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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal". O meu nome, Guilherme Fonseca, o nome da minha esposa, Rita Nova. Pessoa que faz hoje 100 dias sem café.

É verdade, 100 dias sem café. Já passaram 100 dias desde que eu comecei.

100 dias sem café escrito com S.

100 dias sem.

100 dias sem café. Como é que tu te sentes? Como é que tem sido essa viagem? Explica-me tudo neste teu trajeto da saúde.

Tem sido ok. Não sinto falta. Só às vezes do cheiro.

Do cheiro? Ai estás a ficar oleirona.

Não, isso é as doiras.

Do cheiro?

Do cheiro.

Não, do cheiro. Tens saudades do cheiro?

Não, os leironos dizem o cheiro.

O cheiro.

Não, o cheiro.

O cheiro.

O cheiro. Agora que me lembro, quando eu disse cheiro era o lixo.

A sentir café?

É.

Ao gosto.

Ao gosto. Estou há 100 dias sem beber café. Está a ser uma jornada muito interessante, em que percebi duas coisas.

Ok.

A primeira é que o café não me faz assim tanta falta.

Ok.

Só o cheiro. Às vezes quero cheirar café acabadinho de fazer.

Tu vês-me snifar o meu café, que é uma coisa estranhíssima. Tiro um café para beber e, de repente, tu pegas na minha tacinha e espetas lá o nariz.

Cheiro de café.

Como se fosses o José Carlos Pereira nos seus tempos áureos.

É verdade. Isso também me faz questionar se muitas das coisas que nós gostamos, não gostamos mais do cheiro do que do sabor.

Não, isso sem dúvida nenhuma. Olha, aí é que está uma grande reflexão.

É verdade. Por exemplo, pão acabado de fazer. Cheiro e sabor é igual. Para mim está ao mesmo nível. Castanhas assadas, cheiro melhor que o sabor.

Cheiro melhor que o sabor. E coisas que têm sabor melhor que o cheiro?

Queijo malcheiroso.

Verdade, ok, mas isso é o mais... pois não sei bem, o que tem melhor? Cães.

Olha.

Como se os cães fossem cheirar.

A China prova esta mensagem. Essa foi uma das coisas que eu percebi, tenho vindo a pensar sobre isto, sobre é mais sabor ou é mais cheiro, etc. A outra coisa que eu tenho vindo a pensar é: o que raio é que tu fazes quando vais a um café?

Como assim?

Porque às vezes me apetece beber um sumo.

Ok.

Mas...

Pois, e o que tu vais lá fazer está no nome dos passasões. Nós vamos a um café.

É verdade. E fico, ok, não podendo beber café e agora no calor, não estando tempo para chá.

Pois, tu não vais a uma cervejinha, que é o normal.

Não, mas se for às 11:30 da manhã não iria nunca a uma cervejinha.

Quer dizer, há sítios onde eu já vi gente muito cedo a beber uma cerveja.

Eu também, vou só dizer que, por acaso, isso era uma coisa que eu nunca comentei contigo, mas já deves ter reparado também. Às vezes quando vou à associação dos gatos, onde eu sou voluntária, que tem um café ao lado, e há dias em que eu estou às 9:30 a chegar à associação e já está gente com a sua mini.

Pois claro, isso é uma gracinha.

Isso é uma gracinha.

Rita, o dia começa é cedo. Portanto, isto das empregadas só vai lá tarde, isso não é nada.

Mas pronto, é sempre difícil, falávamos aqui a semana passada do matcha, mas nem todos os cafés têm.

Só os de Americanas e Leggings, os genuínos.

Exatamente.

Eu acho que tu estás a passar pelo mesmo que eu passo, não sendo fumador, com amigos fumadores, que é: "bora todos lá fora?" E eu faço o quê?

Não, mas estás lá fora e estás a conversar.

Sim, mas é...

Eu não me posso simplesmente sentar no café, quer dizer, posso, mas e dizer: "uma água". Esquisito.

Pois. Olha, acabou o espetáculo do Joana Marques, que eu fui ver com amigos, e o grupo quis ir fumar um cigarro. E eu: "Ok, então temos que sair do Coliseu, esperar não sei o quê, depois fomos lá dentro dar uma beijinha à Joana Marques". Mas é do género, é uma viagem superdesnecessária para mim.

Mas isso é outro ponto.

Eu fui lá fazer o quê?

Sim, isso é outro ponto. Agora, para mim não é desnecessário ir ao café com alguém. É só, eu tenho de encontrar... no inverno é fácil achar. Agora, e no verão? É uma Freezee, mas uma Freezee às 9:00 da manhã ou às 10:00 da manhã é esquisito. É um sumo de laranja natural. É um Compal, mas nem sempre me apetece arder um sumo.

Pois, falta-te ali um...

Um pedido.

Falta uma bebida de manhã. Pois eu acho que é o matcha, mas não há em todos, de facto. Há mesmo aí um problema. Eu acho que se eu não bebesse café e fosse a um cafezinho de manhã tomar o pequeno-almoço, era um Compal.

Mas isso é tomar o pequeno-almoço. Agora, estás às 11:30 da manhã, vais...

É uma Freezee de limão.

Às 11:30 da manhã?

Ou uma água das pedras de limão, que o grafismo trabalha com os anjos e nós temos que repensar a nossa relação com a água.

Às 11:30 da manhã? Pois.

