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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vício e Suave. Temos conosco Diego Feio. Bem-vindo, mais uma vez.
Muito obrigado.
Esteve aqui neste mesmo espaço em maio e disse o seguinte: Passos e Montenegro é a diferença entre o passado e o presente. Depois da entrevista de domingo, de Pedro Passos Coelho, naturalmente, é caso para dizer que o passado veio reclamar o presente e o futuro?
Tenho dúvidas. Eu acho que Pedro Passos Coelho é uma personalidade relevante no espaço da direita portuguesa. Foi primeiro-ministro, tem um legado, o país saiu da bancarrota sob a sua liderança. Se hoje falamos de contas certas, isso é uma herança de Passos Coelho que este governo mantém sem cativações, portanto, aí até tem uma linha de continuação e deve evidentemente ser ouvido aquilo que diz, até porque o fez com clareza, o que não obriga a que todos tenham que concordar no espaço de direita com o que Pedro Passos Coelho teorizou no passado domingo. E eu estou entre esses. Há muitas coisas das quais discordo frontalmente.
E vou voltar a citar a entrevista de maio, porque é interessante lida à luz do que foi a entrevista de Pedro Passos Coelho.
Mas não foi premonitória.
Não foi premonitória. Mas também disse o seguinte nessa entrevista: Passos não é o líder natural da direita, já foi, já não é. Depois da entrevista de domingo, Pedro Passos Coelho deixou claro que é protocandidato a primeiro-ministro. Disse-o com bastante clareza. Acha que o espaço da direita e o país pode voltar-se para Passos agora que esta disponibilidade foi tão bem esclarecida?
Eu nessa entrevista disse que não era passólogo, isto é, especialista em Passos Coelho, e também não sou especialista em "ses". A quantidade de "ses" para nós chegarmos a um protocandidato são imensos. Nós neste momento temos um horizonte político que será de um ano após a aprovação do orçamento, se nada acontecer de muito especial. Eu não ando aqui à espera de acontecimentos estranhos ligados à justiça ou ligados a outras coisas que não conseguimos dominar. E no plano político, sou muito pela estabilidade. Eu não tenho essa capacidade de "se, se, se". Se calhar, não tenho competências para tal, na capacidade de fazer cenários. Há é coisas que para mim são muito firmes.
E nós vamos falar delas. Imagino que se esteja a referir à política de alianças à direita, mas não muda nada depois desta entrevista de Pedro Passos Coelho, está tudo na mesma?
Foi uma voz qualificada no PSD que falou numa circunstância que não é muito normal. Os primeiros-ministros até têm alguma reserva em relação a esta matéria. Pedro Passos Coelho tem tido uma imensa reserva até às eleições presidenciais, onde o PSD apresentava um candidato e nada disse sobre essa matéria. Aliás, com curiosidade na entrevista, um aspecto que eu achei simbólico: tem elogios para André Ventura, não tem elogios para o atual presidente da República. Eu, por exemplo, estou aí do lado completamente contrário. Elogio o presidente da República, sou incapaz de ver grande capacidade de natureza política em André Ventura. E portanto não sou capaz de tirar grandes conclusões em relação a essa questão de posicionamento político.
Em maio, perguntamos o seguinte: se achava que Pedro Passos Coelho queria derrubar Luís Montenegro. E a sua resposta foi: não acho que esteja na sua vontade, e acrescentou: de todo. Continua a achar o mesmo?
Não tenho motivos para-
Mesmo depois desta entrevista.
Outra coisa que eu não sou muito capaz de fazer é estar a fazer raciocínios sobre o insucesso do meu lado político. Eu quero é que o meu lado político tenha sucesso. E preocupa-me que o possa não vir a ter. Para mim, é uma preocupação. Não é uma espécie de ansiedade para pensar o que é que vou fazer nessa circunstância. E por isso mesmo, tenho tido uma posição pública de apoio em relação a este governo, que além do mais eu acho que está a atuar de uma forma positiva e gosto sinceramente de ver pessoas a elogiarem a ação deste governo que é completamente diferente da de António Costa. Acho muito injusto dizer-se que este é um governo que empurra com a barriga.
Pedro Passos Coelho foi injusto nesse aspecto ao comparar os dois governos?
De uma forma clara, acho que foi.
Há pouco dizia que pessoalmente não torce pelo insucesso da AD. Pedro Passos Coelho está a torcer pelo insucesso da AD?
