Estamos perto do Mundial de futebol. Muitos portugueses anseiam pelos golos de Cristiano Ronaldo. O craque do Real Madrid e da seleção é também inspiração nos ensaios desta orquestra muito especial. A garra no momento do remate é a base de um certo movimento performativo. E mais um momento de gargalhada coletiva. Segundo o dicionário Priberam, “vida airada” significa vida de estroina, vida de vagabundo. E a “bida airada”? Neste caso, a má-vida dá origem à boa-onda e à atitude mais descomprometida. O mote é dado assim: “Todas as notas são certas. Se não são certas, estão ao lado da certa”.

A Orquestra da Bida Airada tem um contexto mais largo, no âmbito do Rádio Faneca. Não é uma rádio, nem nunca o foi. Pelo menos não na forma convencional, dado que o som da Rádio Faneca alcançava apenas um jardim de Ílhavo. Hoje é um festival do município em que a comunidade local não é apenas espetadora. Como diz o coordenador da orquestra, Ricardo Baptista, “há uma lógica de misturar artistas de várias áreas com a população, de aproximar o público e o privado, de interferir com a vivência das pessoas”. E, no caso, “a música é inerente a toda a gente”.

Na orquestra cabem cerca de 100 elementos. Tudo músicos com experiência? Nada disso. Há quem nunca tenha tocado e que julgue não ter muito jeito para isto. É o caso de Marisela Simões, de 39 anos. Está presente com o marido e com as filhas. Acaba por ser um projeto de “comunhão familiar através da música”. Na Bida Airada o leque de sons não tem limites. Há instrumentos convencionais e outros improvisados: um clarinete, um violoncelo, um acordeão, bombos e violas misturam-se com baldes, latas de tinta, paus de vassoura, chinelos ou tubos afinados. E depois há o poder da voz humana, capaz de, por si só, criar momentos de catarse, euforia e humor.

A liberdade criativa é um aspeto decisivo. Não há grande rigor formal e a ideia passa por integrar espontaneamente os contributos de cada um. Logo, falhar uma nota não é o mais importante: “Sons feitos de forma entusiasmada, intensa e genuína não podem estar errados”. E Ricardo Baptista vai mais longe: “É muito mais importante uma nota ao lado dada com entusiasmo do que a nota certa sem alma”. Apesar do improviso, houve um trabalho prévio e estruturado feito com os Crassh. O grupo de percussão assegura a direção artística da orquestra. Situam-se entre o ritmo musical mais excêntrico, a comédia e a performance. São aparentemente fundamentais para o ambiente descontraído e dinâmico dos ensaios.

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Todos os sons são aceites, independentemente do instrumento, da formação ou… da idade. Bernardo Gomes tem 12 anos e não é o mais novo. Está no Conservatório de Aveiro e toca violoncelo desde os seis. É tudo muito diferente do que está habituado. Confessa que “fica nervoso por nunca saber o que vai acontecer, mas é espetacular ao mesmo tempo”. Está na fila da frente, bem como Dinis Vizinho, de 74 anos. Já tocou viola, órgão e harmónica, mas aqui também toca bombo. É a primeira vez que o faz mas a escolha foi inteiramente sua. Para Vizinho, a orquestra mostra igualmente que “para gosto não há idade e que a música aproxima gerações”.

Falta pouco para o dia do espetáculo. Para Ricardo Baptista, será “um momento único e irrepetível” da orquestra. Acontecerá dia 6 de Junho, pelas 22h, nas ruas de Ílhavo. Segundo os membros do Crassh, só há uma coisa que não pode acontecer: alguém desanimar com uma nota falhada. É uma mensagem fundamental: o que interessa em todos os momentos é a atitude. E, “se for com atitude, uma nota em falso é espetacular, é rock”. Ou será Bida Airada?