Grammys

Os Grammys são dos anos 80. Da língua gestual de P!nk ao salero de Rihanna, as atuações da festa da música

Rihanna foi aos anos 20, Childish Gambino aos 70 e Bruno Mars aos 90. Do presente fico a língua gestual de P!nk, o hino de Kesha para #MeToo e a mensagem de Logic para os países descriminados.

Os movimentos de Rihanna durante a interpretação de "Wild Thoughts" fizeram lembrar Gabriela

Getty Images for NARAS

A gala dos Grammys chegou ao fim com 13 atuações que vão ficar na memória. Foi uma noite de estreias: pela primeira vez, e graças a “Despacito”, uma música não inglesa esteve nomeada para a categoria de “Melhor Canção”. Foi também uma noite de mensagens, com poderosos recados de Camila Cabello, de apoio aos emigrantes, de Janelle Monae, em defesa do movimento #MeToo e de Logic, que se mostrou contra Donald Trump.

Políticas à parte, no palco dos Grammys 2018 desvendou-se um pouco mais do que vai dominar o mundo da música no futuro. E ficámos a saber que o presente é mesmo do passado. Saiba como foram as melhores atuações aqui em baixo.

Kendrick Lamar, o incontornável

Kendrick Lamar. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Não havia forma de dar um primeiro passo digno sem Kendrick Lamar. Para a abertura dos Grammys, Lammar escolheu a música “XXX” que, mesmo sem ter chegado aos píncaros nos tops musicais por esse mundo fora, é uma espécie de versão de 2017 de “BornIn USA”na voz de um rapper tão puro como não se via desde os tempos de Eminem. É que “XXX” — que Kendrick Lamar entoou com a bandeira norte-americana no fundo e um exército de bailarinos com fatos camuflados, fala daquela expressão tão famosa dos anos 50 que é “talking truth to power”: pede firmeza contra qualquer tipo de totalitarismo. E sim, está a pensar bem, esta é uma mensagem explícita contra Donald Trump, que Kendrick Lamar referiu sem pudores quando disse: “Donald Trump está no escritório; perdemos o Barack e prometemos nunca mais duvidar dele”.

Lady Gaga, o diabo que virou anjo

Lady Gaga. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Já lá vão os tempos em que Lady Gaga entrava nas festas com vestidos feitos de carne, discursos exóticos e canções confusas. Desta vez, Gaga vestiu-se de cor de rosa. E a coisa mais flamboyant que fez — além de ter pintado os lábios um pouco à Kylie Jenner, mas nada de muito voluptuoso — foi vestir o piano em que tocou com asas de anjo para tocar “Joanne” em homenagem a irmã mais velha do pai. A canção era esperada num evento como este: o novo álbum é, como a própria cantora referiu anteriormente, “um regresso à família e às origens” que a deixou “mais forte”. Infelizmente, foi só quando Gaga começou a tocar “A Million Reasons”, do mesmo álbum, é que o público reagiu.

Sam Smith, o anjo da guarda

Sam Smith. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Por falar em anjos, houve outra voz do outro mundo a passar pelo palco dos Grammys. Só que impressionou menos. Sam Smith subiu ao palco para interpretar uma música que tinha tudo para se transformar numa oração. Primeiro porque se chamava “Prayer” e falava sobre fé; e depois porque a acompanhá-lo estava um coro de gospel à frente de um painel dourado que parecia uma versão pop do Santuário de Fátima, folhado a ouro.

Childish Gambino, o regresso aos anos 70

Childish Gambino. (Créditos: Getty Images fors NARS)

Childish Gambino deu ao palco dos Grammys um sopro melancólico dos anos 70 graças à sua voz picante a recordar Marvin Gaye, o fato branco, o cabelo afro (outra vez a recordar o autor de “Let’s Get It On), e a mão no bolso enquanto a outra fazia de maestro. Mas Childish Gambino não vinha sozinho: trazia a voz fantástica de uma rapariga que o mundo está a perguntar quem será. Mas desvendamos já o mistério: trata-se de JD McCrary. Não têm de quê.

Luis Fonsi e Daddy Yanke: é mesmo preciso dizer alguma coisa?

Luis Fonsi e Daddy Yankee. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Calções de ganga tão curtos que permitiam ver um pouco das nádegas das dançarinas, botas pelo joelho, twerks e coreografias que deixam qualquer discussão semiótica demasiado complexa para se conseguir expressar por palavras. Foi assim a interpretação da primeira música não inglesa a competir na categoria de “Melhor Canção do Ano” nos Grammys: “Despacito”. Se estiver acompanhado de amigos, saiba que já não tem de revirar os olhos e fingir que não gosta de uma canção que deu muitas voltas ao mundo: também é o guilty pleasure de John Legend, a julgar pelos movimentos (quase) bailarinos que adotou sentado na cadeira enquanto Luis Fonsi e Daddy Yankee dominavam o palco com o calor latino da música.

P!nk, a orgânica

P!nk. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Tinha sido tudo fantástico até P!nk ter chegado ao palco. A cantora norte-americana apresentou-se no meio de um palco despido, com mais nada além de focos de luz e vestida de calça de ganga, t-shirt branca e soutien de ginásio. O que estava prestes a fazer dispensava vestidos de brilhantes, casacos de pelo, malas de penas e maquilhagem exagerada: a interpretação de “Wild Hearts Can’t Be Broken”, ao lado de uma tradutora de língua gestual, foi a mais inclusiva da noite. Os Grammys não precisavam de mais nada e P!nk soube percebê-lo melhor do que ninguém.

Bruno Mars, o patrocionado pela Google (?)

