu cresci em Setúbal. Setúbal também tem um bichinho de ambientalismo. Para quem não sabe, a Quercus começou como um movimento que era a Setúbal Verde e depois deu origem à Quercus. Nunca estive envolvida com a atividade da Quercus quando estava a crescer em Setúbal. Mas quem cresce ao pé da Arrábida, quem cresce ao pé do estuário do Sado, as pessoas em Setúbal têm uma grande ligação à Tróia, ao Sado, à Arrábida, portanto eu acho que acabam por ter essa sensibilidade fruto daquilo que as rodeia. Agora, heróis. Quando começamos a preparar este programa e falamos da questão do cinema, da literatura, eu lembrei-me da Erin Brockovich, que é a história de uma pessoa comum, ela até é aquele protótipo do underdog, não é? Mãe solteira com outras crianças pequenas, frigorífico vazio, arranja um trabalho e, fruto das circunstâncias, acaba a defender as pessoas que estavam a ser afetadas por contaminação da água por causa de uma fábrica que havia perto.

Para contexto dos nossos ouvintes, estamos a falar de uma advogada dos Estados Unidos nos anos 90, que depois acabou num filme de 2000, numa interpretação de Julia Roberts.

Exatamente. Mas eu acho que ao longo destes anos todos de trabalho, eu acho que são mais os heróis anônimos, são aquelas pessoas que de fato procuram defender o ambiente porque também são diretamente afetadas. Eu lembro-me particularmente de uma situação numa consulta pública da coincineração em Alhandra, portanto isto para em 99, que estas consultas públicas, por causa da coincineração, enchiam auditórios grandes, tinha uns 300 pessoas a participar. E viu uma senhorinha em Alhandra que estava sentada ao meu lado, que tinha um álbum de fotografias. Alhandra tem uma cimenteira, Alhandra cresceu à volta da cimenteira. Ao contrário da Arrábida, que tem a cimenteira longe da cidade, em Alhandra, não. E a senhora tinha um álbum de fotografias e não tinha lá dentro fotografias, tinha recortes de jornais com tudo que era notícia sobre os problemas que a poluição da cimenteira causavam na população e a quantidade de pessoas que já tinham morrido de cancro. E aquilo impressionou-me. E a senhora estava ali muito convicta, agarrada àquele álbum de fotografias com os recortes de jornais, porque ela temia claramente o problema que era o problema ambiental, que já era a cimenteira, e que se então se fossem queimar resíduos perigosos na cimenteira, que poderia ser ainda pior. Isto foi uma das coisas que mais me impressionou.

Vamos ouvir o restante painel. António, o teu herói é um homem de carne e osso, o espanhol Félix Rodríguez de la Fuente, um homem que se tornou conhecido na televisão pelos seus documentários de vida selvagem.

Exatamente, João. O Félix Rodríguez de la Fuente, para quem está habituado neste meio rural de interação e trabalho na conservação da natureza, é de fato um exemplo de vida. Era um espanhol, médico, naturalista, um defensor da natureza e que realmente realizou documentários pra televisão e pra rádio que marcaram uma época em Espanha e no mundo com os seus programas da natureza.

Já agora, António, viste "O Homem e a Terra"?

Vi "O Homem e a Terra", sim.

É uma série, já agora, que está disponível no YouTube, percebi isso ontem.

