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O noivo e a noiva chegam numa carruagem puxada por cavalos brancos. A estância de esqui, a uma hora de São Petersburgo, foi transformada numa espécie de aldeia típica russa, para os receber, e aos cerca de 100 convidados deste casamento. Há atores a fazer de aldeões e danças tradicionais. É uma festa de luxo, onde não se poupou nos gastos. Os convidados recebem lenços que têm gravados as iniciais dos noivos: K e K, Katerina e Kirill. A noiva traz um vestido com pérolas, o noivo veste um fraque. Mas este é também um casamento muito discreto. Os convidados tiveram de entregar os telemóveis à chegada, para não tirarem fotografias. A segurança é apertada e inclui seis agentes da Guarda Presidencial Russa. É que a noiva não é uma mulher comum. Este é o casamento de Katerina Tikhonova, filha de Vladimir Putin. E o resort onde está a casar pertence a duas pessoas que são muito próximas do presidente. Uma delas é o seu grande amigo, o banqueiro Yuri Kovalchuk. A outra é uma mulher misteriosa, que cresceu na pobreza, mas que tem hoje várias propriedades. E há um detalhe revelador. Esta mulher foi, durante muitos anos, e em absoluto segredo, a amante do pai da noiva. Manter uma amante em segredo não surpreende ninguém. Mas Vladimir Putin esconde muito mais. Esconde toda a família. Há uma razão para isso. Se ele for um homem como os outros, que ama a mulher e os filhos e que se preocupa com o futuro, passa também a ser visto como um homem comum. E um homem comum não pode chegar a grande czar da Rússia. Por isso, para manter o seu enorme poder, Putin decidiu que ia esconder novas companheiras, amantes, filhos legítimos e ilegítimos, e até uma sogra que recebe presentes milionários. Tentou e, até certa altura, conseguiu. Mas, como ele iria perceber, há segredos que nem um czar consegue manter para sempre. Este é "Um Espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio quatro: a amante, a noiva e a sogra.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.