Não, não parece de todo. Aliás, refere que o seu partido é o PSD. Eu não sou filiado no PSD e portanto não acho que eu não sendo filiado no PSD tenha mais vontade que as coisas corram bem do que alguém que é filiado. Isso parece-me a ordem natural das coisas.
Continuamos a contornar a questão. O que é que motiva Pedro Passos Coelho? Agora com uma entrevista tão esclarecedora em que disse que se as coisas falharem, então ponderará e tomará uma iniciativa. Diz-me que não é passólogo, diz-me que não acredita que Pedro Passos Coelho esteja a torcer pelo insucesso da AD. Como é que se conjuga isso tudo?
Conjugasse de uma forma muito simples. Pedro Passos Coelho tem uma ideia diferente sobre o modo como o PSD se deveria posicionar neste momento do que tem o atual primeiro-ministro. Tem muitas coisas em comum no plano daquilo que são os apoios partidários, se quisermos, no plano da forma de encontrar a estabilidade Pedro Passos Coelho tem uma ideia diferente de Luís Montenegro. Eu acho que esse é que é o ponto central aqui. E em relação a esse, eu tenho uma discordância absoluta. A possibilidade de um acordo com o Chega, para mim, é mau, quer no plano substancial, quer no plano de estratégia política. E vamos começar pelo mais importante, que é sempre o substancial. Primeiro, valores. São incomparáveis os valores que são defendidos pelo PSD, pelo CDS e pelo Chega. O PSD é um partido da social-democracia, muito preocupado com a pessoa, muito preocupado com a unidade da sociedade. O CDS é um partido democrata cristão, que vem da linha da doutrina social da Igreja, e o Chega é um partido de ressentimentos, é um partido de polos. E a política portuguesa não pode viver sob uma lógica de polos diferentes que têm que estar em constante confronto. Depois, no plano das reformas. Achar-se que se pode conseguir um conjunto de reformas relevantes com o Chega, eu acho que peca por um déficit de atenção em relação àquilo que tem sido o posicionamento do Chega quanto às mais diferentes matérias, desde logo aquela que toda a gente refere, a questão laboral. Mas eu sou muito preocupado com a disciplina das finanças e das contas certas. Portanto, para mim, é completamente impossível qualquer alteração da idade de reforma, no sentido de ela ser mais cedo, porque isso era um rombo nas contas públicas, um rombo na sustentabilidade da Segurança Social que seria imenso e poderia continuar com outros exemplos. E depois, uma questão institucional. Eu não estou ao lado de um partido que tem dirigentes, estamos num estúdio de rádio, que invadem rádios, que tem dirigentes que estão à vontade para serem presidentes de uma comissão parlamentar e falarem com os deputados na mesma como se nada fosse. E ainda mais tenho dificuldade em ver como é que é possível um governo que inclua as pessoas que estão no governo de sombra do Chega. Vamos ao concreto, vamos comparar Joaquim Miranda Sarmento ou o ministro sombra das Finanças do Chega. Vamos comparar Miguel Pinto Luz ou o responsável pelas infraestruturas e obras públicas no Chega. E podemos continuar por aí fora. Acho que é uma diferença do dia pra noite e, portanto, não vi aí qualquer possibilidade de um acordo, assim como qualquer comparação entre aquilo que têm sido as coligações entre PSD e CDS e uma coligação que encontra o Chega dentro, até chega a ser ofensivo. E eu participei em coligações em que o CDS estava. Mas para além do mais, parece-me que há aqui um erro estratégico grave em pensar-se que pode haver qualquer espécie de acordo com o Chega.
Mas isso faz de Passos Coelho o quê? Ingênuo? Otimista?
Não, faz de Passos Coelho uma pessoa que tem convicções que são diferentes das minhas e de muitas outras pessoas. No dia em que nós tivermos um acordo de governo, um acordo parlamentar com o Chega, eu acho que há uma cisão à direita. Eu, pela minha parte, no dia em que isso acontecer, vou pregar pra outra freguesia e vou abandonar o meu espaço político de sempre. Terei muita pena, mas é isso que vai acontecer. Espero, e estou muito empenhado, que nunca tenha que tomar uma decisão desse gênero.
Ainda sobre a questão da liderança à direita, Luís Montenegro continua a cair nas sondagens e o Chega a crescer de forma consistente. A AD corre aqui um risco de sobrevivência?
