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Este podcast tem o apoio de Banco Credibom. Trocos no Bolso, eles por cá continuam e como vamos já no terceiro episódio, cada vez mais bem compartimentados vão estando estes trocos. Temos vindo a conhecer histórias de pessoas que sabendo poupar, abriram a porta para concretizar sonhos. E por falar em sonhos, desde as Caraíbas, mais concretamente Martinica, junta-se a nós Sofia Soares. Sofia, bem-vinda.
Bom dia.
Sofia, nós vamos focar-nos sobretudo em finanças pessoais. Tu tens, no entanto, um percurso de viagens tão interessante que eu vou deixar o teu número com o João Miguel Santos, ele tem por aqui um podcast sobre viagens e viajantes. Fica aqui o convite/promoção do programa. Isto porque tu actualmente és professora primária e tradutora no Tribunal Judicial de Martinica. Mas tudo começou depois de teres acabado a licenciatura em Lamego, porque juntaste uns trocos ou até mais do que isso, e foste um ano para Londres, certo? Eu quero perguntar-te desde já como é que juntaste esse dinheiro e como é que te aguentaste numa cidade que é conhecida por cobrar os olhos da cara.
É simples. Para juntar dinheiro, quando chegamos num sítio que acabamos de tirar uma licenciatura e que ainda não temos muito dinheiro, primeiro para ir para Londres, claro que tive um bocadinho de ajuda da família. E ainda bem que a família portuguesa é tão amiga, tão rosinha. Então o meu objectivo, como eu tinha feito estudos e queria um ano para decidir o que eu queria fazer da minha vida, pensei: porque não estar em Londres? E em Londres fiz coisas simples como dog sitting, guardar os cãezinhos das tiazinhas e das senhoras de Londres. Como vivia, por exemplo, numa casa grande com muitos amigos e assim a renda ficava muito mais barata. Trabalhei também com um amigo num mercadinho de artesanato em Camden Town. Assim ajudava-o e tinha tempo livre para aproveitar, porque o meu objectivo era mesmo aproveitar esta grande cidade, esta grande metrópole, e crescer um bocadinho.
Exato, e fazer esses trabalhos todos tão diferentes numa cidade tão distante. Há de ter sido uma experiência e peras. Mas em termos daquilo que era a gestão do dinheiro, Sofia, como é que fazias? Tinhas alguma estratégia específica? Tinhas as libras contadas, neste caso?
Tinha, exactamente. Primeiro, a diferença das libras e do euro. Tinha que me habituar a isso e não tentar gastar tudo. E já tinha a minha conta poupança, que eu tinha desde Portugal. Então tudo que eu fazia, todo o dinheiro em dog sitting ou tiroli, eu punha sempre naquela conta poupança e tentava não esbanjar dinheiro, que é assim que muitos de nós fazemos.
E que é muito fácil em Londres, uma pessoa entra para beber três cervejas e gastou um salário, não é?
Exatamente, mas por isso é que se calhar fazia dog sitting no mercadinho e vivia com os amigos, que assim também poupava bastante, porque ir para longe e viver sozinho é logo quatro vezes mais que uma renda em Portugal, era quase impossível. E podia aproveitar e juntar alguns trocos e aproveitar a cidade e estar com os amigos.
Uma experiência e peras, acredito. Depois disso, Sofia, foste para Paris, tornaste-te professora de português na embaixada e daí aproveitaste para dar a volta à Europa, sem capacidade de poupar. Isso tinha sido possível? Como é que te motivavas a guardar o dinheiro, por exemplo, para essas viagens? Como é que fazias a gestão do teu orçamento? Ou de outro ângulo, perguntando aqui até mais sinceramente, o que é que sacrificavas, em específico?