Pois, eu percebo perfeitamente tudo o que queres dizer.

É difícil. É difícil encontrar alguém que é capaz de carregar esta cruz tua.

Sim, verdade. Percebo perfeitamente essa desamparo.

Desamparo, exatamente.

Desamparo, na verdade é isso, é um desamparo.

Nem é tanto sono que me causa, porque já não me causa sono.

E tenho outra pergunta para ti, que é, porque eu noto isso na minha fauna intestinal, que é eu bebo um café de manhã e o meu intestino-

É flora intestinal, não é fauna.

Não é fauna porque são bichos. Eu tenho bichos que têm que correr daqui para fora desta savana.

Está igual.

Ou seja, não altera, porque o café é um acelerador de partículas.

Sim, exatamente. Não, não altera. Está igual.

Ok, pronto, isso é o mais importante.

Queria também dizer uma coisa sobre esta semana.

Diz, que eu tenho mais temas aqui também.

Que eu fui à praia.

Como é que te sentiste? Primeiro dia de praia do ano.

Primeiro dia de praia do ano. Estava muito calorzinho, mas estava uma aragem. E percebi uma coisa, vou enfatizar isto para não parecer sangrar lá.

Ok, de repente o meu interesse subiu imenso.

Primeiro, duas coisas. A primeira foi que vimos literalmente pessoas de computador sentadas na areia a trabalhar.

Sabes o que é?

Pessoas nômades digitais.

Não, são pessoas que estão a trabalhar, e eu estou a fazer imensas aspas no ar, e que aproveitam e vão para a praia porque têm um dia mais calmo e se por acaso têm que mandar um e-mail, têm que estar online.

Não, estavam sempre de computador aberto.

Mas é malta que está a trabalhar, o teu home office tecnicamente pode ser a tua home, pode ser beach office.

Certo, mas como é que o sol dá para ver bem o ecrã?

Podes pôr aquelas películas.

Pronto, achei esquisito.

Também percebo. Não é um sitio onde eu iria com o computador.

E depois se pode dar o computador se cair a água? Esconder o computador como escondes o telemóvel? É esquisito.

Dentro do sapato não cabe. Como é que as pessoas escondem o computador quando vão à água?

Outra coisa é que eu gosto de ondas literais da praia. Gosto muito de água com ondas.

Ok, não gostas daquela prainha-

Gosto também.

Em Sines, quando morei lá, Sines tem uma praia que não tem ondas por causa dos dois pontões, fecha aquilo e não tem ondas. E era bom, mas era estranhíssimo.

Pois, eu fui com duas amigas minhas, para quem mando um beijinho. E quando chegamos eu disse: "Aparece que com estas ondas não vou à água. Ou seja, vou só ali à beirinha". E eu olhei e não me pareceram muito grandes.

Cagando para a Melanda que sabe que está aqui.

Não me pareceram e não eram, de facto. Mas a maioria das pessoas não estava a ir à água.

Ok.

E eu pensei: "Será que eu sou doida?"

Doida dos cornos e não tenho qualquer tipo de medo ou pavor pela sua vida.

Sempre fui a praias com muitas ondas, praia do Mecco, por exemplo, e era tranquilo.

Pois, tu estás só mais habituada a ondas. Tu de facto gostas de ondas, gostas de mar revoluto.

Gosto de água fria, que também é outra coisa que a maioria das pessoas não gosta. Por exemplo, elas chegaram na beirinha a dizer: "Está muito frio", e eu já estava lá.

Exatamente.

Já estava lá na água.

"Está gelado" e tu: "Excelente para mim".

Está ótimo.

Eu quando bebo é assim.

"Está gelada". Mas pronto, fui à praia, estava muito bom, só fomos duas horinhas, mais à tarde, mas correu bem, foi muito bom.

Mas duas horinhas de praia é melhor do que zero horinhas de praia.

Exatamente. E foi muito agradável e quero muito ir mais à praia este ano, é uma das resoluções que eu tenho para este ano.

Muito bem, o ano passado era cinema, este ano é praia.

É verdade, que é para apanhar mais sol.

Sim, senhora, para mim está excelente. Eu também quero ir à praia, quero apanhar um solzinho. Tu até já. Olha, vai para um, eu vou para outro e depois contamos como é que foi o nosso dia. Eu tenho um tema para ti.

Tens.

Que é o seguinte. Primeiro, um pequenino preâmbulo. O homem responsável pelo nosso genérico, Vítor Carraca Teixeira, lançou uma música.

Exato, nós falámos ainda disso aqui.

Eu apontei, se não for eu a fazer este... pronto, não é não tema. Lançou uma música que se chama "Dias Raros".

Mentira.

Chama-se "Dias Raros", é uma música muito engraçada.

Não é engraçada, é deprimente.

Engraçada, de gira, de interessante. Eu gostei.

Eu também. Então quando fores fazer o teu stand-up, vou dizer: "Foi giro. Foi", como é que disseste? "Interessante. Porque se para ti são sinónimos."

Imensas vezes.

Se para ti são sinónimos, não mais apelidarei o teu stand-up de engraçado.

Muitas vezes eu quero dizer curioso e digo engraçado. E são duas coisas diferentes, porque engraçado é de "ha-ha-ha". Curioso é de "oh, olha que giro, olha que interessante que está aqui isto". E queria pedir desculpa porque às vezes faço esse erro. O que eu ia dizer? O nosso amigo Vítor Carraca Teixeira lançou uma música chamada "Dias Raros", que é uma música muito bonita.

