Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Quando falo, descubro mais sobre mí e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos. Sejam bem-vindos a mais um episódio de "Intermédios", hoje gravado no meu carro e com um tema que não era suposto ser, mas que vai ser, e que explica também porque eu estou a gravar no carro. Eu tinha pensado hoje falar de algo que vai ficar pra semana que vem. Tinha pensado falar sobre a crise da meia-idade, que eu sou um cara que já tem 45 anos, mas vamos deixar isso pra depois e vamos falar sobre outro tema. Primeiro, por que eu estou a gravar dentro do carro? Porque eu vi o campeonato de ginástica de uma das minhas filhas, e é daquelas coisas que dura a tarde toda. Temos que andar a reboque dos putos de um lado pro outro. E isto levou-me a falar deste tema, que é a frustração. A frustração é dolorosa. Neste caso, estou ali uma data de pais a assistir aos filhos. E é doloroso ver o trabalho destes putos. Tem putos desde pequenininhos, 10, mais novos, até seniors. Mas é doloroso ver o trabalho destes putos e o sacrifício que, em segundos, pode ir à vida, porque eles vêm fazer dois saltos e pode correr bem ou pode correr mal. É tão simples quanto isso. Pode correr bem ou pode correr mal. E vi muitos miúdos a chorar, tristes, às vezes tristes pela própria pressão que eles metem nas suas próprias expectativas, e que acaba às vezes nem por correr tão mal quanto eles achavam. Mas a pressão que colocam é de tal maneira que depois saem frustrados. E, ao mesmo tempo, eu estava a ver isto e estava a pensar como isto pode ser bom pros miúdos. Como isto pode ser bom ensinarmos os putos a lidar com a frustração, porque eu acho que nós, não sei se vocês têm esta ideia ou não, mas eu não aprendi a lidar com a frustração. Tanto não aprendi, que sou um frustrado. Tanto não aprendi, que eu fugi dela. Eu fugi da frustração, eu fugi do medo de falhar, eu fugi do medo de não conseguir. Como eu já partilhei, se calhar, noutros sítios, eu era bom a desporto. Jogava bem vôlei, jogava bem basquete, tinha facilidade em aprender os desportos, mas quando a coisa se começava a tornar de alguma maneira mais séria, ou quando me diziam, por exemplo: "Olha, ficaste na equipa, podes vir treinar com a malta", eu desistia. Eu desistia com o medo de não conseguir e o medo de falhar. E eu nunca tive um pai, uma mãe e irmãos, e tá tudo bem, porque cada um tava com a sua vida e eram gerações diferentes, mas eu nunca tive um pai, uma mãe ou alguém que me dissesse: "Man, é normal falhar. Vais." "Ah, mas eu não quero ir." "Mas vais. Vais e vais aprender a lidar com isso, porque faz parte da vida a frustração, e isso vai ser útil pra ti no teu dia a dia quando fores mais velho, em várias áreas da tua vida." Mas não, eu basicamente fugia dos compromissos. Eu lembro de, por exemplo, o vôlei, eu jogava sempre um escalão acima do meu. E eu lembro-me que havia jogos que eu não ia, inventava desculpas, tipo: "Dói-me a cabeça, estou doente, estou fora da cidade". O que quer que fosse, porque o medo de falhar e a pressão de estar tudo a olhar pra mim, que não estava, mas era aquilo que eu colocava na minha cabeça, mas sobretudo o medo de falhar, era tão desconfortável e tão insuportável que eu desistia. O problema é que, ao desistir, continuava a sentir-me um falhado. Por quê? Porque tinha desistido. Portanto, o que eu estou a fazer hoje em dia? Estou basicamente a correr atrás do prejuízo, porque aos 45 anos eu já competi em basquete, no Inatel, é certo, mas competi no Inatel. Pratico uma arte marcial japonesa que já competi num campeonato mundial no Japão, onde fiz uma pontuação de merda, porque me enganei em duas técnicas. Já competi um campeonato nacional que fiquei em primeiro, já competi