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Seja bem-vindo ao "Votos Circulares", é o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, onde falamos de sustentabilidade e economia circular com quem está a fazer esta transição acontecer. Neste episódio, vamos olhar para o Plano de Recuperação e Resiliência, o PRR, enquanto instrumento de transformação estrutural da economia portuguesa, em particular também no apoio à inovação, à digitalização e à própria economia circular. Este é um episódio que conta com o apoio da B2 Solutions. E conosco estão hoje Pedro Dominguinhos, é presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, e Pedro Meira, CEO da B2 Solutions, é também a entidade promotora da agenda mobilizadora Circulartech, que vamos conhecer mais em pormenor daqui a pouco. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. Iria começar pelo Pedro Dominguinhos. Pedro, vamos tentar aqui um enquadramento geral. O PRR tem três grandes pilares, digamos, resiliência, transição climática e transição digital. Onde é que a economia circular se posiciona nesta estratégia? E por que também é tão central para o futuro do nosso país?

Agradecer o convite e, como disse, é sobretudo no pilar da transição climática, mas também na resiliência, que podemos encontrar um conjunto de reformas e de investimentos ligados diretamente à economia circular. Em primeiro lugar, logo na transição climática, onde existe uma componente, porque é desta forma também que se organiza o plano de recuperação e resiliência em componentes, são 22, mas a componente 12, que trata da bioeconomia sustentável. E, portanto, existem um conjunto significativo de investimentos, designadamente no setor têxtil, no setor do calçado, no setor da resina, cujo objetivo é esta dimensão, por um lado, da redução de desperdício, mas também de promoção da economia circular, de novos materiais, de biorresíduos e também da sustentabilidade e da inovação dos produtos.

Também está a falar de três indústrias onde esse exercício ou estará mais atrasado ou também é mais difícil tecnicamente de fazer.

É difícil, embora, e podemos falar nisso mais para frente, têm sido encontradas soluções particularmente inovadoras, com utilização de recursos naturais e também de reciclagem, que são muito promissores. Depois, há uma segunda dimensão, relacionada com a descarbonização da indústria, onde nós temos investimentos muito significativos, quer nas indústrias mais poluentes, quer naquelas mais intensivas em energia, onde têm sido feitos investimentos muito significativos que também promovem a economia circular, porque reutilizam recursos que muitas vezes são ou subprodutos ou desperdícios no seu processo de produção de energia. E depois existe uma terceira dimensão na área da resiliência, e é onde se enquadram as agendas mobilizadoras, que têm uma dimensão particularmente forte nas agendas verdes, que estão a desenvolver um conjunto de inovações, estão a desenvolver um conjunto de novos materiais que promovem a economia circular. É tão relevante por quê? Porque os dados da economia portuguesa e o último dado sobre o estado do ambiente em Portugal é particularmente desafiante. Nós utilizamos apenas 2,8% de materiais reciclados no processo produtivo. A média europeia é na ordem dos 12%.

Estamos 10% atrás.

10 pontos percentuais. Se fosse 10% exatos, era melhor. Portanto, é basicamente cinco vezes menos. Por outro lado, também no sistema de depósito e recompensa das embalagens, nós estamos muito atrás, longe da meta de 90% para a reciclagem e a reutilização dessas embalagens. Também é uma reforma do plano de recuperação e resiliência, que tem que ser concretizada no nono pedido de pagamento, eu diria no primeiro trimestre. Nós temos um desafio muito significativo do ponto de vista legislativo, porque temos que produzir uma nova legislação para os resíduos elétricos e eletrônicos e, por outro lado, temos que colocar em prática o sistema de valorização dos resíduos, que é um desafio logístico, tecnológico e de digitalização muito significativo, e que podemos falar mais à frente.

Já falamos de alguns desses temas, principalmente a parte legislativa, até em outros episódios aqui do "Votos Circulares". Pedro Meira, pegando nesta visão estratégica, o Circulartech é uma das agendas mobilizadoras financiadas pelo PRR. Quais são os seus principais objetivos? Já percebi que decidiram focar-se aqui um pouquinho no fecho dos ciclos materiais e na gestão de resíduos, a importância destas duas áreas.