Curiosa.

Muito curiosa, que eu gostava que vocês fossem curiosas. E parece que tem um mistério qualquer. É boa, é uma música boa, vão ouvir. Mas não era este o ponto do que eu queria dizer. O que eu queria dizer é o seguinte: eu nem falei disto, porque eu queria trazer para aqui, mas eu fui convidado para um podcast, que fui gravar na semana passada, chamado Índice Médio de Felicidade, que é apresentado pelo Miguel Ribeiro, que é músico, mas também é pivô de jornal, é um dos pivôs da SIC Notícias. Qual é o gancho daquele podcast? O gancho daquele podcast é: vens cá conversar sobre a tua vida, tua carreira, etc., etc., e trazes as seis canções da tua vida. E eu gostava que tu me dissesses quais é que tu achas que são.

Quais eu acho que são as tuas seis canções.

As que eu mandei. Percebes isto?

Percebo.

Eu tive que mandar seis músicas que passaram durante a entrevista, ou vai pontuando a entrevista com as seis canções, e depois eu justifico porque é que as escolhi.

"Black Parade" do My Chemical Romance.

Errado não está.

Não está.

Não está. Depois ficou a menção honrosa. Esteve quase para entrar, mas não entrou.

Se não entrou, ui. Tens algumas buracas. Qualquer uma.

Tenho a "Hangover", mas buraca. Que essa é um bocado mais... E que falei do concerto que fui no Coliseu e depois no Lux.

TensIsto é difícil, Guilherme, porque tu não és uma pessoa melômana como nós.

Sem dúvida nenhuma, eu falo disso na entrevista, mas há de facto músicas que no meu trajeto de vida, na minha infância, na minha adolescência, depois passaram a minha vida toda.

Caramba, a dos The Killers.

"Mr. Brightside", óbvio que tem.

É a minha música favorita de sempre.

Contei esta história da minha vida inteira, em que no meio de uma discoteca começo a tocar "Brightside". Não sei o que me deu, fui ter com o Pedro e com a Rita e disse: "Isto é a minha música favorita de sempre". Pronto, não sei, os pops também chamam-me um carinho de exagerada.

Depois vais ter qualquer coisa de música clássica, pianada, uma coisa assim qualquer.

Eu já não tenho nada disso. Até agora acertaste The Killers, "Mr. Brightside" e Buraka Som Sistema, "Hangover".

Exatamente.

Tens duas em seis.

É, conheço-te muito bem. Tens qualquer coisa de Billy Idol?

Não.

Não? Ok. Tens "quem tem, quem tem amor a seu jeito".

Essa não tenho.

Tu tinhas seis músicas para me dar?

Faltam-te aqui duas que são da minha infância.

Então é dos Pepinhos.

Eu na minha infância, ali na adolescência.

Qualquer coisa de Eminem.

Óbvio, está aqui o "8 Mile" do Eminem. Na minha adolescência foi muito Eminem. E depois eu fiz uma transição para outro género musical.

Deve ter sido para o punk rock.

Com o que manda?

Coisas emo. Deve ter sido com Offspring.

Exatamente. Estás a ver? Eu pego te em ti mão e elevo-te nos anos.

Isto é conhecer o Guilherme, é conhecer o homem beta básico.

Não, sem dúvida nenhuma.

Homem branco beta básico do final dos anos 2000.

Eu sei o quê? As pessoas todas hoje em dia andam à procura de motivos para serem especiais. Eu tenho esta capacidade, eu tenho este feito, eu tenho esta característica. Eu nunca quero ser especial, eu estou-me a cagar para isso.

Tu és a experiência básica.

Para quê? Sabes quando tu começas a fazer um boneco nos videojogos e depois fazes duas características: quero umas orelhas assim, quero não sei quê. Eu sou o básico.

O básico, o genérico.

Eu sou aquele que aparece logo lá e diz: "Não, ele está aqui".

Não tem mal nenhum, já temos quatro.

Tens The Killers com "Mr. Brightside", tens Offspring com "The Kids Aren't Alright", do primeiro álbum que eu comprei, a primeira CD que eu comprei com o meu dinheirinho sempre, foi o "Americano".

O meu foi o Green Day.

Green Day? Olha, também é bem básico, vou já dizer. Buraka Som Sistema com "Hangover", por causa da minha relação com o Buraka, que eu adoro, e Eminem com "8 Mile", que faz música do filme, só que as pessoas conhecem mais. Quatro, faltam-te duas músicas, estas sim, mais recentes.

Ok, o meu é o "Man I Need" da Olivia Dean.

Não é, mas esteve quase para entrar.

Tu ficas todo loquinho.

É a minha música favorita dos últimos anos.

Então essa não pode estar aí.

Não, porque há duas músicas.

Mais favoritas?

Há duas músicas que numa entrevista sobre a minha vida e o meu percurso profissional.

Ok, então tens Lawrence.

Tenho Lawrence, sim senhora. Para colar agora com o espetáculo, tenho "Family Business". Não tenho Creepnuts.

Não tens Creepnuts?

Não.

Portanto, Lawrence, "Family Business". Falta-me uma.

Lawrence, "Family Business" é a música que eu associo a este espetáculo que eu estou a fazer agora, "O Amigável". Falta-te uma música.

Falta-me uma música. Eu conheço essa música.

