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Olá, bem-vindos à Vício Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o melhor mestre de cerimônias da telefonia portuguesa, o Vasco Maldonado de Correia, e as insubstituíveis Mariana Lima Cunha e Inês André Figueiredo. É este exigente trio de argutos analistas políticos que me vai ajudar a explicar uma semana que vai ficar cravada na história recente da direita portuguesa. Pedro Passos Coelho deixou as entrelinhas e assumiu, constrondo, que é protocandidato a primeiro-ministro.
Se eu tivesse de equacionar uma possibilidade dessas, isso teria de corresponder a uma situação em que o PSD visivelmente não tivesse a possibilidade de entregar um resultado satisfatório face àquilo que o país precisa e de eu achar que eu o poderia fazer. E se isso vier a acontecer, eu ponderarei e tomarei uma iniciativa, se for caso disso. Talvez não fosse fácil um entendimento parlamentar entre o PSD e o CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal. Não vou dizer que fosse fácil, mas era importante tentá-lo.
Era uma coisa que faria o doutor Passos Coelho.
Era importante tentá-lo. As pessoas acham que foi isso que foi premiado, foi empurrar com a barriga, não querer enfrentar os problemas sérios.
É o que ele está a dizer.
Com certeza. As pessoas acham que é assim que se chega lá.
As pessoas? Quais pessoas?
As pessoas que estão no governo, valha-me Deus, porque se não forem as pessoas que estão no governo, então quem é que há de ser?
Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Esta semana é tema único, é uma sopa única para falarmos sobre Pedro Passos Coelho e pela ideia de federar a direita, uma direita única também, daí o nome desta sopa. Mariana Lima Cunha, o que te apraz dizer sobre a intervenção de Pedro Passos Coelho? Vai deixar em xeque Luís Montenegro?
Acho que é natural que crie alguns nervos em Luís Montenegro e no governo. Agora, acho que há aqui vários pontos de análise a fazer sobre a entrevista de Pedro Passos Coelho. Tem alguns méritos. Acho que o mérito da clareza é um mérito por si, porque nós já íamos sabendo o que Pedro Passos Coelho sugeria e insinuava, e as pessoas próximas dele também, mas acho que é melhor ouvirmos do próprio e sabermos com o que contamos, e Luís Montenegro saber também com o que conta. E há o mérito possível, que é Pedro Passos Coelho compreende-se que quer encontrar uma solução para tentar, penso que o objetivo a médio prazo seja anular um bocadinho o Chega, pelo menos controlar o crescimento do Chega. Acho que tem vários erros de análise também no raciocínio que faz. Há um que foi imediatamente detectado por muita gente, que é o facto de a rejeição ao Chega ser tal que já conseguiu que se entregasse uma maioria absoluta ao PS, com muitos arrepio quando se percebeu que o voto a António Costa era tão forte que ia dar uma maioria absoluta ao PS, porque havia na altura o papão do Chega, se o PSD se aliar ao Chega, e isso bastou para a votação do PS crescer daquela maneira. Tivemos António José Seguro com a maior votação de sempre quando concorreu contra André Ventura. Tivemos Luís Montenegro a ser eleito com o Não é Não, portanto, tivemos isso tudo. Ou seja, é um caso em que o contrafactual quase que foi feito de facto. E depois temos também o que tem acontecido de facto em relação com o Chega. Acho que a reforma laboral é o tema mais óbvio, aliás, o próprio Pedro Passos Coelho já tinha reconhecido isso, em que se torna evidente que é difícil confiar no Chega. Acho que não é particularmente honesto da parte de Pedro Passos Coelho fazer comparações com a coligação com o CDS. Eu sei que foi complicada na altura e óbvio que a relação com o Paulo Portas não era fácil, e que a visão deles sobre as medidas que se deviam adotar e o Memorando da Troika não era a mesma. Quer dizer, não tem nada a ver com o que se passa hoje com o Chega. Acho que seria desonesto comparar Paulo Portas a André Ventura. Eu dei a entrevista, não fiquei a perceber exatamente qual é o plano de Pedro Passos Coelho para ocupar esse espaço e dar a volta, até porque Pedro Passos Coelho não traz um discurso particularmente animador, esperançoso. Acho que foi uma visão particularmente positiva. Não sei se isso entusiasma os eleitores, não sei dizer, não sei ler a reação do eleitorado a isto, mas enfim, acho que é uma mensagem que traz alguns riscos. Depois acho que traz algum risco na análise. Falar de André Ventura como se André Ventura ainda fosse a pessoa que tem a fotografia de Pedro Passos Coelho no gabinete como chegou a ter, como líder inspirador, porque acho que André Ventura vai tratar da sua vida. Quando deixar de precisar de Pedro Passos Coelho como ponte para um certo eleitorado do PSD e passar a precisar de anular Pedro Passos Coelho como quer anular Luís Montenegro, não vai travar e pedir desculpa porque é Pedro Passos Coelho, acho eu. E portanto, acho que Pedro Passos Coelho pode estar a subestimar um bocadinho a figura de André Ventura e a capacidade que André Ventura tem, o que ele já demonstrou de se ir adaptando à vontade do eleitorado e de, por ele, comer o PSD pelo caminho.