A teia de guerra e poder que o espião no Kremlin montou foi do KGB até à invasão da Ucrânia. Mas para lá chegar, Vladimir Vladimirovich Putin deu vários passos. No último episódio, ficámos a saber como esconde o dinheiro. Agora, vamos falar do seu quarto passo: ocultar a família e a vida pessoal para criar a imagem de um herói solitário, totalmente comprometido com a pátria. Estamos num dos teatros mais famosos de São Petersburgo. É uma noite de março do ano de 1980. Duas hospedeiras de bordo da companhia aérea russa, a Aeroflot, estão de visita à cidade. Vão com o namorado de uma delas assistir a uma peça de um encenador famoso. Mas para a amiga não se sentir a mais, o homem traz companhia. Com ele, vem um jovem de 28 anos chamado Vladimir Putin. A hospedeira que está sozinha chama-se Ludmila. A princípio, Vladimir não lhe chama a atenção. Mas durante o intervalo, Ludmila pensa que não tem nada a perder. Aproxima-se dele e pergunta se por acaso conseguiria bilhetes para irem novamente ao teatro no dia seguinte. Putin responde que sim. Na segunda noite, leva Ludmila e a amiga a ver uma nova peça. Mas é só no terceiro encontro que a relação entre Vladimir e Ludmila avança finalmente. Quando se despedem no metro, Putin entrega-lhe o seu número de telefone. O amigo que os acompanhava fica espantado. Não era algo típico nele. "Enlouqueceste?", pergunta. Quando chega a casa, em Kaliningrado, Ludmila telefona-lhe. Começa assim uma relação à distância entre os dois. Esta não era a primeira relação séria de Putin. Um ano antes, tinha rompido o noivado com outra Ludmila, uma estudante de medicina que conhecera ainda na universidade. E as alianças já estavam compradas quando Vladimir, inesperadamente, cancelou o casamento. Um dos amigos mais próximos de Putin diz que nunca soube as razões. "Ele não me disse nada, só disse que estava tudo acabado", contou mais tarde. Nem a um dos melhores amigos Putin revelava as emoções. Com esta Ludmila foi diferente. Uma noite, depois de uma visita da hospedeira a São Petersburgo, Putin confessou que tinha dificuldades em falar sobre os seus sentimentos. Admitiu que, por vezes, parecia ríspido e disse-lhe que a amava. Depois perguntou-lhe se, conhecendo este mau feitio, Ludmila estaria disponível pra casar com ele. Ela disse que sim. Três meses depois, casavam-se num restaurante flutuante, num barco atracado na margem do rio Neva. "Pode ver-se no nosso retrato de casamento que estávamos ambos supersérios", contaria Ludmila. Quando se casaram, ela já sabia que Putin trabalhava no KGB, mas não porque ele lhe tivesse contado. Ludmila só soube através da mulher de um amigo. Esta não era uma relação entre iguais. O marido considerava que a função da mulher era a de ser uma dona de casa perfeita e não fazer perguntas. Com a chegada do casal a Dresden, pra onde Putin é enviado em 1985, as coisas não melhoram. Ludmila acabaria por desabafar com Irene, uma amiga que fez na Alemanha de Leste. Tem de acordar cedo pra servir o pequeno-almoço ao marido e preparar petiscos pras noitadas com os amigos em casa. Sente-se diminuída, porque ele goza com algumas características dela, como o fato de acreditar em astrologia. O nascimento das duas filhas, Maria e Catarina, nada vem mudar. A carreira de Vladimir Putin assume sempre prioridade. Isso é particularmente evidente numa manhã de 1994, quando Vladimir já trabalhava na Câmara Municipal de São Petersburgo, e Ludmila e a filha mais nova têm um grave acidente de carro. Ludmila tinha partido três vértebras e parte do crânio. Teve de ser operada à coluna e passaria dois meses internada. Apesar disso, no imediato, Vladimir optou por fazer uma curta visita ao hospital e voltar pro trabalho. Anos mais tarde, foi contra a recandidatura do marido à presidência, em 2004. "Ela disse que tinha concordado com quatro anos e nada mais do que isso", relataria um amigo a uma jornalista. A mulher de Putin estava infeliz e queria o divórcio. Bebia cada vez mais, mas o marido acabou por convencê-la de que precisava da mulher ao seu lado pra voltar a ser presidente. Assim foi. E, no entanto, Ludmila não aparece ao lado dele nas imagens da cerimônia de tomada de posse desse ano. Putin caminhou pela longa passadeira vermelha estendida no Kremlin, sozinho. Chamaram-lhe o "síndrome Sarkozy". A 11 de abril de 2008, um artigo num tabloide quebrava um tabu da política russa: especulava abertamente sobre a vida pessoal do presidente. E o jornalista comparava a vida amorosa de Putin à do presidente francês, que recentemente se tinha divorciado e casado com a cantora Carla Bruni. No texto, garantia-se que o presidente russo estava a fazer o mesmo em segredo e que dali a dois meses iria casar com Alina Kabaeva, uma ginasta russa campeã do mundo. Não era tudo verdade. Vladimir Putin continuava casado com Ludmila e não tinha casamento marcado com Kabaeva. Mas a realidade é que já existia mesmo uma relação entre o presidente russo e a ginasta. Os rumores não paravam de crescer. Putin tem então de fazer algo que lhe desagrada: falar abertamente sobre a sua vida pessoal. Tudo aconteceu numa conferência de imprensa com o homem que era o oposto de Putin nesta matéria, Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, que nunca escondeu as infidelidades. Uma jornalista russa faz uma pergunta sobre os rumores do divórcio de Putin e a sua nova relação. O presidente reage irritado. "A primeira coisa que quero dizer é esta: não há um pingo de verdade no que disse". Depois, tenta aligeirar o ambiente, dizendo que só as mulheres italianas se comparam às russas. Por fim, enquanto os jornalistas riem e Berlusconi sorri satisfeito, Putin passa ao ataque. Há uma coisa chamada vida privada, na qual ninguém tem direito a interferir. Sempre reagi negativamente àqueles que com os seus narizes ranhosos e fantasias eróticas, se metem na vida dos outros. No mesmo dia, o diretor do tabloide que tinha publicado a notícia do divórcio de Putin, chega à redação do jornal e encontra uma série de agentes da Guarda Federal à espera É interrogado sobre as fontes do artigo e os motivos da publicação. Dias depois, o dono anuncia o fecho do jornal, justificando-o com a baixa circulação. Roman Badanin é um dos jornalistas que têm investigado mais a fundo a vida pessoal do presidente russo. Em conversa com a jornalista Cátia Bruno, explica porque acha que este é um tema importante e não apenas matéria de revistas cor-de-rosa.