Conheces essa música, adoras essa música. Quando eu disser, vais dizer: "Faz todo sentido". Levares essa, faz todo sentido.

Está relacionada com que área da tua vida?

Comédia.

Comédia. É o "Comedy" do Bo Burnham.

Exatamente. Estás a ver, Rita da Nova, as seis músicas que eu escolhi.

Tirando a blaia, não há uma mulher aí.

Estás a ser mentir, porque os Lawrence são homem e mulher. Estás à procura dos teus feminismos forçados. E bateu ao lado.

Bateu ao lado, porque essa escolha é...

Eu não, eu as seis músicas da minha vida.

É mesmo, diz o Guilherme, faço eu cá ir para casa.

Agora quero saber as seis músicas da tua vida.

Não sei dizer agora, tinha de pensar. Terias mesmo ter pedido para me preparar com isto.

Não, porque era mais giro não dizer para não te preparares.

Não, imagina, dizias: "Prepara as seis músicas da vida", não davas o contexto e depois tentavas adivinhar. Assim não pode ser.

Eu conseguia fazer de cabeça, mas tudo bem.

Só ouviste seis na vida toda.

Também é essa.

Tu nunca irias adivinhar as minhas seis músicas.

Não, nunca na vida. Tu és maluca, achas que eu vou saber as tuas seis músicas? É The XX, é Florence and The Machine, e há uma Taylor Swift. Tu também és beta básica, portanto também deves ter aí uns Arctic Monkeys.

Eu nunca fui beta na vida, não sei porque me estás a chamar beta básica.

Mas porque Arctic Monkeys é beta básico.

É que depois metem-me na caixa de escritora beta. Eu nunca fui beta. É muito engraçado, mas está bem.

Por exemplo, comparado com a Maria Francisca Gama. Vou dizer uma coisa: eu adoro a Maria Francisca Gama, é nossa amiga. Aliás, até a encontrei à porta do cliché dos dias da Joana Marques, mas a comparar as duas lado a lado, nunca ninguém diria: "Não, a beta está aqui, é a Rita."

Mas já houve pessoas que me põem no saco das escritoras betas.

Olha, tu às vezes também tens tendência a um saco.

E eu fico: "Ok, então e as minhas ciganas da primária? Ficam onde?"

Eu tenho mais um tema, tens tema?

A escola da primária é essa que está a ser demolida, vimos no outro dia.

Não está a ser demolida.

Está.

Aquilo pode ser obras. O que é isso de demolida?

Parece que me mandaram aquilo abaixo que é mesmo para os ciganos terem acesso à educação. A sério, é mesmo governo de Montenegro, graças. Fogo, merdas mesmo.

Isto é inacreditável o que está a acontecer aqui. Tu não fazes ideia do que estou a demolir, não tem nada a ver com ciganos, pode ser só obras, mas tudo bem, fazem o teu percurso.

Eu acho que a esquerda às vezes também tem de ser um bocadinho populista.

Está bem.

E é isto que eu estou a fazer.

Pronto.

Estou a tirar a educação aos ciganos.

Concordo contigo. A esquerda às vezes também tem de ser um bocadinho populista.

Um bocadinho, não é muito, um bocadinho. Pronto, exatamente. O que é que querias dizer?

Sendo que às vezes a esquerda consegue ser muito populista. Muito populista. Às vezes até custa-me a interaçãoMas que interessa? O que eu ia dizer? Se quiseres trazer mais temas, tens coisas para dizer?

Não, só fui à praia.

Pronto, ok, perdão. Grande vida que tu tens.

Fui a Amesterdão, fui à praia.

É deixar de beber café e ir à praia.

Fui ver o João Marcos também, mas com uma amiga.

Agora a nossa vida já não se cruza. Perdão, tenho um bocadinho na boca. No outro dia aconteceu uma coisa muito engraçada, que é um superpoder. Tu tens e que eu acho que era divertido trazer para aqui.

Superpoder em bom ou em mau?

Posso?

Ok. Se é mau, não quero que tragas.

Vou trazer, porque é divertido. O teu pai ligou-te e nós estávamos em alta-voz no carro. Estávamos em videochamada no carro, não, estávamos em alta-voz. E tu disseste: "O meu pai vai atender a chamada com alô, alô". E tu carregaste no verde e quando se ouve a voz do teu pai, o teu pai faz assim: "Alô, alô".

Estas são todas previsíveis.

A minha pergunta para ti era o seguinte: como é que eu atendo o telefone?

Tu é: "sim". Ou então, depende.

Não é um "alô".

Depende da pessoa. Comigo é: "sim", porque eu não desligo.

Ya, eu acho que está a acontecer alguma coisa.

Se for com alguém é: "alô" ou "olá". Fazes assim.

Sim, a minha voz vai para cima.

É, mas quando é comigo é. Por exemplo, essa é que eu tenho, por isso é que o meu pai também não atende "alô, alô" toda a gente.

Claro, é para ti.

Mas contigo é: "sim".

Sim.

"O que é que se passou?" Como é que eu atendo o telefone?

Eu acho que tu atendes o telefone com: "estou".

Sim, é verdade. "Estou".

É um "estou". Tu és "estou". Que é meio estúpido. Nós quando dizemos ao telefone "estou", tu sabes que estás. A outra pessoa é que tu queres saber. Faz mais sentido o "está lá".

"Está lá?"

Para saber se está lá a outra pessoa.

"Estou."

