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Seja muito bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador, feito em parceria com a associação Smart Waste Portugal, que nos fala de sustentabilidade e economia circular. Hoje vamos olhar para um tema muitas vezes invisível, mas absolutamente essencial para a competitividade do país: os resíduos industriais, os seus desafios e o papel da inovação no avanço da economia circular. Este é um episódio que conta com o apoio da Reduz. Conosco estão Carlos Bento, administrador da Reduz, e também Fernando Castro, professor catedrático da Universidade do Minho. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. Carlos, começaria aqui por si, pelo princípio, para tentarmos uma definição de resíduos industriais. Do que é que estamos, afinal, a falar quando falamos de resíduos industriais?

Antes de mais, queria agradecer à Smart Waste Portugal e à Rádio Observador por esta oportunidade. Essencialmente, quando estamos a falar de resíduos industriais, estamos a falar de desperdícios de matérias-primas utilizados na produção de produtos novos, por exemplo, sapatos, onde temos normalmente restos de borracha, restos de tecidos, restos de couros, entre outros. Roupas, onde também temos normalmente tecidos, restos de linhas, cartões e resíduos de plástico. Também na produção de viaturas novas, de automóveis, temos restos de metal, restos de plástico, restos de compósitos, restos de componentes. Estes desperdícios e estes restos é que dão origem aos chamados resíduos industriais, que temos que depois tratar.

E temos que tratar de uma maneira um pouquinho diferente, já vamos perceber ao longo deste episódio. Fernando, podemos também classificá-los como resíduos não urbanos, são resíduos industriais. A responsabilidade pela gestão destes resíduos não urbanos, pelo que percebi, cabe ao produtor. Do ponto de vista acadêmico, regulatório, por que esta responsabilidade direta é tão importante para garantir boas práticas e evitar impactos ambientais que sejam maiores?

Em primeiro lugar, eu penso que é inevitável que seja assim. Não poderíamos ver um outro modelo diferente de gestão dos resíduos industriais se não fosse a responsabilidade ser atribuída ao seu produtor. A alternativa seria ser o Estado, mas não penso que faria sentido serem todos a pagar os custos da gestão, quando de fato são alguns que estão a produzir esses resíduos. E por outro lado, ter essa responsabilidade obriga a empresa ou o empresário a encontrar soluções, quer do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista económico, de poder ser competitiva e sustentável em termos de futuro. E, portanto, eu vejo que não há outra alternativa, é este o modelo que nós temos que ter. Da parte do Estado, apesar de tudo, há aqui um papel importante. O Estado não pode, ele próprio, criar entraves ou criar barreiras a essas iniciativas que eventualmente os industriais possam vir a ter. Porque muitas vezes o industrial já tem uma solução técnica disponível, que estudou, que até investiu para encontrar essa solução, mas depois quando tenta implementá-la na prática, vai encontrar um conjunto de barreiras que são, de fato, um entrave muito grande à economia circular.

Já vamos falar um bocadinho também dessas barreiras, mas Carlos, de fato, a economia circular ainda enfrenta aqui algumas dificuldades no setor industrial, os custos, a falta de soluções, por vezes, e também a burocracia. Quais é que considera, Carlos, que são os maiores entraves para que a economia circular avance mais rápido?

Em primeiro, precisamos de mais empreendedores que queiram entrar neste mundo da economia circular. Com mais empreendedores que tenham mais vontade de explorar os nichos de negócio na economia circular.

Há aí uma oportunidade.

Há aí uma oportunidade que pode gerar mais valor, não só ambiental, mas também económico, para quem quiser desenvolver esse tipo de atividade e que também Portugal precisa, para poder resolver a solução de alguns resíduos de mais difícil tratamento. Também se devia simplificar mais a legislação para que todos a possam compreender, possam também executar e cumprir, e não ser uma legislação confusa e dispersa. Dispersa que é o que acontece muitas vezes na legislação ligada aos resíduos e ao ambiente. Também devia-se fazer maior investimento em unidades dedicadas ao tratamento de resíduos específicos, tecnicamente avançadas, tecnologicamente avançadas, em que tivessem uma forte vocação para a colocação de matérias-primas novamente no mercado, para depois voltarmos a fazer novos produtos. Devíamos também ter em conta que estas unidades dedicadas deviam ser também espalhadas pelo país, para não serem concentradas num só local.

Fernando Castro, esta legislação tenta proteger a saúde pública, tenta proteger o ambiente, mas por vezes, como aqui também já tocamos ao de leve, pode tornar o processo mais longo e mais complexo. Como é que este enquadramento regula, mas ao mesmo tempo condiciona esta inovação no setor dos resíduos industriais?