Não, vamos ver. Não há governo que passe por uma crise de inflação, que esteja em alta nas sondagens, nem há um que ganhe eleições, quando elas sucedem. Agora, também temos que olhar para os números e perceber. Há, no mínimo dos mínimos, da parte do Chega, uma manutenção de uma fatia de eleitorado que é relevante. E por isso eu também acho que qualquer acordo com o Chega é um erro estratégico, porque eu não acredito que exista absorção de uma liderança do PSD chamada à direita.
Mesmo que seja de Pedro Passos Coelho.
Mesmo que seja de Pedro Passos Coelho, que levasse a uma absorção do Chega. Aliás, não deixa de ser curioso. André Ventura fala imenso. Depois, no dia daquela entrevista, só conseguiu falar à tarde. Deve ter estado muito ocupado a fazer coisas, possivelmente. Se calhar investigações que precisava de estabelecer em relação ao que lhe aconteceu com o seu gabinete, mas não lhe ouvimos nada. Tão prolixo sempre. E quando veio falar, veio falar de uma forma um bocadinho comprometida, não é? Porque eu acho que André Ventura, na sua cabeça, já se está a ver como o líder dessa grande direita.
Não como vice de Passos, como líder.
De que Pedro Passos... Claro. E já viram que podemos estar aqui perante um potencial passo atrás. Deu tanto trabalho ao PSD atingir aquele lugar que teve o Partido Socialista durante anos, que é o de ser o partido charneira do nosso sistema. E agora ia dar um passo atrás a fazer uma coligação de uma grande direita que se desfazia no seu preciso momento de início? Reparem, só há um partido que consegue dialogar à esquerda e à direita, que é o PSD. O PS tem um problema evidente. Aliás, já Luís Carneiro já vem dizer: "No dia em que eu ganhar umas eleições, o que eu peço é reciprocidade." A reciprocidade que eu acredito que duraria um pouquinho mais do que a validade de um iogurte. Vamos admitir que a coisa passava por aí, mas nunca poderia ser muito longa. E José Luís Carneiro sabe: eu não tenho hipótese de ter uma maioria absoluta com os meus parceiros à esquerda. Eu nunca vou falar com o Chega. O que me restaria um dia que eu ganhasse umas eleições? O PSD que estava a sair do poder, mas isso seria sempre uma coisa efêmera. A esquerda tem, neste momento, um gravíssimo problema de poder assumir uma forma de governabilidade. E o PSD que conquistou agora, a AD que conquistou agora, um lugar central no sistema, vai deitá-lo fora para termos dois polos? Um polo entre esquerda e direita. Eu faço cada vez mais uma distinção. Eu acho que a distinção entre esquerda e direita ficou lá atrás. Ficou há uns anos atrás. Hoje em dia, a distinção é entre moderados, por um lado, e radicais, por outro.
Precisamente sobre cenários, que já deixaram de ser só abstrações teóricas, se em futuras eleições o Chega ganhar, a AD deve aliar-se ao PS para governar.
Repare uma coisa, o que eu estou empenhado é que o Chega não ganhe as eleições.
Certo. As sondagens já tornam isso um cenário plausível. Já deixou de ser um falar em língua de João Leão Ventura que falávamos.
Vamos falar sobre as sondagens e até utilizando o exemplo de José Luís Carneiro. O senhor ministro disse uma coisa muito interessante, que é: por que vota abstenção no orçamento? Porque não quer uma crise política, porque sabe e não quer ser o responsável pela crise política. Porque sabe o quê? Que a partir do momento em que tivéssemos uma crise política, a intenção de votos portugueses passava a ser completamente distinta. E que se votar contra um orçamento é visto, ele próprio, como aquele que criou a crise política, o que me leva a pensar, já agora, que a legislatura pode correr bem. As sondagens podem ser até diárias, se quiserem. Elas agora são semanais, mas a mim preocupam-me, nesse plano, muito pouco.
Desliguemos a questão das sondagens. É factual que há três partidos em condições de ganhar eleições em Portugal neste momento.
É verdade.
A nossa pergunta ia nesse sentido. Se o Chega ganhar, o que deve fazer a AD?
Eu acho que a AD deve fazer uma coisa anterior e preventiva.
Não perder as eleições.