"Estou" é tipo "tu".

Mas é tipo: "estou, tu estás?"

Tu vais atender o telefone e vais dizer: "estaremos? Boa tarde, sim, diga".

Não, eu sou assim.

Não, tu és mais "estou".

"Estou."

Eu é: "alô."

Por acaso, diz.

Não, eu não fiz barulho para te interromper, era para tu seguires. Porque às vezes quando é o meu agente, eu atendo a dizer assim, se não é um grande avato.

É que nós temos formas de atender o telefone diferentes para cada pessoa.

Pois, também é verdade. Eu gostei muito de tu saberes imediatamente como é que o teu pai ia atender o telefone.

É verdade. É assim. E não falamos às vezes com o meu pai ao telefone, mas o meu pai tem sempre aquelas coisinhas dele que são previsíveis. E tinha uma coisa apontada para caso que não.

Era isso que ias dizer e eu tentei interromper o caso.

Que é: nós este fim de semana fomos a um almoço de família.

Sim, senhora. Tu tens uma puta de uma família que nunca mais acaba. Rita, nós temos que conversar sobre isto. Eu estou contigo há 10 anos. 11.

Vai fazer 11.

Vai fazer 11 anos agora, em julho. Nós estamos juntos há 11 anos. Eu continuo a conhecer familiares teus. Esses vêm do estrangeiro e mesmo que cá juntam-se a outro que eu ainda não tinha visto, tua família nunca mais acaba!

Tu achas que ajudaria se a minha família se sentasse por grau de parentesco em relação a mim nos jantares?

Eu gostava de fazer visualmente uma árvore genealógica. Ou seja, eu punha-te e depois um bocadinho mais acima punha o teu pai e a tua mãe. Percebes? Visualmente fazer a árvore genealógica.

Com fotos.

Porque a tua família, só o teu pai ter tido filhos com três mulheres, já começa a baralhar. Depois, o teu pai tem não sei quantos irmãos.

Tem três irmãos, eles são quatro.

Tu tens não sei quantos primos. Depois tens a tua avó do lado do teu pai, tem um irmão e depois há imensa família por aí. Parem!

Ainda não conheceste o meu avô.

Não, ele está morto. Sei lá, eu agora pensei: "pronto, não, que eu vou a um almoço, deve estar a morar em Badajoz", eu sei lá. É que eu cresci com uma família mínima. Eu cresci com, do lado da minha mãe havia uma irmã, uma tia, neste caso, que tinha um filho. Do lado do meu pai havia um irmão que tinha um filho. Ponto final, acabou. Não ama ninguém, divirtam-se. Mas depois ninguém sabe falar com ninguém.

Pois é isso.

Ou seja, mesmo estas pessoas também não sabem falar com ninguém. E a minha família era assim, era pequenina, eu conhecia todos, de nome, sabia todos. Como é que a tua família, o que é isto?

Eu acho muita graça, porque eu noto sempre que tu estás, eu estou a falar com esta pessoa, mas eu não sei bem quem é.

Não faço qualquer espécie de ideia. Eu ontem fiquei sentado ao lado de uma pessoa que até teve de se ir mais cedo.

E ainda agora não sabes quem é.

Rita, eu estive muito tempo no almoço a tentar fazer o exercício consciente, como se fosse um videojogo, tipo: "now", eu vou resolver este puzzle. Qual é a ligação desta pessoa com as outras que estão na mesa?

E qual era?

Não faço qualquer espécie de ideia.

Não sabes?

Não sei.

Ela é minha prima.

Está bem, essa frase é verdade para 90% da mesa.

Ela é filha da irmã do meu pai, que não estava.

Mas que não estava!

Não estava.

Estás a ver, depois há essa ligação que é, eu tento ligar as pessoas e faltam pessoas lá que quebram as ligações. Como é que eu ia chegar lá se aquela tua prima não tinha a irmã do teu pai, que é mãe dela e não estava lá?

Não ia chegar.

Eu esqueci-me das pessoas que não estão lá. Eu nem me lembrava que o teu pai tinha a irmã.

Tem, tem uma irmã mais velha que não estava lá.

Rita, não dá. Desculpa lá.

É muito engraçado como ninguém sabe fazer.

Eu "Game of Thrones" eu consegui, eu fiz as ligações todas.

É mais fácil do que "Game of Thrones".

Não é, não.

É.É muito mais fácil.

Não. Porque o gambá comeu os gafanhotos, ou taglieratelle numa mesinha, todos seguidos, e eu não tive que complementar gambá comeu todos.

O meu pai tem três irmãos. O meu pai é o mais novo.

Não, até aí vou.

Pronto. A minha tia mais velha teve duas filhas.

Ok.

E depois adotou outras três.

Ok.

Mas agora não tem bem relação com a grande parte dessas três que adotou.

Ok.

Não lembro se eles são casados, mas a minha tia Paula...

"Não me lembro", diz a própria, da família. Não lembro.

Não sei se são casados, não lembro-me quem é que é mais velho. A minha tia, então a minha outra tia, teve dois filhos. Um dos filhos estava lá.

Ok.

Que eu disse que era muito parecido com ela, um primo que eu disse que era parecido.

Que a certa altura ficou preocupado com o carro e foi ver o carro.

Exatamente.

Já sei exatamente, óculos escuros.

Sendo que a prima onde tu ficaste ao lado, é filha da primeira irmã do meu pai, da que não estava.

