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Seja muito bem-vindo ao "Vozes Circulares". É o podcast do Observador em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde acompanhamos de perto as mudanças que estão a transformar a economia circular no nosso país. O sistema de depósito e reembolso arrancou recentemente em Portugal. É uma mudança estrutural na forma como devolvemos embalagens e como participamos na reciclagem. Mas como é que estão a correr os primeiros dias no terreno? É isso que vamos tentar saber no episódio de hoje, que conta com o apoio da RVM Systems. E conosco estão Tomás Palma, Country Manager da RVM Systems, e também Pedro Lago, diretor de IT da SDR Portugal. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. Pedro Lago, vou começar por si. Pedir-lhe para rapidamente recordarmos o que é este sistema de depósito e reembolso. Arrancou a 10 de abril. E como é que estão a correr os primeiros dias, estão a corresponder às expectativas?
Muito bem. O SDR é um dos maiores projetos em termos de impacto ambiental no país. Com o SDR, nós vamos ter cidades mais limpas, vamos ter um país mais amigo do ambiente e vamos preparar melhor o nosso planeta e as nossas cidades para as gerações vindouras. É um sistema disruptivo, um verdadeiro sistema de economia circular, em que basicamente cada consumidor vai pagar um valor de depósito de €0,10 cada vez que compra uma bebida e esse valor é lhe devolvido quando devolve a embalagem num dos milhares de pontos de recolha que temos no país. É um salto quântico que vamos dar na perspectiva da reciclagem das embalagens, uma reciclagem de alta qualidade, a chamada reciclagem bottle to bottle, em que em três anos vamos atingir 90% de recolha e reciclagem destas embalagens. Os primeiros dias estão a correr muito bem, estão a corresponder às expectativas, porque neste momento mais de 10 milhões de portugueses conhecem a marca Volta, pelo menos já ouviram falar da marca Volta, e a nossa expectativa era arrancarmos o sistema ou termos no sistema cerca de 2500 máquinas de recolha das embalagens e ao fim de poucos dias já temos mais de 2300 máquinas a funcionar e eu diria que está a correr perfeitamente dentro das expectativas, acima das expectativas, até.
Tomás Palma, o Tomás está mais do lado das máquinas, a RVM System trabalha mais esta área. Do lado das máquinas e da operação no terreno, tudo correu como planeado neste arranque? Como é que estão a correr estes primeiros dias?
Sim, como disse o Pedro Lago, globalmente sim. Ou seja, isto também é um resultado de muitos meses de preparação. Antes do arranque, fizemos vários testes em ambiente simulado, ou seja, transações de teste, validações com diferentes tipos de embalagem, que nos deu, de facto, muita confiança no sistema que iria arrancar. Nos primeiros dias vimos que as máquinas responderam bem, tiveram uma performance também acima das expectativas, tanto em termos de reconhecimento como também a nível de disponibilidade. Dito isto, num sistema desta dimensão, há sempre variáveis que é difícil prever a 100%, de facto, desde picos de utilização em determinadas lojas, até diferenças de comportamento dos utilizadores. Mas o que é importante realçar é que a infraestrutura mostrou-se ser resiliente e preparada para escalar, como vamos ver no futuro. Isso foi claramente validado neste arranque.
Ainda bem. Houve surpresas, Pedro Lago, alguns comportamentos dos consumidores em loja ou até comportamentos das próprias lojas que não tivessem totalmente antecipado?
Há sempre algumas surpresas.
Sim, imagino.
Mas estávamos preparados. Nós durante cerca de um ano e meio preparamos o sistema. Este sistema é de enorme complexidade. Temos centenas de produtores envolvidos, alteramos milhares de embalagens, temos muitos milhares de pontos de recolha, temos operadores logísticos, temos recicladores, temos muitas entidades, mas durante este tempo preparamos planos de contingência para alguma coisa que corresse mal. Fizemos formação a milhares de pessoas que estão envolvidas com o sistema. Mas, de uma forma geral, as coisas correram muito bem. Talvez aquilo em que detetamos que o consumidor não estaria totalmente preparado era que nos primeiros dias, mas isto é muito normal, ainda vão tentar devolver algumas embalagens que não pertencem ao sistema. Faz parte do processo de aprendizagem.