O objetivo da Agenda CircularTech é usar a tecnologia e a inovação para fazer a transição dos resíduos numa valorização económica dos mesmos e cumprir as metas que o Pedro Dominguinhos menciona. Estamos num momento muito crítico em termos legislativos, especialmente em 2026, com o fim do Estatuto do Resíduo, que está sendo alterado para cumprir essas metas importantes de reciclagem. Estamos também trabalhando a nível europeu no Circular Economy Act, nas suas várias vertentes. A Agenda CircularTech traz, em termos de inovação, a otimização do circuito logístico, a melhoria da capacidade de reciclagem e também o circuito econômico, porque sem a economia, tudo isso falha. Recentemente, acrescentamos a este processo a questão do carbono e a gestão de créditos de carbono. Cumprimos desde a identidade do resíduo, desde que ele entra no circuito até que é valorizado, tanto do ponto de vista econômico quanto na otimização logística de todo esse processo. É isso que a CircularTech nos traz.

Pedro Dominguinhos, já começam a ser visíveis resultados concretos de várias agências mobilizadoras e da bioeconomia sustentável. Já falamos do têxtil, do calçado, da cerâmica, do setor automóvel ou de construção. Consegue destacar exemplos que já são vistos como claros sinais de mudança?

Ao fim de três anos e meio, já começa a ser possível ver no mercado, e isso é particularmente relevante, um conjunto de resultados concretos que podemos distinguir em cinco grandes dimensões. Por um lado, prevenir o desperdício na origem, porque há aqui uma questão particularmente importante: temos que utilizar menos recursos, e o design é particularmente relevante. Uma segunda área é a sustentabilidade pelo design, por assim dizer. Depois, substituir matérias-primas virgens por secundárias. Há também uma terceira dimensão, que é valorizar os subprodutos. Uma quarta é fechar o ciclo dentro da própria fábrica, e isso é particularmente relevante, sobretudo na eficiência energética. Imensas empresas, sobretudo industriais, estão a utilizar a produção de determinado tipo de energias para realimentar o seu processo produtivo, não tendo que utilizar mais energia, portanto, reduzindo a pegada de carbono. E uma quinta dimensão é criar infraestruturas e mercado. O Pedro Meira referiu um dos exemplos, e permita-me quatro ou cinco exemplos concretos que estão no mercado e que foram apresentados recentemente. No BIT, que é a agenda da bioeconomia sustentável, nós temos três dimensões que eu gostaria de destacar. A primeira é relatórios de sustentabilidade que as próprias empresas estão a apresentar ao mercado. Ou seja, estamos a falar de indicadores ESG, que hoje em dia são particularmente relevantes. Ainda na semana passada, a União Europeia acertou as novas regras no Omnibus e, portanto, de reporte, que é particularmente relevante. Isso significa que estamos a falar de mais de 2.500 certificações que as empresas desse setor, e são mais de 60, já conseguiram obter nos últimos anos. Estamos a falar também da utilização de novos materiais, sobretudo de subprodutos da agricultura, que não estavam a ser reutilizados e que estão a ser testados. Dou-lhe o exemplo da casca de arroz ou das folhas de eucalipto, que estão a ser utilizadas do ponto de vista estrutural para este mesmo setor. E isso é particularmente relevante. Depois, estamos a falar de um conjunto tecnológico de têxteis inteligentes, por assim dizer, que permitem recolher informação. Estamos a falar de têxteis de alto desempenho, que são particularmente importantes porque permitem, como é evidente do ponto de vista de atletas de alta competição ou mesmo em termos de saúde, ou de combate a incêndios, por exemplo, no caso dos bombeiros, estamos a falar deste tipo de novos materiais. Ao nível do calçado, estamos a falar de, por exemplo, novas solas a partir de produtos bio, que foram apresentados recentemente em Milão, na Micam, e que é um desenvolvimento particularmente significativo a partir de novos plásticos reutilizáveis, totalmente a partir de desperdício, que é muito significativo. Deixe-me passar agora para as agendas mobilizadoras e destacar dois ou três aspetos importantes. Na área da floresta, estamos a falar de duas agendas mobilizadoras: por um lado, de um ciclo solo-indústria-solo, ou seja, estamos a falar da utilização de produtos florestais, por exemplo, na pasta, mas que depois os desperdícios são reutilizáveis através de adubos, neste caso biofertilizantes, que resultam de inovação tecnológica. Fecha-se aqui um ciclo e não há qualquer desperdício desse ponto de vista. Ou então, recentemente, foi inaugurada uma fábrica em Cruzes do grupo Etsa, que está a utilizar, por exemplo, o desperdício de carne de porco para a produção de novos componentes para comida animal ou para utilizações industriais. Isso são exemplos muito claros do que estamos a fazer. Ou então, na área da cerâmica, a Vista Alegre, por exemplo, ou o grupo Crisal, estão a utilizar, por um lado, o grupo Crisal mais vidro que era desperdiçado no processo produtivo, portanto, estão a aumentar a porcentagem de material reutilizável, ou então, na Ecocerâmica, estamos a falar de novas linhas de materiais a partir de lamas, completamente a partir de produtos reciclados, como por exemplo, neste caso, a Sanindusa tem uma linha de casa de banho só com material reciclado.

