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Olá, bem-vindos à Vício Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o homem mais orgulhosamente rural da telefonia portuguesa, o Miguel Viterbo Dias, e as urbano-eufóricas Inês André Figueiredo e a Mariana Lima Cunha. É este Portugal inteiro que me vai ajudar a explicar uma semana em que Sebastião Bugalho e Marta Temido deram os tiros de partida para as respectivas campanhas eleitorais. Como primeira impressão, o disco mudou, mas a música vai ser a mesma. Esta vai ser mesmo a segunda volta das legislativas. Enquanto isso, no Parlamento, PSD, PS e Chega continuam numa dança muito própria que ninguém sabe muito bem quando vai acabar. Acabar bem, não vai, seguramente.

Vamos lá ver se eu hoje não confundo os castelos com as quinas.

Nós ao longo da nossa vida somos testados.

O Sebastião é um homem absolutamente extraordinário.

Nos próximos 30 dias, cabe-nos demonstrar o que está em causa. O governo antecipou-se, indo buscar uma medida ao programa eleitoral do Partido Socialista. É uma boa medida.

Pôr o dedo no ar e dizer: "Nós no final do mês também íamos propor isso". É até, devo dizer, de alguma infantilidade. Inês, tu eres uma criança.

É mais uma oportunidade perdida para conseguirmos olhar frente a frente e iniciar um caminho de real progressão e não de real remendo. E isto acaba por ser remendo.

Um governo de remendo ou não, não sabemos. Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Mariana Lima Cunha, começo por ti, para te servir uma sopa para exportar. E peço, naturalmente, um comentário à primeira apresentação de Marta Temido como cabeça de lista do Partido Socialista às eleições europeias.

Marta Temido, que vai ser exportada para Bruxelas, mas foi um bocadinho ofuscada pelo líder do PS, que decidiu falar também. Para já, evidentemente, o facto de o líder do partido falar no mesmo evento e falar depois da cabeça de lista, naturalmente desfoca um bocadinho as atenções da candidata. E depois também porque Pedro Nuno Santos tinha uma série de recados relevantes para dar a nível europeu. Ele foi quase rever a matéria que Marta Temido já tinha dado. Marta Temido fez um discurso mais focado no nível europeu e apresentou as propostas e as bandeiras do PS para as europeias. E Pedro Nuno Santos fez questão de estar ali quase a rever a seguir a ela e a dizer que estava de acordo com essas propostas, como é natural que esteja.

É um bom sinal.

Ninguém esperava outra coisa.

Pode não acontecer tantas vezes.

Depois fez a ponte para o plano nacional, que acabou por roubar um bocadinho o palco ao discurso de Marta Temido.

E há aquela frase, aliás, com que termina a intervenção em que diz: "Primeiro vamos ganhar a Europa para depois ganharmos Portugal". Portanto, é o próprio Pedro Nuno Santos a assumir que esta é uma segunda volta das legislativas.

Sim, vocês são pessoas que estão habituadas a estar em discursos políticos, sabem aquela última frase que já se ouve mal porque já está no meio das palmas e nós ficamos espantados ao ouvir a última frase. Houve muitos socialistas que não a ouviram, ou que não perceberam imediatamente, mas que depois reconheceram, um bocadinho depois, que ela tem obviamente leituras e que tem obviamente significado.

Isto não é um enorme risco para Pedro Nuno Santos? Assumir assim de forma tão taxativa Que de facto há leituras nacionais nessas europeias.

Não é um bocadinho...

Mais do que leituras nacionais, quase um pré-aviso de que vai haver legislativas em breve.

Sim, há vários pontos aqui. Por um lado, a parte de haver leituras nacionais sobre as europeias parece-me um bocadinho uma inevitabilidade. Eu acho que seria muito hipócrita da parte de qualquer um dos partidos fingir que não vai, depois de um resultado tão fragmentado como foi o das últimas eleições, depois do PS e do PSD terem ficado tão próximos em número de deputados, é evidente que estão a olhar para isto quase como uma espécie de confirmação das eleições e do que andam a fazer e da popularidade que andam a ganhar ou a perder na rua neste momento. Aliás, faz lembrar quando Marcelo Rebelo de Sousa avisou logo na tomada de posse que o governo tinha de ir alargando a sua base de apoio assim que começasse a governar e no fundo parece que os partidos vão testar se essa base de apoio está ou não a ser alargada nesta altura. Agora, evidentemente há riscos nisso. O que se diz no interior do PS é que o PS devia ganhar estas eleições para confirmar que de facto tem aqui uma espécie de onda atrás de si e que o trabalho no Parlamento está a resultar e que o facto de estar a aprovar coisas que interessam às pessoas está a resultar. As duas opções que eu vi foi ganhar ou ter um resultado que não envergonhe, que seria ficar muito taco a taco com o PSD. Qualquer coisa abaixo disso, acho que traz mais alguma legitimidade. Claro que o governo tem toda a legitimidade para governar, mas traz ainda mais legitimidade para dizer que está confirmado na sua liderança e que a oposição se calhar tem de o deixar governar e de lhe dar algum tempo e algum espaço. E portanto, Pedro Nuno Santos é capaz de fazer uma espécie de all in nestas europeias. Depois, há ainda a outra interpretação que é: pode ser querido, de facto, motivar as tropas, está a lançar a candidata, é um dia de alguma euforia.