"Ele quer parecer um líder mundial que não é 100% humano. Quer parecer um super-herói, um czar, um líder da nação, uma grande figura da história. E por isso, não quer que as pessoas conheçam detalhes rotineiros da sua vida. Quem é a sua namorada? Ele não quer que essa informação se saiba, porque o faz parecer muito humano, muito banal, muito semelhante a um homem normal".

Os homens normais não conduzem países com desígnios históricos, não têm mandato para levar a cabo missões como a desnazificação da Ucrânia, o objetivo que o Kremlin invoca para a invasão do país vizinho. Por isso, é melhor parecer sempre um super-herói. Estamos a 6 de junho de 2013 e o presidente russo está com a mulher, Ludmila, a assistir ao balé "La Esmeralda", no Kremlin. No intervalo, a seguir ao primeiro ato, os dois saem para conversar com uma jornalista de um canal de televisão russo. Elogiam a bonita música e os movimentos dos bailarinos, até que a jornalista lhes pergunta sobre os rumores de que já não estão juntos. Ainda que tudo aquilo já tivesse sido previamente encenado, o presidente respira fundo e olha pra mulher. Sorri e depois responde, meio acanhado.

"É verdade. Toda a minha atividade, todo o meu trabalho é completamente público. Alguns gostam disso, outros não. Alguns são totalmente incompatíveis com isso. Estamos nisto há oito ou nove anos. Foi uma decisão mútua".

Ludmila fala logo depois para explicar que o problema foi que quase não se viam. "O Vladimir está imerso no seu trabalho. As nossas filhas estão crescidas. Cada um tem a sua vida". O jornalista Roman Badanin sublinha que quando esta entrevista ocorreu, Vladimir Putin já estava envolvido com a ginasta Alina Kabaeva e Ludmila também tinha começado um relacionamento com um empresário. Há já alguns anos que não viviam como marido e mulher. Por que então anunciá-lo naquela altura?

"Em primeiro lugar, este era um bom momento para anunciar, porque estávamos no início de um novo mandato presidencial de Putin. Ele estava seguro em termos de apoio e do seu ponto de vista, isto provavelmente não iria prejudicar a sua popularidade. Em segundo lugar, provavelmente teve algo a ver com bens, porque sabemos que ele deu alguns imóveis e dinheiro à ex-mulher".

O divórcio não lhe cortou o acesso ao dinheiro. Nos anos que se seguiram, Ludmila e o novo marido, com quem casou em 2015, foram aumentando a fortuna. Segundo a fundação do opositor Alexei Navalny, os fundos vieram de Vladimir Putin. Só assim se explica que o casal consiga ter dois apartamentos em Marbella, no valor de mais de 2 milhões de euros, outro em Davos, que custou quase 4 milhões, e uma vivenda perto de Biarritz, avaliada em mais de 5 milhões de euros. Em fevereiro de 2023, Ludmila colocou os apartamentos em Espanha à venda. Três meses depois, tornou-se alvo de sanções do Reino Unido, que considera que parte da sua fortuna pertence, na verdade, ao ex-marido, o presidente da Rússia. O momento em que Vladimir Putin anunciou o seu divórcio ao mundo foi invulgar. Invulgar, porque permitiu que se ficassem a conhecer informações sobre a muito discreta vida pessoal. Naquela entrevista no intervalo do balé, Putin falou também sobre as suas filhas mais velhas, Maria, também conhecida por Masha, e Katerina, normalmente tratada por Kátia. Não disse os nomes delas, mas deu alguns pormenores.