Vasco, a Mariana falou, e bem, de muitos aspetos que estão por resolver na equação que Pedro Passos Coelho vai fazendo. Um deles, a taxa de rejeição que André Ventura tem no país, mas também no PSD Mas como é que isto se compatibiliza com o crescimento sustentado exponencial de André Ventura? Ou seja, o Chega continua a crescer muito nas sondagens e nos resultados eleitorais e pode especular-se ou podemos avaliar se a taxa de rejeição de André Ventura é assim tão impeditiva de alianças à direita ou mesmo numa eventual vitória do Chega.
Sim, eu acho que o antídoto que Passos Coelho tem em mente é ele próprio, é a imagem de que ele próprio goza no eleitorado à direita. É verdade que não sabemos como é que essa imagem partilha o espaço com a imagem de André Ventura, mas quer-me parecer, e falando também com muitos eleitores à direita, existe em muita gente a ideia de que se Passos Coelho avançasse, o Chega também se iria esvaziar. Por isso, acredito que seja essa a ideia que está na cabeça de Passos Coelho. Não sabemos se isso seria verdade ou não. Isso já são conjecturas que eu creio que só vale a pena analisar a fundo se alguma vez o regresso de Passos Coelho se materializar. Não sabemos, e fazendo esses cenários, que Parlamento é que existia com Passos Coelho como candidato do PSD. Agora, sim, parece-me que há uma falha de raciocínio, se calhar de Passos Coelho, na ideia de que aqueles 60% à direita do PS constituem uma maioria de direita, no mínimo, direita ideológica. Já tivemos diversos episódios que desafiam essa perceção, o mais flagrante é o da reforma laboral. Mas mais uma vez, parece-me que o que Passos Coelho tem em mente é que se eu estivesse lá, as coisas seriam diferentes, o Chega não teria o mesmo número de deputados, mas se calhar o PSD também não. Também haveria eleitorado que poderia fugir pra esquerda. Mas mais do que falar sobre estas conjecturas ou mesmo sobre as emissões de Passos Coelho, interessa-me também olhar pra substância ou para o diagnóstico que Passos Coelho faz do país naquela entrevista, quando diz que os partidos chegam ao governo e não sabem o que fazer, a ideia de que os partidos chegam ao Executivo e vivem mais para sobreviver do que para pensar o país a longo prazo. Eu creio que esta ideia é importante e não só uma reflexão pessimista, porque olhando até pra atualidade internacional, França, Alemanha, Estados Unidos, agora o Brasil, é no curto, médio prazo, a grande questão dos tempos que vivemos, a morte iminente dos partidos tradicionais, que nem sequer tem de ser um drama, nada se perde, tudo se transforma. E quem sabe se nos próximos anos não vai aparecer uma outra força política que preencha esse espaço dos partidos tradicionais moderados, mas convém para quem milita nesses partidos que ouvisse estes alertas, em vez de ficar atrás de um escudo e a questionar as intenções do interlocutor, neste caso Passos Coelho.