Festa.

Festa da Europa.

Mas parece-me que é uma narrativa que será muito difícil retirar da equação na campanha inteira.

Antes de passar a palavra ao Miguel Viterbo Dias, registo que reconheceste a legitimidade do governo para governar. Acho que Luís Montenegro estava a precisar desse sinal da tua parte.

Não sei se me havia visto bem, mas eu acabei de dizer que obviamente já tinha dado a legitimidade para governar.

É uma provocação, Mariana.

Todas as ajudas são poucas neste momento.

Miguel Viterbo Dias.

A minha é um bocadinho irrelavante. Acho que Luís Montenegro não está preocupado com a minha.

Não se merece, Mariana. Miguel Viterbo Dias, não estamos a ser filmados, portanto os nossos ouvintes também merecem uma palavra da nossa parte. Estás debilitado neste momento. Estás com problemas na zona...

Vindo do dentista.

Exatamente, na zona do maxilar.

Mas o que conta são as ideias.

Peço também aos nossos ouvintes que tenham natural compreensão pela tua forma.

E estou de sapatos de vela e calça de ganga russa como bom agrobet como me apresentaste no arranque deste programa.

Que tenham alguma compreensão pela tua dicção especial.

Sim, vou tentar ainda assim falar de forma percetível. Queres que eu fale o quê?

Peço-te um comentário sobre o momento de Sebastião Bugalho e de Carlos Moedas. Também acompanhaste de perto essa apresentação do programa eleitoral para as europeias. O que terias para dizer, Miguel?

Ora bem, deixa-me só complementar o que a Mariana estava a dizer, e aquilo que estavas a falar da segunda volta das legislativas, que Luís Montenegro também no jantar dos 50 anos do PSD ia escorregando nesse ponto e depois tentou emendar a mão quando disse que já a seguir temos mais uma eleição, as europeias, depois voltou atrás e disse: "Não é uma segunda ronda, não é uma desforra", acho que foi essa a palavra, "mas são mais umas eleições que o PSD, que a AD deve ganhar". Ou seja, não quis assumir literalmente, mas também a porta ficou escancarada para o facto de isto ser uma segunda ronda das eleições legislativas.

Aliás, Luís Montenegro tem resistido em assumir a vitória como resultado objetivo a cumprir.

Quanto a Sebastião Bugalho e a Carlos Moedas, se bem que Sebastião Bugalho já assumiu várias vezes que quer ganhar.

Exatamente.

Mas quanto à apresentação do manifesto eleitoral, há sempre uma parte curiosa no manifesto eleitoral, que é o que Portugal pode ir para a Europa pedir. Porque são 21 eurodeputados, no caso do PSD, nestas últimas foram seis, salvo erro.

O Partido Socialista pediu a habitação.

Exato.

Sebastião Bugalho falou para os mais velhos, o que também pode ser interessante do ponto de vista de estratégia eleitoral.

Para compensar o facto de ser um jovem, quer mostrar que está preocupado com os mais velhos. Mas pareceu-me que entre as duas apresentações, a da AD consegue apresentar medidas um bocadinho mais palpáveis do que propriamente o Partido Socialista, que pediu coisas mais efetivas, por exemplo, o complemento ao subsídio de desemprego é um exemplo onde parece demasiado específico para aquilo que se pode prometer numa campanha europeia. Na AD, Sebastião Bugalho apostou nos mais velhos, quer uma linha de financiamento para os lares e um cartão jovem, mas um cartão plus 65, como ele fez questão de dizer. Um colega nosso estava a dizer na apresentação que é um fast track para idosos em aeroportos e museus. E essa linha de financiamento para os lares e depois também a questão da habitação, que querem escrever na Constituição da Europa, digamos assim. Sendo que foi aos mais velhos e foi também à questão da imigração, que é um capítulo que o Chega tem estado a explorar, em particular ontem, até no próprio dia. André Ventura esteve a visitar Arroios, que é uma zona de Lisboa muito conhecida pelos problemas com a imigração, e Sebastião Bugalho não fugiu a esse tema, bem como Carlos Moedas, que no seu discurso também falou dos problemas que Lisboa vai vivendo com a imigração e, portanto, pode também aproveitar esta segunda ronda das legislativas para começar a entrar mais nesse discurso do Chega e ir assim também ajudando a estratégia do Luís Montenegro.

