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Tempestade Perfeita. E pronto, cá estamos nós, o tempo foge e num instante chegamos ao fim do ano. Esta é a última emissão da Tempestade Perfeita 2022. E como manda a tradição, hoje o João Ferreira do Amaral, o António Nogueira Leite e a Vera Gouveia Barros vão fazer o balanço do ano. Como? Elegendo, obviamente, os protagonistas e os acontecimentos deste ano de 2022 no país e no mundo, no fundo, dando a sua opinião sobre aquilo que se passou. Eu sou o Paulo Ferreira e esta é a Tempestade Perfeita. Vamos então começar cá por casa, pelo país, pelas figuras nacionais do ano. João, quem é que elege como protagonista nacional de 2022?
Eu elejo o Ministro das Finanças, Fernando Medina, porque é a pessoa que dá a cara pela política do governo relativamente à inflação, que é o problema número um neste momento em Portugal e não só. De facto, a política escolhida, tanto quanto me é dado avaliar, pretende fundamentalmente reduzir os impactos da inflação através do financiamento, quer de custos de energia, quer de apoio a famílias mais carenciadas, ao mesmo tempo fazendo cair grande parte ou quase a totalidade do esforço de combate à inflação nos assalariados, naqueles que recebem salários. E portanto, é uma política que se percebe do ponto de vista da prudência que tem de haver relativamente às finanças públicas, e nesse aspecto há claramente, penso eu, uma valorização acima de qualquer outro problema da gestão das finanças públicas.
Que tem corrido fantasticamente ao longo deste ano.
E portanto, é uma política que tem o mérito de ser clara e de certa forma, em certos termos, prudente. No entanto, eu não concordo com ela, devo dizer. Considero que o Fernando Medina é um personagem para encardar a personalidade do ano do ponto de vista da economia, mas não quer dizer que eu concorde com a política, porque penso que haveria margem de manobra pra não fazer recair o custo tanta proporção sobre os assalariados como efetivamente sucedeu, e que se vai pagar. Eu penso que o governo comprou uma instabilidade social que já tem vivido no final do ano e vai prolongar-se durante o próximo ano. Portanto, não sei se em termos de prudência, foi afinal tão bom como isso.
Muito bem.
Portanto, em resumo, dou porque é uma pessoa que dá a cara e tem o mérito de ser clara e prudente, mas do meu ponto de vista, não é a política que eu escolheria.
Não é a política que escolheria, mas dentro da que ele escolheu, está lá bem. Vera Gouveia Barros, qual é a figura nacional do ano que escolhe?
A minha escolha vai recair sobre Fernando Araújo. Na verdade, não é tanto uma questão de protagonismo.
Deixamos de ter contacto com a Vera. Vera, voltamos a ter contacto.
Estão a me ouvir?
Agora sim, agora voltamos. Sim, Fernando Araújo.
Fernando Araújo.
Que é, já agora, o CEO do Serviço Nacional de Saúde, recentemente empossado.
E é uma escolha que reflete mais uma expectativa do que propriamente um reconhecimento do trabalho já feito em 2022 neste cargo. Ele é uma pessoa a quem reconhecem muita competência na gestão que demonstrou à frente do Hospital São João, o que imagino que tenha contribuído para a sua escolha para este papel criado este ano. E a minha escolha tem que ver precisamente com aquilo que eu espero face ao seu desempenho em frente ao São João, que possa fazer pelo SNS em geral.
É uma escolha um pouquinho messiânica, não é?
Eu ia dizer, não quero estar aqui com aquela atitude do homem providencial. Mas espero, de facto, que possa fazer alguma diferença num setor que tanto precisa, não apenas em virtude daquilo que foram os últimos anos com a pandemia, mas num setor que sofre muito de questões estruturais ligadas, nomeadamente ao envelhecimento da população, que naturalmente traz desafios acrescidos para a saúde e é daquelas funções que o Estado tem que cumprir de forma exemplar e que é um papel fundamental que desempenha. Portanto, assim se justifica a minha escolha.
Muito bem, está justificadíssima. Fernando Araújo, figura nacional do ano para Vera Gouveia Barros. António Nogueira Leite, e a sua escolha para figura nacional do ano?