"Amamos muito as nossas filhas. Estamos muito orgulhosos delas. Já agora, estudaram sempre na Rússia, viveram sempre na Rússia e graças a Deus, são próximas".

Durante muitos anos, pouco se soube sobre Masha e Katia. Sabe-se que a mais velha, agora com 38 anos, trabalha como cientista e é casada com um holandês. A mais nova é especialista em Estudos Asiáticos e está à frente de um fundo de investigação milionário na Universidade de Moscou. É também uma antiga atleta de rock'n'roll acrobático, uma modalidade pouco conhecida no Ocidente, mas que é popular na Rússia. A notícia sobre Katia que mais deu nas vistas foi a do casamento de luxo com Kirill, o filho de um amigo de Putin. A festa que ficamos a conhecer no início deste episódio. Apesar de todos os esforços de discrição, a jornalista Olesya Shmagun teve acesso a um conjunto de e-mails do noivo Kirill, anos mais tarde, já depois do divórcio. A partir dessa correspondência, reconstrói a ajuda financeira de peso que Putin deu ao casal.

O artigo mostra-nos que Putin gera a fortuna da família da mesma forma que gera a sua fortuna pessoal. Toda a gente ligada a Putin beneficia daquilo que ele acumulou ao longo dos anos como presidente de um país pobre como a Rússia. O genro, basicamente, recebeu um presente de casamento de um amigo muito próximo de Putin, Gennady Timchenko.

O presente era a possibilidade de comprar uma fatia muito valiosa de uma empresa petroquímica que pertencia a esse amigo de Putin. Mas era uma compra com uma característica especial: o comprador não precisava ter dinheiro. Bastou a Kirill entrar num banco do Estado e saiu de lá com uma pequena fortuna, sem precisar de dar qualquer garantia.

Ele comprou essa parte com empréstimo. Nem teve de explicar como poderia vir a pagá-lo. Não é como se eu pudesse chegar a um banco e pedir 80 mil milhões de rublos.

Os e-mails consultados pela jornalista russa Olesya Shmagun indicavam que a filha e o genro do presidente eram donos de uma riqueza impossível de explicar por meios legítimos.

Víamos nos e-mails como eles falavam das coisas que iam comprar pra sua casa, que custavam centenas de milhares de euros. É muito dinheiro. Como pode a filha de um governante russo gastar milhares em mobília quando uma pessoa normal com aquele salário não consegue sequer comprar o apartamento? É claro que a família de Putin beneficia do dinheiro dele e que os amigos de Putin ajudam-no a gerir isso.