E esses alertas é o único instrumento que temos disponível, vale o que vale, mas as sondagens seriam suficientes, pelo menos para que a AD, para que o governo refletisse sobre isso mesmo que estás a dizer. Aparentemente, alguma coisa não está a correr bem, ao contrário do que se vai esforçando por dizer Luís Montenegro. Inês, a entrevista de Pedro Passos Coelho provocou uma imediata reação de André Ventura, que deu uma entrevista à RTP, onde basicamente rejeitou o abraço de urso de Pedro Passos Coelho. André Ventura também joga aqui com a hipótese cada vez mais real de vir a ganhar umas eleições relativas em Portugal e, à direita, a iniciativa liberal também ficou algo desconfortável com esta declaração de interesses de Pedro Passos Coelho, porque pelo que sabemos das posições da iniciativa liberal, uma aliança com o Chega seria sempre contranatura. Falando primeiro de André Ventura, como é que achas que o líder do Chega vai gerir esta situação de ter o seu padrinho político a declarar abertamente que está disposto a aliar-se ao Chega, quando o Chega já pensa e já sonha em ser governo?
Bem, eu acho que primeiro, o fato de o Chega estar insuflado pelas sondagens é um dado a ter em conta na reação de André Ventura, porque não só na sondagem que o coloca em primeiro lugar, a sondagem do Diário de Notícias da Aximage, mas também pelas sondagens que colocam a AD atrás do PS e do Chega, independentemente do lugar em que aparecem. Isso faz com que André Ventura possa legitimamente elaborar cenários que há uns anos eram impensáveis e que muitas vezes nas entrevistas eram colocados pelo próprio André Ventura e se respondia: "Sim, mas isso não está em cima da mesa." E no fundo, pode dizer, como disse nessa entrevista à RTP, que no fundo nem sequer é por uma eventual chegada de Passos Coelho ao PSD, neste cenário hipotético, que daria ao antigo primeiro-ministro a possibilidade de governar ou de ser primeiro-ministro caso o Chega vencesse. E isso é importante. Mas tu falavas da questão do abraço de urso e parece-me que há uma ideia à volta disso que é bastante relevante daquilo que ouvimos dos dirigentes do Chega, que é: com a atual situação, não é pelo fato de Passos Coelho estar a surgir quase como um D. Sebastião que o Chega vai travar ou deixar de ter como intenção o seu principal objetivo de sempre e aquilo pelo qual nasceu, que é ultrapassar o PSD. Portanto, se pela primeira vez na história do partido Há um dado, há esta tal sondagem que permite que esse cenário seja possível, André Ventura vai fazer tudo para explorar esse cenário, independentemente da presença ou não de Passos Coelho. E existe também a teoria, foi assim que representaram, de que Passos Coelho, se fosse já a votos, numa ideia que não está em cima da mesa de poder confrontar diretamente Luís Montenegro e ser ele a ir a votos nas próximas legislativas, isso até poderia ser mau para o Chega. Por quê? Porque travaria a tal, e a expressão é de um dirigente do Chega, rampa deslizante em que o PSD parece estar. Portanto, o Chega, na verdade, prefere que Luís Montenegro esteja lá neste momento e que as eleições sejam desastrosas, mais uma palavra usada pelos dirigentes do Chega, porque isso seria o que possibilitaria André Ventura a chegar lá.
Deixa eu só fazer-te uma pergunta ainda sobre André Ventura. Concordes ou não com a ideia de Pedro Passos Coelho sobre alianças à direita e alianças particulares com o Chega, o que Pedro Passos Coelho diz é muito simples. A partir do momento em que se responsabilizasse o Chega ou se o Chega fosse chamado a assumir determinadas decisões, isso eventualmente seria penalizador para André Ventura, desde que ficasse provado que o Chega não quer fazer determinadas reformas para o país. Isso assusta André Ventura e assusta os dirigentes do Chega? Ou seja, a ideia de que, pela primeira vez, há a disponibilidade real para que o partido seja responsabilizado por decisões ou por omissões.
Eu acho que temos visto, e há muito a teoria, que partidos deste gênero, principalmente da direita radical, têm mais problemas quando chegam efetivamente aos governos, e isso é um ponto que não podemos deixar de parte, porque é o que a história nos tem dito. Porém, eu duvido muito que alguém no Chega, alguma vez, tenha a teoria de que é melhor não chegar lá, porque senão aí vão descobrir uma realidade que, na verdade, nós não conhecemos. E por isso, e aí sim, parece-me que seria-
Aqui é chegar lá sendo sidekick, não sendo protagonista.
Sim, mas aí seria bastante pior para o Chega.
