A Câmara de Lisboa aprovou esta quarta-feira o acordo alcançado com a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) para que se mantenham na esfera municipal terrenos com elevado potencial habitacional, com capacidade construtiva superior a 70 mil metros quadrados.
Em reunião extraordinária do executivo camarário durante a manhã, a proposta de “acordo sobre a execução de obrigações pendentes e a regularização de questões litigiosas”, entre o município e a SGAL, subscrita pelo vice-presidente da câmara, Gonçalo Reis (PSD), foi viabilizada com os votos contra do Chega, a abstenção de Livre e PCP, e os votos favoráveis de PS, BE e liderança PSD/CDS-PP/IL, disse à agência Lusa fonte da autarquia.
O acordo surge na sequência do chumbo da proposta de prorrogação do contrato inominado celebrado em dezembro de 1984 entre o município de Lisboa e a SGAL, para a urbanização e recuperação das áreas degradadas do Alto do Lumiar e a construção de habitações destinadas à Câmara Municipal, que inicialmente estava previsto vigorar até ao final de 2010, mas cuja vigência foi prorrogada por diversas vezes, tendo a última terminado em 31 de março de 2025.
A proposta de prorrogação do contrato até 2032, subscrita pelo anterior executivo liderado por Carlos Moedas (PSD), foi rejeitada na Assembleia Municipal de Lisboa, em 31 de março de 2025, precisamente no último dia de vigência do contrato, com os votos contra de BE, Livre, PEV, dois deputados dos Cidadãos Por Lisboa (eleitos na coligação PS/Livre), PS e Chega, a abstenção de PCP e PAN, e os votos a favor de PSD, IL, MPT, PPM e CDS-PP.
Segundo o atual executivo de Carlos Moedas, o acordo alcançado com a SGAL “permite resolver um diferendo contratual de décadas” relativo ao desenvolvimento urbanístico dos terrenos situados na Alta de Lisboa, “evitando um processo arbitral complexo e moroso”.
O entendimento entre o município e a SGAL “garante a permanência na reserva municipal de terrenos estratégicos que representam mais de 71.500 m² [metros quadrados] de capacidade construtiva, incluindo o Lote 5.8, com 9.700 m², os terrenos da Malha 24, com 54.414 m², e outros terrenos dispersos, com 7.462 m², avaliados, no total, em 46 milhões de euros”.
Segundo a liderança PSD/CDS-PP/IL, estes terrenos apresentam “um elevado potencial de edificabilidade e oportunidades relevantes para o desenvolvimento de projetos de habitação em Lisboa”, ficando a SGAL responsável pela execução de obras de infraestruturação urbanística dos lotes que lhe foram anteriormente transmitidos, sendo este um encargo da câmara estimado em 15,8 milhões de euros.
“A manutenção na esfera do município destes terrenos na Alta de Lisboa, que queremos destinar a projetos de habitação acessível, é uma boa notícia para a cidade e para as muitas famílias que deles poderão vir a beneficiar”, afirmou o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas (PSD), citado num comunicado.
Também a vereação do PS, liderada pela socialista Alexandra Leitão, congratulou-se com o acordo alcançado com a SGAL, considerando que o voto de abstenção do PS quanto à proposta de prorrogação do contrato em 2025 permitiu manter na esfera municipal mais de 70 mil m² para habitação na Alta de Lisboa, “que, de outra forma, seriam transmitidos à entidade privada para promoção imobiliária”.
“O PS fez a sua parte: impediu que a última bolsa de expansão de terrenos na cidade de Lisboa fosse entregue à promoção imobiliária privada, sem garantias de habitação acessível”, salientou a vereação socialista, em comunicado, apelando à governação de Moedas para que estes ativos sejam efetivamente mobilizados para programas de habitação pública, com rendas e preços acessíveis, para responder à emergência habitacional que os lisboetas enfrentam.
Para o BE, o acordo aprovado confirma que “foi acertada a decisão de recusar, há um ano e meio, a prorrogação da PPP [parceria público-privada] com a SGAL da filha do magnata dos casinos Stanley Ho até 2032”.
A vereação do BE indicou, em comunicado, que o acordo permite ao município recuperar capacidade para construir “até 3.800 habitações na Alta de Lisboa” e, por isso, votou favoravelmente, mas exigindo que nenhum terreno seja vendido em hasta pública.
Já o PCP, que se absteve quanto ao acordo, realçou a manutenção na esfera pública de terrenos que seriam transmitidos à SGAL, mas defendeu que “deve ser assumido o compromisso de que estes terrenos não serão alienados, mas destinados à criação de habitação pública”.
“Sendo agora uma melhoria, não deixa de evidenciar que, em 2012, teria sido possível assegurar estes terrenos para o município em condições ainda mais vantajosas”, apontou o PCP, referindo que, se estivesse à frente da Câmara de Lisboa, estes imóveis seriam destinados à habitação acessível para responder às necessidades da população “e não da especulação imobiliária”.
O Livre apresentou uma proposta de alteração, chumbada pela maioria, que “defendia habitação pública e cooperativa em terrenos municipais, a concretização da ligação Campo Grande–Calvanas e maior transparência sobre um contrato com 42 anos”, informou em comunicado.
“Para o Livre, o património municipal deve servir as necessidades habitacionais da população. Num contexto de crise da habitação, Lisboa não pode desperdiçar a oportunidade de usar o solo público para garantir casas acessíveis, equipamentos e melhores condições de vida a quem vive e trabalha na cidade”, salientou.