Não, vamos a isso. Vamos à forma de não perder as eleições. É olhar para os últimos resultados eleitorais. Eu acho que mais do que uma questão estratégica, é uma questão política. Mas nos últimos resultados eleitorais, a direita de cariz moderado em Portugal teve 39% dos votos. É somar os resultados que teve AD mais iniciativa liberal. E eu acho que aproveitar este tempo para lançar um projeto político que fosse ou de coligação, ou federador, ou de criação de uma lógica única partidária da direita moderada, tinha grandes hipóteses de poder vir a ter uma maioria absoluta, como sabemos, tem 42 a 43%. Tem que ter uma base de medidas a tomar, como é óbvio, mas eu sinto que há muito eleitorado do centro-direita que anseia por uma solução desse gênero e que está a olhar para o quadro político e ver à esquerda isso não é possível, porque desde logo, o PS tem muita dificuldade em encontrar um parceiro que seja moderado e, portanto, pensar-se em enquadrar aqui dentro também o Chega é o maior favor que se pode estar a fazer a José Luís Carneiro, porque de repente passa a ter uma solução que neste momento não tem. Passa a poder aparecer o PS ao eleitorado como o partido moderado em relação àqueles que são radicais. E é isso que eu não quero. E é precisamente isso que será importante que não venha a acontecer. E também, já agora, o governo vai ter que manter este andamento esta semana. Nós esta semana tivemos o anúncio da privatização da TAP, que utilizando uma expressão futebolística, foi limpinho. Aquilo foi sem espinhas. E eu acho que se deve multiplicar este gênero de situações e se calhar explicar muitas coisas que são importantes e que estão a ser feitas em relação à habitação, em relação à política fiscal. Nós já vamos na sétima medida que baixa os impostos sobre o rendimento. Isto é uma opção de natureza política. Baixar os do rendimento e não baixar aqueles que têm a ver com o consumo.
Mas então há algum problema do governo em passar essa mensagem? A mensagem positiva? É um problema de comunicação, só?
Problema ou não problema, acho que tem que se intensificar essa mensagem. E há um conjunto de ministros que eu, sempre que os vejo falar, vejo falar bem e, portanto, com grande probabilidade, também será aí um aspecto a sublinhar.
Só mais uma pergunta sobre cenários. Se o PS ganhar, mas existir a tal maioria de direita, não a que o Diogo feio desejaria que seria composta sem o Chega, mas com o Chega. A AD deve aliar-se ao Chega para impedir o PS de governar.
Repare uma coisa, eu compreendo os cenários todos, só que eu já sou seletivo em relação aos cenários.
Vai me responder com prevenção.
Não, vou responder. Eu só trabalho para os cenários de que gosto. Não vou trabalhar para os cenários de que não gosto. E, portanto, não me ponham perante uma situação em que temos apenas pela frente ou uma situação de bloco central ou uma situação de coligação com o Chega. Eu hoje em dia olho para o cenário dos eleitores brasileiros e tenho um bocadinho de pena. Eu imagino como o eleitor brasileiro estava angustiado neste momento, tendo que ir votar. E, portanto, entre as duas hipóteses tinha pela frente.
Só porque há pouco aludiu a essa possibilidade, dizendo que no dia em que isso acontecesse, iria pregar para outra freguesia. Se a AD ou o PSD, confrontado com esta escolha PS ou Chega. Se houver vontade da parte do PSD de se aliar ao Chega para impedir que o PS governe, isso provocaria uma cisão no partido?
Eu acho que há grandes hipóteses disso poder provocar, não sei se uma cisão, mas um abalo muito grande, porque é dito sempre que os partidos de poder em Portugal, PS e PSD, estão como cimento quando estão no exercício de funções públicas. Aceito isso como possível. Agora, eu ouço muita gente não gostar propriamente da possibilidade de acordos com o Chega, mas o eleitorado não tem gostado nada. Rui Rio não foi completamente claro quando foi candidato em eleições legislativas do que faria com o Chega. O que aconteceu? António Costa ganhou com maioria absoluta. Marcelo Rebelo de Sousa teve uma situação de confronto com as lógicas do Chega, do ressentimento, do negativo, do estar muitas vezes contra a vida, e teve, depois de Mário Soares, o melhor resultado que um presidente da República teve em eleições presidenciais à primeira volta. António José Seguro teve mais de 60% numa segunda volta, tudo numa lógica de confronto com André Ventura. Eu acho que isto quer dizer alguma coisa sobre aquilo que os eleitores pretendem. E há coisas que vão ficar, na minha opinião, cada vez mais claras daqui a uns tempos. Ou melhor, que já se vão clarificando. Nós estamos a viver uma grande crise de combustíveis. E se nós tivéssemos que apontar uma grande razão para essa crise dos combustíveis, nós diríamos o conflito no Medio Oriente, que foi iniciado, desde logo, por uma atuação dos Estados Unidos e da sua presidência. E ainda me lembro daquele tempo em que André Ventura dizia com grande satisfação que tinha ido à tomada de posse, não sei se foi a uma sala, se foi mais pra frente, isso a mim interessa-me pouco agora.