Exato. A minha pergunta ia nesse sentido.
Eu acho que era preferível para o Chega chegar lá por si próprio do que chegar lá à boleia de alguém. Mas, na verdade, André Ventura já se colocou nessa posição. Se Luís Montenegro tivesse querido em 2024, muito provavelmente André Ventura teria estado no governo e já teríamos uma resposta para isso. Neste caso, Luís Montenegro não quis. E por isso não conseguimos tirar essa ilação. Mas a verdade é que muito dificilmente há alguém no Chega que vai dizer: "É preferível não tentar", porque, de facto, isto é política. Eles acreditam que fariam melhor. Bem, nós temos um governo sombra, não sei se isso nos dá alguma indicação ou se foi só uma brincadeira de André Ventura para mostrar como é que seria e se o governo seria completamente diferente. Só para terminar muito rapidamente por causa da Iniciativa Liberal. O que os dirigentes da Iniciativa Liberal disseram é muito simples. Passos Coelho está certo em praticamente todos os diagnósticos que faz, mas comete o erro crasso, isto é uma expressão de Mário Amorim Lopes na RTP, de considerar que o Chega seria a solução, exatamente pelo que tu estavas a dizer no que toca às reformas, porque se a Iniciativa Liberal quer, e quer sempre, fazer das reformas uma bandeira, temos visto, e o Vasco dava o exemplo da reforma laboral, que o Chega não tem sido capaz de entrar nesse corredor e de mostrar que de facto quer as reformas a serem feitas. Portanto, não há nenhum presidente da Iniciativa Liberal que alguma vez tenha colocado em cima da mesa a hipótese de alguma vez haver uma coligação, um acordo sequer com o Chega. Portanto, parece-me muito difícil que Passos Coelho conseguisse unir os três partidos, quatro partidos, na verdade, com o CDS.
Mariana Lima Cunha, falámos muito sobre Passos, mas pouco sobre a reação de Luís Montenegro, que foi uma reação violenta para uma ação violenta. Leia ação-reação, já estamos na área da física. Houve quem discordasse da forma como Luís Montenegro reagiu, houve quem achasse que tinha sido uma demonstração de força, em que clube é que tu militas?
Eu não milito, Miguel, no geral. Eu só observo quem milita, na verdade. Primeiro, deixa-me só dizer, só voltando um bocadinho atrás quando a Inês estava a dizer que André Ventura em 2024 já acreditaria ter feito parte de um governo. E eu acho que aí Pedro Passos Coelho poderia ter a prova, porque eu acho que já teria havido umas quatro ou cinco crises do irrevogável, provavelmente, se André Ventura lá tivesse chegado nessa altura.
A questão, desculpa ser advogado do diabo, e não estou a chamar diabo a Pedro Passos Coelho, é que nós aí não temos mesmo o contrafactual, mas temos experiências recentes. Sabemos o que aconteceu aos partidos que foram sequer percepcionados por terem provocado crises governativas. O CDS desapareceu praticamente, sobrevive ligado à máquina chamada PSD, o Bloco de Esquerda e o PCP foram varridos do mapa. Portanto, aí Pedro Passos Coelho pode ter razão. Quando os partidos são chamados à responsabilidade e falham, diz-nos a nossa história recente que acabam penalizados.
Eu acho que em parte isso é verdade. Noutra parte, nós já tivemos várias experiências com o Chega em que nenhuma das nossas previsões se cumpriu, incluindo quando nós dizíamos: "Mas quando o Chega tiver um grande grupo parlamentar e se perceber o que vai lá dentro e se perceber os casos que vão lá dentro e que, em vários casos, se calhar, os casos dentro do Chega são piores do que aqueles que o Chega denuncia nos partidos grandes, aí é que se vai ver que dentro do Chega também há compadrios e interesses, como diria André Ventura." Aliás, quando partimos das eleições
Em 2025 foi exatamente isso que aconteceu. Muitas das pessoas diziam: o Chega não vai conseguir manter o grupo cinco deputados. E subiu em termos eleitorais.
Portanto, eu não ponho as minhas mãos no fogo só por experiências anteriores, porque nunca se sabe.
Estamos a viver uma realidade alternativa.