Precisamente, Inês André Figueiredo, para te servir uma segunda sopa, sopa da pedra.

Tu é que vais servir a cena, estou aqui eu.

Temos assistido a muita...

E não me deixam falar das europeias. Isto realmente.

Quem conduz o programa sou eu, vocês têm de se comportar. Sopa da pedra para que me ajudes a explicar o papel de André Ventura no Parlamento. Ele que também tem atirado as suas pedras numa dança muito particular entre Pedro Nuno Santos, Luís Montenegro e André Ventura. Qual é o ganho de causa de André Ventura em aparecer ao lado do Partido Socialista na fotografia?

Não creio que seja um ganho de causa aparecer ao lado do Partido Socialista, mas creio que é um ganho de causa, e já o temos vindo a dizer aqui algumas vezes, o que André Ventura pode fazer com as medidas que são aprovadas e que têm sido aprovadas com o Chega e com o PS, nessa espécie de coligação negativa, como tem sido chamada. André Ventura sabe que umas novas eleições legislativas podem acontecer a qualquer momento.

Daí a importância das europeias, dizias agora tu.

Eu posso falar das europeias o que tu quiseres.

O Miguel conduz o programa e as tuas intervenções também.

Tens que aproveitar as oportunidades quando elas surgem.

Mas este era outro ponto, Miguel, que tu não me deixaste falar das europeias. Seguindo o meu raciocínio, André Ventura sabe que quando for para a estrada, é-lhe muito mais fácil fazer campanha dizendo aos eleitores: "Eu aprovei X, Y ou Z, tal como tinha prometido que ia ajudar a melhorar as vossas condições de vida no geral", porque André Ventura promete muita coisa e na campanha prometeu muita coisa a muita gente, chegou a todos os setores da sociedade. E nessa ideia de que pode haver legislativas mais depressa do que é esperado, André Ventura tem este trunfo no bolso. Agora, o fato de estar ao lado do PS, parece-me que provavelmente é uma narrativa que ele pode desconstruir muito facilmente, dizendo: "Eu ajudei-vos, não interessa se..." E é uma coisa que ele diz muito regularmente, não interessa se é ao lado do PCP, se é ao lado do Bloco, o que interessa é que ao fim do mês tenham mais dinheiro na carteira, o que interessa é que as portagens desçam.

A questão aqui é que de alguma forma, sendo André Ventura líder de um partido de direita, está a prejudicar ou a embaraçar um governo PSD. Isso, se houver eleições legislativas, não pode ser usado como arma de arremesso contra o Chega? Ou seja, um partido de direita foi bloqueio ou serviu de bloqueio a um governo de direita?

Eu creio que o fato de André Ventura ter conseguido o resultado que conseguiu nestas últimas legislativas, lhe deu a esperança de fazer aquilo que aconteceu noutros países, que é tentar substituir o partido de direita, que neste momento tem, não sempre na nossa democracia, que teve maior votos, que foi o partido governo, que neste caso é o PSD, e dá-lhe essa esperança de tentar passar por cima do PSD e tornar-se o partido de direita central no nosso Parlamento, tentar chegar ao governo e tudo mais. Claro que esta estratégia, o PSD fará tudo para que não aconteça, mas ele fez um pouco isto na campanha, quando diz que PSD e PS são iguais, tenta agir de forma diferente. E é isso que André Ventura tem feito. "Não me interessa ao lado de quem é que estou, interessa-me governar para o povo". Isto é uma narrativa, chamemos-lhe populista, de direita radical, mas que fez muitos partidos subirem nas intenções de votos.

Também deve depender do tipo de eleitor que reage a esse discurso. Não sei se todos.

Todos os eleitores do Chega reagem da mesma forma.

Acredito que reajam mal, mas os que são só pessoas que sejam mais revoltadas ou que vieram da abstenção ou que não sejam tão politizados, pode.

