Fact Check

Os “mitos” de Costa são mesmo mitos? Onde está a realidade?

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Investimento, exportações e crescimento. Para António Costa, os indicadores estão a evoluir bem. Para a oposição, não. Onde estão as fronteiras dos mitos e começa a realidade?

António Costa foi munido de gráficos para o debate quinzenal para provar que os mitos sobre a situação económica são apenas "mitos"

MÁRIO CRUZ/LUSA

A frase

O primeiro-ministro, António Costa, entrou no debate quinzenal desta quinta-feira munido de gráficos e pronto a desmontar aquilo que chamou de “os três mitos” sobre a situação económica atual.

Mito 1

“A economia deixou de crescer”. António Costa disse que isso é “falso” porque “o que os gráficos demonstram é que o crescimento desacelerou no segundo semestre de 2015 e desde o início deste ano tem vindo a recuperar, não no modo que desejamos, mas que é a inversão da tendência que os senhores [PSD e CDS] deixaram”.

Os factos

O primeiro-ministro dispensou-se de citar fontes, mas, nestas matérias, o melhor é recorrer aos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). De acordo com os números revelados no final de agosto, o Produto Interno Bruto (PIB) registou um crescimento de 0,9% durante o segundo trimestre de 2016 em comparação com o mesmo período do ano anterior. A taxa de crescimento registada no segundo trimestre de 2015 foi, também, de 0,9%. Sob este ponto de vista, não houve desaceleração, mas também não se verificou um aumento do ritmo. Em comparação com o primeiro trimestre de 2016, houve, de facto, uma aceleração do crescimento. A variação em cadeia foi de 0,3%, ligeiramente superior aos 0,2% registados durante os três primeiros meses deste ano.

Se António Costa se referia à variação homóloga por trimestre, convém, novamente, referir os números do INE. A economia estava a crescer, em termos homólogos, 1,5% no final do primeiro semestre de 2015. Desde essa altura, o ritmo não parou de abrandar, até aos 0,9%. Quanto à taxa de variação do PIB em cadeia, isto é, trimestre a trimestre, estava em 0,4% no final do segundo trimestre de 2015, baixou para 0,1% em setembro, acelerou para 0,2% em dezembro e em março e melhorou para 0,3% em junho de 2016, como ficou referido.

Conclusão

Enganador

António Costa, como praticamente qualquer outro político, usa os números que mais lhe convêm. Se recorresse à variação homóloga do PIB, teria de admitir que o ritmo de crescimento da economia foi de 0,9% no segundo trimestre de 2016, mas que este desempenho não é melhor do que aquele que se verificava um ano antes. Se o primeiro-ministro estava a focar-se nas variações registadas em cadeia, tem alguma razão. Depois de uma quebra para 0,1% no terceiro trimestre de 2015, a economia começou a recuperar e cresceu 0,3% em junho deste ano na comparação com os três primeiros meses de 2016. O que António Costa se esqueceu de acrescentar é que, seja qual for a forma de avaliar o comportamento da economia, o ritmo está longe de atingir os 2,5% que chegaram a ser prometidos durante o período da campanha eleitoral de outubro de 2015.

Mito 2

“A política do PS é baseada apenas na recuperação da procura interna” e descura as exportações. António Costa mostrou um gráfico [sem fonte] com as exportações de bens e serviços de 2015 e 2016, para comparação: “Exportações têm vindo a aumentar relativamente às do ano passado”.

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O gráfico do Governo foi distribuído aos jornalistas, mas logo de seguida o PSD pôs a circular um outro gráfico sobre as exportações [com dados do Ministério da Economia] mas com informações que vão em sentido contrário — com dados sobre o crescimento homólogo, e não em cadeia.

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Os factos

A tática de António Costa foi a de pegar nos dados das exportações de bens e serviços, sem qualquer relativização. Mais uma vez, não é nada de novo e muitos outros políticos usam o truque conforme as conveniências. Responde o INE: “As exportações de bens e serviços em volume passaram de uma variação homóloga positiva de 3,1% no primeiro trimestre para 1,5% no segundo trimestre. Este abrandamento resultou do crescimento menos intenso da componente de bens e da redução das exportações de serviços. As exportações de bens registaram uma taxa de variação homóloga de 2,3% (3,3% no trimestre anterior), enquanto as exportações de serviços diminuíram 0,9% em termos homólogos (crescimento de 2,3% no 1º trimestre)”.

Conclusão

Esticado

De acordo com os dados do INE, há um abrandamento do ritmo de crescimento das exportações e não uma aceleração. As vendas ao exterior estão a crescer? É verdade, mas a um ritmo inferior ao registado no passado. Quanto à comparação da procura interna com o comportamento das exportações, talvez seja melhor dar a voz, novamente, aos números apurados pelo INE. No segundo trimestre de 2015, a procura interna estava a progredir 3,7% em comparação com o período homólogo anterior, e as exportações estavam a crescer 7,1% sob o mesmo critério. No segundo trimestre de 2016, os dois indicadores estão a crescer 0,6% e 1,5%, respetivamente. As exportações estão a crescer mais do que a procura interna? Parece que é verdade. Mas ambos os agregados estão abaixo do desempenho verificado há um ano.

Mito 3

“O Governo e a atual maioria têm afugentado o investimento”. António Costa rejeita o “mito” e diz que, “desde que o Governo tomou posse, o investimento tem vindo a recuperar”, recorrendo para sustentar a sua afirmação a um gráfico [também sem fonte] com a variação do investimento desde o primeiro trimestre de 2015 ao segundo trimestre de 2016.

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Os factos

Mais uma vez recorremos aos números apurados pelos técnicos do INE. “No segundo trimestre de 2016, o investimento em volume registou uma redução de 3,0%, que compara com a variação homóloga de -1,2% registada no trimestre precedente”. Isto é, durante os últimos meses do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, o investimento já estava a cair. Um ano depois, a queda acentuou-se.

A conclusão

Enganador

O que vale? As variações em cadeia ou homólogas? Parece que é avisado olhar para ambas. Se é verdade que, trimestre a trimestre, se verifica alguma recuperação do investimento, a verdade é que o ritmo deste indicador está ainda abaixo daquilo que se verificava nos primeiros meses de 2015. De resto, o INE assinala um comportamento negativo de 3% até meados de 2016. Não são grandes dados para acenar perante a oposição, mas podem funcionar entre a espuma dos dias.

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