Bruno Mars e Cardi B. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Bruno Mars é um artista completo. E a prová-lo esteve aquele momento em que largou o microfone durante “Finesse” e passou longos minutos a dedicar-se exclusivamente à dança dos anos 70 e 80, com roupas que pareciam dos anos 90 (já as de Cardi B pareciam partrocinadas pela Google). E agora que o verão não tarda em chegar, é correr para a Internet para aprender a coreografia que Mars inventou para dominar as pistas de dança das estações quentes.

Sting e Shaggy, os inesperados

Shaggy e Sting. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Para quem gosta de sabores agridoces, ouvir Sting e Shaggy juntos a intercalar entre os versos de “Englishman in New York” e de “Don’t Make Me Wait For Love” teve tudo para dar certo, principalmente porque do baixo do cantor britânico saíram umas vibrações jamaicanas que colaram bem os dois artistas. Mas para quem gosta de espetáculos transparentes, este casal improvável pode ter causado estranheza ao ouvido. Certo é que as duas canções foram as únicas que puseram toda a gente cantar além de “Despacito” e isso traz alguma legitimidade à coisa.

Rihanna e DJ Khaled, um regresso de”Gabriela”

Rihanna. (Créditos: Getty Images for NARAS)

“Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”, Rihanna.

A cantora dos Barbados fez tremer a cerimónia dos Grammys depois de entrar em palco com um vestido esvoaçante que fazia adivinhar — mas só fazia adivinhar — os dotes físicos que a artista já mostrou sem pudores no videoclip de “Wild Thoughts”. Os movimentos da cantora faziam recordar Gabriela, a famosa personagem na novela brasileira que não tem noção da sensualidade que tem porque também não tem medo do corpo. Rihanna é assim, mas sem essa inocência toda. E resulta à mesma, principalmente ao lado dos bailarinos com roupa vintage que a artista pôs a interpretar a canção quente que animou as pistas de dança do ano passado.

Kesha, o hino à força

Kesha com Bebe Rexha, Cyndi Lauper, Camila Cabello, Andra Day, Julia Michaels e membros do coro. (Créditos: Getty Images for NARAS)

O movimento #MeToo, aliado ao movimento paralelo Time’s Up, ainda não se tinha feito expressar além das rosas brancas que quase toda a gente levava guardadas nos bolsos. Até que Kesha — que afirmou ter sido vítima de “abusos sexuais, físicos, verbais e emocionais” durante uma década por parte do produtor Dr. Luke — subiu ao palco para cantar “Praying”. Vestida de branco e companhada de coro de artistas tão famosas como Camilla Cabello, Bebe Rexha, Cyndi Lauper, Camila Cabello, Andra Day e Julia Michaels, Kesha deu um hino ao movimento que tem revelado casos de abuso e assédio assexual em todas as áreas da sociedade, principalmente no mundo artístico. A atuação foi um dos momentos mais emocionantes da noite: Kesha cantou como quem ralha, como quem chora e como quem se ergue das cinzas, acompanhada por exército de mulheres que elevavam ainda mais a sua mensagem.

U2, os guardiões do sonho americano

U2. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Depois do movimengto #MeToo, veio a crítica às políticas anti-emigrantes de Donald Trump. E quem a apresentou foram os U2 que, depois de entrarem em palco com Kendrick Lamar logo no início da cerimónia, cantaram “Get Out of Your Own Way”. O mais especial nem sequer foi a canção — que fala sobre ultrapassar barreiras — mas o facto de a banda irlandesa ter tocado num palco improvisado, montado mesmo ao lado da simbólica Estátua da Liberdade (que, a título de curiosidade, foi oferecido aos Estados Unidos da América pelos franceses). O vento que fazia esvoaçar os casacos dos músicos, deu um ar charmoso ao espetáculo, que fez lembrar os tempos de “Vertigo”, mas com mais pop à mistura.

Elton John e Miley Cyrus, os sóbrios

Elton John e Miley Cyrus. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Foi um dos momentos mais sóbrios da noite. Elton John apresentou-se ao piano, como habitualmente, com uma rosa branca em cima do instrumento, o que fez vir à memória a interpretação de “Goodbye England’s Rose”. Mas a rosa desta vez foi Miley Cyrus que, com um grande vestido em tons de vermelho tinto, soube colocar a voz em “Tiny Dancer” como nos melhores momentos. Os dois lembraram a todos o que é uma música pop em estado bruto, pincelado pelas teclas do piano e pela voz com um fundo rouco dos dois artistas. Este foi um verdadeiro momento de simbiose (e mais perfeita que a alcançada entre Sting e Shaggy).

SZA, Logic e Alessia Cara: o futuro está nas mãos deles

Khalid, Logic e Alessia Cara. (Créditos: Getty Images for NARAS)

Dos três, só mesmo Alessia Cara é que levou um prémio para casa. Não faz mal. SZA tem 27 anos, Logic tem a mesma idade e Alessia Cara tem apenas 21, por isso ainda terão uitas hipóteses de serem galardoados. Se o futuro está nas mãos deles — e o facto de terem estado nomeados para Artista Revelação indicia que está –, então a música não terá fronteiras.

Apesar de Logic se assumir como artista rap, o estilo de SZA e de Alessia Cara é um híbrido entre o pop e a eletrónica. E os espetáculos deles provam isso: SZA não só se dedicou a esses estilos, como adicionou uma pitada de hip hop à performance. Mas era preciso esperar pelo fim para ver o melhor de Logic: “A todos os países que têm uma belíssima histórica, vocês não são países de merda. Precisamos de vocês para fazer de nós [Estados Unidos da América] um país melhor e para criarmos um mundo destinado a ser unido”.

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