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Boa noite, Mariana Mortágua. Como está? Tudo bem?

Estou bem.

Acabámos agora mesmo o comício em Braga, onde o Francisco Louçã, que é o cabeça de lista aqui no distrito, foi o último a subir ao púlpito. O que achou do discurso dele?

Acho que é um discurso completo que acaba por resumir um bocadinho várias mensagens que queremos enviar e queremos passar neste fim de campanha. Eu destacaria algumas, em particular todas as mudanças que o bloco trouxe à vida portuguesa, as mudanças que trouxe quando conseguiu aprovar, essa foi a primeira lei que aprovámos, da violência doméstica como crime público, o número de vidas que salvámos com essa lei e do que ainda queremos fazer em nome da justiça, em nome da igualdade, da habitação, do trabalho por turnos. E acho que foi uma boa síntese dessa transformação que fizemos e que ainda queremos fazer.

E foi também em si um discurso particular. O Francisco Louçã subiu até à plateia numa abordagem diferente. Acha que há alguma questão particular que consiga encontrar constante nos discursos do Francisco Louçã?

Acho que o fato de estarmos a tentar fazer uma campanha diferente e que queremos que seja muito mais próxima das pessoas, permite também ter comícios diferentes do normal. E é por isso que estamos a ter conversas e é também por isso, imagino eu, que o Francisco tenha decidido entrar pela plateia adentro e falar com as pessoas, porque nós queremos abrir esses espaços para que não seja sempre alguém num púlpito a falar e alguém a ouvir. Nós quando fazemos, por exemplo, o porta a porta, é isso que estamos a fazer. Todos os militantes, todos os ativistas, todos os simpatizantes do bloco que querem participar, são eles próprios agentes desta campanha. Eu acho que esse é o aspeto interessante da campanha que queremos fazer diferente e de chegar a mais gente.

E como é que tem corrido esse porta a porta? A Mariana também já esteve numa dessas ações, certo?

Sim, já estive em várias dessas ações que tem feito porta a porta. Já fiz no Porto, em Leiria, em Lisboa.

O Fabián Figueiredo falou mesmo em milhares de casas a que os simpatizantes do Bloco já foram. Acompanha esta estimativa?

Sim, nós temos as estatísticas e temos esses registos. Foram literalmente milhares de casas. Eu estava a atualizar esses registos em Braga com o Francisco Louçã e são milhares só em Braga. E é uma experiência muito interessante, porque nós conseguimos ouvir as pessoas e perceber o que elas nos têm a dizer. E desconstruir muitas vezes coisas que é impossível desconstruir nas redes sociais, que é impossível desconstruir em dois segundos de televisão, que é impossível explicar em dois segundos de televisão ou em dois segundos numa rede social. Nós sabemos como a política resumida à rede social é uma política muitas vezes de, por exemplo, a extrema-direita tem tantas mensagens de ódio, é tão fácil transmiti-las, porque é uma política de provocação, de ódio, de divisão. E na conversa cara a cara, realmente cara a cara, realmente olhos nos olhos, nós conseguimos falar às pessoas sobre o que a política deve ser, que é sobre a sua vida e como é que a queremos mudar em conjunto.

Mas este ano o Bloco também tem apostado forte, podemos dizer assim, nas redes sociais e em tentar chegar aos mais jovens por essa via. Qual é que é a estratégia aí?

Nós reconhecemos que as redes sociais são um elemento crucial da comunicação e da política e da comunicação política hoje em dia. Não minimizamos essa importância, sobretudo nos jovens, mas não só, acho que é transversal. E queremos usar esse meio de comunicação e queremos usá-lo para transmitir a política e não aceitamos que as redes sociais sejam o espaço e o feudo da extrema-direita. Embora saibamos que são regras sempre viciadas no jogo. As redes sociais promovem essas mensagens de ódio, promovem essas mensagens de violência, promovem muitas vezes mensagens de misoginia contra as mulheres, e nós queremos ocupar esse espaço. E por isso fizemos um esforço nesta campanha para estar nos sítios onde sabemos que as mensagens são transmitidas e fazê-lo da melhor forma possível e sempre em respeito pela verdade, pela mensagem política, mais do que outra coisa. Mas compreendemos também que isso não é suficiente. E só vale a pena ter uma campanha de redes sociais forte se tiver o outro lado, e o outro lado é o porta a porta. Uma campanha sem a outra não existe, porque nós precisamos de completar a forma como falamos com as pessoas, como comunicamos.

E como é que a Mariana se está a sentir agora neste segundo ano seguido a liderar esta campanha pelo Bloco de Esquerda? Imagino que há dois anos, quando foi eleita coordenadora nacional, não estava à espera de por esta altura já ser pela segunda vez candidata a primeira-ministra.

Não estava à espera. Estava à espera de ser, mas um bocadinho mais tarde. Acho que perguntar-me como é que eu me estou a sentir à 00:30 a.m de um dia de campanha é sempre muito arriscado.

