Se o mexicano Alejandro González Iñárritu tivesse sido artista de circo em vez de cineasta, a sua especialidade seria a prestidigitação. Desde a sua primeira realização, “Amor Cão” (2000), que todos os seus filmes têm um truque. E dependem desse truque, que é quase sempre a montagem baralha-e-volta-a-dar, que troca as voltas à narrativa e faz o espectador perder a tramontana da história, tornada puzzle cronológico. Só que no final, e apesar da destreza técnica (repetitiva, mecânica) de Iñárritu, e se os espremermos bem, os filmes, de “21 Gramas” a “Biutiful”, passando por “Babel”, têm muito pouco sumo, são mais um caso de ó-espectador-olha-o-balão e de ideias rasas a tentar passar por meditações sérias ,do que outra coisa.

No seu novo filme, “Birdman”, que está nomeado para sete Globos de Ouro e deverá conseguir também bastantes nomeações aos Óscares, o truque de Iñárritu já não é de montagem mas sim de câmara, ao simular que a fita foi rodada num único plano-sequência, sem cortes (que não foi, há transições, feitas digitalmemente), tal como, por exemplo, “A Arca Russa”, de Alexander Sokurov. Esta cavalgada aparentemente contínua, “non-stop”, da câmara (a cargo do excelente Emmanuel Lubezki) serve para o realizador transmitir visualmente o permanente estado de inquietação, o frenesim, o desespero da personagem principal, o actor Riggan Thomson (Michael Keaton).

“Trailer” de “Birdman”

Riggan tem toda a razão para estar assim. Já foi famosíssimo e rico nos anos 80 quando interpretou o super-herói Birdman em três filmes. Mas recusou fazer o quarto e depois a sua carreira caiu a pique. Agora, décadas mais tarde depois dos “Birdman”, Riggan está na Broadway para se tentar reinventar profissionalmente, redimir perante a família (está divorciado da mulher e a filha é a sua muito crítica assistente pessoal, recentemente saída de uma clínica de desintoxicação), tentar consertar as finanças e ganhar credibilidade artística, cultural e comercial. E quer fazê-lo encenando um conto de Raymond Carver, “Do que Falamos Quando Falamos de Amor”, cuja adaptação também assinou, produzindo ainda e interpretando o papel principal.

Entrevista com Michael Keaton

É o tudo ou nada para Riggan, que parece um daqueles malabaristas que  atira bolas ao ar, faz gira pratos e equilibra-se num monociclo ao mesmo tempo, já que tem que lidar com os problemas da encenação e dos ensaios, com a namorada que também entra na peça, com a filha que talvez tenha voltado às drogas, com problemas de dinheiro, com o seu agente, com os jornalistas que só querem saber se ele irá fazer “Birdman 4”, e com um actor substituto de última hora que é brilhante (Edward Norton) mas pessoalmente insofrível e leva demasiadamente a sério o seu ofício.

Como se isto não fosse suficiente, há também a poderosa e hostil crítica de teatro do “The New York Times” que alimenta um gigantesco preconceito contra intérpretes de “blockbusters” de super-heróis que vêm para a Broadway querer provar que são actores com talento e verdadeiras preocupações culturais, e lhe diz que vai escrever um artigo tão devastador, que lhe fechará a peça no seguinte á estreia. E há ainda aquela voz desencarnada e algo sinistra que não pára de dizer a Riggan que isto do teatro sério é uma treta e que não há mal nenhum em voltar a vestir o uniforme de “Birdman” num quarto filme, voltar triunfalmente a Hollywood, fazer uma bilheteira milionária e resolver assim todos os  problemas, dos materiais aos anímicos. Pois se até um tipo como Robert Downey, Jr. metido num fato de lata o consegue fazer com uma perna às costas…

Falso “trailer” do terceiro “Birdman”

O filme joga obviamente com os pontos de contacto entre a personagem e o actor que a vive.  Michael Keaton interpretou os dois “Batman” de Tim Burton em 1989ne 1992 e depois recusou fazer um terceiro filme da série, e se a partir daí a sua carreira não declinou tão dramaticamente como a de Riggan, também não tem sido famosa. E tal como sucede com a sua personagem, este papel pode voltar a pô-lo no centro das atenções e até mesmo dar-lhe um Óscar.

Os mais cinéfilos ou que seguem minimamente estas coisas do cinema, não poderão deixar, com as devidas distâncias, de encontrar também afinidades entre “Birdman” e um outro filme mais antigo, também construído em redor da extrema inquietação emocional, psicológica e profissional de uma actriz em tempo de estreia de peça: “Noite de Estreia” (1977), de John Cassavetes, com Gena Rowlands. Ambos os filmes lidam com a interpenetração entre personagem e intérprete, e vida e arte, e com o tema da redenção através de uma interpretação arrancada a ferros e no meio de um ambiente agitado. Mas as comparações acabam aqui, porque embora sem fogos-de-artifício de câmara, montagem ou banda sonora (e a de “Birdman” vira massacrante a certa altura), nem súbitas sequências “fantásticas”, “Noite de Estreia” é o artigo genuíno em todos os aspectos, do cinematográfico ao dramático, passando pela verdadeira profundidade e relevância humana.

Entrevista com Alejandro González Iñárritu

Apesar do esforço de Michael Keaton e dos outros muito meritórios actores (o citado Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone com a sua voz acigarrada e jeito de “allumeuse” casual, Zach Galifianakis), todo o “som e a fúria” injectado por Iñárritu no filme é postiço, forçado, dissonante, chama insistente e constantemente a atenção sobre si mesmo, sinaliza agitadamente o óbvio bocejante.

“Birdman” é um filme de muita parra de afã e pouca uva de substância, que maquilha a banalidade do que tem para dizer com a audácia da forma como o diz, e carbura a oposições escancaradas e de carregar pela boca: teatro “contra” cinema, arte “contra” comercialismo, Nova Iorque “contra” Hollywood, integridade “contra” cedências. E depois daquele final “mágico”-fofinho, só apetece mesmo enfiar-lhe uma carga de chumbo grosso.