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Bem-vindos ao "Vozes Circulares", o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, que nos fala de sustentabilidade e economia circular. Hoje vamos até à floresta, ao território e aos chamados resíduos lenhosos ou biológicos, para perceber como aquilo que muitas vezes é visto como um problema, pode, afinal, também ser a base de uma nova bioeconomia local. Este é um episódio que conta com o apoio do CBE, o Centro da Biomassa para a Energia. Conosco estão hoje João Bernardo, presidente do Conselho de Administração do CBE, e também Francisco Gírio, presidente do Laboratório Colaborativo para as Biorrefinarias, também conhecido como Colab-Bioref. Muito obrigado aos dois por estarem aqui na Rádio Observador. Francisco, começaria por si e para tentarmos aqui uma definição do essencial. Quando falamos de resíduos lenhosos ou biológicos, de que é que estamos exatamente a falar?
Estamos a falar, em primeiro lugar, de biomassa. Tudo isto é biomassa.
Madeira?
Madeira, mas não apenas madeira. Era isso que eu ia dizer. Podemos talvez dividir essa biomassa em resíduos orgânicos e resíduos lenhosos. Antes de entrar nos resíduos lenhosos, eu diria que quando falamos de resíduos orgânicos, falamos de resíduos alimentares, fração orgânica de resíduos urbanos, lamas de estações de tratamentos de águas residuais, efluentes agroindustriais da agroindústria, lamas de azeite, por exemplo, lamas dos lagares de azeite, borras de azeitona. Ou seja, tudo isso são resíduos orgânicos. Depois temos os resíduos lenhosos, que são mais recalcitrantes à degradação biológica. E aí estamos a falar de resíduos agrícolas, por exemplo, palhas, carolo.
É mais difícil o tratamento desse tipo de resíduos?
É mais difícil. Tem uma estrutura baseada em polímeros, chamados tecnicamente linina, celulose e hemicelulose.
A biodegradação é mais lenta.
A biodegradação é mais lenta e nós temos que ter tecnologias, técnicas para apressar essa degradação se queremos ter processos económicos minimamente viáveis. E aí entra também os resíduos florestais. Os resíduos florestais são resíduos lenhosos, mas também temos outro tipo de resíduos lenhosos: o bagaço de uva, o bagaço de azeitona, as cascas de amêndoa, de arroz, etc. Temos uma série de resíduos que entram dentro da categoria de resíduos lenhosos.
E que têm um grande potencial para a produção de energia?
Tem, e o essencial é que todos estes resíduos, nós temos que deixar, quando pensamos em circularidade, em economia circular, temos que deixar de pensar neles como resíduos em si, que são desperdiçados ou que vão para aterros, e pensar que eles podem ser matérias-primas secundárias, obtidas dos processamentos industriais, agroindustriais, e que essas matérias-primas são matérias-primas secundárias que podem a seguir ser valorizadas e produzir novos produtos. Ou seja, no fundo, completando a circularidade das matérias-primas originais. Isso é realmente muito importante, haver uma simbiose industrial que traga valorização e incorporação destas matérias-primas secundárias, que no fundo são resíduos.
Exatamente. João, grande parte destes resíduos está na floresta, está no território. A sua remoção e valorização pode ter um impacto direto na prevenção dos incêndios?
Sim, sem dúvida. Aliás, nós devemos olhar para estes resíduos, para a biomassa em geral, obviamente sob a sua componente energética, que é muito importante, mas também como instrumento do ordenamento do território. Eles, no fundo, têm impacto muito grande no território. O território nem sempre teve esta área florestal. No final do século 19, por exemplo, só para dar uma ideia, a área florestal era cerca de 7%. Hoje são 39, 40%. Transformamos o país num grande país florestal e fomos sucessivamente passando por várias campanhas, a campanha do pinheiro nos anos 30, a campanha do eucalipto nos anos 50, que reflorestou todo o país, a serra da Lousã, a serra da Estrela, a serra do Marão, que eram serras que não tinham qualquer tipo de estação do ponto de vista de porte, lenhosos, árvores, não tinha e portanto passaram a ter. Isto criou, obviamente, toda uma logística associada à exploração desta madeira e uma necessidade de uma maior gestão, porque a carga de combustível aumentou de uma forma significativa. Muitas vezes, o que se verifica é que nós nos preocupamos muito com a parte lenhosa, aquilo que é a parte produtiva e que tem um valor imediatamente perceptível pelo mercado, e esquecemos da parte dos resíduos. Numa operação florestal normal, os resíduos representam 20% daquilo que é o peso, as toneladas de madeira que temos no solo. E portanto, é uma parte importante que se pode criar cadeias de valor e que pode, não havendo uma intervenção cuidada sobre o território nesse aspecto, criar ali um problema de carga de combustível que tem que ser resolvido.