Porque elas têm que ter um símbolo a dizer "Volta".
As embalagens que têm o símbolo volta são as embalagens em que o consumidor-
Será que todas as embalagens que estão no mercado já o têm? Se calhar ainda não.
Ainda não.
Há aqui um período em que vão conviver embalagens ainda sem o símbolo volta. Se ela for exatamente igual a uma outra que não tem o símbolo, a máquina não a aceita?
Exatamente.
Ok.
Nós temos um período de transição que termina no dia 9 de agosto. Durante esse período, vão conviver no mercado embalagens pré-volta e embalagens volta. Apenas as que têm o símbolo é que pertencem ao sistema.
Isso está explícito na campanha de formação que foi tornada pública.
Sim, nós temos tentado comunicar. Obviamente, isto é algo novo, é algo disruptivo e há um processo de aprendizagem. E por isso, e aconteceu em todos os países que têm este tipo de sistemas, nos primeiros dias, muitas vezes os consumidores ainda vão tentar devolver embalagens que não pertencem ao sistema. Ora, se não pagaram os €0,10, não têm direito a reaver esse dinheiro, mas faz parte do processo. Para além disso, houve pequenos erros de registo de máquinas, de embalagens, etc, que estamos a apurar, mas apesar das surpresas, preparamos muito bem e é com orgulho que dizemos que o sistema em Portugal arrancou muito bem, inclusivamente de benchmark temos internacional, todos os países que já têm este tipo de sistemas nos têm dado esse feedback muito positivo.
Tomás, este é um sistema que tem uma escala considerável. Os primeiros dias imagino que trazem sempre estes ajustes. Que tipo de afinações, pode confidenciar conosco, que ocorreram nas máquinas que estão já no terreno?
Sim, antes de mais referir que tambémSobretudo, houve aqui também um nível de entusiasmo muito grande a nível do arranque do sistema. Houve consumidores, como foi referido aqui, a tentarem experimentar o sistema quase por curiosidade, com embalagens já disponíveis no mercado e outras que não estavam disponíveis no mercado, como foi referido, embalagens pré-volta. E de facto, essas embalagens não são aceites porque naturalmente o consumidor não pagou, a priori, os €0,10. Mas, de facto, mostra que houve aqui uma abordagem muito positiva, em que o consumidor está aberto à mudança e mudar um bocadinho o comportamento de reciclagem das embalagens. Por outro lado, também vimos alguns comportamentos que fazem parte desta fase de aprendizagem, ou seja, a tentativa de inserir embalagens que não fazem parte do sistema ou embalagens sem condições.
Não podem estar esmagadas, não é uma das condições.
Exatamente, embalagens que estão deformadas não podem ser aceites, embalagens com o código de barras ilegível também não podem ser aceites dentro das máquinas, portanto, condições que dificultam a leitura, é necessário também afinar esse tipo de processo. Do lado das lojas, houve aqui uma surpresa positiva, que de facto, as lojas estão preparadas, ou seja, já vimos que as equipes estão preparadas para corresponder a este novo sistema e garantir, de facto, que começam a apoiar os clientes que ainda não estão muito envolvidos dentro do sistema, mas que conseguem suportar no processo de entrada dessas embalagens nas máquinas.
Falando um bocadinho ainda mais destes consumidores, Pedro Lago, quais foram os primeiros sinais de adesão? As pessoas estão a perceber, na globalidade, o sistema? Eu acho que a campanha foi bastante eficaz, mas claro, pode nem toda a gente a ter visto.
Ainda é cedo para apurar resultados, mas os primeiros indicadores são muito positivos. Há muita curiosidade, muita experimentação, até há pessoas à procura já das embalagens volta nos supermercados para procurarem perceber como é que as coisas funcionam. De uma forma geral, eu diria que as pessoas estão a entender o sistema. Como sempre acontece quando fazemos mudanças disruptivas, há sempre quem equacione se isto é um novo imposto, uma nova taxa, e eu aqui gostava de deixar uma mensagem clara: isto não é um imposto, não é uma taxa, é um incentivo à devolução das embalagens. E essa devolução das embalagens tem um propósito muito importante, que é de facto termos cidades mais limpas, termos menos lixo nas ruas, e nós, SDR Portugal, vamos garantir que 100% das embalagens que são recolhidas vão ser efetivamente recicladas, vão dar origem a novas embalagens. Mas tudo começa com o consumidor. O consumidor tem que fazer a sua parte e é esse o nosso apelo, é um pequeno gesto que faz a diferença em prol de um mundo melhor.
