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Este é o "Tratar da Saúde" da Rádio Observador, sempre com a doutora Vanessa Mendes. Doutora, bom dia.

Olá, bom dia.

Nos últimos dias voltaram a surgir notícias e alertas internacionais sobre o aumento de casos de sarampo em vários países europeus. Uma doença que muitos consideravam praticamente controlada está novamente a motivar preocupação das autoridades de saúde. Como é possível que uma doença quase erradicada por vacinação esteja a regressar e que papel tem a chamada hesitação vacinal neste fenómeno? Doutora Vanessa, estamos realmente a assistir a um retrocesso em matéria de saúde pública?

Diria que em alguns aspetos, sim. O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas que conhecemos. Uma única pessoa infetada pode transmitir o vírus a cerca de 12 a 18 pessoas suscetíveis. E antes da introdução da vacina, o sarampo era responsável por milhões de casos e inúmeras mortes em todo o mundo. A vacinação permitiu reduzir drasticamente a incidência da doença, mas para isso é necessário manter elevadas taxas de cobertura vacinal.

Por que estamos a assistir a esta diminuição da vacinação?

Existem vários fatores. A desinformação nas redes sociais é um dos mais importantes. Muitas pessoas nunca contactaram diretamente com doenças como o sarampo e acabam por, de alguma forma, subestimar a sua gravidade. Paradoxalmente, o sucesso das vacinas fez com que deixássemos de ver estas doenças no dia a dia. E quando a perceção do risco da doença diminui, algumas pessoas começam a questionar a necessidade da vacinação. As próprias autoridades de saúde têm alertado para o impacto crescente da hesitação vacinal, como se diz, no reaparecimento de surtos de sarampo.

Falou na perceção do risco da doença estar a diminuir. Há quem considere o sarampo uma doença benigna da infância?

Sim, há, e esta é uma ideia que importa corrigir. Porque embora muitas crianças recuperem sem sequelas, o sarampo pode efetivamente causar complicações graves, entre elas pneumonias, encefalites, com consequentes internamentos hospitalares e em alguns casos até levar à morte. Portanto, crianças mais pequenas, grávidas e pessoas imunocomprometidas são grupos particularmente vulneráveis. Além disso, não existe tratamento específico, e por isso a melhor estratégia continua a ser a prevenção através da vacinação.

Quando falamos de vacinação, estamos também a proteger as outras pessoas, não é?

Algumas pessoas não podem ser vacinadas por razões médicas e, portanto, a proteção dessas pessoas depende da chamada imunidade de grupo. No caso do sarampo, precisamos de coberturas vacinais superiores a 95% para evitar a circulação do vírus. E quando a adesão à vacinação diminui, essa barreira coletiva naturalmente enfraquece e os surtos tornam-se assim mais prováveis.

Ou seja, quando estamos aqui a falar de vacinação, não estamos apenas a falar de uma proteção individual, de cada um. Estamos também a falar de uma responsabilidade coletiva e da proteção daqueles que são mais suscetíveis, mais vulneráveis.

É isso mesmo. E o reaparecimento de surtos de sarampo recorda-nos algo muito importante: os progressos em saúde pública não são irreversíveis. Muitas das doenças que hoje quase não vemos continuam a existir, simplesmente deixaram de circular porque a vacinação funcionou durante décadas. E quando a cobertura vacinal diminui, essa proteção coletiva enfraquece e as doenças encontram novamente espaço para regressar. E é precisamente por isso que a vacinação continua a ser uma das ferramentas mais eficazes da chamada medicina moderna.

Portanto, o facto de quase já não vermos sarampo não significa que a doença tenha desaparecido.

Isso mesmo. Significa, na verdade, que durante muitos anos a vacinação fez exatamente aquilo que devia fazer: proteger a população e impedir a circulação do vírus.

Foi mais um "Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes, que está de regresso amanhã. Até lá.

Até amanhã. Obrigada.