Porque André Ventura, não só durante a campanha, mas em todo o percurso do Chega, fez muito isso, costuma-se chamar o assobio do cão. Tentar chamar a todas as pessoas uma de cada vez, ou seja, vai a todos os setores. E aí, esta estratégia pode ajudá-lo.

Mariana Lima Cunha, e Pedro Nuno Santos, como é que fica no meio desta coreografia muito particular?

Eu acho que Pedro Nuno Santos tem uma batata quente nas mãos, tem um problema de equilíbrio muito difícil de gerir, que é este equilíbrio entre dizer que, e aqui estou quase a parafrasear a Inês sobre André Ventura, mas é esta questão de aprovar coisas para as pessoas, aprovar soluções concretas, conseguir dizer que foi ele que fez X e Y, mesmo no caso, como aconteceu ontem com o complemento solidário para idosos, com que o governo acabou por avançar, foi uma ideia inicialmente do PS e, portanto, tentar deixar essa marca em tudo o que é distribuição de dinheiro, basicamente.

Parte da ideia foi do PS.

Sim, a questão dos rendimentos dos filhos. Isto para dizer só que essa era uma das prioridades do PS e, portanto, é uma série de prioridades que têm sobretudo a ver ou com distribuição de rendimentos, diminuição de impostos, etc. E tem a dificuldade de fazer isto, mantendo duas prioridades ao mesmo tempo na balança. Uma é não parecer despesista, não estragar a imagem das contas certas e não parecer só um partido irresponsável, que enfim, depois de António Costa, veio este líder mais impulsivo e que se perdeu na narrativa que tinha criado sobre si próprio ao fim de oito anos de governação. E, por outro lado, esta questão, o aparecer ao lado do Chega. Eu acho que mais do que aparecer ao lado do Chega, a imagem de parecer um bloqueador, uma força de caos no Parlamento, se continuarem a surgir estas notícias constantes, ou seja, todas as semanas aparecer mais uma bomba no Parlamento, mais uma coisa que o PS conseguiu. Enfim, não é contra o governo, mas o efeito prático é que sim. E, portanto, é uma imagem difícil de gerir e acho que o PS está preocupado e a tentar fazer essa gestão de calendário para não parecer excessiva esta espécie de governo alternativo no Parlamento.

Miguel Vitor Dias, muito rapidamente. No meio disto tudo, Luís Montenegro parece estar a tentar retomar a iniciativa, ontem com a questão do complemento solidário para idosos. Hoje mesmo, sexta-feira, à altura em que gravamos este programa, com a apresentação do projeto para a habitação. É a única forma que o PS tem, neste momento, de evitar estas coligações particulares?

É uma das que tem e é uma que estava a ser já pedida nos corredores, era que Luís Montenegro assumisse a iniciativa. E Luís Montenegro é mais um, ou neste caso, foi Luís Soares, a pegar neste discurso do "não estou ao lado deste nem daquele, estou a governar para as pessoas". O Soares teve aquela frase muito engraçada na quinta-feira de se essa medida é eleitoralista, então o governo que faça só medidas eleitoralistas, porque é sinal que estamos a olhar para as pessoas. É um bocadinho de pegar no guião de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa, pessoas, e tentar replicar no governo.

Andamos todos a olhar para as pessoas, o que normalmente é sinal que estamos todos a pensar em campanha.

Muito bem, a nossa primeira parte tem de ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com a entrevista à líder parlamentar do Livre. Bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Isabel Mendes Lopes, líder parlamentar do LIVRE. É uma estreia. Bem-vinda ao Observador e bem-vinda à Vixi Suave. Temos congresso do partido este fim de semana, estaremos lá igualmente. Como é que o LIVRE poderá dizer que avança unido para estas eleições europeias e para este congresso, se aprovou a lista de candidatos às europeias com 13 votos a favor, 18 abstenções e seis contra, seis votos contra? Não é um sinal preocupante?

Primeiro de tudo, muito obrigada pelo convite, por estar aqui e por esta oportunidade de podermos conversar durante estes próximos minutos. O LIVRE parte para estas eleições europeias como sempre parte para qualquer eleição, com muita vontade de mudar a política, neste caso, europeia. Nós estamos num momento crítico para a União Europeia, em que assistimos ao crescimento de movimentos populistas autoritários e que usam as instituições para as minar por dentro e que está a acontecer também ao nível da União Europeia. E portanto, nós sabemos que o LIVRE e os partidos verdes europeus, no qual o LIVRE está, têm um papel muito importante para o combate a este crescimento de movimentos autoritários.