Sim. Acho que o Luís Montenegro está a ficar com um problema, porque ele tinha escolhido a sua estratégia enquanto Pedro Passos Coelho ia fazendo intervenções mais ou menos, não é que chamar prostitutos políticos fosse uma coisa subtil, mas era um bocadinho mais subtil do que está a ser agora. E ele andava a responder de forma mais ou menos indireta e a tentar desvalorizar.
Depois houve o episódio do desafio para que Pedro Passos Coelho fosse a votos.
Que era um bocadinho absurdo.
E o bocadinho é um eufemismo.
Pronto, eu estava aqui a tentar não militar em nenhum clube e ter alguma distância, mas sim, é um bocadinho absurdo, até porque no sentido em que acho que é evidente que uma figura como Pedro Passos Coelho, não é fazendo uma escolha por concelhias e distritais a certa altura que se vai limitar. Se ele quiser chegar lá e houver hipótese disso, e houver uma vaga de fundo no país para isso, não vai ser uma jogada de congresso que vai limitar Pedro Passos Coelho de congressos e de eleições diretas no PSD. E portanto, Luís Montenegro está a ficar com um problema sério em mãos e acho que obviamente percebe isso. É verdade que Luís Montenegro pode tirar notas. Quando se diz, aliás, o Vasco ainda há bocado dizia, que Luís Montenegro pode, em vez de atacar o interlocutor, tirar algumas notas, é verdade que Pedro Passos Coelho tem algum mérito nas críticas que faz. Agora, eu acho difícil da parte de Luís Montenegro e dos seus homens não verem isto quase como um ato de sabotagem ao próprio governo do PSD. Ou seja, compreendo que a reação de Luís Montenegro seja violenta neste caso, porque ele está a ter um ataque a tudo o que foi a sua estratégia. Ele já não consegue mudar isso. Ou seja, as críticas de Pedro Passos Coelho partem de um pressuposto que já não é aplicável ao governo de Luís Montenegro. Já não há condições para fazer o que Pedro Passos Coelho gostava que ele tivesse feito, chegar a uma aliança com o Chega, construir uma maioria de direita. Isso já não é possível. André Ventura tem provado que isso não era possível pelas suas ações durante esta legislatura.
Início em ano. Que era um cenário impossível.
E, portanto, Luís Montenegro neste momento não tem muito como acolher essas críticas de uma maneira prática, acho eu. Qual é a maneira? A única maneira agora e neste momento é de facto ele provocar uma crise, como diz Pedro Passos Coelho, ele arriscar com reformas. Ele tentou fazer isso de certa forma na reforma liberal e dizer que morreu na praia é outro eufemismo. Ou seja, assumir as reformas que quer fazer, assumir as suas propostas de frente, confrontar o eleitorado dizendo: "Bem, eu tentei e ninguém me apoiou."
Que é no fundo o que sugere também Pedro Passos Coelho.
Acho que essa é a única maneira, é arriscar ir a eleições, no fundo, e perder ou ganhar a partir daí.
Vasco, termino contigo com uma pergunta difícil. O problema de Luís Montenegro é Pedro Passos Coelho ou é a falta de resultados?
É falta de resultados. E pegando até no que a Mirena estava a dizer, se calhar até mesmo tendo razão, não sabemos, mesmo Luís Montenegro tendo razão quando pensa ou fala, é crítico internamente em autossabotagem, essa retórica a juntar até àquele desafio de que falavas há pouco, de desafiar Passos Coelho a ir às urnas, se calhar leva-nos mais para a imagem de um menino a dizer: "O outro menino está a tentar roubar-me a bola." Se calhar é verdade, se calhar até está.
Duas coisas podem ser verdade. É que a jogada está cara e o menino está a roubar a bola.
Mas ajudam.
Ao pé disto, António Costa Coelho, António José Seguro também é um menino.
Mas é tudo um recreio, no fim de contas. Mas ajudam a que Passos Coelho se posicione como o adulto na sala, que olha para os resultados do país, e não só de agora, os últimos 10 anos, e diz: "Isto não é suficiente." E nesse sentido, acho que o Montenegro, ou até invertendo a questão, não é um nem outro, são os dois problemas ao mesmo tempo. A falta de resultados faz com que o problema Passos Coelho apareça.
Muito bem, a primeira parte da Vichy Soir fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com uma entrevista a um homem que conhece muito bem a direita em Portugal, Diogo Feio. Até já.