um campeonato ibérico que fiquei em segundo, e fiquei super frustrado, porque fiquei em segundo a uma décima (0,1) do primeiro classificado. E quero competir em mais coisas aos 45 anos, e isto faz uma ponte também para o próximo episódio, que é: será que eu ainda tenho tempo pra estas coisas todas? Mas o que eu estou a fazer é correr atrás do prejuízo. E estou a aprender a lidar com a frustração em adulto. E esta frustração já me podia ter lixado muito mais, porque eu quando comecei a fazer comédia e quando comecei a ficar mais conhecido. É engraçado, eu quando comecei a fazer comédia, eu gostava mais de fazer comédia, porque desfrutava mais. Estava com os meus amigos, com a malta que fazia comédia, ria-me das cenas que eles diziam, queria saber mais sobre comédia, lia, via comédia. À medida que eu comecei a ficar conhecido, começa a vir a pressão de: "Tem que ter graça, não podes falhar, tens que ser bom". E isso fez com que eu começasse a ficar frustrado quando as coisas não corriam bem. Quando eu ia fazer testes de stand-up, experimentar piadas. E na minha cabeça eu já ia: "Vai ser uma bosta, eu não vou conseguir, vai ser fraquinho". E depois até podia correr bem ou minimamente bem, mas como eu já ia com este drive de vai ser uma bosta, eu saía frustrado. Eu ficava naquele: "Sim, correu tudo bem, mas houve ali duas piadas que foram uma grande bosta e eu sou uma porcaria, não presto para nada". E tive que fazer a uma certa altura, eu até tenho quase presença nisto na minha cabeça, já foi há uns anos, que eu tive que dizer: "Man, para, isto não te está a fazer bem". E tive que fazer aquelas comparações idiotas, mas que são óbvias. Não é dizer que eu sou muito bom, como é óbvio, atenção. Mas quando eu digo comparação idiota, é aquela imagem de até o melhor cara do mundo falha, até os Cristianos Ronaldos da nossa vida falham. Então se eu que sou um mero tipo que faz comédia e que faz desporto, é normal que eu falhe. E tive que aceitar que faz parte do jogo o falhar. Isto porque era o que eu estava aqui a ver. E uma das minhas filhas estava a competir e fez os saltos. Na cabeça dela, ela colocou aquela pressão e achou que os saltos tinham corrido mal, e depois acabaram por não correr tão mal como ela tinha achado. E eu estava lhe a explicar que faz parte do jogo e que é importante ficar chateado, ficar triste, ficar frustrado, tudo bem, isso faz tudo parte do jogo, mas aprender a lidar com isso, isso não nos tira valor. Eu acho que é a mensagem desta conversa de hoje, não é mensagem, é partilha. É exatamente: a frustração faz parte, mas não nos define. O que nos define é exatamente o não desistir. E agora vou dizer outra coisa, eu acho que mesmo quando desistimos, o que nos define, se calhar, é o ir tentando. E o que nos define, para além disto ainda, é a empatia. Voltamos sempre à mesma tecla, que eu acho que para mim é o mais importante, é a empatia e a compaixão. Empatia e compaixão para conosco. E não é as palmadinhas nas costas de: "Coitadinho, toma lá um miminho, correu muito mal. Pronto, está tudo bem". Não, é empatia de: "Man, desisti. Ok, não devia ter desistido. Bora lá, vamos tentar de novo". Não correu bem, grande bosta. Fogo, fiquei mesmo frustrado com isto, devia ter corrido melhor. Viver essa frustração, aceitar essa frustração, lidar com isso, como fazendo parte da nossa vida, mas que seja combustível. Que seja combustível para: "Man, a próxima vai ser melhor". Se vai ser ou não, não sei. Porque às vezes também não é. E isso já me aconteceu, como é óbvio. Por exemplo, eu vou ter um campeonato em breve também desta arte marcial japonesa, do Shorinji Kempo. A minha expectativa é obviamente fazer o meu melhor e que o meu melhor seja ficar nos primeiros ou no primeiro. Se eu vou