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Cá estamos para o novo episódio de "Tratar da Saúde". Bom dia, doutora Vanessa Mendes. Bem-vinda.
Bom dia, obrigada.
E se fosse possível prever o risco de demência 20 ou até 25 anos antes dos primeiros sintomas? É isso que sugere um novo estudo internacional que acompanhou milhares de mulheres ao longo de mais de duas décadas. Doutora Vanessa, o que este estudo nos vem mostrar?
Pode parecer surpreendente, mas é exatamente isso que este estudo sugere. Um simples teste ao sangue poderá identificar sinais muito precoces associados à doença de Alzheimer, décadas antes de qualquer queixa.
Mas como é que isso foi possível? Como é que isto é possível?
Este estudo acompanhou cerca de 2700 mulheres ao longo de mais de 20 anos, como referiu. Ao longo desse tempo, foi avaliada no sangue uma proteína, que é uma proteína associada à doença de Alzheimer, a p-tau217, para ser mais precisa, que está diretamente relacionada com as alterações típicas da doença. E o que se verificou, e que foi muito relevante, foi que mulheres com níveis mais elevados desta proteína tinham maior probabilidade de desenvolver demência no futuro, mesmo muitos anos antes de surgirem sintomas. Ou seja, estamos a conseguir identificar uma fase muito precoce da doença, numa altura em que ainda não há qualquer manifestação clínica.
Doutora, e isto muda completamente a forma como vemos esta doença, não é?
Sim, muda. Muda e de forma muito significativa. Hoje sabemos que a doença não começa quando aparecem os primeiros esquecimentos, começa muito antes e pode evoluir de forma silenciosa durante anos ou até décadas. E isto é importante porque nos mostra que pode existir uma janela de oportunidade para atuar mais cedo, antes da doença se manifestar.
E este teste já pode ser feito por qualquer pessoa? Como é que funciona?
Não, ainda não. E é importante sublinhar aqui que ainda estamos-
Não é para toda a gente correr para o médico e pedir este exame.
Nada disso. É importante sublinhar que estamos numa fase de investigação ainda, e este tipo de teste não é diagnóstico, o que significa que mesmo que uma pessoa tenha um valor muito elevado ou mais elevado a esta proteína, não significa que vá desenvolver esta demência, é apenas uma possibilidade. E por isso levanta também questões éticas importantes, desde o impacto emocional de saber, até à forma como essa informação pode ser utilizada, dado que ainda não temos disponível nenhum tratamento curativo para esta doença. E isto é um ponto importante a destacar. E por isso diria que são ainda necessários mais estudos, antes de pensarmos numa aplicação generalizada.
Mas de qualquer forma, doutora, há uma mensagem muito importante que se pode deixar, não é?
Sim, sem dúvida, que a saúde do nosso cérebro não começa a ser cuidada quando surgem os sintomas, começa muito antes. Aquilo que fazemos ao longo de toda a nossa vida tem impacto direto no risco de desenvolver esta doença. E medidas como controlar a tensão arterial, manter atividade física, dormir bem, ter uma alimentação equilibrada e até estimular o cérebro, têm um efeito benéfico já comprovado na manutenção da função cognitiva. E portanto, isto é particularmente relevante quando percebemos que estas doenças podem começar de forma silenciosa muito antes de darem sinais. No fundo, esta investigação veio reforçar uma ideia essencial: a prevenção começa décadas antes. E é nas escolhas de hoje que estamos, de facto, a proteger a memória do futuro.
TratardaSaúde@observador.pt é para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também pode enviar o seu áudio por WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa, até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.