Mas ser filha de Vladimir Putin não representa apenas benesses. Tanto Masha como Katia viram as vidas afetadas diretamente pela decisão do pai de invadir a Ucrânia em 2022. Uma semana depois do início da guerra, a filha mais velha de Putin acordou em casa, num bairro de Amsterdão, com um apelo deixado à sua porta. Alguém tinha pendurado na cerca uma bandeira ucraniana e um papel onde estava escrito: "A menos de 2 mil km desta tua zona pacífica, há um país livre que está a ser destruído pelo teu pai. É impossível chegar a ele. Nem um carrasco consegue travá-lo. Mas os pais e filhos são uma história diferente. Por favor, ouve o teu coração e tenta chegar ao dele pra travar este sofrimento sem sentido". Mas Masha nunca falou publicamente sobre este ou qualquer outro assunto. "Cinderela" foi o último espetáculo dirigido por Igor Zelensky, à frente da Companhia de Bailado da Baviera. O encenador é o atual companheiro de Katia, a outra filha de Putin. Apesar de partilhar o apelido com o presidente da Ucrânia, Zelensky não condena a guerra russa. E essa posição valeu-lhe o afastamento da Companhia de Bailado, que liderava em Munique. Fontes do meio cultural russo garantem que Zelensky vai tornar-se diretor do Teatro de Ópera e Balé, que está a ser construído na Crimeia. O sogro arranja-se sempre uma forma de recompensar a lealdade. A ginasta tinha apenas 24 anos. O rumor de que estaria de casamento marcado com o presidente russo já circulava em 2008, apesar de ter sido desmentido publicamente por Putin na conferência de imprensa com Berlusconi. Mais ou menos na mesma altura, porém, Alina Kabaeva vai a um programa de televisão, onde diz já ter encontrado o seu homem ideal. É um homem muito bom, um grande homem. Amo muito A certa altura, um dos elementos do público pergunta a Kabayeva se seria capaz de roubar um homem a outra mulher. E a ginasta é direta:

"Creio que não. Deixe-me dizer isto: a vida é complicada. Quando falamos de um homem casado, se já houver problemas na família e o homem estiver à procura de outra mulher e falar com outra, em vez de falar com a sua mulher, o problema já existe".

O nome de Vladimir Putin nunca foi mencionado, mas todos sabiam que era dele que se falava. Ainda hoje é assim na sociedade russa, como nos explica o jornalista Roman Badanin.

"Imaginem, se for à rua em Moscovo ou São Petersburgo perguntar às pessoas se acham que Putin vive com Kabayeva, a maioria vai dizer que tem quase a certeza de que eles são uma família. É do conhecimento geral para a maioria dos russos. Mas se lhes perguntar: "O que acha do facto de isso ser mantido em segredo? Não é uma situação algo estranha?" A maioria provavelmente vai responder que não. Vão dizer que ele é chefe de Estado há muito tempo e que lhe cabe a ele decidir o que deve ou não revelar".

Badanin e os seus colegas acham, porém, que há coisas que devem ser reveladas, sobretudo se forem possíveis sinais de corrupção. Em fevereiro deste ano, publicaram uma investigação com o título "Máscaras de Ferro" sobre a riqueza da ginasta Kabayeva.

"Conseguimos provar que eles têm uma relação que começou há cerca de 15 anos, quando ele estava no segundo mandato como presidente. E desde então, Kabayeva tornou-se uma pessoa extremamente rica. Em segredo, através de testas de ferro e empresas fantasma, é dona de uma enorme quantidade de imóveis. Ao todo, ela tem imóveis que custam dezenas de milhões de dólares".