Ok.

Pronto. Depois está o meu tio.

Que eu achei que era filho do teu pai.

A certa altura, que é bem mais velho que o meu pai.

Mas está muito bem conservado.

Está. Não dirias que o meu tio tem quase 70 anos.

Não, de todo. O teu tio parece um homem de 50 anos.

Provavelmente tem 68 anos.

Pois não, não dá não.

Que tem quatro filhas.

Ok.

Também de mulheres diferentes.

Ok. Eu vou-te abalar. A tua família anda a espalhar semente. Porque o teu tio teve quatro mulheres. O teu pai teve três mulheres. O que é que se passa?

Uma delas é a Princesa da Disney que tu conheceste na Disney.

Conheci sim senhora a Princesa da Disney, exatamente.

E depois há o meu pai, com os filhos dele, que já sabes esse lado todo.

Muito bem, excelente, interessantíssimo. Rita, vocês andam a espalhar muito bem a vossa semente. Os Novas andam para aí.

Os da Nova.

Os da Nova andam para aí a proliferar todos por aí, pelo mundo, a pipilar e a espalhar a sua semente.

Adoro a expressão pipilar.

Estou muito feliz por todos vocês, sejam muito felizes. Agora não peçam é para decorar as ligações todas entre vocês, que eu não consigo todas.

Depois ainda vai gente que não é da família. Não sei se reparaste que está lá sempre a grande amiga da minha avó, que é a Helena.

Sim, essa senhora eu percebi que era só amiga. Era amiga.

Que a minha avó conhece há mais tempo do que qualquer pessoa naquela mesa, porque elas são amigas da primária.

Muito bem.

Elas são amigas desde o terceiro ano da escola.

Eu não tenho nenhum amigo na minha vida, que eu conheça desde essa altura. Eu tenho dois amigos, o Nuno e o Zé Miguel, sendo que o Zé Miguel e eu reaproximamo-nos mais recentemente. Nós estivemos muitos anos sem nos ajudarmos, começámo-nos a ajudar mais recentemente.

Porque fizeste aquilo.

O quê?

Não queres falar?

Coitado. Não, o Zé Miguel não fez nada, coitadinho. Dava excelentes festas na sua casa ali em Belém, ao pé do Alive. Tem um grande casarão, a família dele, e nós íamos para lá. Beto, básico. Nós íamos para lá, dávamos beijinhos na boca.

Um ou outro.

Sim. E o Nuno, que é provavelmente o meu amigo mais antigo. Esses dois são mais ou menos dos meus três, quatro anos de idade. Portanto, eu conheço-os há 35 anos. Pronto, ok. São muito antigos. Ya, de facto, eu tenho dois amigos da altura da primária.

Antes da primária, até.

Antes da primária. Não sei quando é que é a primária.

É cinco, seis anos.

Cinco, seis anos.

Na verdade, seis, sete.

Six, seven. Desculpa.

Six, seven. Eu entrei na primária com cinco, porque fazia seis em setembro.

Ok, faz todo o sentido.

Mas é muito engraçado ver aquela amizade. Elas são amigas desde a primária e estão sempre juntas.

Tu ainda te lembras das tuas amigas da primária?

Não. Falando do meu primeiro namorado da primária, que era o Rui.

Ok.

Depois explico a minha relação com o meu pai.

Namorado da primária.

Namorado, com muitas aspas.

Certo, ninguém achava que vocês estavam a dar béls-língua, mas eu adoro essa noção de namorados na primária.

Sim. Hoje em dia faz-me um bocado de confusão quando as pessoas perguntam aos miúdos: "E namoradas?" Eu fico: "Que horror". Mas depois eu lembro-me: "Pois, eu tinha o Rui".

E vocês apenas davam a mão? Como é que era o teu...?

Não, ele dava um beijo e eu dava-lhe um beijinho.

E eram só namorados.

Éramos só namorados.

Eu lembro-me que nessa altura as pessoas trocavam muito depressa de namoradas. Tipo: "Não, eu já não ando com a Tânia, agora ando com a Carla. É a minha namorada, a Carla". "Não, a Tânia agora está com o Pedro".

E há miúdos da primária que têm mais do que uma.

Têm várias namoradas.

A relação poliamorosa está banalizada na primária.

Muito bem. O poliamor na primária e nas artes é onde prolifera mais. Agora consegui dizer à primeira, fiquei muito contente.

Muito bem. Uns e-mails?

Eu não sei se nós temos tempo para e-mails.

Tu estás sempre com esta história de não temos tempo para e-mails. Acho que um e-mail pelo menos temos, diz.

Eu também. É que eu tinha aqui mais um...

Então diz lá.

Eu deixo passar a semana. Não há pressa nenhuma, eu deixo passar.

Faz malha, é engraçado.

Eu deixo passar a semana. Então, qual é que tu queres?

O primeiro, amizade tóxica.

Amizade tóxica, vamos embora.

Da Lila e da Lenù, que são as personagens principais de um livro chamado "A Amiguinha" de Elena Ferrante.

Exatamente.