Está disponível no YouTube e até foi disponibilizada quando foi as comemorações da morte do Félix Rodríguez de la Fuente. E ele realmente impôs uma forma de ver a natureza de um modo sustentável, muito à frente do seu tempo, e que muito antes dos dias de hoje, em que temos as redes sociais e internet, ele conseguiu transmitir com os seus programas de televisão e de rádio, uma mensagem, um universo impressionante de pessoas em diversos países. Era uma pessoa que era um apaixonado da falcoaria, da utilização de aves de rapina pra caça, e era um especialista extraordinário da ecologia, onde destacou o fascinante trabalho que ele fez com o lobo ibérico e que muito provavelmente foi o grande responsável pela não extinção desta espécie e desta espécie ter chegado até os dias de hoje, ainda com uma possibilidade, como se vê atualmente, de recuperação e de manutenção desta espécie. Mas principalmente aquilo que me marcou muito ao longo do tempo em que fui vendo, lendo e ouvindo as coisas do Félix Rodríguez de la Fuente, era um dos seus principais projetos, que era transmitir a ideia de uma interação sustentável entre o homem e da natureza e passar essa mensagem pras gerações mais novas. Ele tinha um projeto extraordinário de um clube infantil com milhares de crianças espanholas, onde passava realmente esta mensagem, e tinha uns acampamentos de verão, que era onde as crianças tinham contato direto na natureza. E foi um bocadinho nessa senda Que nós na ANPC, na Associação dos Proprietários Rurais, que já há mais de dois anos que fazemos um acampamento de verão para crianças sobre o tema caça e conservação da natureza, muito na senda e na ideologia do que o Félix Rodríguez de la Fuente tinha tido nos anos 60 e 70. E temos contado, nesses campos de férias, com a preciosa colaboração da ANP, WWF e da LPN, e temos feito tal como ele fez há muitos anos, temos transmitido às novas gerações esta importância da conservação da natureza e da promoção da biodiversidade. Eu não considero que ele seja um herói, mas foi sem dúvida uma personalidade que marcou uma geração, com os seus programas de rádio e televisão, e que influenciou uma geração inteira de uma forma muito positiva. E eu acho que hoje em dia os atuais ecologistas, não só em Espanha, mas um pouco por todo o mundo, temos uma geração em que o Félix Rodríguez de la Fuente marcou, e muito.

Sofia, a filosofia do ambiente surge na tua vida impulsionada por alguma personagem de ficção ou da vida real?

Não, é mesmo por filósofos.

Filósofos de carne e osso.

Filósofos de carne e osso. Eu estudei engenharia do ambiente, comecei em engenharia do ambiente e portanto toda a minha formação já foi o ambiente. E depois, mais tarde, eu às vezes até digo uma piada, que passei de engenheira pra filósofa, porque os engenheiros resolvem os problemas e os filósofos só pensam neles. E eu já estava farta de resolver problemas e agora só queria pensar neles, porque temos que pensar antes de os resolver. Basicamente, é por causa disso.

E quem foi que te pôs a pensar ou a resolver problemas?

Pois, eu tenho uns autores preferidos, e um pouquinho na senda do que o António e do que a Catarina estavam a dizer, a ideia da comunhão com a natureza pra mim é fundamental, porque é o que está na base da maneira como nós nos relacionamos com ela. Portanto, se nós nos sentimos abaixo da natureza, como nos sentíamos antes, ou ao mesmo nível, ou superiores à natureza, é que determina muito depois qual é que é a nossa posição no mundo.

Mas quem, Sofia?

Eu começo por um livro que me marcou muito, que é o "Walden", do Thoreau, que era um escritor e um filósofo americano, que sabem talvez a história, que viveu durante um ano numa cabana, um bocadinho afastado da civilização, sozinho, foi pra lá viver, reconstruiu a cabana e esteve lá durante um ano e escreveu este livro, "Walden", que é um monumento à natureza e à reflexão sobre a natureza. E este é um livro que me marcou muito. Depois, a Rachel Carson, claro, com o seu silêncio. "A Primavera Silenciosa" chama-se o livro, porque na primavera, de repente, não se ouviam aves. E por causa do DDT e de outros químicos. É um livro escrito quase quando eu nasci, acho eu, nos anos 60. Esse livro também marcou muito e ela como personagem também me marcou muito. Depois, dos filósofos, há muitos que eu gosto. O Arne Næss, que é aquele que começou com a Deep Ecology, Ecologia Profunda, gosto muito de ler, assim como o Aldo Leopold, com a "Ética da Terra". São livros que apesar de serem de filosofia, são livros que se leem bem, se leem com fluência, não têm aquela semântica muito intrincada. E portanto, são tudo autores que me inspiram e de que eu gosto. Em Portugal também há muita gente. Eu como comecei nos anos 90, o Carlos Pimenta foi sempre uma figura pioneira em Portugal na política, e o Rui Barthes também, são pessoas que também me inspiraram. Depois também o Viriato Soromenho Marques, a Luísa Schmidt, que está sempre a escrever sobre o ambiente. Eu acho que são personagens importantes no nosso panorama. O Francisco Ferreira, também, meu colega de faculdade, e que também acho que é uma das figuras públicas mais conhecidas em Portugal. E agora o Miguel Araújo, que ganhou o Prêmio Pessoa ou Camões?