Sinceramente, a motivação era mesmo as viagens. O meu objetivo sempre foi não ficar em Paris a minha vida toda. Então eu pensava: "Vives em Paris, tens comboio para todo lado. Porque não, enquanto estás aqui a juntar algum dinheiro para um dia fazer uma grande viagem..." Ia, sempre, porque os professores têm bastantes férias, aproveitava e dava a volta pela Europa. Tentava juntar. Podia-se dizer que eu ganhava bem nesta altura que trabalhava, mas em vez de se calhar ter uma casa enorme ou ir a supermercados caríssimos, ou em vez de ter, por exemplo, um carro, nunca tive. Dez anos em Paris, eu andei em transportes públicos, fazia três horas por dia, não havia problema nenhum. Eu acho que são escolhas. O objetivo era realmente a viagem. Esta conta poupança sempre existiu. Eu sou filha de contabilistas e eles sempre me ensinaram a poupar. Acho isso é bom. E eu acho que nós em Portugal, sinceramente, temos bastantes ajudas desde pequeninos. Temos a avó que nos mete uns trocos nos bolsos, temos os padrinhos que nos dão prendas.
Ainda não é uma conta poupança, mas é o já chamado pé de meia, não é? Uma coisa mais carinhosa.
Exatamente. Ou seja, essa poupança eu posso dizer que começou desde antes, porque já quando tínhamos aqueles presentes todos imensos no Natal ou Páscoa, eu já sabia poupar para guardar, para fazer isto ou aquilo no verão com as amigas. Realmente, eu acho que viver em Paris, mas não ter uma vida de grande luxo, era mesmo o meu objetivo, que era para poder aproveitar Paris, ganhar o meu dinheiro, mas juntar para esta tão grande viagem que eu sempre sonhei, que era dar uma volta ao mundo ou que neste caso foi meia volta ao mundo.
Já é alguma volta, algum tipo de volta ao mundo. Continuando aqui na senda das viagens, Sofia, quem quer viajar, qual é a melhor dica que podes dar naquilo que à gestão das próprias finanças diz respeito, sobretudo em termos de viagem, porque na viagem também há uma ciência muito grande na gestão do orçamento.
Eu ouvi muitas vezes: "Sofia, realizas os teus sonhos, fazes tantas coisas. Como é que fazes?" "Eu gostava, eu adorava." Eu acho que é mesmo uma questão de organização e de querer.
Mas esse é que é o problema, Sofia, a organização. Fala aqui uma pessoa muito organizada.
E tentar ser económico. Eu, por exemplo, acho que o mais importante é, desde pequeno, ter a sua própria conta poupança. Sempre que a gente puder, põe lá algo. Ou aquela conta poupança que nem podemos tocar. Se calhar é um bocado mais radical, mas quem não consegue, por que não? Segundo, quando nós vamos viajar, temos sempre aquela noção Precisamos de um grande hotel, precisamos de um grande transporte. Não vou censurar quem tem mais dinheiro ou não, mas acho que às vezes quanto mais dinheiro temos para a viagem, vamos se calhar querer ir àquele hotel caríssimo e vamos um bocadinho nos distanciar do local, do autêntico. Do autêntico, por exemplo, ir à Tailândia comer nos mercadinhos de rua, faz-nos conhecer realmente a população. Vamos mesmo integrar-nos na cidade. Então eu acho que todos nós podemos pôr um bocadinho de lado, só um bocadinho, e depois vamos viajar de acordo com as nossas poupanças. E às vezes vamos ver que se calhar se tivéssemos mais, íamos passar a nossa vida no hotel de luxo.
E a experiência ia ser menos enriquecedora, é isso. Também a falta de dinheiro obriga a ser mais criativo nas movimentações em viagem.
E depois na viagem, por que não? Se calhar um dia dormes num hotel de luxo, mas nos dias seguintes vais dormir numa guest house ou vais tentar dormir em casa de habitantes locais, onde os vais ajudar, ajudar a economia do país. Sinceramente, a minha dica é mesmo ter a conta poupança e não pensar que precisamos de muito dinheiro para fazer viagens. Tentar fazer, por exemplo, uma. Fazes uma de uma semana ou duas e vês que ao fim e ao cabo este dinheiro sobrou e ainda dá para mais. E porque não fazer pequenos trabalhos, humanitários ou não, na viagem que poderão dar algum dinheiro para continuar. No meu caso, cheguei a um momento em que já não tinha tanto e disse: "Vou trabalhar aqui um bocadinho". E só foi enriquecedor.