Fala precisamente disto: "Caras terapeutas, o meu nome é Lenù, tenho 29 anos e vivo na Suíça há três anos. O dilema que me fez escrever este e-mail está relacionado com uma amizade minha. Eu conheci a Lila na escola e desde então fomos inseparáveis. Como qualquer outra amizade, passámos por altos e baixos e há alturas mais próximas do que outras. Com o passar dos anos e com as vidas diferentes, a nossa amizade começou a sobreviver remotamente com base em mensagens e chamadas. Por causa disso mesmo, nada mudou quando eu decidi mudar-me para a Suíça. Até um dia. Eu tinha-lhe mandado várias mensagens a contar o meu fim de semana com bastantes detalhes, ao que ela me responde única e exclusivamente a uma coisa para dizer que eu estava errada".

A responder a uma coisa? Ou seja, ela faz assim um scroll em várias mensagens.

Ela respondeu a uma coisa: "Estás errada".

Ela selecionou-me e disse: "Não, esses passos não são os escolhidos".

"Ora, isso não me caiu muito bem e sinto que tive um momento em que pensei: espera lá, o que é isto? Acho que comecei a ver todos os nossos anos de amizade a passar à frente, estilo película de filme, e comecei a questionar-me sobre esta amizade".

Tipo aqueles record scratch.

"Apercebi-me de que este padrão de me corrigir e ter necessidade de provar que sabe mais do que eu já existe há muito tempoAlém disso, acho que ela tem sempre a necessidade de se mostrar superior e de desvalorizar as minhas conquistas. Tudo o que acontece de bom na vida dela é porque ela trabalhou muito e tudo de bom que eu tenho foi sorte. Vocês percebem o estilo, certo? O problema é que isto é um microdosing de uma amizade tóxica e tudo isto vai acabando por passar despercebido ou de parecer minúsculo se decidir dizer que me incomoda.

Ok.

Só que agora que eu vi este padrão, não consigo desver e tenho necessidade de me distanciar emocionalmente mais da Lila, para não ser tão afetada pelos comportamentos dela. Não quero terminar esta amizade por completo, pois tenho medo de me arrepender. Mas como é que crio mais distância sem que ela me confronte com isso? Acima de tudo, não quero mentir nem ser falsa com ela e também não quero estar a apontar o dedo a todas as coisas que eu acho que ela fez de errado.

Sim, também vou interromper aqui para dizer: não melhora, não ajuda e não acrescenta tu agora dizeres "porque em 98 tu fizeste isto, porque em 2006 tu fizeste isto". Ou seja, ter esses recibos agora não vai adiantar para nada.

Existem sempre dois lados da mesma história e de certeza que ela tem a versão dela em que eu sou a má da fita. Ajudem-me a gerir esta amizade. Obrigada pelo entretenimento semanal. Peço apenas algumas referências desta história porque sei que a Lila ouve este podcast.

Muito bem.

Olha, este ano e meio.

Sim, senhora. Dá-lhe.

Realmente é muito engraçado quando tu percebes que estiveste a ver as coisas todas de uma forma e que se calhar elas eram de outra. Acho que esta experiência da Lenú é superválida, mas quero lançar um ponto para reflexão da própria Lenú, que é: se ela não está em retrospetiva a ver coisas onde elas também não existiam. Porque às vezes é fácil nós vermos padrões onde eles não existiam quando nós achamos que nos estamos a aperceber de um padrão.

Ok.

Ou seja.

É fácil fazeres um pequeno nudge nas memórias para elas caberem nas memórias que tu tens para elas.

Exatamente, porque as memórias são coisas traiçoeiras. E ok que tu agora te apercebeste que ela faz este microdosing de amizade tóxica.

E de facto, se calhar, a personalidade dela pode ser assim.

Mas se calhar, o que a Lenú está a ver, se calhar até nem foi bem. Ou seja, eu não quero dizer que a outra não estava a ser tóxica, mas se calhar não é tanto como ela achava. E por isso percebo que ela não queira agora estar a dizer: "Olha, tenho aqui o meu caderno com todas as vezes em que tu foste uma amiga tóxica. Dia 2 de fevereiro de 2000". Não é isto, não é?

Sim, eu percebo.

Mas também percebo que ela tem necessidade de se afastar um bocadinho desta amiga. Agora, das duas, três: ou ela sente que é uma decisão, porque eu já estive aqui. E se tu não falas-

Tu falas com um tom tão sério que eu interrompi. Parece que a tensão ficou.

Se tu não falas, não vais resolver.

Isso é verdade para 98% dos e-mails que recebemos aqui. Se as pessoas não falam, nada se vai resolver. Se tu começas só a notar um padrão e a ver as coisas e não fazes nada para mudar, esquece.

E afastar-te. A coisa vai para o abismo até abaixo.

Faço a pergunta de outra maneira: o que é que tu preferes? Continuar com a amizade exatamente como ela está, com os defeitos que tem e que tu não aguentas e não gostas, ou tentar mudar a amizade, mesmo que isso faz com que ela acabe?

Pois.

Não é melhor isso?

Eu acho que é sempre melhor, porque podes estar a pôr em risco uma amizade que é importante para ti, mas, por outro lado, o que as pessoas não sabem que nos fazem, não é real para elas.

Cagando a frase, Rita Danova. Podes repetir?

O que as pessoas não sabem que nos fazem não é real para elas.

Exatamente. Se ela não tem noção nenhuma daquilo que te está a fazer.

E pode ter.

Até pode ter, mas pode ser só. Às vezes nós tratamos mal as pessoas que temos perto.

Por proximidade.