Isso é muito previdente da sua parte, na medida em que o Soares, líder parlamentar do PSD, teve dúvidas entre escolher entre Donald Trump e Kamala Harris.
Teve dúvidas, não disse que estava claramente pra um lado. Eu não teria dúvidas nenhumas, mas admito que pudessem existir dúvidas. Mas Ventura foi a Washington aplaudir Trump. Agora que a gasolina está a €2, até descobriu que Trump comete erros. Quer dizer, será disso que os portugueses querem, quem aplaude primeiro e se arrepende depois? Eu acho que o radicalismo tem sempre um preço. E, portanto, eu vou estar sempre a combater os cenários que me obrigam ou a pensar que o espaço de centro-direita de que tanto gosto possa estar ao lado de radicais ou que vai cair num bloco central.
E tendo em conta esse cenário, acha justa a comparação que Pedro Passos Coelho fez, ou traçou entre fazer no tempo dele como primeiro-ministro uma coligação com o CDS e agora fazer uma coligação com o Chega?
Já isso há pouco, mas assim até é bom, porque posso mesmo pôr o traço mais marcado e elaborado. Concretizemos. A coligação que Pedro Passos Coelho fez foi com Paulo Portas. A coligação com o Chega será com André Ventura. A coligação que o PSD fez foi para nos salvar da bancarrota e pôr as contas públicas em ordem, algo que agora é aceite totalmente. Não foi propriamente para mudar na idade da reforma, não foi para deixar de fazer contas, não foi para: "Há uma necessidade que as pessoas têm, então vamos já mexer no IVA dos combustíveis ou vamos mexer no IVA dos produtos alimentares." E foi uma coligação de responsabilidade, não foi uma coligação com irresponsáveis, esta tudo dito. Sinceramente, acho que essa comparação foi das coisas que mais me marcou naquela entrevista.
E essa eventual coligação seria para fazer as reformas que Pedro Passos Coelho tem pedido. Já percebeu que reformas em concreto é que Passos Coelho quer implementar no país?
Esse ponto, mas eu sou paciente e, portanto, aguardo por essas reformas. Dizer-se: é preciso reformar a educação e é preciso fazer alterações na educação. Nós estamos neste momento cinco dentro deste estúdio, concordamos todos. Pedro Passos Coelho disse isso, de facto. Ou é preciso fazer reformas na área da saúde. Também vamos concordar todos. Ou é preciso ter competitividade. Agora, essas coisas não se fazem da noite pro dia, não se fazem num estalar de dedos, é preciso todo um caminho. E mais, é preciso ter o caminho que o eleitorado quis. Fazer aquilo que o eleitorado aponta não é cair numa armadilha. E o eleitorado apontou que queria três grandes blocos e queria a AD governar. Não apontou que queria um acordo com o Chega. Estou perfeitamente convencido que se o PSD tivesse posto no caixote o lixo o não é não, a AD não tinha ganho as últimas eleições, tal como aconteceu em todo o histórico. E mais, pior ainda seria se algum dia fosse a eleições dizendo não é não e depois esquecesse e fizesse esse acordo com o Chega. Eu não vejo muita capacidade de podermos reformar o que quer que seja, tendo uma política continuada, não uma política de diálogo em relação a um conjunto de matérias. Isso é uma coisa diferente.
O que está a dizer pode ser verdade para a AD, para António José Seguro, vamos dar isso como adquirido, mas ao mesmo tempo, temos assistido a um crescimento consistente Do Chega, como é que se conjugam as duas ideias? Ou seja, como é que se explica que o Chega continua a crescer ao mesmo mesmo tempo que se diz que...