Pessoa.

A Pessoa. E que também acho que é uma personagem cada vez mais respeitada na nossa realidade. Eu também sou grande fã do Papa Francisco e do seu "Laudato si", e da ecologia integral. E depois, como a Catarina, também todas as pessoas anônimas, todas as pessoas que fazem com que cada vez estejamos um bocadinho melhor e que lutem e que no seu dia a dia trabalhem um bocadinho em prol da natureza. E de facto, todas essas pessoas anônimas, quer que estejam ligadas à profissão, como os guardas da natureza ou as pessoas que trabalham com resíduos sólidos. Todos esses anônimos que estão aí pra fazer o nosso mundo mais agradável, também são meus heróis.

Muito bem, ainda gostava de falar da Greta Thunberg e dos heróis de hoje, por lá pelo Lonon, como DiCaprio ou Al Gore, mas não temos mais tempo. Deixamos isso pra outro programa, pensamos nisso. Já a seguir a música de elevador E a música de elevador é escolhida pela Catarina Grilo. Catarina, para as autoridades que fecharam a praia em Tavira por terem avistado um tubarão, por que é música de elevador este aparente excesso de zelo das autoridades algarvias?

É exagero misturado com ignorância pra uma coisa absolutamente banal, que é ver tubarões na costa portuguesa. Eles existem, há diferentes espécies, não são perigosas. Não temos nas nossas águas as espécies que geralmente associamos a ataques de tubarões a pessoas. Isso não há nas nossas águas. Eu acho que se calhar pra quem trabalha no mar ou pra quem trabalha nas praias, deveria saber um pouco mais sobre a fauna que nós temos no mar, porque de fato foi um exagero fechar uma praia porque houve um avistamento de um tubarão um bocadinho ao largo, que afinal poderia não ter sido um tubarão, afinal poderia ter sido uma orca. As orcas também não se costumam aproximar da costa, também as há na costa portuguesa, alimentam-se de peixes que também há na costa portuguesa. Portanto, isto é um bocadinho música de elevador para: "Vamos ter calma, não é preciso entrar em pânico porque há um peixinho na costa portuguesa".

Final da primeira parte, regressamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Segunda parte do Som Ambiente. Recebemos Susana Salvador, secretária-executiva da ACCOBAMS, Acordo para a Conservação de Cetáceos no Mar Negro, Mar Mediterrâneo e Zona Contígua do Atlântico, com sede no Mónaco. É, de resto, a partir do principado que se junta a nós. Susana Salvador, muito obrigado pela disponibilidade e muito obrigado por se ter juntado a nós nesta edição do Som Ambiente.

Viva, muito bom dia e muito obrigada pelo convite. Fico muito contente de poder participar nesta vossa iniciativa tão útil, a meu entender, à sociedade.

Susana, o que é a ACCOBAMS?

A ACCOBAMS é uma organização internacional ou regional de cooperação. É um mecanismo de cooperação pra proteção dos cetáceos nesta área geográfica, que abrange o Mar Mediterrâneo, o Mar Negro e também a zona contígua do Atlântico.

E Portugal é um membro deste acordo pra conservação ou não?

Sim, Portugal é também um dos países que fazem parte desta organização, um dos 24 países. O último a aderir foi a Turquia, em 2019, e Portugal é também um país, sim, uma parte contratante.

Susana, queres explicar o que são cetáceos pros nossos ouvintes?

Pois, cetáceos são mamíferos marinhos e por isso a ACCOBAMS lida com a conservação e tem vários objetivos. O primeiro é angariar o conhecimento sobre estas populações. Mamíferos marinhos, como as baleias e os golfinhos. Há 11 espécies de cetáceos no Mediterrâneo, três específicas do Mar Negro, e a ACCOBAMS lida com todas elas e com outras espécies que não sejam residentes, por assim dizer, da área geográfica, mas que atravessem a área.

E quais é que são os cetáceos portugueses, então?

Não há cetáceos portugueses. Esses cetáceos também podem estar presentes na área contígua do Atlântico, mas estamos a falar da baleia-comum, do golfinho-comum, da baleia-piloto, da orca, do boto, cachalote, os golfinhos, várias espécies, o roaz. Portanto, quer baleias, quer golfinhos.