Bom dia. A minha figura para escolha nacional do ano é António Costa, o atual primeiro-ministro e antigo primeiro-ministro, na medida em que penso que após cerca de seis anos De governação, em parte sozinho. Seis anos de governação sempre com apoio de partidos à sua esquerda, conseguiu, em janeiro deste ano, assumir uma maioria absoluta, o que por um lado lhe vai conferir, pelo tempo que na altura faltava e que ainda falta, provavelmente um recorde de longevidade, que só depende dele e da sua capacidade também, mas em princípio só depende dele.
Isto é, pode vir a ser o primeiro-ministro que mais tempo exerceu o cargo em democracia.
Exatamente. Superando o recorde atual que é do antigo primeiro-ministro e presidente Cavaco Silva. E dizia eu que, por outro lado, permite que não haja desculpas em termos de ter todas as condições políticas para pôr no terreno aquilo que são as suas ideias e resolver um conjunto enorme de problemas que se vêm arrastado ao longo do tempo e que serão facilitados com a existência de uma maioria absoluta e prescindindo, por isso, de tentar encontrar soluções de negociação, que muitas vezes acabam por ser altamente subótimas relativamente àquilo que é preciso fazer. Portanto, nesse sentido, eu penso que se criaram condições políticas únicas para que tal pudesse acontecer. É evidente que a série de, não são as sete pragas do Egito, mas são as várias circunstâncias que nos têm afetado, diminuíram a capacidade de atuação este ano, porque houve que resolver uma série de problemas complexos na sequência da guerra da Ucrânia e que se manifestaram, nomeadamente, em problemas no setor energético e também, de uma forma geral, na acentuação da inflação. Mas o que é facto é que o primeiro-ministro tem condições, mesmo assim, para atacar um conjunto de problemas endêmicos, a questão do SNS, a questão da educação, a questão da descapitalização do Estado e das empresas, gerir um afluxo sem paralelo de fundos públicos, etc. Este ano, infelizmente, a performance não foi notável, porque o primeiro-ministro tem gasto o seu tempo, em parte, e num montante que eu acho que é acima daquilo que seria desejável, a resolver uma série de casos que resultam em parte de escolhas suas menos acertadas para o elenco.
E agora temos mais uma da Secretária de Estado do Tesouro e esta polêmica toda sobre a TAP. E já agora, António, no fundo, estamos aqui a atalhar caminho também para aquilo que é a sua escolha para acontecimento nacional do ano, que é a maioria absoluta do PS em janeiro, precisamente. Misturam-se aqui um pouco o protagonista e o acontecimento, não é?
É, porque a última maioria absoluta que nós tivemos foi uma maioria absoluta que tinha escondido o gérmen daquilo que nos veio a acontecer, a gênese daquilo que nos veio a acontecer mais tarde. Por quê? Porque foi nessa altura que se começaram a ter um certo descontrole sobre a despesa, em que houve uma política de crédito fácil pelas instituições e em que o supervisor não atuou, da minha perspectiva, em tempo, em que seguiu uma filosofia de que o euro seria proteção para tudo e mais alguma coisa. E portanto, a última maioria absoluta não deixou grandes memórias, sobretudo quando a isso juntarmos o que viemos a saber depois sobre o que se passava durante essa maioria absoluta. No caso atual, eu penso que as condições são diversas, mas que na verdade esta é uma situação, pois houve a maioria absoluta no período da Troika, mas aí havia um conjunto de políticas ditadas pelo exterior que era preciso executar e, portanto, houve muito pouco espaço para uma gestão em maioria absoluta com autonomia nacional plena. Desta vez temos isso novamente. É certo que a situação externa não é muito favorável, porventura nunca é. E temos sempre que gerir contrariedades e bonanças. E portanto, eu penso que era uma altura em que tínhamos que atacar um conjunto de problemas, que se a todos eles somarmos um outro que discutimos várias vezes, que é a questão demográfica e o envelhecimento da população, mostram que será, porventura, a última oportunidade que temos, e para cima, com a facilidade política de ser uma maioria absoluta de o fazer.
Muito bem.
Portanto, se nada acontecer, será uma das maiorias absolutas mais inúteis que nós tivemos na nossa história. Esperemos que seja o contrário e que as coisas aconteçam.
Muito bem, são atribuídas então também a figura nacional do ano e o acontecimento nacional já do António, a maioria absoluta do PS em janeiro deste ano. Continuando nos acontecimentos nacionais, Vera, o que escolheu como acontecimento nacional do ano?