Eu faço uma distinção entre o partido Chega e o seu eleitorado. Há um conjunto de eleitorado para o qual é necessário falar e para o qual é necessário estar atento. Isso eu acho que é uma outra conversa. Isso é completamente distinto. E é, desde logo, por exemplo, explicar de uma forma muito clara medidas da habitação, por exemplo, que é uma matéria que naturalmente está a tocar muitas pessoas neste momento. E os jovens, aquilo que se fez, quais foram as primeiras medidas que o governo quis tomar. As primeiras medidas foram de apoio social. As primeiras medidas foi tentar resolver, nunca é possível resolver, uma urgência que jovens tinham e dar-lhes a garantia pública, porque senão não iam poder contrair empréstimos e ter as diferenças fiscais no IMT, porque senão também não iam conseguir sequer pensar em adquirir uma casa. E essas medidas, é curioso ouvir esse número, leva a que os jovens possam, graças a isso, estar a comprar casas na ordem média dos €200.000. É que muitas vezes parece que deu a possibilidade de comprarem casas de 1 milhão de euros ou por aí fora. Não, é este centro de habitação de que estamos a falar. E depois, passos a seguir, que é termos um mercado de arrendamento a poder funcionar. Tudo isto foi feito faseadamente e ninguém pode pensar que este é um problema que se vai resolver sem mais ou com a construção pública que se está a aumentar. E portanto, para esse eleitorado tem de se explicar: há aqui problemas, não vão ser resolvidos no curto prazo. É impossível, não há ninguém que os consiga resolver no curto prazo, mas estamos a tomar estas medidas. Assim, por que estamos a tomar as medidas dos impostos? Para favorecer um conjunto de classes sociais, desde logo a classe média, aquela que nós vemos que tem que ter um elevador para poder crescer. Isto, do meu lugar de comentário político, é aquilo que eu acho como relevante fazer-se num plano, se quisermos, de comunicação das medidas a tomar.
O Diogo Feio reconhecerá que existe uma impaciência do eleitorado. Falou há pouco sobre isso, até tendo em conta a crise do custo de vida. O discurso de Pedro Passos Coelho não será capaz de canalizar essa impaciência?
Não sei, porque curiosamente, e isso é aqui um elogio que vou fazer grande a Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho não olha para este género de medidas de acordo com uma conjuntura de dificuldades. Foi ele que disse que se lixem as eleições, não é? E portanto, pouco preocupado com a vertente eleitoral. E não vejo que seja alguém que possa pessoalmente agregar esse descontentamento. E por isso mesmo, vejo com dificuldades que possa algum dia liderar um projeto que tenha o Chega e muito menos com aquela coisa que se diz: "Ai, agora vamos esperar por aquilo que vem da Associação Comercial do Porto." Eu só queria chamar a atenção sobre dois pontos. Primeiro, o estudo é um estudo da Associação Comercial do Porto, feito pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, portanto por académicos, e tem dois coordenadores, Pedro Passos Coelho e um que é colaborador aqui, o Sérgio Sousa Pinto. Estão a ver algum dia um programa que tenha a coordenação do Sérgio Sousa Pinto ser uma coisa que é utilizável pelo Chega? Eu não estou, sinceramente, mas esperemos por aquilo que nos vai ser apresentado em dezembro.
Mas do que estava a dizer, se retira também que é possível que as reformas em que Pedro Passos Coelho, de facto, acredita possam ser impopulares junto do eleitorado.
Não sei se serão impopulares. Podem ser impopulares, mas olha, uma coisa que eu gostaria muito que fosse olhada a sério em Portugal e que tem sido olhada para alguns setores, é a questão do licenciamento. Licenciamento industrial, comercial, na parte urbanística já se tocou, isto é, que é aquilo que pode facilitar as pessoas terem iniciativa e podermos ter o tal crescimento. Nós estamos neste momento a crescer mais do que a média da União Europeia. Não estamos a crescer muito, mas estamos a crescer mais do que a média da União Europeia. Estamos bem em relação àquilo que são os restantes estados da zona euro. Estamos também bem em relação àquilo que é a diminuição da nossa dívida. Nós estamos a aproximar da Finlândia. Tenhamos esta noção. Nós partimos de estar ao pé da Grécia e agora estamos a chegar a estados completamente diferentes. Essa, olhe, por exemplo, foi uma linha que começou com Pedro Passos Coelho e que tem sido mantida. Não acredito muito que as reformas que o país necessita sejam daquelas que sejam pra doer. Sinceramente, acho que no plano da economia, é possível ainda termos ações que levam a nossa economia a poder crescer ainda mais.