É conhecida a história do ficar a lavar pratos para se sustentar a vida, não lavar pratos em específico, mas aquilo que quer significar. Eu talvez já suspeite aqui qual seja a resposta que me vais dar a esta pergunta, até porque já temos falado aqui alguma coisa. Sofia, eu às vezes talvez tenha aquela ideia aparentemente parva de que os poupados são forretas. E como eu sou um bocadinho parvo mesmo, às vezes tenho esta visão das coisas. O que é que tens a dizer a parvos como eu?
Eu acho que tu não és nada parvo, sinceramente, porque eu era exatamente igual. Não podemos esquecer que vimos de Portugal, um sítio onde sim, nos deixam sonhar, mas se calhar não nos ajudam a sonhar da mesma maneira que noutros países onde, por exemplo, o ordenado mínimo é muito mais alto. Sinceramente, eu acho que é uma questão de tempo e organização. Durante os 10 anos de crise eu viajei bastante e consegui juntar dinheiro para realizar um sonho, mas eu não deixei de viver.
Acho que pelo contrário.
Eu conheci a Europa quase toda. Então pensei: "Ok, alguém pode pensar assim: é uma forreta, pôs dinheiro de lado durante 10 anos para fazer uma viagem à volta do mundo". Ok, eu não me vejo forreta, eu vejo como alguém que conheceu a Europa quase toda, vinha a Portugal duas, três vezes por ano visitar a família, que nós somos bem família e eu tinha muitas saudades e precisava de vir encher-me de energias. E sinceramente, é mesmo uma questão de vontade. Eu não vou esconder, eu tenho 39 anos, eu não sou casada, não tenho grande carro, ainda não tenho a grande casa, porque foi uma escolha. Eu até aos meus 40 anos quis investir para viajar. Agora, se calhar, como já tenho 39, já penso em pousar, em continuar a viajar, mas se calhar comprar algo na Martinica que possa alugar e viver aqui e viajar quando quero. São diferentes momentos da vida. Eu acho que é mesmo questão de organização, tempo e vontade.
E também com base nas decisões.
Vontade mesmo.
Vontade e também decidir o que se quer. Saber o que se quer é sempre uma boa ajuda para se organizar. Sofia, sem essa capacidade de gerir o próprio dinheiro, que ganhaste desde cedo, já percebemos, parece que é impossível viajar/trabalhar fora, bem sabemos, mas achas que o facto de teres começado a fazer estas poupanças relativamente cedo te permitiu fazer muito mais do que terias feito se não tivesses começado a poupar desde criança? Saber gerir o próprio dinheiro é um passo fundamental para ganhar uma certa independência e liberdade.
Sim, eu acho que é muito importante. Eu não sei se há alguém que esteja a ouvir que não vai ficar muito contente, mas sinceramente, aproveitem, portugueses, porque nós temos esta coisa. Eu namoro com um francês, eu conheci várias nacionalidades e nós temos esta coisa boa que é a família portuguesa. Eu sinceramente acho que foram eles que me ensinaram, porque é tão maravilhoso chegar a uma Páscoa quando tu tens 15 anos, por exemplo, e vem da madrinha, vem do padrinho, vem da avó, vem daqui. E do nada, tu começas a juntar o teu dinheirinho e ter na tua conta. Eu sei que muitas pessoas vão fazer o quê? "Olha, eu vou ali àquela loja, gasto tudo e pronto, e fica zero". Também pode ser, mas nesta altura ainda temos a ajuda dos pais. Então por que não aproveitar essa oportunidade? Ok, eu ainda não pago renda, os meus pais ainda me alimentam, mas tudo o que eu ganho, eu poderei poupar e se calhar gastar um bocadinho que é deles, mas não o todo.
E gastar, poder sair e poder voltar, ter essa liberdade financeira.
