Maria João Luís, Rita Blanco e uma espécie de transação. O dealer quer que o cliente lhe diga o que quer, o cliente quer saber o que há para comprar antes de dizer o que quer. É esta a base da peça “Na Solidão dos Campos de Algodão”, que se mostra no Teatro S. Luiz, em Lisboa, entre 8 e 25 de janeiro. Escrito por Bernard-Marie Koltès em 1986, três anos antes de morrer, o texto aborda questões tão atuais quanto há 30 anos.

As pessoas, o amor e a falta dele, o desentendimento que a linguagem pode provocar. Desejos e equívocos. Será que tudo é transacionável? “A verdade é que nós complicamos muito as coisas e é a própria sociedade que nos leva para aí. Estamos cheios de equívocos à nossa volta, da publicidade à política”, disse Rita Blanco ao Observador, sobre algumas das questões abordadas pelo dramaturgo francês nesta conversa filosófica entre duas pessoas, um dealer e um cliente. Ao falarem sobre uma transação – um deal – abordam questões fundamentais.

No preâmbulo de “Na Solidão dos Campos de Algodão”, Bernard-Marie Koltès definiu o que é um deal:

“Um deal é uma transação comercial de valores proibidos ou estritamente controlados, e que se conclui em espaços neutros, indeterminados e não previstos para este fim, entre fornecedores e solicitadores, através de acordos tácitos, sinais convencionados ou conversas com duplo sentido – a fim de evitar traições ou vigarices que uma operação destas poderá implicar – , não importa a que hora do dia ou da noite, independentemente das horas de abertura regulamentar dos locais de comércio homologados, mas geralmente durante as horas de encerramento desses”.

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Ficar pela descrição da peça ou por um excerto do texto não basta. É preciso ver uma hora e vinte de espetáculo e estar atento às palavras para retirar uma conclusão desta conversa escrita para dois homens, mas que vai ser interpretada por duas mulheres. Não há conclusões para o objeto da transação. Haverá um deal na cabeça de cada um. Para Maria João Luís, a transação “Não é definível. São tantas as coisas, não dá para falar disso sem que se seja redutor”. “As pessoas atacam-se. É o acaso do local e da hora, o homem e a sua circunstância. Gera-se uma tentativa comercial que acaba por não acontecer da forma mais óbvia, mas alguma coisa terá acontecido porque o dealer diz: ‘agora vais ter de pagar!”, arrisca Rita Blanco.

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Rita Blanco. ©Pedro Domingos / Divulgação

A ideia de levar ao palco “Na Solidão dos Campos de Algodão” partiu de Maria João Luís, para quem tanto o texto como o autor são fundamentais na dramaturgia contemporânea. Em 1990 viu a peça, estreada no dia 25 de abril, no Teatro Aberto, interpretada por Mário Viegas e João Perry. “Tocou-me imenso, foi muito ao encontro daquilo que eu penso e pensava, das minhas questões e dos meus medos. É um texto que contém uma dimensão enorme e uma contemporaneidade fantástica”, disse.

Os elogios sucedem-se. A necessidade de a voltar a trazer ao público também. “Ainda hoje ouço barbaridades como ‘isto no tempo do Salazar é que era bom’. As barbaridades são bastante significativas do que é para já aquilo que determinadas ações políticas imprimem sobre um povo e sobre várias gerações. Isto só por si já é bastante esclarecedor daquilo que é o avanço da Humanidade”.

Foi Rita Blanco quem fez a tradução, juntamente com Marcello Urgeghe, apesar de já existirem versões em português. “As traduções desta peça são todas um olhar de quem as faz. As pessoas identificam-se cada uma de uma forma e a nossa tradução é a visão mais próxima que temos deste texto”, explicou Maria João Luís. Rita Blanco concorda. “Traduzimos porque é uma maneira de nos apropriarmos dos textos. Do meu ponto de vista, para apresentar um texto tenho de me apropriar dele, de o tornar meu. Estou-me nas tintas para o respeitar o texto. Porquê? Qual é a lógica? Respeitar é fazer o melhor que posso. É patético isso de ter de respeitar o texto. Temos é de respeitar as ideias e fazer com que chegue ao público, para o questionar“.

Agora convertida às palavras de Koltès, Rita Blanco confessa que, quando recebeu o convite de Maria João Luís, foi “muito remitente” em aceitar. “Achava que se o texto está escrito para dois homens, para agora ser feito por duas mulheres tem de haver uma razão”, explicou. À medida que foi mergulhando na dramaturgia, a possibilidade de conferir a sensibilidade feminina a questões que afetam toda a Humanidade foi fazendo mais sentido.

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Maria João Luís. ©Pedro Domingos / Divulgação

 

A antestreia de “Na Solidão dos Campos de Algodão”, que conta com coprodução do Teatro da Terra e do São Luiz, aconteceu a 27 e 28 de dezembro em Ponte de Sor. Um dos receios de Rita Blanco é o palco despido. “A encenação de alguma forma não existe, são duas pessoas que estão a falar. Nesse sentido, como não parece haver uma estrutura, sinto-me muito exposta e em falha, mas acho isso interessante. Não haver cenário é por si só um cenário”, contou. O desenho de luz de Pedro Domingos faz o resto.

“Na Solidão dos Campos de Algodão” vai estar em cena de quinta a sábado às 21h00 e domingos às 17h30, com bilhetes entre os 12 e os 15 euros. De acordo com Rita Blanco, a peça deverá seguir depois para o Rivoli, no Porto.