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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, que nos fala de sustentabilidade e economia circular. Hoje vamos falar de resíduos orgânicos, aquilo que sobra da nossa alimentação, da agricultura e até os provenientes dos tratamentos das águas residuais, e de como é que estes resíduos podem ser transformados em energia renovável, nomeadamente em biogás e biometano, ajudando assim também a descarbonizar a economia. Este é um episódio que conta com o apoio da Veolia Portugal. E conosco estão hoje José Costa Pereira, diretor de energia da Veolia Portugal, e Teresa Ponce de Leão, é presidente do LNEG, o Laboratório Nacional de Energia e Geologia. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. José Costa Pereira, quando falamos de resíduos orgânicos, de que resíduos estamos a falar ao certo?
Muito bem, são resíduos essencialmente de origem orgânica. Eu diria, os primeiros são exatamente a fração orgânica dos resíduos sólidos, portanto, que todos nós produzimos em nossas casas e que em alguns municípios começam a ser recolhidos de forma independente. Depois temos também as lamas de estações de tratamento de águas residuais, das ETAR. E depois, também numa terceira categoria importante, são os efluentes pecuários, os mais conhecidos como os estrumes, que são essencialmente provenientes das indústrias agrícolas primárias. E depois, finalmente, um último grupo também muito importante, que são os resíduos da distribuição alimentar, não só da distribuição grossista, como também os resíduos do próprio setor alimentar, que tem sempre algum desperdício e que podem ser valorizados. Essa valorização é essencialmente feita naquilo que nós chamamos uma digestão anaeróbia, ou seja, uma digestão com ausência de oxigênio, onde existem micro-organismos que põem estas matérias orgânicas e gerando biogás, que depois podemos ou não purificar e finalmente injetar na rede, depois de purificado, obviamente, injetá-lo na rede de distribuição de gás natural, uma rede que já existe.
Teresa Ponce de Leão, do ponto de vista científico, por que estes resíduos têm este potencial? Há aqui qualquer coisa que acontece quimicamente, que os torna interessantes e apropriados para a produção de energia. O que acontece exatamente nesta digestão anaeróbica que o José falava aqui?
A digestão anaeróbia é um processo químico, que é um processo complicado, difícil de explicar aqui, mas em que o subproduto é um gás, que pode vir a ser o hidrogênio, pode vir a ser o biometano ou o biogás, e que serve para a produção de energia. Há um outro subproduto na produção destes gases renováveis, que é o digerido, que pode servir como fertilizante para a agricultura e que é muito importante, tem sido um subproduto que tem vindo a gerar várias discussões, porque era considerado um resíduo e portanto estava sujeito à legislação dos resíduos. Atualmente, o governo desclassificou como resíduo, portanto, pode ser em algumas proporções, há algumas regras, mas pode ser utilizado diretamente na agricultura, o que permite minimizar o investimento nos projetos, portanto, viabilizar esses projetos.
Teresa, há aqui também um conceito que nem sempre é muito claro, que é a diferença entre o biogás e o biometano, que são dois gases que surgem desta decomposição destes resíduos, digamos.
Exatamente. O biogás resulta diretamente da digestão anaeróbia, e o biometano tem uma etapa adicional de purificação desse biogás para que ele possa vir a ser injetado diretamente nas redes de gás natural.
José Costa Pereira, quando falamos de biometano, também ainda não consegui perceber bem a diferença para o metano, que hoje circula nas nossas redes de gás natural, e é possível substituir diretamente um pelo outro?
Sim, apesar das origens serem diferentes. No caso do metano, o gás natural que hoje comumente usamos tanto na indústria como-
Nas nossas casas
...nas nossas casas, é um combustível de origem fóssil, portanto, das mais diversas proveniências, mas que no fim do dia é um combustível de origem fóssil, logo, bastante emissor de carbono. E no caso do biometano, este gás, depois de ser purificado, vindo dos tais digestores que já falamos, depois de purificado, ele é completamente compatível com as características do gás que circula normalmente nas nossas redes. É normal fazer-se alguma comparação com o hidrogênio.
Também é limpo, entre aspas.
Que pode ser limpo. O hidrogênio verde é limpo, é produzido a partir de fontes de origem renovável, e esse hidrogênio nem sempre é misturável Ou pelo menos em toda a proporção com aquilo que já circula na rede de gás natural. O que é interessante neste biometano é que ele é completamente compatível e, portanto, não há diferença nenhuma.
Pode substituir perfeitamente.
É aquilo que vemos quando ligamos o fogão ou o aquecimento lá em casa. A diferença para o consumidor é rigorosamente nenhuma.