Eu acho que a independência e a liberdade é mesmo quando tu tens o teu próprio dinheiro, não precisas de pedir nada a ninguém, fazes o que queres. Eu sei perfeitamente que a minha mãe não achou muita piada que eu deixasse o meu trabalho de Paris de 10 anos e que dissesse: "Não, mãe, eu vou dar a volta ao mundo, quero conhecer outras localidades, quero conhecer outras pessoas, quero enriquecer". Mas eu tenho a certeza que hoje em dia ela está orgulhosa de mim e espero um dia escrever um livro em que vou agradecer e vou dizer que foi muito graças a esta senhora que se chama Maria da Conceição.
Um beijinho para a Maria da Conceição, fica já aqui dado.
Exatamente, que tenho muitas saudades dela e que vou vê-la no verão.
Boa.
Mas foi graças a ela, que ela sempre me ensinou a poupar. Sempre me ensinou a poupar.
A poupança para ti começou com a família portuguesa, portanto.
Sinceramente, acho que é ali. Junta os teus troquinhos e um dia vais ver que consegues. Não sei.
Eu vou começar a seguir esse exemplo.
Comigo funcionou.
E Sofia, funcionou até relativamente bem, hoje vives nas Caraíbas. Não sei quais é que são os teus planos para o futuro, certo é que deves Continuar com o bichinho das viagens, isso pareceu-me claro. Continuas a poupar? E se sim, qual é a melhor maneira que encontras hoje em dia para rentabilizar o teu dinheiro? Usas as mesmas estratégias? Continuas pela conta poupança? Usas as mesmas estratégias desde que foste para Londres ou foste aprimorando essas coisas?
Claro que sim, continuo a poupar, mas o objetivo sempre foi de viajar e de ser feliz por este mundo. Mas agora, infelizmente, estamos todos parados. A situação é difícil, é complicada, é algo diferente comparado ao que estávamos habituados. Por isso, eu não posso dizer que conseguia poupar como antes, porque como sou professora também no privado, infelizmente, com o que tem acontecido, tive muito menos cursos, consigo pôr muito menos dinheiro de lado, mas também viajamos muito menos, porque cortaram-nos as asas para viajar. Então por que não, neste momento, continuar também a poupar? Claro que a vida mudou. Eu já não tenho 25 anos como eu antes quando isto tudo começou. Agora são 39, então claro que eu já não quero viver numa casa com 20 pessoas a dividir para ser mais barato. Claro que eu, se calhar, já não quero continuar a comprar roupa usada como fazia antes, mas, por exemplo, continuo a viver numa casa modesta, continuo a ter um carro modesto também, que se calhar consome pouco. Um dia tentarei comprar um elétrico para ajudar a natureza, mas por enquanto tento continuar na vida modesta. No comércio, por exemplo, por que não continuar a comprar marcas brancas e só algumas coisas que gostas mais de umas marcas mais especiais? Não sei, eu acho que são objetivos. Um objetivo é viajar, ser feliz, conhecer o mundo. E acho que se eu gastasse meu dinheiro todo em grandes luxos, tinha a grande casa, tinha o grande carro, mas continuava a sentir que devia viver uma vida visual.
Faz, de certa forma, as viagens o teu luxo, o luxo que te permites. Preferes mobilidade a ficar num sítio a gastar uma soma de dinheiro. Já fomos entendendo isso, Sofia.
Sim.
Sofia, desde Martinica, nas Caraíbas, muito obrigado por este Trocos no Bolso, com jet lag, o primeiro com jet lag, uma parceria do Observador com o Banco Credibom. E seguir além-fronteiras é um sonho de muitos, talvez o melhor passo a dar nesse sentido, ou seja, não ter medo que algumas pessoas nos vejam como forretas. Sofia, muito obrigado. És professora de português, mas hoje vieste aqui dar uma lição de finanças pessoais. Obrigado pela polivalência e pelos ensinamentos. Até à próxima. Um beijinho.
Obrigada, um beijinho. Até à próxima, Portugal. Bye, bye.
Adeus. Trocos no Bolso de volta para a semana.