Ah, tá bem, que temos muito na nossa costa.

Temos muitos golfinhos, sim, e baleias também, mas são animais migratórios e é por esta razão que a organização ACCOBAMS faz parte e foi instituída sob a égide da Convenção das Espécies Migratórias e Fauna e Animais Selvagens.

Susana, quais são as principais ameaças às baleias e aos golfinhos, tanto na área da ACCOBAMS como especificamente em Portugal?

As ameaças são as mesmas, como em relação a todos os recursos marinhos. Mas as ameaças provêm essencialmente das atividades humanas, tudo aquilo que nós fazemos no mar, mas não só no mar, também em terra. Porque por vezes pensamos: "O que acontece no mar que tem implicações?" Aquilo que nós fazemos em terra, tudo o que resulta das nossas atividades, os poluentes, soluções não sustentáveis do ambiente, tudo isso implica e tudo o que se faz em terra vai parar ao mar. Falamos da agricultura pecuária, todas as indústrias, todo o lixo invisível que acaba no mar. As substâncias perigosas, radioativas pra saúde humana também acabam no mar e afetam, obviamente, negativamente toda a vida marinha e os cetáceos, inclusivamente. Depois, no mar, há uma série de atividades que têm implicações drásticas na vida destes animais. E estamos a falar do tráfego marítimo, estamos a falar das interações com as atividades humanas, das indústrias offshore, da pesca. Não posso dizer que a pesca seja mais gravosa ou menos, mas há todo o barulho que nós pomos no mar e que afeta enormemente a vida destes animais que dependem dos sons e que são afetados muito nocivamente pelo barulho horrível que as atividades humanas produzem no mar. E depois todo o lixo que nós introduzimos.

Eu gostava de falar um bocadinho, especificamente na questão das pescas, porque tem sido um assunto já um bocadinho mais falado cá em Portugal Até houve recentemente um vídeo que mostrava a arte de chávega. A rede apanhou uns golfinhos e os golfinhos foram arrastados mesmo até à praia. Isso foi há umas semanas, não sei se viu. Mas quando as pescas afetam os golfinhos, e acho que é mais os golfinhos até aqui do que propriamente as baleias, isto é um problema específico de certas artes de pesca, que terão sempre esse problema, ou é da forma como se operam essas artes de pesca?

Pois, eu acho que vi esse vídeo. Eu só vi, se calhar, a parte final em que os pescadores tentaram salvar uma família de golfinhos, creio. Tentaram arrastá-los até ao mar nas ondas. Foi isso, não foi? Foi esse vídeo que foi divulgado. Pois eu por acaso vi essa parte e a ação notável dos pescadores. Todavia, há outros mecanismos, há outros procedimentos a seguir, porque de facto esse não é o mais apropriado. E nesse sentido a ACCOBAMS também tem linhas de orientação para lidar com isso e há até a chamada rede de resposta aos arrojamentos, ou seja, quando os golfinhos vêm ter às praias por uma razão ou por outra, o que é que se há de fazer. E há pessoas, há pontos de contato em todos os países da ACCOBAMS e haverá também em Portugal. Portanto, só aqui para dizer que existem pessoas responsáveis em Portugal, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, que podem ser e devem ser contactadas nestas situações de emergência, porque há procedimentos a ter.

Já agora, Susana, só um pequeno parêntesis. Se um dos nossos ouvintes avistar um golfinho junto a uma praia, o que deve fazer?

O que deve fazer é contactar os pontos de contato em Portugal. No caso português é o ICNF.

O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Exatamente.

Então, mas os nadadores salvadores hão de saber isso.

Pois, enfim, há muita coisa que não se sabe. Eu também não sabia de muita da ação da ACCOBAMS antes de chegar aqui. Tinha uma ideia, mas não sabia que havia tanto trabalho prático, havia tanta rede de contacto e de facto há. E o conhecimento é a base de tudo e por isso é que eu estou muito grata pela possibilidade de participar, porque é uma forma de contribuir, que há trabalho feito no terreno e há formas de dar resposta a estas situações.