No essencial, o governo assentou a sua estratégia na questão dos rendimentos, pensionistas, funcionários públicos, mais jovens de salário mínimo, mas continua com problemas a entregar resultados, por exemplo, na questão das creches, nas escolas, nos hospitais, nas casas, na competitividade da economia. A isto soma-se aquilo que se falava há pouco, a crise energética, que vai tornar tudo mais difícil. AD não corre o risco de frustrar as expectativas de quem lhe deu esse voto?
Isso pode ser visto como um elemento objetivo, porque em todas essas matérias é impossível dar resultados imediatos. Quer dizer, não se dá em Portugal, não se dá em qualquer lado do mundo. Vão se dando resultados, que é uma coisa diferente. E as pessoas, neste momento específico, estão impacientes. É óbvio que estão, mas já tiveram mais impacientes quando foi da questão da Ucrânia. Nós temos níveis de inflação incomparáveis com aqueles que estamos a ter neste preciso momento Outro ponto para se manter as contas públicas em ordem, evidentemente que o Estado fica limitado em algumas das ações que levem a maior despesa. Tudo isso são pontos que com certeza levam a algum desgaste por quem está a exercer o poder. O que me parece importante é poder se chegar ao final da legislatura, que eu acredito possa ser de fato mesmo no final do prazo, e apresentar um relatório de atividades. Fizemos isto. Estas ações tiveram já resultados, outras vão ter mais tarde. Na área da educação, nós já não nos lembramos da discussão que tivemos à volta da questão dos exames, que foi grande e que teve sentido, e houve coisas que não correram bem. Mas o ano letivo começa a horas, os alunos foram colocados, foram colocados mais alunos, potencialmente há menos erros. Nós também não imaginamos os erros que existiam antes quando os exames eram corrigidos à mão. Estamos a dar passos. Agora, não é possível dar todos. Não há governo que vá dar todos os passos numa legislatura. E este governo, reparemos, tem um primeiro mandato que foi de um ano e depois tem este. Portanto, ele vai completar no fundo aquilo que é o equivalente a uma legislatura e para se poder resultar historicamente, nós temos que olhar para duas.
Já percebi que está confiante em chegar ao fim da legislatura, mas ainda assim deixe-me perguntar se no próximo ano será fácil voltar a ver um orçamento como este viabilizado. Você acredita que José Luís Carneiro voltará a colocar-se nesta posição?
Com o andar do tempo, é natural que documentos como o orçamento sejam mais difíceis de terem uma aprovação.
Este não parece ter sido muito difícil, pelo menos o secretário-geral do PS antecipou-se bastante.
O secretário-geral do PS pôs umas condições muito complicadas. Portanto, lá faça o seu discurso. Que a oposição faça o seu discurso, eu acho ótimo, está no seu papel. Também era só o que faltava estarmos todos a dizer aqui a mesma coisa. Mas o próximo orçamento, naturalmente, é o orçamento mais difícil desta legislatura, mas também temos um presidente da República que quis afirmar logo à partida que, para ele, a não aprovação de um orçamento não tinha como consequência: um, demissão do governo; dois, convocação de eleições legislativas. Portanto, há sempre a possibilidade de se apresentar um outro, há sempre a possibilidade de se governar por duodécimos. Isso vai ter que ser algo que vai ter que ser analisado na altura. Ainda estamos a um ano de distância. E portanto, vamos ver o que é que acontece. Falamos nessa ocasião.
Mas José Luís Carneiro não terá a tentação, dessa ou de outra forma, de derrubar o governo antes do tempo. É que mantendo-se as sondagens positivas, pode não querer esperar pelos resultados bons do governo, não é?