Teresa Ponce Leão, do ponto de vista energético e ambiental, há de facto aqui grandes vantagens do biometano quando comparados, como o José dizia, com combustíveis que são fósseis ou até olhando para outras fontes de energia que são renováveis. Quais são aqui as grandes vantagens do ponto de vista energético e ambiental do biometano?
A enorme vantagem do biometano é o facto de estarmos a resolver simultaneamente dois problemas. Estamos a resolver o problema ambiental e um problema inclusive visual, porque estamos a usar os nossos resíduos, como já foi muito bem referido, quer sejam resíduos sólidos urbanos, quer sejam DETAR, quer sejam resíduos agropecuários, resíduos da própria agricultura. E com esses resíduos estamos a produzir energia. Um gás renovável, que é injetável 100% na rede de gás natural e que ainda, como referi há pouco, gera um subproduto que pode ser aproveitado para a agricultura. Temos um potencial enorme em Portugal de biometano, aliás, como temos na Europa. Estamos a seguir excelentes projetos que já existem e os melhores serão os da Dinamarca e da França, e estamos a tentar replicar o mesmo em Portugal, aumentando o mix energético.
José Costa Pereira, além dessa componente ambiental que estamos aqui a falar, imagino que haja também uma dimensão económica que traz aqui oportunidades através do biometano. Isto pode reduzir a importação de Portugal, de importações energéticas, podemos reduzir esse peso das importações energéticas e também de valorização de resíduos que são locais?
Podemos, sim. E essa é uma das belezas deste-
Pode ser também uma oportunidade económica.
É uma grande oportunidade económica. Primeiro, porque na verdade se substitui imediatamente o gás natural e como nós não somos produtores de gás natural, obviamente, é quase uma substituição direta e portanto permite-nos não ter essa dependência e essa importação. Depois, conseguimos também fixar pessoas nos territórios mais rurais, isso não é desprezível, essa vertente também deste negócio, porque não há que enganar, é um negócio. Finalmente, permite descarbonizar os usos térmicos mais difíceis de substituir. Estou-me a lembrar da indústria vidreira, da indústria cerâmica, onde têm grandes fornos que têm que ser descarbonizados. A eletrificação nem sempre é uma possibilidade e por isso esta maneira rápida de descarbonizar é muitíssimo interessante. Também na mobilidade pesada, naqueles caminhões mais pesados, onde a eletrificação ainda não chegou com tanta facilidade. Aqui também eles podem ser transformados para biometano e já temos frotas a gás natural que podem ser perfeitamente transformadas a biometano. Estou-me a lembrar aqui parte dos autocarros da Carris em Lisboa onde estamos, no Porto, os STCP, mas também muita logística que implica transporte pesado.
Isso quer dizer que o tradicional GPL pode ser de biometano?
Isso quer dizer que o tradicional GPL pode ser biometano, exatamente.
Ok, já percebi. Teresa Ponce Leão, queria falar consigo um bocadinho sobre este plano de ação para o biometano, que o LNEG está a coordenar, 2024, 2040. Que potencial é que o nosso país tem nesta área e o que é que está previsto fazer-se também nos próximos anos ao abrigo deste programa?
O plano de ação para o biometano é um plano que olha para toda a cadeia de valor e para todos os intervenientes no setor, incluindo a parte legal e um dos grandes objetivos é facilitar os investimentos, que são muitos. Há muita vontade de investir neste setor, mas a legislação estava um pouco confusa, complexa. Neste momento, o grande objetivo deste plano é descomplicar a legislação e estamos a fazê-lo incluindo na discussão todos os setores, quer os industriais, quer os proprietários das redes de gás.
Têm recebido esses contributos desses intervenientes.
Temos reunido com todos esses setores e temos um plano para o qual todos os interessados no investimento em biometano estão a contribuir. E depois o nosso trabalho é compilar toda essa informação e levá-la à tutela e muito em breve terá a surgir uma nova legislação, pensamos nós, fácil e simples de De ser aplicada.
E que atraia também esse investimento.
Este setor, como tem a parte ambiental e tem a parte energética, muitas vezes ficava bloqueado onde se liga o ambiente à energia. O licenciamento não estava claro se era da direção-geral, se era das comissões de coordenação, e agora estamos a clarificar, tornando o enquadramento legal para este setor harmonizado e num único.
José Costa Pereira, do lado da Veolia, que planos existem em Portugal exatamente para a valorização dos resíduos orgânicos e para o aumento também desta produção de biometano? Já estão a trabalhar nesta área?