Susana, eu interrompi-te. Estava a falar sobre-

É verdade, a pergunta da Catarina era sobre a arte de chávega.

Como se opera as artes. Ou seja, se estes problemas que às vezes há entre as artes de pesca e entre a pesca e os cetáceos, se é uma coisa que aquela arte de pesca vai sempre causar este tipo de problemas ou é se eu trabalhar com esta arte de pesca desta maneira não afeto os golfinhos, se trabalhar de outra maneira já afeto.

Pois, claro. Existem maneiras de evitar essas interações. Há também outro tipo de interações que se tivermos a oportunidade logo lá chegaremos. Mas há, por exemplo, dispositivos acústicos que podem ser colocados nas artes de pesca. Não será talvez o caso da arte de chávega. Mas existem formas de evitar que os golfinhos se aproximem. Por quê? Porque os golfinhos são concorrentes aos humanos. Os golfinhos também seguem os cardumes. Portanto, é normal que os pescadores ao seguirem os cardumes também apanhem outros concorrentes que também vão à procura de alimento e portanto acabam por ser envolvidos nas redes. Agora há vários testes em curso com a ACCOBAMS e com alguns países, nomeadamente do Mediterrâneo, dos países do sul do Mediterrâneo, em relação a testar todos esses mecanismos. Pronto, não tenho aqui uma solução mágica.

Pegando neste tema que estamos a falar dos golfinhos e eu pela proximidade que tenho é um assunto que me interessou bastante, que foi a questão das dragagens do Sado. E eu do conhecimento que tenho e da informação que me tem sido dada, nós ficámos com a ideia que durante as dragagens os golfinhos se afastaram, mas que assim que elas terminaram eles voltaram a ocupar o seu habitat normal no estuário do Sado. Mas eu fico sempre com a questão que o grande impacto será talvez quando estas dragagens permitirem o maior fluxo marítimo naquela zona, ou seja, que vai haver um tráfego muito maior e que isso sim poderá alterar tudo aquilo que nós sabemos hoje em dia do que é que são os hábitos dos golfinhos no Sado, ou não?

Sim, tudo o que nós fazemos, como eu disse, tem impacto. Agora resta avaliar aquilo que tem mais impacto, mas a questão das dragagens sim, com certeza provoca barulho, provoca som que interfere com a vida destes animais. Estes animais precisam de comunicar e precisam do som e usam o sonar, eles próprios têm como se fosse um sistema de sonar para comunicarem, para identificarem o alimento, para se reproduzirem, para comunicarem socialmente e portanto eles são extremamente afetados por tudo aquilo que é a introdução de som impulsivo, no caso das dragagens, no mar, nas águas. E portanto claro que são impactados, é por essa razão que eles se afastam. No entanto, mesmo essas atividades podem causar danos irreversíveis nos golfinhos. Às vezes não percebemos porque é que os golfinhos vão dar à praia. E muitas vezes se pensa: "Ah, suicidam-se". Em princípio, não há nada que indique suicídio coletivo da parte dos golfinhos e muitas vezes as indicações que nós temos é que essas situações, esses episódios derivam de impactos negativos como barulho extremo, que danifica o sistema auditivo dos golfinhos e que os impede de se localizarem. Ou então encontros com navios, por isso os choques com navios, eles são atropelados literalmente por navios e perdem as suas capacidades e portanto também pode acontecer. Ou interações com redes de pesca, muitas vezes ficam presos nas redes, etc. Mas isto para dizer que, por um lado, as dragagens naturalmente causarão impacto, por outro lado, o tráfego maior fluxo marítimo também causa impacto. Aliás, o shipping causa imenso barulho e imensas colisões também.

Susana, as baleias e os golfinhos tornaram-se nos últimos anos um produto econômico, sobretudo do mercado turístico chamado whale watching. Em Portugal, isso existe em alguns pontos da nossa costa. As empresas de whale watching também são um problema para os cetáceos?