Eu escolhi o fim das medidas restritivas associadas à Covid-19. Acho que isso marca nacionalmente aquilo que foi 2022. Nós sabemos que o ano em termos de crescimento até correu bastante bem. Para esse crescimento contribuiu decisivamente o setor do turismo e portanto todo este regresso à normalidade, ao sair, ao não ter de usar máscara, ao fim de todas as restrições Nas viagens, aqueles incómodos que já se somavam a outros incómodos que nós temos quando viajamos. Só o fato de não termos de andar de máscara em todo o lado, que tem um simbolismo especial e acho que marca o ano. Lamentavelmente, este regresso à normalidade na parte sanitária foi acompanhado pelos tristes acontecimentos a leste do continente europeu que em grande medida não nos permitiram recuperar um sentido de normalidade feliz.
Parece que saímos de uma guerra e entramos noutra, não é? Esta é mais real.
Exatamente, com outros contornos, mas de facto não temos aquela sensação de bonança. Continuamos um bocadinho em tempestade perfeita, mas não esta, que até é boa. Esta espero que continue. E, portanto, a minha escolha vai para o fim das restrições.
O regresso a uma certa normalidade. João Freire de Amaral e a sua escolha, já há pouco falou de Fernando Medina, a figura nacional e o acontecimento nacional.
Por coerência, a inflação, uma vez que eu penso que é um fenómeno que é novo para uma boa parte da nossa população, de uma geração mais jovem, pessoas com menos de 40 anos, na verdade, nunca sentiram um processo inflacionista. Mas devo dizer que a inflação, vista friamente, não é nada de extraordinário em termos de dimensão e sequer de complexidade. É uma inflação em que os preços crescem cerca de 10%, já tivemos crescimentos muito superiores, resultantes de basicamente dois choques, o choque do petróleo e o choque das matérias-primas agrícolas, coisa que curiosamente existiu exatamente assim em 1973 e de novo em 2008. Portanto, está longe de ser algo de inteiramente novo e tem, de facto, uma dimensão que é perfeitamente manejável, em princípio. Mas por que surge com este problema todo? Eu penso que há aqui uma alteração grande no funcionamento das nossas sociedades, em particular portuguesa, mas também é típico da europeia e mesmo dos Estados Unidos, que é um grande endividamento das famílias. E o grande endividamento das famílias torna muito mais penoso a aplicação de instrumentos monetários, nomeadamente o aumento da taxa de juro para controlarem a inflação. E é isso que causa este problema todo, do meu ponto de vista. Claro que também não ajuda os objetivos demasiadamente estritos do Banco Central Europeu relativamente à inflação. E portanto, eu tenho esperanças, virá a propósito da Christine Lagarde.
Já vamos falar depois, claro.
Que não se enverede por uma política fundamentalista desse ponto de vista, mas em qualquer caso, torna-se muito mais difícil controlar a inflação porque os instrumentos são inadequados. À situação atual. Seriam adequados há 40 anos atrás, à situação de endividamento atual não são.
Claro, e instrumentos que agora em termos nacionais também já não nos ajuda de alguma maneira.
Evidentemente, a nível da Europa, e realmente um processo de redução da inflação não tem as mesmas consequências em todos os países e portanto, cria-se aqui uma situação muito difícil.
Falaremos disso, mas olhando ainda aqui para o tal acontecimento nacional, a inflação, que de facto, como o João disse, para uma geração inteira, mais do que uma geração, provavelmente, é a primeira vez que se confrontam com um crescimento de preços desta natureza a chegar aos dois dígitos.
Nós já tivemos 40. No final de 73.
Exato. E depois voltámos a ter 30 em meados dos anos 80.
Com o programa do Fundo Monetário Internacional.
Exatamente. E aí ajustou-se muito também com os salários, com uma contenção de salários ou um crescimento salarial muito abaixo daquilo que foi a inflação de 100%.
Principalmente um pagamento salarial que foi zero para muita gente, porque houve um fenómeno de salários em atraso durante esse período em 1984.
Exatamente, contextos diferentes.
Portanto, foi uma situação muito mais complexa e difícil do que a atual.
Mas acha que a população, neste caso em Portugal, mesmo olhando para uma política orçamental ou de rendimentos, com a qual não concorda particularmente, acha que estão a acomodar bem, as pessoas estão a perceber o que é que se está a passar?