Sim, já estamos a trabalhar. Aliás, nós, sendo uma multinacional francesa, vamos beber muito da experiência que os nossos colegas em França já fazem e, portanto, em muitos processos usamos esse conhecimento e não inventamos muito. Fazemos essa aplicação de forma bastante direta. E depois, como somos uma empresa que faz também a recolha de resíduos e temos uma unidade industrial que faz exatamente a recolha de resíduos orgânicos, facilita-nos também o processo, porque na verdade já estamos nas duas partes da cadeia de valor: a recolha de resíduos e depois temos a possibilidade de fazer aquilo que fazemos neste momento nessa unidade, que é transformá-los em fertilizantes ou subir aqui um degrau na escala de valor e produzir biometano a partir dos próprios resíduos que nós já recolhemos.
Mas já o estão a fazer?
Ainda não estamos a fazer. Está o projeto.
Estão a preparar-se para.
Nos estamos a preparar. E depois temos uma quantidade de relações, sobretudo com clientes industriais, que têm os seus próprios resíduos orgânicos que produzem, fruto daquilo que fazem nas suas unidades.
E vocês fazem o tratamento desses.
E nós já estamos a fazer a produção de biogás, que depois é consumido em substituição de gás natural diretamente no cliente. Portanto, nós estamos a fazer aquela segunda parte, que é a valorização do biogás para transformar em biometano, mas hoje já fazemos essa valorização e esse aproveitamento daquilo que são os resíduos orgânicos dos nossos clientes industriais e já estamos a permitir que eles descarbonizem, porque quando estão a consumir, num conceito de circularidade, quando estão a consumir o seu próprio biogás, que produzem com os seus próprios resíduos, não estão a consumir gás natural. Portanto, isso já está em curso.
Pelo que eu estou a perceber, a Veolia providencia esse serviço. Chegaremos a um ponto em que uma indústria que faça a produção deste tipo de resíduos possa também ter nas suas próprias instalações mecanismos para transformá-los em biogás ou isto é complicado?
Nestes que estou a referir, é isso que acontece. Portanto, estes minibiodigestores já estão instalados no cliente.
Na própria empresa do cliente.
Na própria empresa.
Ok.
E, portanto, é um processo completamente circular.
E é ainda mais limpo porque não existe transporte.
Exatamente. Ali é completamente feito tudo no local e temos essa beleza, eu volto a repetir a palavra, da circularidade, porque é mesmo importante. Ela sempre lá esteve, ou seja, se estamos a produzir batatas fritas, por exemplo, há a casca de batata, que pode ser aproveitada e essa casca de batata pode ser colocada neste biodigestor. Os micro-organismos farão o seu trabalho e este biogás que é produzido pode ser usado no processo.
Pela própria empresa.
Pela própria empresa.
Muito bem. Só para terminar e muito rapidamente, Teresa Ponce de Leão, não sei se me consegue deixar aqui em poucas palavras uma ideia-chave. Por que os resíduos orgânicos podem ser uma das soluções mais eficazes para ligar isto da economia circular e da transição energética? E ainda, o que é que falta fazer ou quais são os grandes entraves para que isto avance um bocadinho mais depressa?
Eu pegava na pergunta e respondia de outra forma. Nós estamos a produzir o Atlas Nacional para o Biometano, onde estamos a identificar todos os locais produtores de resíduos, pequenos produtores, como foi referido, grandes produtores, e estamos a contribuir com um produto para o país, que permite otimizar a rede nacional de produção de biometano, identificando os recursos naturais, portanto, a matéria-prima, o resíduo, e identificando os pontos de consumo, como já foi referido, por exemplo, os setores difíceis de descarbonizar. Produzimos ainda um vetor energético para o ambiente e que também estamos a identificar neste nosso Atlas Nacional para o Biometano, que está disponível ou vai ficar disponível, ainda não está, vai ficar disponível para quem o quiser consultar.
Onde?
No portal do biometano, que está sediado no portal do LNEG.
Ok.
E para quem o quiser consultar e melhor analisar, poder analisar os investimentos. Também estamos nós disponíveis no LNEG para facilitar essa transferência de conhecimento.
Muito obrigado, José Costa Pereira, Teresa Ponce de Leão. Esta conversa foi muito interessante. Falamos hoje sobre resíduos orgânicos, como é que podem deixar de ser um problema para se tornarem também uma solução energética mais sustentável. Este é um episódio que mostra como a economia circular também passa, de facto, pela energia e que o biometano pode ter aqui um papel decisivo no futuro energético do nosso país. Continue a acompanhar o "Vórtices Circulares", é um podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Hoje contamos com o apoio da Veolia Portugal. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.