Sim, são. Tudo aquilo que nós fazemos. Imagine, como diz a nossa vice-presidente do comitê científico, estar à mesa numa refeição em família e aparecer alguém, um intruso, que passe por cima da mesa familiar. É aquilo que nós fazemos em relação à observação dos golfinhos e das baleias. O nadar com golfinhos é exatamente isso. Nós mergulhamos enquanto eles estão à procura de alimento, por exemplo. Portanto, nós invadimos aquele espaço. Não só isso, como a observação. Quando nós os perseguimos com barcos de recreio, obviamente estamos a introduzir barulho, estamos a causar uma alteração no comportamento destes animais, que querem fugir. Uma coisa é eles quererem aproximar-se por curiosidade, por iniciativa própria. Eu também acabei por fazer isto há pouco tempo, mas com a vice-presidente do comitê científico, para observar no âmbito de uma campanha de observação. Mas há medidas a tomar. A desligar os motores, a aguardar que eventualmente algum dos golfinhos se aproxime, porque eles próprios podem ter curiosidade em ver. Mas nós tivemos a oportunidade de ver várias reações que demonstram, primeiro a inteligência destes animais, que têm um instinto defensivo, em que há um que se desloca como se fosse para distrair as atenções de quem está no barco e os outros seguem outro percurso, como para se afastarem ou fugirem de quem os quer observar. Portanto, estas atividades de observação, claro que são crescentes e claro que têm um papel fundamental na economia dos vários países, mas há, e nesse sentido também vos convido a visitar as nossas linhas de orientação em relação àquilo que há a fazer para não interferir demasiado na vida destes animais, no comportamento destes animais. E portanto, há aqui distâncias, por exemplo, distâncias aos animais que devem ser respeitadas, o desligar os motores, etc. E há observadores, ou seja, agentes certificados. Há uma marca, que é a High Quality Whale Watching, que é uma marca ACCOBAMS, que distingue os operadores que seguem boas práticas dos que não seguem boas práticas.

E há empresas portuguesas com esse selo já?

Não há empresas portuguesas com esse selo, porque Portugal ainda não implementou este selo. É uma decisão que cabe aos países que fazem parte da ACCOBAMS implementar. França já implementou, Mônaco e Espanha está neste momento a pensar fazê-lo. E portanto, os países têm formas de fazer isto. Podem centralizar essa certificação a nível do Estado ou podem delegar esse mecanismo de certificação em ONGs ou outras entidades que considerem apropriadas para o efeito. Mas eu sei, de acordo com os dados que temos, que existem mais do que 30 empresas ou agentes que têm essas atividades de observação de cetáceos em Portugal.

Mas Susana, mesmo que todos fossem certificados, ter 30 empresas certificadas, por exemplo, atrás dos golfinhos do Sado continua a ser demais, não? A certa altura tem que haver limites também ao licenciamento para esta atividade quando incide sobre determinadas áreas. Sabemos que este esforço de observação não fica diluído ao longo da costa, vai se concentrar mais em zonas onde sabemos que encontramos este tipo de animais.

Pois, por isso mesmo é que a certificação, a meu entender, dá resposta a todas essas preocupações, porque assim como a marca é atribuída, também pode ser retirada. E portanto, nós temos aqui reuniões anuais com representantes dessas empresas certificadas em relação à manutenção da marca ou não. Mas só por aí. É claro que tudo o resto, tudo que os Estados possam fazer em prol, em benefício do respeito da vida destes animais é bem-vindo. Só estou a dizer o que existe a nível da cooperação internacional da ACCOBAMS e dos países que dela fazem parte.

E o que os países deviam fazer mais que ainda não fazem?

Ai, tanta coisa. Não sei por onde é que hei de começar, mas de facto, é como em muitas outras áreas. Eu acho que sem regulamentação a nível do Estado, se calhar não se consegue fazer muita coisa. Se vamos ter esperança no bom senso das pessoas, e eu quero acreditar que ele existe. Dependemos disso. O bom senso é muito relativo. O meu bom senso não é igual ao seu, enfim, há vários bons sensos. Por isso eu acho que o Estado aqui tem um papel preponderante. É uma situação de emergência, já para nem falar nas alterações climáticas, mas é a tempestade perfeita. A nossa ação no mar com aquilo que nós começamos a ver, que são as alterações climáticas, ou das duas uma: ou os golfinhos e as baleias desaparecem, mudam de sítio para se afastar de nós, mas não sei muito bem qual será o sítio que eles vão encontrar neste planeta para se afastar das atividades humanas.