Penso que condiciona bastante. Eu começava por referir que a legislação que temos é fundamentalmente a legislação europeia. Portanto, Portugal limita-se a transpor as diretivas e os regulamentos que a União Europeia aprova. E essa legislação tem um pecado original, que é: olha para os resíduos Como algo de diferente dos outros materiais. Isso é extremamente prejudicial quando a gente quer implementar soluções. Eu dou um exemplo que costumo dar em algumas conferências, que é: se eu for um produtor que tenho ácido sulfúrico, que utilizo no meu processo, e ao fim de algum tempo ele fica ligeiramente contaminado, eu já não posso usar mais. Tenho ao meu lado uma outra fábrica que precisa de ácido sulfúrico pra neutralizar efluentes alcalinos, por exemplo. Tem que comprar ácido sulfúrico, mas o meu ácido sulfúrico servia perfeitamente pra ele. Por que razão? Lógico que seria eu entregar o meu ácido sulfúrico pra ele ter uma segunda vida, pra ele não ter que utilizar ácido sulfúrico novo e portanto ganhar aqui uma sinergia, que chamamos uma sinergia industrial, em benefício econômico, ambiental e até social.

Tornar um resíduo num recurso.

Num recurso, imediatamente. Isso não é possível fazer de uma forma imediata. Por quê? Porque o meu vizinho do lado tinha que ser um gestor de resíduos perigosos. Para ser um gestor de resíduos perigosos, tinha que ter um estudo de impacto ambiental altamente complexo, ia ter todos os entraves imaginários para poder fazer essa operação e, na prática, não faz. Quando ele vai ver tudo que tem que cumprir para cumprir com a legislação e receber esse meu resíduo de ácido sulfúrico, ele desiste logo. Ele diz: "Não, isso não me interessa. Então é mais barato comprar ácido sulfúrico novo", e eu vou ter que continuar a mandar o ácido sulfúrico pra um CIRVER, eventualmente a centenas de quilômetros de distância, com custos muito elevados, sem qualquer vantagem ambiental, nem pra mim, nem pro meu vizinho, nem pra sociedade. Quando muito, uma vantagem para a empresa que faça o transporte e para o CIRVER, que recebe o resíduo e ganha alguma coisa com isso. Mas pra sociedade no global, penso que é um prejuízo evidente. E portanto, a economia circular não funciona aí, porque a legislação logo à partida considera os resíduos algo de muito especial. Eu penso que só deveria considerar-se resíduo a partir do momento em que não há uma valorização possível. Mas neste momento, não, uma simples sucata de ferro é um resíduo. Isso criou, há uns anos, complicações enormes pras empresas de fundição e pra siderurgia, porque estavam habituadas a olhar para aquilo como matéria-prima e de repente tiveram que classificar como resíduo, licenciar-se como gestores de resíduos, etc.

Esse é um ótimo exemplo. Carlos, vamos ser aqui um pouquinho mais concretos. Há resíduos industriais que são mais complexos. O Fernando dava aqui este exemplo mais prático do ácido sulfúrico, mas temos as areias de fundição, lamas, escórias, poeiras. Já há ainda assim bons exemplos da valorização destes resíduos ou da sua transformação em recursos?

Sim, já é possível a incorporação de determinados resíduos, as areias, as escórias, na fabricação de novos produtos para a construção, como muros de contenção, bancos de jardim, floreiras, entre outros. Também já se utiliza de forma corrente o agregado, que é feito a partir das escórias da siderurgia, que é muito utilizado na pavimentação de fábricas, na pavimentação de espaços comerciais, nas estradas, nas camadas dos solos, nas bases, nas sub-bases. Portanto, já é um produto que se utiliza e já está devidamente utilizado em Portugal. Já está se utilizar de forma forte e já está bem encaminhado. Também se faz já alguma valorização de lamas, em especial na melhoria dos solos agrícolas. Já se faz também alguma coisa nesse sentido.

Afinal, ainda há bons exemplos. Estamos a caminhar, temos que acelerar o processo.

Temos é que fazer mais.

Temos é que fazer mais e mais rápido. Fernando, a investigação tem mostrado que estes materiais podem substituir recursos virgens em vários setores, que é um pouquinho esse o objetivo. Há aqui oportunidades científicas e tecnológicas que vê para que estas soluções se possam depois também economicamente, financeiramente, se tornarem mais competitivas?