As pessoas percebem o que se está a passar em função daquilo que lhes é transmitido. É-lhes transmitido que há uma inflação que vem do exterior, e é verdade, de facto, que é agravada muito pela guerra da Ucrânia, mas já começava a ter os primeiros sintomas antes disso, e que para combater a inflação é preciso manter as finanças públicas muito apertadas e aumentar a taxa de juro. E portanto, é isto, as pessoas não têm já capacidade para discutir as alternativas, não são especialistas, não têm que ser na área económica. Sentem a nível da perda de rendimentos salariais, que a meu ver está a ser excessiva, pelas razões que eu disse há pouco, e sentem as de endividados com o aumento da taxa de juro e pouco podem fazer. Portanto, eu teria tendência a dizer, talvez um bocadinho injustamente, mas grande parte dos problemas resultam das condicionantes da política económica e não tanto o fenómeno em si, que não tem uma dimensão excessiva, do meu ponto de vista.
Muito bem. João Freire de Amaral, então o acontecimento nacional do ano, a inflação. Tempestade Perfeita, a primeira parte fica por aqui. Voltamos já a seguir na segunda parte e aí vamos olhar para protagonistas e acontecimentos internacionais. Até já. Tempestade perfeita. Cá estamos de volta e vamos agora olhar para protagonistas e acontecimentos internacionais. Há um deles, um acontecimento absolutamente incontornável, a invasão da Ucrânia logo no início do mês, final de fevereiro, é daqueles que não estavam nas previsões de ninguém, obviamente, quando há um ano se olhou para 2022. António Nogueira Leite, as suas escolhas neste capítulo internacional têm precisamente a ver com esta guerra que elegeu, aliás, acontecimento internacional.
Exatamente. Para além da magnitude sem paralelo em território europeu, desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, esta guerra tem uma importância que vai para além do conflito tal como ele está localizado neste momento. Por um lado, porque resulta de algumas dores que alguma parte da elite russa sofre com o fim da União Soviética e que transparece frequentemente nos discursos de Putin e dos seus apaniguados. Mas, por outro lado, tudo isto é vestido, amalgamado, numa retórica que passa também pela importância da Rússia, pela não existência da Ucrânia, por ambições que vão para além da própria Ucrânia e por isso temos um fenômeno que tem um risco muito grande, para além de se tratar de uma potência nuclear. Tem um risco muito grande e por isso deve ser olhado com muito cuidado e vai muito para além da economia. Por outro lado, também tem levado a alguns reajustamentos, ainda que não radicais, mas alguns reajustamentos na política de alianças da própria Rússia e isso é importante na relação com a China, na relação com os outros países do Extremo Oriente, sabendo que a China tem aqui um equilíbrio muito difícil, porque sem os mercados ocidentais, os problemas grandes que já tem neste momento e que vão muito para além da Covid, tenderão a exacerbar-se ou a despoletar-se muito rapidamente. Mas voltando à Europa, esta guerra é importante porque sedimentou, de facto, um processo de inflação do qual já vínhamos a falar antes da própria guerra e que resulta em larga medida da política monetária que tivemos durante uma série de anos, de um avolumar de questões, dos apoios, do dinheiro que se gastou para reativar as economias na sequência da pandemia, dos problemas logísticos que a pandemia causou e que a saída da pandemia também causaram, do impacto que teve nos mercados, nomeadamente combustíveis e algumas matérias-primas. Tudo isso com a guerra gerou um processo inflacionista que é o maior da Europa desde que existe o euro e que, por isso, está a obrigar a uma alteração grande da política monetária e que vai exigir uma certa disciplina e algum sacrifício para se evitarem sacrifícios maiores caso a política, pura e simplesmente, não tivesse em cima da mesa e a inflação subisse descontroladamente.
Claro.
A outra questão muito importante tem a ver com a política energética de muitos países europeus.
Que teve que mudar apressadamente, não é?