Susana, estamos quase a chegar ao fim. Nos últimos meses aqui em Portugal têm aumentado as aproximações à costa de golfinhos e baleias. Isso, na sua opinião, deve-se ao facto de as populações destes animais estarem a aumentar ou é explicado pela falta de atividade humana no mar, resultado desta paragem a que fomos obrigados nos últimos meses por causa da pandemia?

Pois, eu diria que esses fenômenos, e há o aspecto do confinamento, mas de acordo com os nossos dados, e nós já temos dados sobre isso e aproveito para dizer que vamos ter uma plataforma com todos os dados de barulho, de lixo E da existência e da presença dos golfinhos. Portanto, isto vai ser uma coisa que vai estar disponível muito brevemente. É uma plataforma que vai ser lançada em dezembro, mas isso permite-nos já ver que não houve uma diminuição do tráfego marinho durante o confinamento, por exemplo. Também não houve uma diminuição da pesca muito assinalável. O que houve, de facto, foi uma diminuição das atividades de turismo, de recreio e, portanto, talvez um pouco menos de barulho provocado por estas atividades. Mas aquilo que se vê, e aquilo que me diz que se tem visto, se calhar é porque as pessoas estão mais atentas, porque se calhar é a necessidade que as pessoas tiveram durante este tempo de crise de ver boas notícias, porque avistaram golfinhos, avistaram baleias, mas não é assim tão extraordinário. As baleias vêm alimentar-se muito próximo da costa. Existem sítios aqui entre Mónaco e a Córsega, por exemplo, em que elas cá vêm alimentar-se de fitoplâncton, portanto aproximam-se bastante. Agora, eu acho que houve aqui um desejo inconsciente, uma esperança das pessoas, porque pensaram que pelo menos o confinamento e esta paragem da vida normal para nós, servia para alguma coisa, mas é como as pessoas diziam: "Ah, conseguimos ouvir os pássaros, etc." Se os nossos barulhos param, nós ouvimos os outros, nós ouvimos a presença dos outros seres vivos neste planeta, mas os animais sempre lá estiveram.

Susana, eu em Bruxelas já tenho assistido a várias discussões e apresentações sobre a estratégia da biodiversidade e muito dos que nos dizem, principalmente no que diz respeito à zona europeia, é que em termos daquilo que se passa em terra, não estamos assim tão mal, mas que realmente nos oceanos e nos mares estamos com muito trabalho em atraso comparativamente. Ainda vamos a tempo de resolver as coisas aqui na nossa parte europeia?

Eu acho que vamos a tempo e temos que ir a tempo. Eu acho que trata-se aqui de um trabalho de urgência, porque o único caminho agora é ser capaz de distinguir o que são as alterações climáticas naturais, que não se devem à ação humana, por assim dizer, e as que dela resultam. E eu aqui lembro um pouco a pandemia, temos que colocar urgência na obtenção desses resultados e operar com base no princípio de precaução, porque o ritmo das alterações a que assistimos não se compadece pelos tempos de estudo que precisamos quando dizemos que não temos dados suficientes, e não temos, e a COPAMS faz um trabalho fenomenal nessa matéria, em matéria de angariar dados, mas temos que encontrar já soluções, eu nem digo para as gerações futuras, eu já digo mesmo para as gerações presentes, porque nós próprios, se não garantirmos a viabilidade dos ecossistemas, também não vamos viver bem, vamos viver muito pior. Portanto, quando eu digo isto e penso no caráter urgente, não é só de uma vacina contra o Covid que nós precisamos. Os oceanos também precisam de meios para se defenderem das nossas atividades econômicas, ainda que sejam muito válidas e muito necessárias. É claro que sim.

Susana, chegamos ao fim do "Som Ambiente" desta semana. Muito obrigado por se ter juntado a nós.

Muito obrigada, eu. Foi uma honra e um gosto.

António, Catarina e Sofia, temos encontro marcado para a semana. Até lá.

Até lá, até para a semana.

Até para a semana.

Este programa teve o apoio de Renault Eco Plan.

A Renault quer afirmar-se como líder de mobilidade elétrica. Por isso, vamos ajudar a tirar os carros poluentes das ruas com o Eco Rebate e vamos facilitar o carregamento com o Eco Charge e o Eco at Home. Este é o Renault Eco Plan. Conheça as iniciativas em renault.pt