Há bons exemplos para acelerar.

Há bons exemplos e, sobretudo, a nível europeu, isso é particularmente relevante, porque estas indústrias têm um desafio, como dizia o Pedro Meira, do ponto de vista legislativo, que é particularmente relevante. Esta semana entra em vigor a nova legislação europeia em termos de

Importação de produtos que tem que respeitar um conjunto de desafios ambientais na Europa.

Pedro Meira, estas transformações exigem inovação tecnológica. A B2Solutions trata disso e conhece bem também o setor florestal. Que papel têm aqui os dados, palavras como a blockchain, a própria digitalização. Hoje fala-se muito em inteligência artificial e outro tipo de tecnologias que serão mais emergentes ainda na concretização dessa economia circular.

Eu acho que os dados têm um papel central em tudo isto. Do ponto de vista da inovação produzida, nós estamos em três agendas, já agora, relativamente à B2Solutions. Estamos no Circulartech, estamos no Nexus, em tornar o Porto de Sines verde até 2028 e também estamos no New Space, que é a utilização de imagens de satélite para detecção de grandes incêndios florestais. E todas estas três agendas contribuem drasticamente para o Circular Economy Act a nível europeu. Relativamente à tecnologia, o que é que nós estamos a utilizar? Obviamente, com o Circulartech foi-nos possível fazer um gêmeo digital na área dos resíduos. Isto é particularmente importante a nível europeu, porque nos permite fazer análises preditivas do que é este setor, com o movimento da população em grandes cidades europeias, em grandes centros urbanos, a médio prazo, portanto, a 10 e a 20 anos, e a calcular o que é este movimento dos recursos necessários, quer do ponto de vista de energia limpa, quer do ponto de vista de resíduos a essa distância. Relativamente à blockchain, nós também estamos aqui num papel importante, que é o passaporte digital do resíduo. O Pedro há bocado falou na questão que é importante, que é desde o momento em que nós colocamos resíduo dentro do processo até que o valorizamos, é necessário cadastrá-lo e torná-lo visível em toda a linha deste circuito. Portanto, e a blockchain tem um papel importante. Tem também um papel importante na questão dos certificados de carbono, que é uma nova área que trouxemos para o Circulartech. A blockchain está no centro das nossas operações. Relativamente aos dados, nós não pensamos o Circulartech apenas a nível nacional, mas pensamos a nível europeu. Daí termos feito logo a integração deste processo com o HEX, que é um grande programa a nível europeu, do ponto de vista de integridade de todas estas transações, e também termos transformado este modelo com um padrão a nível europeu, que é a FIWARE, que nos permite que estes desenvolvimentos que nós estamos a fazer do ponto de vista da ciência de informação, possam ser interoperáveis e não morram apenas com o Circulartech, mas possam ser exportados para qualquer cidade a nível europeu. E é isto que estamos a fazer e a transformar do ponto de vista tecnológico, todo este setor dos resíduos.

Pedro Domingues, o PRR tem um horizonte temporal definido. Como é que garantimos que estas reformas, nomeadamente na economia circular, não ficam apenas no curto prazo e deixam aqui um legado que seja, de facto, duradouro?