Teve que mudar apressadamente, porque de uma forma bastante pouco prevista, países como a Alemanha foram se tornando cada vez mais dependentes da Rússia como fornecedor de petróleo e gás. Ora, isso não faz sentido, porque esta guerra não sai do nada. Portanto, há um conjunto de comportamentos agressivos prévios, eu diria imperialistas, usando uma linguagem que se tem usado menos ultimamente, mas que não é apenas uma linguagem dos anos 70. Houve aqui uma falta de previsão muito grande dos alemães, sendo benévolo, não querendo pensar em outras eventuais razões, e isso levou a que a Europa tivesse um problema grave de fornecimento, isso repercutiu-se nos preços. Mas eu também queria relevar que, apesar de tudo, o estratega Putin anunciou demasiado cedo as intenções, pelo menos dada a forma como os alemães reagem, e o que aconteceu é que a Alemanha, estamos a entrar em janeiro, com 90% das suas reservas preenchidas.
E, portanto, conseguiram de alguma forma mitigar o problema.
Não vai haver aquilo que os meus amigos brasileiros do PT e bolsonaristas me dizem permanentemente, porque há aqui esta ferradura de adoradores da Rússia, quer dizer, na extrema-direita e na esquerda vestível e na extrema-esquerda, que perguntam-me sempre: "Mas se passa muito frio na Europa, vocês ainda conseguem sobreviver?" Aqui esse problema não existe, mas a propaganda russa chega longe, e chega às cabecinhas do PT e do partido do Bolsonaro no Brasil com grande intensidade.
Exato. Esta escolha, a invasão da Ucrânia, foi também a escolha do João Ferreira do Amaral para acontecimento internacional.
Sim, porque de fato, como o António disse, condiciona fortemente a evolução económica desde quase o início do ano e sedimentou a inflação, que já vinha naturalmente a surgir com a recuperação que foi muito rápida com o fim do impacto da Covid no seu pleno. E apesar de tudo, lá está, mais uma vez, não é inédito. Na inflação de 1973, 74, como eu disse há pouco, foi a maior que registamos nos tempos modernos, pelo menos desde a Primeira República. Houve outra situação que tem semelhanças com a atual, é que o petróleo na altura foi usado como arma política, também pelos países, nomeadamente países árabes, grandes produtores de petróleo. Reduziram a produção para aumentar o preço do petróleo, que realmente vinha perdendo preço relativo desde muitos anos, mas foram para além disso e usaram, nomeadamente, para efeitos políticos, a arma petrolífera. E a verdade é que se olharmos para essa época e o que se seguiu, é curioso que, em primeiro lugar, um impacto importante foi que mudou, de fato, o mundo, mudaram as relações de poder no mundo. Neste momento não sabemos ainda se isso vai ceder em função da guerra da Ucrânia ou não, e dos seus resultados. E por outro lado, o mundo também se adaptou rapidamente a novas formas de energia. O petróleo foi substituído durante algum tempo, depois perdeu o preço e, portanto, voltou atrás, etc. Ora, como os objetivos das alterações climáticas é reduzir os combustíveis fósseis, podemos dizer que nesse aspecto, o aumento do preço do petróleo vai ajudar a que isso aconteça.
Claro, contribui para esse objetivo.
Portanto, esse é o aspecto, entre aspas, positivo de uma questão que é profundamente negativa, que é a invasão da Ucrânia. Por outro lado, também é verdade que se a situação mudar, isto é, se for possível, e eu tenho esperanças que seja, haver já no próximo ano conversações de paz, inclusivamente já um cessar-fogo, que isso então seria ótimo, é verdade também que haverá uma onda de otimismo que varrerá rapidamente a economia mundial. Portanto, eu estou convencido que se tivermos a melhor das hipóteses, ou seja, que a guerra chegue ao fim, pelo menos que seja possível um cessar-fogo e negociações de paz sérias, se isso for possível no próximo ano, penso que poderemos ter um novo otimismo e uma nova retoma da economia mundial.
Com impacto na economia, sem dúvida. António, para fechar aqui o tema da guerra, porque a escolha que fez de protagonista internacional também está relacionada com este conflito. Quem é?
É o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que era uma pessoa que não era consensual no seu país, mas que tem demonstrado coragem, determinação, habilidade e uma capacidade de colocar o tema na agenda e de concitar um conjunto de apoios e nomeadamente uma quase unanimidade do apoio interno, sendo que não a tinha quando a guerra começou, que mostra que realmente temos ali mais do que apenas um político. Há muita gente que o odeia, sobretudo em Portugal, os PCPs e as pessoas da extrema-direita, mas que eu acho que temos um estadista. Pelo menos até agora, não vejo razão nenhuma para não o considerar, sendo que é nestes momentos que as pessoas se revelam. E não sou a única pessoa a considerar isso, em Portugal e fora de Portugal, mas acho que foi uma surpresa que eu não esperava, porque não tinha grande opinião do senhor.