Ainda assim, internamente, a eleição não se pode dizer que tenha sido um grande sucesso. Treze votos a favor, 18 abstenções e seis contra.

Todo o processo das primárias seguiu todos os processos democráticos do LIVRE.

Houve acusações de chapeladas no interior do partido.

E depois passaram pelos órgãos e os órgãos decidiram e agora já temos o assunto arrumado e estamos em campanha. Temos uma lista muito boa. Vamos discutir no nosso congresso agora, amanhã, o programa que vamos levar às eleições europeias, que foi feito, como sempre é feito, todos os programas do LIVRE, de forma muito participada, com contribuições não só dos membros e apoiantes do LIVRE, mas também da sociedade civil. E portanto, temos a certeza que vamos partir com o programa mais forte para estas eleições europeias, mas também com a lista mais forte para estas eleições europeias.

Portanto, essas questões internas estão ultrapassadas, é isso?

Sim, o nosso foco agora são as eleições, não só as eleições das europeias e também as eleições da Madeira, porque nós estamos numa dupla campanha neste momento.

E para futuro, para mudarmos o tema, para futuro, este modelo das primárias deve ser alterado, deve terminar? Qual é a sua convicção?

O modelo das primárias tem vindo a ser afinado desde o início do LIVRE e, de forma geral, a experiência com as primárias tem sido boa.

Esta não foi.

Não posso dizer que foi uma experiência má, é uma experiência de contínuo crescimento. O que é que as primárias trazem? Trazem a possibilidade de qualquer pessoa, dentro do LIVRE ou fora do LIVRE, se poder propor a ser candidato pelo LIVRE nas eleições, e isso é uma abertura à sociedade. Portanto, mesmo uma pessoa que não seja militante do partido, pode ser candidato pelo partido.

E Francisco Paupério instrumentalizou essa abertura de espírito do LIVRE.

Não, aqui eu estou a falar de quem se pode candidatar. Isso é uma parte das primárias que é muito importante. E depois há outra parte que é as pessoas podem participar na escolha dos candidatos. O objetivo das primárias é que não seja uma direção do partido a escolher os seus candidatos, que seja todo o partido e que sejam as pessoas que se reveem nos ideais e nos princípios do partido. E isso, de forma geral, tem corrido muito bem. Nós temos tido candidatos que vêm da sociedade civil, que são absolutamente maravilhosos e pessoas com imenso valor, e que depois até muitas vezes acabam por se juntar ao LIVRE já depois de terem sido candidatos pelo LIVRE, e portanto, também é assim que temos crescido.

Mas por que diz que de forma geral tem corrido bem? Há alguma coisa-

Não, porque há sempre coisas a afinar.

A questão é que o processo podia ter sido interrompido e teve de ser o Conselho de Jurisdição a voltar atrás com aquilo que a Comissão de Eleições tinha proposto. Por isso, não foi um processo propriamente normal.

Não foi um processo normal, mas foi um processo normal no sentido em que todos os órgãos funcionaram dentro da sua normalidade. Ou seja, o processo foi lançado, temos uma comissão eleitoral que identifica um padrão anormal que não tem histórico neste tipo de processos no LIVRE, atua, e depois o Conselho de Jurisdição, também dentro das suas competências, atua novamente. Mas isso faz parte da democracia, os órgãos fazem parte da democracia e foi assim que chegamos aqui.

E agora acha que Francisco Paupério chegaram à melhor cabeça de lista que podiam ter?

Nós temos uma lista que é muito rica e muito boa. Temos candidatos muito fortes para estas eleições europeias e há uma coisa que para nós é muito clara: as primárias não são uma competição pelo cabeça de lista, são primárias para construir uma lista.

Mas é naturalmente importante, até porque o cabeça de lista é sempre a pessoa que tem mais visibilidade, que as pessoas ouvem, os eleitores ouvem.

Claro. Sim, mas vemos sempre as primárias como a construção de uma lista. E sim, estou muito contente com a lista que temos. Agora, à medida que o partido for crescendo e que em cada processo há sempre coisas a afinar, saímos sempre de umas primárias a identificar os aspectos que vamos ter de melhorar para as primárias seguintes. E naturalmente, vamos continuar a fazer isso. Tivemos as primárias para as europeias, para as eleições da Madeira, tivemos as primárias para as legislativas também agora dia 10 de março. E portanto, todos esses processos vão ser alvo de escrutínio e vamos melhorar para as próximas primárias.