É por isso que sou o último a chamar.

Exato. Não, mas estou bem e com muita energia. É óbvio que nenhum de nós esperava duas campanhas, ainda mais sabendo que esta última é feita num cenário em que as pessoas estão muito fartas, não percebem por que há eleições, provocar eleições por um primeiro-ministro que não quer dar explicações sobre uma empresa que tem uns negócios muito mal contados. Tudo isto contribui para um sentimento que não favorece uma campanha de ideias e de propostas. E nós estamos a tentar transformar a campanha nisso mesmo, em propostas e em ideias. E acho que é uma vantagem termos tido duas campanhas em tão pouco tempo. Estamos aprendendo. E a reflexão que fizemos sobre a última e sobre os modelos de campanha, sobre a forma como a política se adapta a formatos televisivos que depois não significam nada, não falam com as pessoas, não ouvem as pessoas, não passam mensagem nenhuma, é isso que nos leva a mudar esta campanha. E havia muitas coisas que nós já estávamos a pensar em mudar. O porta a porta é um desses exemplos. Nós já estávamos a pensar em fazer o porta a porta mesmo sem ter campanha e ter uma campanha obrigou-nos a repensá-la e a pôr a política no centro da campanha e não só a parte da comunicação. E a política na proposta e no contato com as pessoas.

E ao nível dessa campanha de proximidade, eu queria lhe perguntar aqui por uma questão sensível, que foi uma notícia que marcou, de certa maneira, o partido no ano passado, que foi o despedimento das mães que eram funcionárias do partido. Sei que a Mariana já falou sobre o assunto, mas pergunto-lhe no sentido em que tendo agora esse contato próximo com a população, está de consciência tranquila sobre o caso, em explicá-lo às pessoas ou há aqui alguma coisa que ainda é, de certa maneira, como uma nuvem?

Todo esse caso foi explicado mil vezes e é uma coisa que eu nunca disse e que é verdade. Nunca ninguém na rua me perguntou por isso. Só quem me pergunta são jornalistas. Sempre a mesma pergunta e eu explico sempre, claro, e esclareço, mas nunca ninguém na rua me perguntou por isso.

Pois, ia lhe perguntar precisamente isso, se as pessoas na rua estavam a acompanhar essa explicação do bloco.

As pessoas estão esclarecidas e sabem que nós esclarecemos em todos os canais, de todas as formas, que não há nenhuma dúvida sobre isso, que o Bloco cumpre sempre a lei, vamos além da lei. Isso já foi tantas vezes explicado que não há qualquer dúvida sobre isso. Ainda mais uma coisa que se passou há três anos. Portanto, eu acho que é mais do que normal que as pessoas quando nós estamos na rua queiram falar sobre o preço das casas, queiram falar sobre a sua pensão, a sua reforma, queiram falar sobre o salário. E é sobre isso que nós falamos na rua.

Certo. Para terminar e para a deixar ir descansar para casa, gostava de lhe perguntar-

Para casa é pedir muito, mas descansar, espero.

Gostava então de lhe perguntar sobre as expectativas para o resultado eleitoral, se o Bloco vai ser a grande surpresa da noite, como disse também o Fabián Figueiredo.

É isso que nós sentimos. Nós sentimos que vamos crescer, sentimos muita gente a juntar-se à campanha. Eu hoje estive na FSH, numa faculdade em Lisboa. Quer dizer, estive de manhã numa faculdade sénior em que fomos muito bem recebidos, com um trabalho incrível e quisemos mostrar. Também esteve lá, portanto, sabe bem, tem acompanhado esta caravana de campanha. E estivemos à tarde com dezenas, talvez centenas de jovens na Universidade de Lisboa, também a falar sobre habitação e muita gente se junta para conversar. Não são do Bloco, não são militantes do Bloco, aparecem porque querem conversar sobre as nossas propostas e acabámos de sair de um comício em Braga em que deixámos dezenas de pessoas à porta porque a sala estava lotadíssima e não deixavam que entrasse mais ninguém. E esta está a ser a nossa campanha e, por isso, sim, muito otimismo e sentimos, obviamente, que vamos crescer e que as pessoas estão a perceber a mensagem, estão a perceber a importância do voto no Bloco para mudar as coisas, para garantir que no dia a seguir às eleições começamos mesmo a baixar o preço das casas, começamos mesmo a olhar para quem trabalha, que nós percebemos que nós não podemos ter uma campanha eleitoral em que ninguém fala do trabalho, do salário, dos tempos de trabalho, de reduzir o tempo de trabalho, do trabalho por turnos, e sabemos que essa mensagem está a chegar.

Portanto, confiante num bom resultado eleitoral. Mariana Mortágua, deixo-a ir. Muito boa noite.

Obrigada. Boa noite. Bom trabalho.

Obrigado