Segundo a investigação da equipa de Badanin, a mãe de Kabayeva, a sogra não oficial de Putin, também beneficia, e de que maneira, da generosidade do genro. A sogra, a irmã e a avó da ex-ginasta têm 10 apartamentos em Moscovo e São Petersburgo, bem como várias casas de férias na região de Moscovo e em Sochi. Ao todo, as propriedades têm um valor de cerca de 40 milhões de dólares. As suspeitas de que estes imóveis são, na verdade, de Vladimir Putin, surgem do facto de muitos deles terem sido comprados com a ajuda de alguns dos amigos mais próximos do presidente, que pertencem ao gangue do dinheiro. Uma das casas de luxo onde Alina Kabayeva passa algum tempo, foi construída numa propriedade de Yury Kovalchuk, o banqueiro. E as propriedades da família também têm ligações a outros amigos próximos de Putin. Gennady Timchenko, o finlandês, Petr Kolbin, o talhante, e um sócio de Arkady Rotenberg, o judoca, venderam apartamentos à avó e à irmã de Kabayeva. Da relação entre Putin e a ginasta nasceram, entretanto, alguns filhos. Vários jornalistas russos, onde se inclui Roman Badanin, têm a certeza disso, mas recusam divulgar as suas identidades por serem menores de idade. É uma noite de sábado e o bar está cheio. É mais uma edição das festas "Telefona a um Amigo", que servem para dar a conhecer DJs não profissionais. Esta noite irá passar música uma rapariga a quem o bar chama "Lusita". O anúncio no Instagram diz o seguinte: "Uma rapariga misteriosa da capital do norte vem para tocar o seu primeiro DJ set. São bem-vindos todos os amantes de Beyoncé, Rihanna, de um estilo de vida chique e de cocktails com purpurina". Quando Luiza Rozova chega, num carro com a matrícula do governo, o bar está cheio para a receber. Cá fora, há agentes da brigada anti-extremismo. Lá dentro, Rozova está rodeada de seguranças. No dia seguinte, os media russos explicam o aparato. A jovem de 18 anos que foi passar música é filha do presidente russo e um dos donos do bar confirma num vídeo de Instagram que a convidou por isso mesmo, para provar que ela é uma pessoa normal. Vladimir Putin nunca confirmou que Luiza Rozova é filha dele, apesar das parecenças físicas evidentes entre os dois. Ao longo dos últimos anos, a jovem deu algumas entrevistas. Estudante de moda em São Petersburgo, Luiza diz que não presta atenção às notícias e que gosta mais de comprar a revista Vogue e ir jantar fora com os amigos. Nunca confirmou nem negou que é filha do presidente. Um dia, um jornalista lançou-lhe um desafio: o que é que diria a Putin se estivesse frente a frente com ele? Luiza Rozova disse que apenas perguntaria: "Por quê?". Não deu mais pormenores. O jornal de Roman Badanin publicou uma investigação que garante que Rozova é mesmo filha do presidente e de uma mulher de São Petersburgo, que Putin terá conhecido na década de 90, ainda antes de chegar ao Kremlin. O jornalista dá-nos mais pormenores sobre o nascimento de Rozova, que aconteceu em 2003, em plena campanha presidencial.

É uma situação curiosa. Putin fez aquela campanha baseada na ideia dos valores da família tradicional, de que uma família deve ser composta por homem e mulher, religiosos, etc. E naquele exato momento, Putin tinha um caso amoroso secreto. No preciso momento em que a campanha estava a começar, em 2003, ela deu à luz Luiza Rozova, filha de Putin.

Os jornalistas tiveram acesso à certidão de nascimento de Luiza. Nela, a bebê é dada como filha de pai incógnito. O seu segundo nome, contudo, é Vladimirovna, seguindo a tradição russa de identificar cada pessoa com o nome próprio do pai. Vladimirovna significa, literalmente, filha de Vladimir. É uma noite fria de janeiro, em 1999. Um voo parte do aeroporto de São Petersburgo com destino a Moscovo. No lugar 5A, segue Vladimir Putin, por esta altura, diretor dos serviços secretos russos. Ao lado, no 5B, vai Viktor Zolotov, o guarda-costas em quem confia totalmente. Algumas filas à frente, no 1B, vai uma mulher chamada Svetlana Krivonogikh. Comprou o bilhete precisamente oito minutos antes de Putin, algo que se explica facilmente. Svetlana, uma jovem estudante de Direito de 24 anos, que também trabalha como empregada de limpeza, é amante de Vladimir Putin. É ela quem vai dar à luz, quatro anos mais tarde, a terceira filha do presidente, Luiza Rozova. O jornalista Roman Badanin conta o que se sabe sobre esta relação.