Francisco, já existem tecnologias com algum grau de maturidade que nos ajudem a transformar estes resíduos no que se chamam as fileiras econômicas locais?
Sim, existem tecnologias com graus de maturidade distintas. De facto, por exemplo, se pensarmos nos resíduos orgânicos, temos tecnologias já maduras, por exemplo, a digestão anaeróbia, que facilmente degrada todo o tipo de resíduos orgânicos, facilmente digeríveis. Quando pensamos nos resíduos lenhosos, derivado exatamente do que falámos há pouco, dessa lenta degradação desses resíduos, temos dois tipos de tecnologias: umas tecnologias biológicas baseadas em fermentação e umas tecnologias termoquímicas, em particular a gasificação e a pirólise. Aqui o comum nestas tecnologias é que elas são ligeiramente menos maduras, mas estão numa fase de demonstração, numa fase de TRL, os níveis de prontidão tecnológica relativamente elevados e próximos do mercado. Mas, em particular, as tecnologias termoquímicas, nomeadamente a gasificação, são muito interessantes para valorizar e aproveitar os resíduos lenhosos, sejam agrícolas, sejam os tais resíduos florestais. Só para dar aqui um exemplo, o Biorref, o Laboratório Colaborativo para as Biorrefinarias, está neste momento a coordenar um projeto europeu, do Horizonte Europa, com vários parceiros europeus e nacionais, onde estamos a construir, a instalar uma unidade de demonstração desta tecnologia de gasificação em Tondela, para a produção quer de combustíveis sintéticos, quer de biometano, a partir de resíduos lenhosos. É uma tecnologia inovadora, que esperamos que esta unidade de demonstração esteja a operar e a funcionar no final deste ano. Entre este ano e início de 2027 teremos esta unidade e será um case study a nível europeu. Quer o Biorref, quer o LNEG, o Laboratório Nacional de Energia e Geologia, estão envolvidos num projeto que é o Ícarus, que é também um projeto europeu, do Horizonte Europa, em que procuramos transformar estes resíduos lenhosos em combustíveis para aviação. Hoje em dia fala-se muito na importância que a aviação, que é um setor difícil.
Que precisa descarbonizar.
Precisa descarbonizar. Não vai ser através da eletricidade que vamos descarbonizar os airbus, nós precisamos de combustíveis líquidos de alta densidade para essa descarbonização, com baixas emissões de carbono. E aqui o interessante deste projeto europeu é termos também a Galp. A Galp é a nossa parceira dentro deste projeto europeu e muito empenhada no mesmo, é a utilização de matérias-primas, no caso concreto, microalgas. O uso de microalgas, depois de cultivadas e de recolhidas, são utilizados por uma tecnologia chamada liquefação hidrotérmica para produzir uns bioóleos, que depois a seguir até podem ser utilizados numa refinaria atual de petróleo, para produzir biocombustíveis.
Já há muitos e bons exemplos, pelo menos tecnológicos, para fazer avançar esta circularidade nesta área. João, eu queria aqui também abordar dois conceitos que surgiram aqui enquanto estava a preparar, que é as cadeias curtas de biomassa e os ecopontos florestais municipais. O que é que são e se são uma alternativa às queimadas que ainda se fazem no território?