Aliás, quando ele foi eleito era o humorista, o cômico, o palhaço, às vezes.
Era uma pessoa que era muito popular, tinha umas ligações com uns oligarcas que não eram extremamente recomendáveis. Era popular pela sua profissão, não tanto pelas ideias que defendesse. Havia alguma contestação importante, sobretudo nos meios mais intelectuais, mas que agora são os primeiros a defendê-lo. Portanto, eu acho que perante uma prova dessas, merece a escolha, até porque é um fator que está a moldar o ano de 2022 e vai ser importante ainda em 2023.
Sem dúvida. Então Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, a escolha do António Nogueira Leite para protagonista internacional 2022. Vamos voltar, porque isto está tudo ligado, voltar a falar de inflação, agora numa perspectiva mais global. Vera, qual é a escolha para acontecimento internacional?
Sim, foi precisamente a inflação. Eu decidi romper com o ditado que diz que não há duas sem três e não escolhi a guerra da Ucrânia, embora claramente seja um fato marcante de 2022. Não que o mundo estivesse em paz, mas a Europa estava e portanto temos aqui uma guerra próxima de nós e que nos afeta também pela via econômica, precisamente alimentando este processo inflacionista que já vinha do final de 2021, ligado à recuperação econômica depois dos anos de pandemia, ligado ainda a falhas nas cadeias de abastecimento, até pelo objetivo que a China continua a ter. Eles estão habituados a controlar pessoas, portanto também acham Que podem controlar os vírus e têm esta política de COVID zero, que continua a criar distúrbios nas cadeias de abastecimento globais. E depois a guerra que veio juntar-se a tudo isto, afetando muito os preços da energia e nós voltarmos a ter taxas de inflação. Não vou dizer que não as conhecíamos. Eu nasci em 1980 e ainda me lembro, embora fosse uma criança.
Cronologicamente, sim. Ainda não pagava contas nessa idade.
Não, mas ouvia os discursos das pessoas na rua e lembro-me. Aliás, posso dizer que a minha avó, nos anos 80, organizou nos Açores uma manifestação de donas de casa contra a subida dos preços da eletricidade, que estavam insuportáveis e a pesar imenso no orçamento das famílias. Já veem que este feitio tem antecedentes genéticos.
Isso é de família, de facto.
É de família, não se pode contrariar. Dizia eu que escolhi a inflação como facto marcante internacionalmente, porque não é algo apenas da economia portuguesa, é algo global, até tendencialmente as economias, pelo menos as ocidentais, estarão cada vez mais ligadas e quando uma está a passar por um processo assim, a outra também está.
Claro.
Recuperar aqui aquilo que dizia o João relativamente a estes momentos serem também um bocadinho impulsionadores das mudanças que às vezes teríamos de fazer por outra via. E aqui estou a pensar na utilização de fontes de energia, no próprio consumo de energia. Espero que por essa via, dessas mudanças que já se impunham por questões mais estruturais.
Muito bem. A inflação e o seu controlo levam-nos aqui também à escolha das personalidades ou da personalidade franjeira do ano, para a Vera e para o João, que é mesma João, qual é?