Estava aqui a olhar também um bocadinho para o que podem ser as próximas semanas. Pedro Lago, quais são agora as prioridades imediatas que diria que vão consolidar este sistema?
As duas principais prioridades que temos, a primeira é apoiar o consumidor nesta mudança. As pessoas estão a começar a fazer o processo de devolução das embalagens, gradualmente. Naturalmente, existem ainda dúvidas, as pessoas ainda não estão completamente familiarizadas com a máquina. Vamos ter muitos promotores nas lojas a apoiarem as pessoas nestas primeiras semanas e temos que explicar tudo isto muito bem ao consumidor. A segunda prioridade é melhorarmos o sistema. Este sistema tem uma riqueza de informação muito grande. Nós conseguimos perceber como é que estão a ser usadas as máquinas, onde estão, quais são as taxas de devolução e portanto, temos agora que ser capazes de usar toda essa informação para melhorarmos, para alertarmos os pontos de recolha que possam não estar a cumprir os níveis de serviço, identificarmos problemas pontuais numa ou noutra embalagem e agora vamos afinar aquilo que começamos e começamos bem.
Tomás, do lado das máquinas, diria, já há também melhorias que estão a ser identificadas a nível técnico, a nível logístico, de experiência do utilizador, do consumidor, mas também do próprio lado do retalhista que as tem na sua loja?
Sim, estão a ser realizados alguns ajustes, sobretudo finos, mas importantes. Por exemplo, calibrar, neste caso, a sensibilidade dos sensores para realizar uma leitura melhor das embalagens, tentar identificar rótulos ligeiramente danificados e perceber quais são as embalagens que podem ser validadas ou não, mas sobretudo também tentar automatizar alguns tempos de resposta das máquinas para garantir uma experiência ao consumidor ou utilizador cada vez mais seamless e mais linear, e quebrar algumas barreiras na interação com a máquina. Outros pontos relevantes também a nível de componente logística, ou seja, nós também conseguimos prever no lado dos retalhistas, como referiu bem, prever aqui alguns fluxos de enchimento dos sacos das máquinas.
Esse é um trabalho que fica para a loja, no fundo, não é?
Exatamente, sim. Tipicamente, é uma responsabilidade aqui do lado da loja, que com a nossa ajuda e motorização, vamos tentar garantir que haja esse fluxo de forma simples, de forma fácil e que garanta essa operação na loja de forma linear e que não haja obstruções na operação da loja e que a máquina seja autônoma e que trabalhe por si própria.
Pedro, ainda há algum caminho a fazer na comunicação ao consumidor deste novo sistema. Que mensagens é que ainda acha que precisam de ser reforçadas para uma adesão mais plena dos consumidores ao sistema?
Nós temos procurado comunicar muito com o consumidor, mas eu aproveito a oportunidade para deixar três mensagens essenciais. A primeira éAs embalagens têm que ser devolvidas sem estarem espalmadas, com o código de barras visível e vazias.
E o símbolo volta.
Essa era a segunda mensagem. A segunda mensagem é: por favor, não procurem devolver nas máquinas embalagens que não tenham o símbolo volta. Essas embalagens não foram alvo do valor de depósito e por isso não serão aceites. E a terceira mensagem, e mais importante, é: por trás deste sistema há muita complexidade. Cada embalagem devolvida pelo consumidor vai ser recolhida, transportada, encaminhada para um centro onde é triada e contada para otimizar os materiais. Vai para um reciclador, que vai transformar essa embalagem numa nova embalagem e ela vai voltar às prateleiras do supermercado ou às estantes dos estabelecimentos HORECA. Mas tudo começa com um pequeno gesto, que é o gesto que faz a diferença, o pequeno incômodo do consumidor garantir que devolve essas embalagens e obviamente percebemos que isso implica armazenar as embalagens em casa, mantê-las, não as espalmar como as pessoas estavam habituadas a fazer.
