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Ontem vocês viram aquilo ou não viram aquilo?
Vi em repetição.
Viram em repetição? Nós estamos a falar da chegada do Mourinho ao Aeródromo dos Lilases.
Mas aconteceu mais alguma coisa?
Não, eu também vi em repetição a chegada do Mourinho. Foi emocionante.
E só a narração deles.
Incrível. Estamos a falar de-
Estão a falar de coisas diferentes, vocês.
Não, estamos a falar da mesma coisa.
Não, o Carla agora estava a falar de coisas diferentes. Estava a ser irónico.
Eu estava a ser irónico. Estava a falar ainda do Mourinho.
Não, eu estava a falar-
Já estavas a falar do Isaque Nader.
Exatamente.
Que conseguiu ontem.
Distraí-me então, desculpa.
Isaque Nader. Eu também só vi depois a repetição.
Que maravilha! Eu estava com o meu filho, estávamos os dois pregados à televisão e eu estava a tentar explicar e dizer: "Olha, isto pode ganhar qualquer um", porque as corridas de 1500 metros são muito táticas. Normalmente, até os tempos que são feitos são tempos que são ao alcance de qualquer um dos finalistas e vai depender muito da tática. E ontem a tática melhor foi a do atleta português Isaque Nader, que se sagrou campeão mundial dos 1500 metros. Eu não estou a dizer isto por sermos agora campeões, os maiores, de vitória, ganhámos, mas de facto é a minha prova preferida de atletismo.
Os 1500?
Os 1500, desde que Mário Silva, nos Europeus de Split, em 1990, conquistou uma medalha de bronze completamente inesperada para nós.
Eu estou presa nas imagens, porque é tão incrível vê-lo. Vai quinto ou sexto, como se nada fosse, e de repente aquele sprint final.
A meio da última volta, ainda ninguém pode sonhar que ele vai ganhar aquilo. Está bem atrás.
E é sempre muito tático. Às vezes há surpresas. Eu não sei se foi nos Jogos Olímpicos ou no Campeonato do Mundo. Creio que foi nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que a vitória foi para um atleta norte-americano, que ganhou em três minutos e 51 segundos. Só para terem uma ideia, ontem a corrida foi em três minutos e 34 segundos e o recorde pessoal do Isaque Nader está na casa dos 3:29. Portanto, para verem como às vezes a corrida é tão tática.
Ficam um bocadinho à espera de ver o que é que acontece.
Exatamente.
Sem um bom ritmo.
Ninguém avança, ninguém quer puxar muito. E depois há estas surpresas. Ontem não foi uma surpresa neste sentido. Isaque Nader sabia-se que tinha capacidade para poder vencer esta prova, para chegar às medalhas. Foi uma surpresa ver aquela ponta final, que foi verdadeiramente épica.
Espetacular. Ele próprio a olhar para o ecrã, do género: "Será que eu pisei mesmo a linha?"
Eu acho que os dois cortaram a meta em simultâneo. O Isaque Nader e um britânico.
Jack Waitman, sim. Campeão do mundo também. Ontem, não.
E eu acho que nenhum deles teve a noção clara, no momento seguinte, de quem é que tinha ganho.
E o Isaque Nader depois conta que-
É que ele ficou a olhar para o ecrã
...esticou a cabeça, coisa que ele normalmente não faz, segundo o próprio, mas que estava em causa uma medalha de ouro. Então valeu a pena.
Vale a pena esticar a cabeça.
É bom ter o pescoço comprido.
Para ganhar. Muitos parabéns a Isaque Nader. Foi uma grande emoção ver aquela prova.
Eu não percebo nada de atletismo, mas-
Não percebes? Paulo, até parece. Tu que todas as manhãs.
É atletismo motor.
Nem de correr atrás do autocarro para o apanhar. Mas o atletismo português é cada vez melhor nestas provas que são mais técnicas. Isto é, distâncias mais curtas.
Menos velocidade e menos resistência.