Sim, essas soluções de incorporar este tipo de resíduos em materiais, por exemplo, construção civil, tem a vantagem que a construção civil gasta muitos materiais e, portanto, nós conseguimos.

Consumo muito grande.

Consumo muito grande, nós podemos escoar também quantidades grandes de resíduos. E isso tem sido objeto de muita investigação. Nós, em Portugal, temos muitos grupos de investigação a trabalhar sobre isso, principalmente na parte dos cimentos, mas também dos polímeros, principalmente na parte dos cimentos e dos cerâmicos um pouco. Como exemplos bons, práticos, são aqueles que o senhor Carlos Bento referiu. Efetivamente, temos as escórias da siderurgia, que é um bom exemplo, e temos pouco mais. E por que temos pouco mais? Apesar de muita investigação, apesar de muita validação técnica, por um lado, pelas dificuldades do ponto de vista legal, que eu referi há pouco, mas também, por outro lado, porque não há normalmente uma receptividade grande por parte das empresas potencialmente tomadoras de resíduos para receber resíduos. Muitas vezes dizem: "Isso não é problema meu, eu não quero ser a lixeira". Já ouvi algumas empresas grandes.

É um problema cultural.

Há aqui um problema cultural.

Também existe um pouquinho.

Já ouvi uma vez numa conferência uma pessoa de uma empresa importante de construção rodoviária em Portugal dizer: "Nós não queremos fazer das estradas a lixeira de Portugal", que é uma asneira, obviamente não seria esse o objetivo.

Uma imagem um pouquinho exagerada.

Uma imagem exagerada. Mas dá-nos um pouco a ideia de como algumas dessas pessoas pensam. Estão sempre à espera de incentivos financeiros. Também passa muito por aí. E eventualmente aí o Estado podia ter uma posição mais proativa, nomeadamente naquela legislação que obriga a incorporar uma percentagem mínima de materiais reciclados na obra pública, era fiscalizar um pouco mais e definir melhor o que pretende com isso, porque é muito fácil um empreiteiro demonstrar que está a usar 5% de material reciclado dizendo que usa aço. O aço tem o botão, tem ferro, e o ferro em Portugal é todo reciclado. Portanto, não é propriamente isso, penso eu, que o legislador pretendia quando fez essa legislação. Portanto, é preciso aí, se calhar, melhorar um pouco essa questão.

Alguma afinação. Carlos, temos aqui o caso, pelo que percebi, estive a ler, dos poliméricos mistos. Fiquei curioso para perceber o que são poliméricos mistos e de alguma forma, que soluções a Reduz já propõe para o seu tratamento e reciclagem.

Os polímeros mistos são, na maioria, plásticos mistos. A REDUZ, sempre que recolhe, faz uma triagem com o objetivo da respetiva classificação por tipologia e qualidade, de modo que seja mais fácil a entrada deste tipo de resíduo na economia circular, dando origem a novas matérias-primas, que é o objetivo, para fazer novos produtos.

Fernando, já que também ouvi falar de reciclagem química, também fiquei curioso com esta definição. Que reciclagem é esta e se ela já é usada em Portugal. Como é que estamos face a outros países nossos concorrentes no uso deste tipo de reciclagem e que reciclagem é esta?

Vamos lá ver. Em termos de reciclagem de polímeros, a prioridade deve ser dada a tentar produzir de novo polímeros, diretamente.

Plástico por plástico.

Plástico por plástico. Se temos o polietileno, fazemos polietileno. Isso faz-se já-

E é possível

...de forma corrente. Há várias empresas a trabalhar no mercado a fazer isso, mas isso exige que a matéria-prima, isto é, o resíduo de partida, seja suficientemente puro. E isso muitas vezes não é o caso. Muitas vezes não é possível. Muitas vezes nós temos resíduos, o senhor Carlos Benta conhece muito bem, porque gere esses resíduos no dia a dia. Muitas vezes nós temos resíduos que têm espumas, que têm PVC, que contém cloro, que têm polietileno, policarbonatos, uma mistura complexa de resíduos que não são fáceis de separar por via mecânica. Alguma triagem pode-se sempre fazer, e é feita, mas depois fica um resíduo final que nós não conseguimos separar. Então, reciclagem química, o que é que permite fazer? Permite fazer, através de um processo de pirólise, isto é, um processo térmico em ausência total de oxigênio e a temperaturas normalmente relativamente baixas, 400 a 600 graus, permite produzir óleos que depois são um feedstock, uma matéria-prima pra indústria petroquímica. Em vez de estarem a usar o crude, produz óleos que tenham composições muito semelhantes ao crude, que é explorado da natureza, e que permite fazer novos óleos lubrificantes, eventualmente novos combustíveis, digamos, dar uma segunda vida. Esta é a prioridade da União Europeia neste momento. Em Portugal, se me pergunta o que é que se faz, eu sei que existe uma empresa na zona centro que diz que está a fazer alguma coisa. Eu não conheço o caso concreto, nunca visitei. Tenho conhecimento de uma empresa no norte que fez um investimento bastante grande numa unidade de reciclagem química de plásticos, mas fez isso no ano 2000 e estamos em 2025 e ainda não conseguiu arrancar porque ainda não teve as autorizações necessárias para o fazer.