Nestas eleições europeias, se só conseguirem eleger um eurodeputado, é o mau resultado

Nós gostávamos muito de eleger mais eurodeputados. Dois. Seria muito bom termos um deputado e uma deputada no Parlamento Europeu, porque nós, como eu estava a dizer há pouco, consideramos que é essencial que os partidos verdes europeus tenham uma força grande no Parlamento Europeu. Mas ficaremos muito contentes com qualquer eleição.

Celebrarão sempre, desde que elejam para o Parlamento Europeu.

Sim, claro.

Íamos lhe perguntar aqui no plano nacional que balanço é que faz daquela suposta frente de esquerda que o Bloco de Esquerda tentou organizar a seguir às eleições. O que é que saiu de concreto dessas reuniões?

O que saiu é um processo que se trabalha todos os dias. Todos os dias vamos conversando, vamos articulando com os outros partidos à esquerda.

Têm tido muito contato com os outros partidos à esquerda?

No Parlamento, temos diariamente. Temos agora de conseguir aprofundar, de criar também os mecanismos para que o país perceba que existe uma alternativa, que é a alternativa mais estável, que é uma alternativa de futuro e que é a alternativa que traz as soluções, e que é esta alternativa progressista e ecologista, onde o Livre estará sempre incluído, e que é uma oposição a esta confusão que se vê que tem sido esta governação do PSD/CDS.

Mas há propostas conjuntas que possam avançar, por exemplo, qual é a ideia?

A ideia é agora trabalharmos. Nós, aliás, temos várias propostas que têm sido apresentadas pelos vários partidos e vamos também conversando. Podemos apresentar algumas propostas em conjunto ou apresentar propostas semelhantes e depois trabalhá-las em conjunto.

Alguma prioridade que lhe ocorra para os próximos tempos em que possam estar alinhados?

Nesta configuração que nós temos no Parlamento, é muito complicado, porque sabemos que depois do lado do governo, não há vontade de implementar as propostas. Mas, na verdade, o que tem acontecido é que há várias propostas que têm sido aprovadas, apesar do voto contra do PSD. E também aí vamos mostrando qual é que poderia ser a alternativa. Há questões que para o Livre são essenciais estarem incluídas numa governação progressista que nós queiramos mostrar como alternativa. E essas são as questões do aumento de rendimentos, aumento de salários, de redução do horário de trabalho, nomeadamente a continuação da experiência da semana de quatro dias, porque todos temos direito a mais tempo para nós e é um dos grandes problemas em Portugal. Nós temos muito pouco tempo para nós. Há pessoas que nem sequer conseguem ver os seus filhos no dia a dia e isso traz problemas de saúde mental gigantes e não é justo. Nós estamos num momento de evolução tecnológica, nós temos de usar a evolução tecnológica a nosso favor para melhorar o nosso dia a dia. E também a questão do tempo associada à questão do aumento do rendimento, é uma prioridade, vamos continuar a trabalhar sobre ela e estará sempre nesta construção de uma alternativa progressista.

Apesar dessas intenções desse bloco à esquerda, não considera que a verdadeira aliança tem sido entre o PS e o Chega?

Não, acho que tem havido algum aproveitamento do Chega, como habitual, em que vai dizendo uma coisa, fazendo outra e jogando o jogo para estar sempre nas notícias. Mas sem o Chega à esquerda não estaria a conseguir aprovar estas medidas.

Dizia há pouco que às vezes tem a oposição do PSD e ainda assim avança.

Sim, é verdade, mas não considero que haja uma aliança de qualquer um dos partidos à esquerda com o Chega. Não tem havido essa...

E considera que a oposição tem sido responsável ao aprovar constantemente medidas que representam mais despesa? A esquerda está focada em bloquear a governação de Luís Montenegro?

Eu acho que é um pouquinho ao contrário. Acho que o governo é que está a ser extremamente irresponsável na maneira como está a gerir a sua governação. Parece que o governo não está a governar e que está em campanha eleitoral.

Por que diz isso?

Porque o governo diz que quer dialogar, mas depois não dialoga. Aliás, no próprio programa de governo incluíram medidas avulsas dos vários partidos sem sequer falarem com os partidos, nem sequer nos indicaram depois que medidas de cada partido é que tinham sido incluídas. Quando o normal num governo que está em minoria, seria perceber que tem de conseguir arranjar as alianças, mesmo que sejam precárias, mas haver uma rede mínima de funcionamento e ir ter com os partidos, dizer: "Eu estou aqui em posição minoritária, temos de arranjar aqui algum compromisso para haver alguma estabilidade. Pensamos que se calhar no nosso programa de governo podia haver algumas medidas vossas. O que vocês acham essencial estar no nosso programa de governo?"