Essa é uma mudança.
É uma mudança grande, mas o propósito e o fim vale a pena. Os países que têm este tipo de sistemas reduziram 40%, em média, o lixo nas ruas. Nós vamos ter um país mais limpo, mais agradável, vamos tirar o lixo dos nossos jardins, das nossas praias, das nossas ruas e é este o apelo que fazemos ao consumidor. Façam esse pequeno gesto que vale a pena e vai fazer a diferença.
Pedro, só para afinar ainda mais esta informação, estamos a falar apenas de embalagens de bebidas de plástico.
Embalagens de bebidas de plástico.
Sejam elas de que tamanho for. Latas também.
Até três litros. Os garrafões não estão incluídos, mas todas as outras embalagens de bebidas não lácteas até três litros, em plástico ou em latas, estão incluídas e fazem parte do sistema.
Muito bem. Para fechar, Tomás, se tivesse que resumir este arranque numa ideia-chave, o sistema de depósito e reembolso está no caminho certo e que escala pode ter ainda estas máquinas? Falava um pouco disso no início.
Sim, sem dúvida acho que estamos no caminho certo. Também houve aqui um grande plano de preparação antes e acho que isso foi significativo para que houvesse um arranque acima das expectativas. Mas acho que o mais importante é provar que de facto este sistema funciona e é prático para as pessoas e para os clientes que querem fazer esta reciclagem. Que a tecnologia responde, que os retalistas conseguem integrar a operação e que os consumidores estejam dispostos também a ter este tipo de ação sustentável e conseguem valorizar o sistema que foi criado e que foi implementado em Portugal. Eu diria que é preciso encarar também isto como um processo evolutivo, ou seja, não só perceber que isto é uma fase de aprendizagem, ou seja, existem várias afinações a fazer, não só a nível das máquinas em si, todos estes ajustes que são necessários, mas também os retalistas estarem preparados no terreno a suportar esta fase inicial de dúvidas que irá existir, como também a SR Portugal que claramente irá apoiar também todas estas entidades, garantindo que o fluxo corre da melhor maneira e temos esta economia circular, que é o que deverá acontecer. Portanto, eu diria que o sistema já arrancou com bases bastante sólidas, que é isso que era concretizável, e agora é garantir que o sistema vai sendo cada vez mais afinado, vamos envolvendo cada vez mais, com o apoio de todos e especialmente com esta vontade dos clientes a quererem reciclar as embalagens e tornar o planeta cada vez mais sustentável.
Pedro, quer deixar em 30 segundos também uma mensagem para o que se seguirá neste sistema de depósito e reembolso?
Sim, gostava de dizer que uma das características diferenciadoras do nosso sistema em Portugal é que desde o primeiro momento nós temos a possibilidade de o consumidor fazer uma doação e, portanto, para o consumidor que não se preocupe tanto em receber os € 0,10, que de facto não é um grande valor, tem sempre a possibilidade de apoiar causas importantes do ponto de vista social.
Pode deixar a moeda lá?
Não deixa a moeda na própria máquina, em vez de pedir o seu voucher ou outra forma de reembolso, vai ter uma opção de doação e todas as máquinas deste país têm essa opção disponível. Começamos com quatro instituições, a Liga de Proteção da Natureza, os Bombeiros, a Caritas e a Liga de Proteção Animal. E no futuro teremos outras instituições e, portanto, para além do impacto ambiental, o consumidor pode também ter aqui um impacto muito positivo do ponto de vista social.
Essa é uma ótima ideia. Muito obrigado, Tomás Palma, Pedro Lago, por esta conversa sobre os primeiros passos de um sistema que promete transformar a forma como reciclamos em Portugal. Os primeiros meses são decisivos. Este arranque já mostra como a colaboração entre tecnologia, retalho e consumidores é essencial para que a economia circular funcione na prática. Este foi mais um episódio do podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, o "Vozes Circulares". Neste episódio contamos com o apoio da RVM Systems. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a acompanhar as vozes que estão a transformar o futuro.