Por acaso nem é tanto as sondagens positivas. Sabe que eu vejo a política portuguesa neste momento como vários espelhos. E espero que a certa altura eles não comecem a desfocar muito a visão de quem tem que a ter. Mas nós temos muito a falar, e é natural, sobre a entrevista de Pedro Passos Coelho. É provável que se tivessem aqui um comentador mais ligado à área do Partido Socialista, tivessem a falar de quem? De Mário Centeno. Mário Centeno cria uma pressão sobre o Partido Socialista, curiosamente apresentando ele uma solução de bloco central. Não é filiado no PS, portanto, nunca poderia ainda ser secretário-geral, teria que esperar, pelo que eu sei, um ano, mas vem gerar esta situação. Ao mesmo tempo, José Luís Carneiro tem um grupo parlamentar que objetivamente não foi ele que escolheu. Eu acho graça quando não há escolha dos grupos parlamentares, para quem olhamos? Olhamos muito para as últimas filas do Parlamento, onde tem um conjunto de deputados que não falam, mas estão com um ar que diz tudo. E há a pressão de medidas mais à esquerda. Quer dizer, o José Luís Carneiro vir ter um ataque tão forte como teve em relação à tributação das empresas, eu só compreendo porque se sente um bocadinho acossado do seu lado esquerdo, por muito que ele neste momento represente muito esse lado, represente pouco no plano eleitoral. Agora, também acredito que é alguém capaz de resistir e que sabe que precisa de tempo, que sabe que precisa de apresentar ideias, sabe que precisa disso tudo. E sabe de uma coisa: é muito complicado para o líder do Partido Socialista ir a votos se houver a percepção que a responsabilidade é sua. Foi o que aconteceu nas últimas. E quando ouço o José Luís Carneiro dizer: "Eu voto o orçamento porque eu sou pela estabilidade política e não quero estar a criar uma crise", eu acho que se exclui.
Pode segurar essa tentação.
Pois, claro.
Vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. É um habitué destes espaços, já sabe as regras do jogo.
Já sei as regras.
Vem aí a trilha. Quem colocava como capitão na sua equipa da fantasy: Mário Centeno ou José Luís Carneiro?
Quer dizer, eu o Mário Centeno não o conheço, mas há a figura do capitão e do vice-capitão. Punha como vice-capitão José Luís Carneiro.
Quem é que convidava para jogar um torneio de tênis de 24 horas: Gonçalo Matias ou António Leitão Amaro?
Mais uma vez, é uma questão de proximidade. Eu convidaria os dois. Também depende de como estivesse a forma física deles. Eu garantidamente que ia aguentar as 24 horas, portanto, não teria esse problema, mas tenho cumplicidades mais antigas, até do mundo acadêmico, com o Gonçalo Matias. Chamava o Gonçalo Matias, mas também se quisessem jogar os dois em pares contra mim, estaria tudo bem.
A quem gostaria de dar uma aula de Direito: António José Seguro ou António Costa?
Isso é mais complicado. Acho que não deveria dar ao Presidente da República e o António Costa é de Direito e podia estar sempre a precisar de um refrescamento de matérias, até nas matérias de Direito da União Europeia, que é uma daquelas disciplinas que eu dou. Portanto, dava a António Costa. Seria possivelmente uma tarefa mais fácil para o professor.
E quem é que preferia ter ao seu lado num camarote no Estádio do Dragão? Fernando Alexandre ou Luís Neves?
Eu acho que o Fernando Alexandre é do Porto, mas não tenho a certeza. Portanto, por aí ia para o Fernando Alexandre, porque nós, quando estamos a ver e a sofrer por um clube, precisamos daquele apoio, não precisamos muito de contrapontos.
Yok foi, como é hábito no nosso programa, o convidado serve a sobremesa, no caso, uma música. Que música nos traz e por quê?
Eu faço aqui uma continuidade. Eu na última vez que cá estive, foi há uns meses, trouxe o Homem do Leme. Fez uma interpretação em relação a quem era o Homem do Leme e a liderança da direita. Vou manter o mesmo grupo musical, os Chutos e Pontapés, e agora é o "Não Sou o Único", porque eu acho que em relação àquilo que aqui fui dizendo, não vou fazer grandes dissertações sobre a letra, da outra vez fiz, não serei o único a ter este conjunto de ideias. Tive, devo dizer, uma grande dúvida sobre a música que ia trazer. Tive para trazer uma dos Queen, não vou dizer qual é porque fica pra próxima.
Fica já combinada a próxima entrevista. Yok foi, muito obrigado por ter vindo aqui às Viciçoas. Os nossos ouvintes já sabem, podem ler a entrevista na íntegra no site do Observador ou ouvi-la novamente nas plataformas habituais. Até à próxima.