E então a solução para combater isso é este bloco de esquerda e contar com o Chega para aprovar as medidas?

Não, a solução para isto parte do governo. Se o governo quer governar, tem também de dialogar com a Assembleia da República. E não é o que tem acontecido. E há pouquinho perguntava por que achava que o governo estava em campanha eleitoral. E quando digo governo, é PSD e CDS. Ainda ontem o PSD marcou um debate sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde, onde não apresentou uma única medida, onde só esteve a falar sobre o passado, não fez propostas para o futuro, impediu os outros partidos também de apresentarem propostas concretas. Para quê?

Com todas essas críticas e no contexto que se tem vivido nos últimos meses, acredita que é possível que esta legislatura chegue ao fim?

Eu acho que para esta legislatura chegar ao fim, tem de haver vontade do governo para que ela chegue ao fim. E não é isso que temos visto. Nós temos visto um governo apostado em minar tudo aquilo por onde passa, sem vontade de dialogar e, portanto, sem vontade que a legislatura chegue ao fim. E consideramos que o governo está já em campanha eleitoral a preparar as próximas eleições.

O Livre admitiu apresentar propostas concretas sobre a questão das reparações históricas. A ideia é transpor as propostas que tinham no programa eleitoral, por exemplo, devolução de bens das ex-colônias nos museus portugueses, revisão de currículos escolares.

O debate sobre reparações históricas e sobre a nossa história em geral e sobre o que o nosso passado implica agora no nosso presente, é um debate que é muito sério, que tem de ser feito de forma rigorosa e que não pode ser feito da forma como alguns querem fazer, numa histeria e numa forma muito pouco responsável.

Mas o presidente da República tinha razão na substância, naquilo que disse?

O presidente da República tinha razão, se calhar não da forma como o tema foi introduzido, porque é um tema sensível, mas é um tema que tem de ser abordado. Nós estamos a falar de vários séculos de história em que Portugal acabou por ir buscar recursos de outros países, provocar muito sofrimento noutros países e que ainda hoje tem muitas consequências, e podemos falar das questões também de racismo. Nós temos de fazer um debate sério sobre reparações históricas, mas isso não é apenas a questão da devolução do patrimônio. Reparações históricas é também perceber que implicações é que a escravatura, o sistema colonial teve no passado e que implicações é que tem hoje no presente.

Mas para o Livre pode ser feito agora ou agora é esse momento de histeria que estava a referir e mais vale deixar passar esta onda e surgirem mais tarde essas propostas?

Este é um debate em que Portugal já está atrasado. Nós temos vários países já com este debate muito mais adiantado e, portanto, o tempo era no passado. Nós não podemos deixar de fazer os debates porque agora não é o momento. Não, é o momento de o fazer. E é o momento de o fazer de uma forma séria, com a academia, vendo os exemplos dos outros países, falando com os outros países, com o Brasil, com a Guiné, Angola, Moçambique. Portanto, nós temos de fazer esse debate.

Então o Livre vai apresentar algum plano nesse sentido, como estava a dizer, de envolver a academia, etc.? Têm propostas concretas para apresentar?

Nós temos várias propostas. Vamos ver como é que é a melhor maneira, porque o debate não precisa ser feito na Assembleia da República. O debate é um debate nacional que tem de ser feito em vários fóruns diferentes. E temos de ver se nesta configuração da Assembleia da República, se vale a pena até ter este debate. Vale sempre a pena ter este debate.

Poderá ser mais proveitoso começá-lo fora do parlamento. O Livre passou de um para quatro deputados nestas últimas eleições, enquanto o resto da esquerda encolhia. O que é que fizeram bem que o resto da esquerda fez mal? Isto porque há alguns mais cínicos que dizem que o Livre nos últimos anos se focou sobretudo em grupos de trabalho, estudos, enfim, medidas mais fáceis para o governo.

Os grupos de trabalho e estudos têm sempre um objetivo. E eu quero lembrar, por exemplo, um dos estudos que nós aprovamos e que depois foi implementado, foi o projeto piloto da semana de quatro dias.

A ideia é que o Bloco de Esquerda e o PCP faziam uma oposição muito vocal ao governo de António Costa, o Livre menos, e que isso terá favorecido o Livre. Encontra razões nessa tese dos mais cínicos, como dizia o Miguel Vitor Mendes.