Este é um desafio particularmente exigente. Os exemplos que estamos aqui a falar têm uma viabilidade dada pelo próprio mercado. Nós estamos a falar de novos produtos que passarão a ser comercializados no mercado, alguns deles já estão a ser feitos. Por outro lado, muitos deles resultam de investimentos produtivos das próprias empresas, naturalmente com o apoio do dinheiro do PRR, mas entram nas cadeias de valor e nas cadeias produtivas. E isto é particularmente relevante. Deixe-me dar o exemplo, o Pedro Meira, no caso dos ecocentros. Também no BIT, a Lipor desenvolveu um centro de triagem e recolha de têxteis, que permite processar até cerca de 50 toneladas por ano, onde já conseguem identificar 14 categorias de diferentes produtos. E depois, a Jusant existe uma empresa constituída pelos grandes players nacionais e um player francês que vai naturalmente utilizar esses resíduos para produzir novos materiais a partir desse desperdício e de algo que não estava a ser minimamente aproveitado. Está aqui uma sustentabilidade económica de muitos desses projetos. Por outro lado, esse Circular Economy Act vai impulsionar, através da legislação, a obrigatoriedade de nós termos comportamentos mais amigos do ambiente, mais sustentáveis, porque nós não podemos continuar a utilizar os recursos da forma como o fazemos e necessitamos drasticamente, até por imposição legal, de utilizar mais materiais reciclados na produção desses novos materiais. E, portanto, o drive económico e legal acabará por impulsionar estas mudanças para serem mais permanentes, mas é um desafio que é particularmente relevante. A grande vantagem é que não dependem só de incentivos públicos. O mercado aqui vai desempenhar um papel muito significativo.

Pedro Meira, para fechar, estamos aqui a ficar sem tempo. Falamos desse legado mais duradouro, estas soluções tecnológicas e estes modelos circulares têm potencial de escala. Portugal pode de alguma forma afirmar-se como exportador de soluções de economia circular, apesar de ainda estarmos muito atrás no cumprimento de algumas destas metas. Poderia ser um desejo para 2026, o que é que falta para desbloquear esta situação?

Não é um desejo, é uma realidade. Nós estamos atrás nas metas, mas estamos à frente na tecnologia, curiosamente. Portanto, voltando um bocadinho atrás, o que o Pedro diz é verdade. Nós estamos neste setor há mais de 20 anos. Isto para nós não é novidade. O PRR deu-nos uma grande ajuda e ajudou-nos a sustentar um pouco os nossos investimentos. Nós já estamos a fazer essa exportação pra Espanha, já estamos a fazer algum deste trabalho na Grécia, já estamos a fazer algum deste trabalho também nos PALOP, nomeadamente em Angola. Para nós, tal como eu disse há pouco, estes modelos de informação e tudo aquilo que nós fizemos foi a nível europeu. Portanto, nós usámos diretamente aquilo que o Circular Economy Act nos estava a propor e usámos os modelos europeus por contraponto aos modelos americanos, exatamente para criar este ecossistema e para valorizar este ecossistema a nível europeu, quer no marketplace dos resíduos, há bocado falámos na indústria, no nosso caso é simples, nós temos clientes privados, temos clientes públicos na área urbana, temos clientes industriais na valorização dos resíduos. Temos também como clientes quem faz a gestão de tudo isto, a Sociedade Ponto Verde, uma Sogilub. Portanto, temos um ecossistema total e preparámos tudo isto com base na legislação europeia e com base nos modelos europeus, exatamente nesse fim: exportar. Portanto, a nossa meta de 2026 é efetivamente de exportação, é uma realidade, e não fazia sentido estarmos neste PRR se não tivéssemos isso em mente.

Muito bem, Pedro Dominguinhos e Pedro Meira foram os convidados desta conversa sobre o papel do PRR na inovação, na tecnologia e na aceleração da economia circular. Este foi o "Votos Circulares", o podcast do Observador, em parceria com a Associação Smart West Portugal, que contou hoje com o apoio, neste episódio, da B2 Solutions. Ouça todos os episódios disponíveis no site do Observador e também na Associação Smart West Portugal. Junte-se a nós no próximo programa e continue a descobrir tudo sobre economia circular e sustentabilidade.