ficar ou não? Não sei. E às vezes até penso assim: "Ai, não coloques isso assim tão alto que depois a frustração vai ser maior". Não! Eu quero fazer isto bem, então eu vou tentar fazer bem. O que pode fazer com que não seja tão bom? Treinar pouco ou treinar mal, e aí a culpa também já será minha. E depois o dia, que pode por si só correr mal, por alguma razão. Sei lá, não interessa. O que eu acho importante é nós termos esta consciência e conceito de que a frustração faz parte do jogo, não nos torna piores do que os outros, não nos torna inválidos, e que esse é um peso. A frustração quando vem associada com esse peso, é um peso que vem de outro lugar. É um peso que vem da nossa educação, é um peso que vem daquilo que se calhar muitas vezes não nos disseram, ou muitas vezes daquilo que nos disseram, do "não prestas", essas coisas da nossa infância. Mas eu acho que é importante entender que a frustração não nos define. E como não nos define, eu aconselho pensarem nos vossos desafios, que gostavam de ter feito e que ainda não fizeram com medo de falhar. E façam. E no trabalho a mesma coisa. Se estão num trabalho onde têm muita pressão e estão sujeitos a esta frustração, aceitem. A frustração faz parte do jogo. E isto é o mais importante: a frustração não nos define. Temos que aprender a lidar com ela, aceitá-la, acolhê-la, vivê-la e depois siga, bola pra frente. Eu estou a aprender isto na vida adulta. Estes miúdos que estão aqui na ginástica, em parte, se tiverem pais que aceitem as regras do jogo assim, é uma mais-valia para eles. E eu vejo isso. Eu tenho vários amigos atletas de várias modalidades, atletas profissionais, e digo-vos tenho inveja e orgulho desses amigos pela capacidade de quando as coisas correm mal, eles sentirem-se tristes, sentirem-se frustrados e a seguir voltam ao mesmo. Volta ao mesmo processo e vamos outra vez à luta. Portanto, esta é a mensagem que fica aqui no meu carro, fica com som altamente, mas a mensagem que fica, se vocês estão a ouvir isto de manhã, porque isto sai às 06h00 de segunda-feira. Ou se estão a ver no YouTube, que sai ao meio-dia. Pensem nos vossos desafios, pensem nas vezes em que se sentiram frustrados e que não souberam lidar com isso. Pensem nas vezes que se sentiram frustrados e acharam que eram uma bosta e mandem isso tudo para trás, porque vocês, eu, todos nós somos apenas seres humanos e estamos nesta experiência, que se chama vida, para a qual ninguém nasceu ensinado, para a qual nós procuramos respostas todos os dias. E abracem esta experiência na totalidade. Abracem esta experiência de lidar com a frustração e com o medo na sua totalidade e com essa vontade de vivê-la e seguir em frente e tentar outra vez. Portanto, tentem de novo. Na ginástica não vou tentar, de certeza. Esquece. Eu fico com dores nas costas só de ver os putos ali a saltar. Isso não. Há outras coisas que sim. Frustração até no sexo, também já tive. E aí eu tive que dizer: "Tozé", que eu sou Tozé. "Tozé, aceita. Aceita, Tozé. Aceita, tu vais conseguir. Tu vais conseguir". E quando olhei, a minha mulher já não estava lá. Já tinha ido para a sala fazer outra coisa qualquer. Mas pronto, amanhã há mais. Obrigado, malta, por estarem desse lado. Já sabem, quarta-feira temos um novo episódio com um convidado. Se estão a assistir no YouTube, ativem as notificações, cliquem no sininho, partilhem, venham aos comentários, digam-me como é que vocês lidam com a frustração e pensem também nisto. Pensem para convosco: "Como é que eu lido com a frustração? O que é a frustração para mim?" E até para a semana. Muito obrigado por estarem desse lado. Um abraço. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quer abra a boca ou presta atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.