Não é essa a nossa visão. E o que nós sentimos, mesmo durante a campanha eleitoral e agora no nosso trabalho na Assembleia da República, é que as pessoas vêm ter conosco com muito entusiasmo, porque sentem que há aqui uma perspectiva de futuro e uma visão de futuro sobre como é que podemos fazer de forma diferente, como é que essa nossa sociedade pode ser diferente.

E no Bloco e no PCP menos.

Não, também há pessoas que sentem isso com o Bloco e com o PCP, e que são partidos muito importantes também na nossa democracia. Mas o Livre é um partido de diálogo, e isso vê-se também na Assembleia da República, com o diálogo com todos os partidos. Mas eu quero só voltar aqui à questão dos estudos e dos projetos piloto. Eles servem sempre para alguma coisa. Servem para testar, e o teste e a ciência é muito importante também para a tomada de decisão política, mas também servem para abrir perspectiva, para perceber como as coisas podem, de facto, funcionar de forma diferente. E aqui o teste piloto da semana de quatro dias é claramente um desses casos. Nós tivemos mil trabalhadores em 40 empresas a testarem a semana de quatro dias e os resultados foram espetaculares. As pessoas passaram a dormir melhor, com menos ansiedade, conseguiram conciliar muito melhor a sua vida familiar e a vida profissional, e muitas empresas disseram que até ficaram mais produtivas.

Temos de avançar para o segundo segmento do nosso programa, o Carne ou Peixe, o nome é obviamente sugestivo, onde só pode escolher uma de duas opções. Venha daí a trilha. Preferia que o Livre ficasse com a pasta do ambiente num governo de Luís Montenegro ou que o Livre fizesse parte de uma geringonça, mas fora do governo com Pedro Nuno Santos?

O Livre nunca faria parte de um governo com o Luís Montenegro e nós preferíamos estar num governo com a pasta do ambiente, num governo de esquerda, claramente.

Preferia que o PSD se aliasse ao Chega ou que Joacine Katar Moreira fosse a porta-voz do Livre? São duas opções. Joacine Katar Moreira já não faz parte do Livre.

Mas queria trabalhar num cenário em que ela voltasse, fizessem as pazes e ela fosse a nova porta-voz. O que eu quero é que o país não esteja dependente do Chega e que a extrema-direita seja completamente afastada. Eu acho que esse é o melhor cenário para o país e nós temos sempre de pensar no país em primeiro lugar e temos sempre dito que as forças democráticas devem fazer uma barreira às forças não democráticas. E preferia que o PSD não dialogasse com o Chega.

E quem preferia levar a comer fish and chips no Reino Unido, Mariana Mortágua ou Paulo Raimundo?

Os dois. Queria levar os dois.

Queria fazer uma ginga lá.

Claro.

Para terminar, já fez teatro, quem é que escolhia como parceiro de cena? Francisco Paupério ou Rui Tavares?

Essa é uma boa pergunta. Escolhia os dois também, mas se calhar o Rui Tavares. Já contracenei muito com o Rui Tavares, já tenho essa experiência, portanto levaria o Rui Tavares, mas gostaria também de experimentar fazer teatro com o Francisco Paupério.

Isabel Mendes Lopes, como é hábito na nossa Vixi Suave, o convidado tem a prerrogativa de trazer uma sobremesa, que música é que nos traz e porquê?

Trago uma música que me tem acompanhado muito nos últimos tempos e que tem feito parte da minha vida, que é o "Mulher Batida", da Garota Não com os Orelha Negra. É uma música sobre violência doméstica, que é um problema gigante no nosso país e trouxe também esta música como homenagem ao trabalho que a Garota Não tem feito. Eu sempre pensei quão privilegiadas eram as pessoas que tinham vivido, por exemplo, para ver o Zeca Afonso ao vivo e assistir ao lançamento dos seus álbuns. E agora sinto que sou uma privilegiada por conseguir assistir ao crescimento da carreira da Garota Não. É a música de intervenção da nossa atualidade, é capaz de falar de assuntos importantíssimos de uma forma absolutamente maravilhosa e com uma delicadeza nas suas músicas e por isso foi a música que eu trouxe.

Isabel Mendes Lopes, muito obrigado por ter vindo à Vixi Suave. Vamos nos ver naturalmente no Congresso do Livre, que se realiza este fim de semana. Os nossos ouvintes já sabem, podem acompanhar-nos sempre no Observador ou nas plataformas habituais. Até lá.