Por proximidade. É só uma questão de esta pessoa está aqui, eu posso extravasar um bocadinho porque eu sei que ela não sai daqui. E às vezes acabamos a ser injustos com as pessoas que temos perto, sem necessidade e às vezes até sem maldade. É só um exagero por proximidade, como eu disse. E portanto, ela até pode nem ter bem noção de que contigo te trata de uma maneira-

Que não é fixe.

Que não é simpática, exatamente. Pronto.

Eu acho que nós temos sempre-

Tu disseste três, duas, uma, interrompi para fazer a pergunta.

Não, era das duas, três é uma expressão, são só duas hipóteses.

Ok.

Que é, eu acho sempre que nós devemos dizer às pessoas: "Olha, isso que tu fazes X, Y e Z, não é fixe para mim. Não gostei. Não me trata". Não, acho que sim.

Eu estou a rir porque há exatamente três minutos ganhámos um novo membro do nosso Patreon.

Foi.

Há exatamente três minutos, estavas a ler o e-mail e recebemos um membro.

Acho que foi a Lila.

Achas que foi a própria?

Não, a Lila é outra.

Achas que foi a própria Lila?

Que veio dar a sua verdade dos factos.

Achei graça, foi exatamente neste momento.

Mas é que é isto, acho que, percebo perfeitamente que tenhas necessidade de te afastar, mas acho que afastamento sem contacto não é muito fixe.

Pois é isso. Eu até acho que é injusto da tua parte fazeres isso à tua amiga. Se de facto há uma coisa que te deixa descontente, mesmo que ela reaja mal, mais vale tu dizeres: "Olha, tens tido esta atitude comigo". Não tens que dizer historicamente és assim comigo, podes dizer: "Olha, estás numa fase em que és assim comigo. Tens dito isto assim desta maneira. Eu gosto de ti, mas isto é desagradável para mim. E eu gostava de perceber se foi alguma coisa que eu fiz, se é uma fase que tu estás a atravessar ou se é só uma maneira que tu tens de falar comigo, que agora me está a magoar e não me magoou antes". E isso é que é ser amigo. Eu não percebo as pessoas que dizem: "O meu amigo não sei quê, eu tenho um amigo que não sei quê, eu tenho uma amiga que não sei quê", e depois não têm abertura e espaço para falar diretamente com elas sobre essas coisas. Então é de facto uma amizade ou é só um conhecido que vocês estão habituados a estar com? É uma coisa completamente diferente, porque uma amizade é uma pessoa ter, de facto, espaço. E atenção, eu sei que mesmo nas pessoas que nós amamosPode ser família, pode ser a nossa mulher ou o nosso marido, pode ser o nosso namorado, pode ser o nosso amigo mais próximo. Às vezes nós não queremos dizer as coisas que nos magoam porque não queremos mudar o panorama. Uma pessoa prefere manter a vida como está do que estar a chatear-se e a ser chata e a pôr em causa ou a deixar espaço para acabarem as relações que temos próximas só por causa de uma tontice qualquer. Mas é sempre melhor quando se fala.

Sim, é que depois eu também percebo o outro lado, porque eu tendencialmente sou a pessoa que fala. Se calhar não logo, mas há momentos em que para mim se torna completamente insuportável e falo. E não deixa de parecer que somos a pessoa que está a chatear, que é tipo: "Ai, lá vem esta agora".

Pronto, outra vez um problema na nossa relação.

Outra vez um problema.

Sim. Porque a outra cena que eu ia aconselhar, só para terminar, à Lenu, é eventualmente uma espécie de um quiet quitting.

Mas esse quiet quitting, que eu percebo, até que ponto é que é justo para as pessoas envolvidas?

Não é justo nem para a própria, nem para a Lila.

Nem para a outra pessoa.

Sem dúvida nenhuma. Mas às vezes, se tu já falaste com as pessoas, se tu já explicaste: "Olha, o meu problema da Lila é a maneira como a outra está sempre a corrigi-la e a desvalorizar as suas conquistas". Certo. Se já falaste, já disseste, já explicaste o que tu sentes em relação àquilo, aquilo continua, então é do género: "Então eu não sou feliz contigo, não sou feliz a estar contigo, não sou feliz a ser tua amiga, não estás a ser a amiga que eu preciso ou quero. E então, eventualmente, eu gosto de ti, és uma pessoa importante na minha vida, dava-me contigo e dou-me contigo, mas vais perder importância na minha vida. E eu quero estar com outras pessoas que me valorizam, que gostam mais de mim, que me tratam bem. E se eu já te expliquei várias vezes o que eu sinto e tu não tens nem capacidade, nem autoanálise de mudar e de perceber da maneira como isso é importante para mim, então vou-me afastar".

Claro. Acho justo.

terapiadecasalpodcast@gmail.com é para onde vocês podem enviar os vossos e-mails com todas as vossas dúvidas, problemas e questões da vossa vida. Nós aceitamos de tudo, sejam problemas familiares, na relação, sejam problemas de amizade, como vocês podem ver exatamente aqui, a Lenu a escrever para nós. Nós aceitamos todo o tipo de e-mails.

E o vosso top seis de músicas favoritas da vida também.

Se quiserem mandar em giro.

Sim.

Top seis de canções da vida das pessoas.

Também top seis é o pior tipo de top.

Pois é.

Que não é cinco, nem é 10.

Ou cinco, ou 10, ou três. Ou três, ou cinco, ou 10.

Também achei top seis uma escolha criativa.

Temos que aceitar as pessoas como elas são, Rita.

É verdade.