É Christine Lagarde. E pelas mesmas razões ou razões semelhantes, há de ter escolhido Fernando Medina. É uma pessoa que está a dar a cara por uma política, neste caso a política do Banco Central Europeu, como a autoridade monetária na zona euro, de combate à inflação. E essa política pode correr mal do ponto de vista do Banco Central Europeu. Eu recordo que há dois fantasmas que podem existir neste momento, um mais grave, que foi a política que a Federal Reserve dos Estados Unidos, que é o banco central dos Estados Unidos, executou em 1929 e que foi um fator agravante das tendências que depois deram a Grande Depressão, que durou até à Segunda Guerra Mundial. E outra mais próximo de nós, em 2008, quando em plena crise económica, por enquanto ainda mais financeira, mas próxima já da passagem pra crise económica em 2008, no primeiro semestre, o Banco Central Europeu se lembrou de aumentar as taxas de juro, que contribuiu fortemente para o impacto da crise. Ela está numa situação em que é um cenário possível ficar na história como alguém que fez, ou que representou, não é ela que faz a política, mas que representou uma política com efeitos negativos sobre o crescimento económico e sobre tudo o resto. Ou não, ou poderá ser que a política dê resultado e nesse caso, o Banco Central Europeu será, pelo menos, talvez não mitificado, não direi tanto, mas pelo menos visto com mais simpatia ou com menos antipatia. Eu devo dizer que tal como no caso da política portuguesa, eu também não concordo com a forma como está a ser feito. Aliás, já falámos disso aqui. O Banco Central Europeu está a caminhar em dois sentidos, de certa forma convergentes, que é aumentar a taxa de juro e reduzir as compras de dívida pública dos países, que também tem efeito sobre a taxa de juro das dívidas públicas, que subirá. Mas como eu disse aqui, essa segunda vertente é muito mais complexa, porque leva a uma desigualdade muito grande entre os países com menos dívidas e os mais endividados. E penso que fazer as duas coisas em conjunto, sem estarem afinadas, como o inglês diz, o fine tuning, ou seja, a afinação das duas políticas, é perigoso. E por isso eu daria mais peso, eventualmente, ao aumento da taxa de juro e menos à redução da compra.
À redução da compra. Mantinha níveis mais elevados de compra de dívida pública. Aliás, os juros já estão a refletir-se.
E os spreads também entre países.
Os spreads. Esta terça-feira, os juros portugueses da dívida a 10 anos já chegaram aos 3,5%, que é um valor que já não atingia desde 2017. Vera Gouveia Barros, acompanha também o João na escolha desta personalidade internacional.
Sim, tendo escolhido a inflação como acontecimento a destacar internacionalmente, depois temos aqui para a zona euro, o papel do Banco Central Europeu, que tem o controle da inflação e durante este ano foi uma instituição em destaque e eu escolho o seu símbolo. Em 2012, o Banco Central Europeu já tinha tido um papel fundamental na questão da crise das dívidas soberanas, na altura com as declarações de Mario Draghi de que tudo faria Para salvar o euro e agora temos aquilo que será o território mais natural para a intervenção do Banco Central Europeu, que tem que ver com o combate à inflação. Eu percebo aquilo que dizia o João sobre o contexto complicado, porque estamos a usar um instrumento clássico num contexto de grande endividamento dos vários agentes, no caso da economia portuguesa, dos vários agentes da economia, as famílias, o Estado, as empresas, e que isso traz dificuldades acrescidas, mas também como discutimos ao longo deste ano, a intervenção do Banco Central Europeu e até numa fase inicial, negando que este fosse um fenômeno mais do que passageiro e passageiro de uma forma rápida, acaba por intervir tardiamente e, portanto, está aqui justificada a escolha de Christine Lagarde para a figura.
Não só por bons motivos, digamos, não é? Pela hesitação também.
Sim, pela hesitação também.
Foi e continuará a ser, já agora, Vera e João, uma protagonista fundamental e com um impacto para o bem e para o mal.
Claro, até porque a situação de inflação na Europa, há alguns sinais de abrandamento, a tal segunda derivada, mas continuamos em período inflacionista e, portanto, as medidas continuam a ser necessárias.
Muito bem. Fica por aqui este "Tempestade Perfeita", onde estivemos a olhar aqui para as escolhas do nosso painel das figuras e acontecimentos nacionais, figuras e acontecimentos internacionais. Passámos da política portuguesa e das eleições de António Costa, das medidas do combate à Covid, para a inflação nacional e internacional, para a guerra, obviamente, esse acontecimento absolutamente incontornável do calendário de 2022, para a ascensão de um líder político, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e agora terminamos aqui a olhar para a presidente do BCE, para a forma como está a abordar o combate à inflação, no fundo, com a utilização de instrumentos monetários. António, Vera, João, este é o último "Tempestade Perfeita" de 2022. Um bom ano, uma boa passagem de ano para todos, para vocês e para os que nos ouvem. Nós cá estaremos em janeiro novamente e no primeiro "Tempestade Perfeita" do ano, vamos olhar para 2023 e sem termos uma bola de cristal, sem sermosindingas, vamos tentar perceber que tendências e que acontecimentos a que deveríamos estar atentos em 2023. Um bom ano para vocês e até janeiro. "Tempestade Perfeita".