São muitos anos.

São muitos anos. E as quantidades de resíduos que existem são gigantescas. Esses resíduos vão quase todos pra terra.

E havia uma segunda vida pra eles.

Claro que havia.

Carlos, os avanços tecnológicos, nomeadamente no que toca à mobilidade, são sentidos nos últimos anos, o aumento dos carros elétricos. Isto traz novos desafios no tratamento e reciclagem dos componentes destes veículos e olhando assim à cabeça, lembro-me logo das baterias, não é?

Sim, isto traz novos desafios, desde logo no caso das baterias, na respetiva recolha, no respetivo armazenamento. Este tipo de baterias dos automóveis tem muita facilidade de ignição, sendo a sua extinção de difícil resolução, muitas das vezes, obrigando a permanentes medidas de segurança no seu manuseamento. No processo da reciclagem das baterias podemos retirar metais muito valiosos, como o caso do chumbo, do lítio, do cobalto, que depois de tratados podem fazer novas baterias. Acaba por ser um material valioso.

Fernando, do ponto de vista da investigação, já trabalhamos bem a recuperação destes materiais ditos críticos que vêm destas baterias e como o Carlos aqui falava, o lítio, o cobalto, o níquel.

Eu diria que se estão a dar os primeiros passos. Primeiros não serão, mas ainda estamos numa fase inicial. Por quê? Porque é um resíduo relativamente recente. E há muito por fazer ainda. Há muita investigação neste momento em curso, essencialmente a nível europeu. A União Europeia está a financiar vários projetos nesta área. Por quê? Porque todos estes materiais são críticos pra Europa. A Europa não os tem ou tem muito pouco deles a nível mineral. E se quer continuar a ser competitiva, não pode estar sempre a comprar esses materiais aos chineses, porque numa situação de um conflito ou numa situação mais complicada do ponto de vista geoestratégico, os chineses podem dizer que não nos vendem, como têm já ameaçado com as terras raras para os Estados Unidos. Nós temos que ser independentes. Pra sermos independentes, temos que ver onde é que nós temos os minérios destes metais. E os minérios estão nos próprios materiais. Estão nos materiais que nós produzimos e que vão ser resíduos daqui por alguns anos, e alguns já são neste momento. A Europa tem apostado forte. Em Portugal, temos algum déficit, também pela dimensão do país, mas porque esta é uma área dentro da metalurgia que é designada metalurgia extrativa, em que Portugal já teve alguma importância do ponto de vista de investigação nos anos 80, 90, mas que foi perdendo gradualmente, porque como não temos grande exploração mineira e não temos essencialmente produção de metais a partir dessa exploração mineira, porque é quase tudo exportado, não houve um incentivo económico para que houvesse essa investigação. Hoje podemos dizer que se contam pelos dedos de uma mão. Há um grupo aqui em Lisboa, no LNEC, algumas pessoas a nível isolado na Faculdade de Engenharia do Porto, eu também, na Universidade do Minho, mas somos muito poucos. Pode haver uma massa crítica, mas comparado com aquilo que é feito a nível europeu, obviamente que estamos em grande desvantagem, mas vamos dando o contributo que for possível dar.

Era importante essa aceleração, porque isto são materiais que estão na ordem do dia e estão cada vez mais presentes também no nosso cotidiano, por exemplo, através dos carros elétricos. Carlos Benta, Fernando Castro, muito obrigado por terem vindo ao "Vozes Circulares". Esta foi uma conversa sobre os desafios e as enormes oportunidades também já percebemos associadas aos resíduos industriais. E a circularidade não é apenas uma exigência ambiental, é um fator de competitividade, de inovação, de resiliência para a indústria portuguesa, como também aqui percebemos neste episódio, que contou com o apoio da REDUZ. O "Vozes Circulares" está disponível com todos os episódios no site do Observador e também o encontram no site da Associação Smart Waste Portugal. Junte-se a nós no próximo programa e continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.