Os 1500 não é uma prova técnica, não é de fundo, é de meio-fundo. E nós temos até alguma tradição nos 1500. Aliás, Portugal tem oito títulos de campeão mundial em atletismo, desde ontem, e um deles era precisamente o de Carla Sacramento em 1997, que foi campeã mundial nos 1500 metros e também Rui Silva conseguiu uma medalha de bronze nesta disciplina. A verdade é que o que deixámos ter foi aqueles atletas do fundo, sobretudo no setor feminino, que era muito forte. Eu lembro-me de campeonatos do mundo em que nós até quase limpávamos as medalhas todas, nos Campeonatos da Europa também, e isso perdemos hoje.
Houve uma viragem para os atletas africanos, sobretudo os etíopes.
Sim. Mas hoje, curiosamente, nestes Campeonatos do Mundo, tem havido surpresas. A prova dos 10.000 metros foi conquistada por um atleta francês, o que já não acontecia há muito tempo, ser um atleta europeu a vencer essa distância, mas de facto o domínio no fundo tem sido nos últimos largos anos de etíopes e quenianos. E agora temos um campeão do mundo português nos 1500 metros.
Tens tempo para mais um toque.
Vou dar mais um toque, porque quero dar aqui um incentivo ao Paulo.
Obrigado. Não sei o que é, mas obrigado.
Não, é para todos nós.
Incentivos são sempre bem-vindos.
É para todos nós. Eu queria criar aqui, dentro do "3 Toques", uma rubrica que seria-
Um segmento
...um segmento que acontece a todos.
Acontece aos melhores.
Acontece aos melhores. Não se preocupem muito.
Podia ser consigo, podia ser eu. Algo assim.
Exatamente. O Usain Bolt, recordista.
Podia ser eu.
Não!
Só precisavas dizer isso: o Usain Bolt, Paulo Ferreira.
Podes ser tu. Porquê? Porque o Usain Bolt já não é aquele homem que corria mais rápido do que ninguém. Aliás, ainda é recordista do mundo dos 100 metros.
É ele, ainda.
Ele agora tem estado a acompanhar em Tóquio o Campeonato do Mundo dos 100 metros e ele diz: "Isto já não é como era, porque às vezes subo um lance de escadas e já fico cansado."
Olha, já somos dois.
Olha, também pode ser: já somos dois.
Olha, já somos dois. É isso mesmo.
Essa é boa.
Ele diz: "Às vezes, se estiver de bom humor, faço exercício. Assisto a algumas séries, o que é ótimo para o cardio, e relaxo até as crianças chegarem a casa." Portanto, depois de assistir a séries, o que é que ele faz? Descansa.
Aquilo é muita adrenalina.
Imagina o que é ver Os Sopranos. É uma maratona. Aquilo é uma maratona, é muito cansativo. Então ele dizer: "Eu agora estou um bocadinho sedentário e tenho de voltar a fazer algum exercício", depois ele fica preocupado.
Ele tem?
Ele tem 30 e qualquer coisa. Tem a ver lá.
É bom ancora.
É um rapaz jovem da nossa idade.
Tem 39?
39.
Está na nossa idade.
É, é da nossa idade.
E já se cansa a subir um lance de escadas. Portanto, Paulo, não estamos assim tão mal.
Temos esperança.
Temos esperança. Já não é já somos dois, já somos três, já somos quatro.
Claro, aqui claros pontos em comum. Só não faço é os 100 metros em menos de 10 segundos. Tirando isso.
Não faz ainda, ainda és um jovem.
Mas eu olho para ti.
E ela só vai em 30 segundos.
O Paulo é mais atletismo a motor. Isso é mais o desporto.
Olha, o que é que fica para amanhã?
Fica para amanhã uma história que tem muito a ver com aquilo que temos já falado aqui várias vezes, que é deste estranho surto de jogadores de campo que vão à baliza e brincam na baliza. Se calhar andaram enganados este tempo todo, mas fica para amanhã essa história.