Sim, sem dúvida. As cadeias curtas de biomassa são essenciais, por um lado, para reduzir a pegada de carbono. Nós aquilo que temos atualmente na floresta portuguesa, essencialmente no centro, quer litoral, quer interior do país, é uma floresta quase contínua, em que a matéria-prima está no interior e depois o processamento está no litoral, na Figueira da Foz, nas grandes centrais, nas grandes indústrias de celulose que processam. E temos um interior desertificado do ponto de vista da atividade económica. Não há intervenção, não há ação nesses territórios. E as cadeias curtas representam precisamente isso, que é trabalhar a biomassa e os resíduos que estão na floresta, sejam eles resíduos das operações florestais, das derramações, dos desbastes, dos cortes, seja através daquilo que é o controle da limpeza dos matos e o controle das faixas de combustível, até nas infraestruturas lineares, nos gasodutos, nas ferrovias, ao longo das estradas, nas linhas elétricas, que é preciso limpar para não termos estes problemas. E todo esse material, que é um material muitas vezes pouco denso, porque os matos têm uma densidade muito baixa e não compensa andar a transportar isso para muito longe, são interessantes, até por aquilo que o Francisco disse há pouco, do ponto de vista das moléculas que têm, para encontrar soluções para essas moléculas, seja nos óleos essenciais, seja através de alguns componentes que possam servir e substituir na indústria química componentes que perderam a sua base de sustentabilidade e têm que ser substituídos por componentes naturais, e podem ser utilizadas em indústrias locais. E estamos a falar de um trabalho de recolha, tratamento da biomassa localmente.
É feito municipalmente.
Municipalmente. Em pequena escala, para se conseguir, de facto, ter aqui um ganho que o transporte depois acaba por desperdiçar e acrescentar aqui uma pegada ecológica que não interessa. Os ecopontos, por sua vez, são fundamentais. Quando falamos nesta diversidade de resíduos, de biomassa, elas são muito diferentes. E como são diferentes, têm origens, têm composição diferente e servem para finalidades diferentes. E não vale a pena juntar isto tudo ao molho, como se costuma dizer. Nós devemos ter sítios de receção desta biomassa, em que ela é tratada, é triada, ela deve ser separada em função daquilo que é depois os seus usos futuros, precisamente para garantir o seu valor e para não se perder o valor.
Como acontece com o plástico. Há diferentes tipos de plástico.
Tal e qual. Nós temos, curiosamente, a nível daquilo que são os resíduos municipais verdes, temos linhas de recolha desses resíduos, dos cortes, dos jardins, etc. Mas depois para os lixos florestais, isso não está ainda implementado no terreno como deve ser e deve-se fazê-lo a nível municipal.
Vamos avançar aqui um pouquinho. Francisco, quando falamos de bioeconomia, e até por alguns dados que o João aqui deixou no início do programa, quando falamos de bioeconomia, considera que Portugal tem, de facto, um potencial que é comparável a outros países europeus e se calhar até superior a alguns deles?
Sim, com certeza que sim, em alguns casos, noutros casos nem tanto. Mas eu podia trazer aqui dois indicadores que são ilustrativos do nosso potencial da bioeconomia. Um indicador, por exemplo, foi publicado no âmbito do plano de ação do biometano, que foi um plano que analisou a quantidade e disponibilidade de resíduos orgânicos e resíduos lenhosos em Portugal. E, por exemplo, na área da energia, esse plano avaliou um potencial de 2,7 TWh/ano até 2030, por exemplo, para produzir biometano. E o dobro em 2040. Ou seja, só com este potencial poderemos substituir até 20%, 25% de gás natural até 2040 em Portugal com este potencial.
Substituindo por biometano.
Exatamente. E evitando assim que a carga orgânica vá toda parar aos aterros como vai hoje, o que é um problema ambiental relativamente grave. Há um segundo indicador, que foi dado em 2020, por um estudo feito por um consórcio europeu de bio-based industries, as indústrias de base biológica europeias, e que fizeram um estudo sobre o potencial de Portugal. E identificaram como pontos fortes a floresta, o mar, em particular pescas, algas e aquacultura, e a agroalimentação. E nesse estudo, é muito interessante, porque eles olharam para o que Portugal faz em relação a estes tais resíduos, e verifica-se que decorrente das indústrias de processamento primário, sejam agrícolas, silvícolas, industriais, em que se geram estes resíduos, 82%, de facto, desses resíduos eram recolhidos em Portugal, mas apenas iam para aplicações de baixo valor económico, eram muito subaproveitados. 18% do total dos resíduos nacionais iam parar aos aterros e só menos de 1% destes resíduos iam para aplicações de energia. Isto significa que existe mais de 1 milhão de toneladas destes resíduos que podem vir a ser valorizados na bioeconomia. Temos potencial.