Um dia, algures na década de 90, ela conheceu Putin, que, na altura, trabalhava na Câmara de São Petersburgo. É uma história interessante. Ela tinha uma amiga, uma jovem chamada Dina Kiselevich, e Kiselevich, nessa mesma altura, tornou-se amante do guarda-costas de Putin, Zolotov. Duas jovens de São Petersburgo tornam-se amantes de Putin e do seu guarda-costas, o homem a quem chamamos "a sombra de Putin", porque está sempre com ele. É um grupo de quatro pessoas interligadas por casos amorosos misteriosos, porque, na altura, Putin e Zolotov eram casados.

Pouco mais é conhecido sobre a relação de Putin e Svetlana, para além do fato de terem sido pais de uma criança que tem hoje 20 anos. Certo é que, como no caso de Ludmila e Alina Kabaeva, também Svetlana enriquece de forma rápida e inexplicável. E tal como acontece com as propriedades de Kabaeva, há amigos de Putin envolvidos. Svetlana vive atualmente num dos bairros mais exclusivos de São Petersburgo, composto por mansões ao estilo do século XIX. Tem como vizinhos Arkady Rotenberg, o judoca, que cresceu com Vladimir Putin, Yury Kovalchuk, o banqueiro, e vários outros membros da cooperativa Zero, composta por amigos do presidente. Svetlana tem várias empresas que receberam empréstimos através de uma conta offshore do violoncelista Sergei Roldugin. Com essa conta, foi comprado em nome dela um iate de 37 metros, no valor de mais de US$ 5 milhões. O iate costuma estar atracado no Clube Laguna, que pertence a Kovalchuk. Ao todo, segundo as contas da equipe de Badanin, Svetlana e a família têm bens no valor de US$ 100 milhões.

É uma pessoa extremamente rica e quem lhe deu essa riqueza foi Putin e seus amigos. Por exemplo, hoje em dia, ela tem pelo menos duas empresas de grande valor registadas em São Petersburgo. Essa é outra história engraçada. Svetlana Krivonogikh é dona da empresa que detém uma estância de esqui nos arredores de São Petersburgo, chamada Igora.

A estância de esqui Igora foi o local onde a filha de Vladimir Putin, Kátia, casou com o primeiro marido, Kirill. Aquele casamento onde foi proibido tirar fotografias e havia segurança por todo o lado. Para manter tudo em segredo, há que manter tudo em família. Svetlana Krivonogikh cresceu num apartamento partilhado com várias famílias em São Petersburgo. Nesse mesmo prédio, num outro andar, está a sede de uma empresa chamada Baltic Escort. Um dos seus donos é Viktor Zolotov, a sombra de Putin, o guarda-costas inseparável. No escritório daquela empresa, há atualmente retratos do próprio Zolotov com Putin, mas também fotografias de Marilyn Monroe, Audrey Hepburn e imagens de santos. A Baltic Escort presta serviço de segurança há alguns anos e na década de 90 começou a proteger também Putin. Zolotov é um dos fundadores da empresa. O sócio, Roman Tsepov, era conhecido pela alcunha "O Produtor" e mantinha ligações às máfias mais perigosas da cidade. Tsepov morreu subitamente em 2004. A autópsia confirmou que ingeriu grandes quantidades de uma substância usada para tratar leucemia, muito embora "O Produtor" não tivesse câncer. Apesar das suspeitas, nunca se provou que tivesse sido envenenado. No funeral, estiveram presentes altas personalidades do Kremlin e agentes dos serviços secretos, lado a lado com figuras como o chefe de uma das máfias mais poderosas de São Petersburgo. Poucos saberão hoje em dia do passado de Putin com a máfia. Faz apenas parte de uma das suas muitas facetas que foi moldando ao longo dos anos. Uma das muitas faces ocultas, escondidas pelas caras que o ex-agente secreto quis ir mostrando. A dissimulação sempre fez parte do jogo, mesmo que aqui e ali fossem deixados sinais do que estava pra acontecer, como a jogada mais arriscada de todas. Mas essa é uma história para o próximo episódio. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Larissa Tovmasian e David Zakharov, agenciados da Sonder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.