Muito bem. João, queria aqui fazer quase duas perguntas numa que é: quando se fala da cascata de valor da biomassa, o que isso significa na prática? Estamos a falar de novos materiais, moléculas, novos produtos? E também todo este setor, como é que pode impulsionar uma bioeconomia de proximidade, uma oportunidade real para algumas regiões do nosso território?
Sem dúvida. Efetivamente, a cascata significa que existem bens mais nobres, ou seja, aqueles que estão na base da nossa economia florestal, da fileira florestal. A fileira florestal representa, e quando falamos de fileira, não estou só a falar da indústria, mas a indústria tem um peso muito grande, a indústria papeleira, da pasta, da serração, do mobiliário, etc. E representa qualquer coisa como 1,3, 1,5 do nosso PIB, portanto, é um valor muito significativo, são cerca de 3.600 milhões de euros. E estamos a falar também de cerca de 100 mil postos de trabalho, com um peso muito grande na nossa economia. E há uma preocupação de que esses setores sejam defendidos naquilo que é o seu direito a ter matéria-prima mais nobre, mais apropriada para as atividades que têm, porque, de facto, as outras atividades, quer a atividade da energia, quer a atividade das moléculas, quer a atividade da compostagem ou de outra qualquer que possa servir dos sobrantes florestais, não têm essa exigência do ponto de vista daquilo que é a matéria-prima, a qualidade da matéria-prima. Isto não quer dizer que depois a matéria-prima que vá para essas aplicações não passe também por crivos de qualidade, que tem de passar. Atualmente, nós quando produzimos pellets ou bricads, etc, em algumas circunstâncias já somos obrigados a cumprir normas para determinado tipo de utilizações. E nós defendemos que esses critérios de qualidade e até de sustentabilidade, e o Francisco sabe disso muito bem, porque dirige também precisamente uma entidade que vela pelos critérios de sustentabilidade nos biocombustíveis, é essencial para dar garantias ao mercado. O mercado precisa de uma certa previsibilidade e qualidade nos produtos que vai consumir. Portanto, de alguma forma, há aqui uma necessidade de qualificar todo este material que é a biomassa, mas há, de facto, frações dessa biomassa que é mais nobre, que serve para utilizações. Eu não vou agarrar em madeira boa, que dá para fazer móveis e dá para fazer material de construção, e vou queimá-la, obviamente, até porque o preço que o mercado paga geralmente é superior e justifica isso. Nós na biomassa e neste setor queremos respeitar efetivamente essa cadeia, isso é fundamental. A bioeconomia de proximidade tem a ver não só com aquilo que são os resíduos disponíveis e com a matéria-prima que existe, com as cadeias de logística e com também o trabalho que as autarquias e os municípios podem fazer nessa recolha e na própria utilização, eles próprios podem, naquilo que são os seus equipamentos municipais, utilizar boa parte, beneficiar, mas também naquilo que é o trabalho que tem de se fazer a nível da certificação e da qualificação dos trabalhadores. Há claramente uma falta de qualificação e certificação nesta área que tem de ser melhorada e que tem de se adequar àquilo que são as novas tecnologias e os novos usos da biomassa.
Muito bem. Recebemos hoje o João Bernardo e o Francisco Giro. Falamos sobre território, sobre floresta e sobre bioeconomia. Um episódio muito interessante que nos mostra como a economia circular pode começar no chão da floresta e transformar-se em energia, em inovação e até em desenvolvimento local. Este foi o Vozes Circulares, podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart Ways de Portugal, num episódio que contou com o apoio do CBE, o Centro da Biomassa para a Energia. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.