Para quem me conhece, fazer um artigo sobre rádio – ou, no caso, sobre o Radiodays Europe – será a coisa mais simples que me podem pedir. É sentar-me de frente para o computador e, com maior ou menor objetividade, debitar. Errado. Fácil é fazer uma reclamação. O difícil é escrever uma carta de amor. Fica, portanto, o aviso à navegação e a tentativa da objetividade possível para descrever aquele que é o maior evento de rádio na Europa. Notem que não escrevi o melhor, nesta tentativa de fazer um artigo puramente jornalístico. Vamos aos factos:

São três dias que reúnem conferências e debates, bem como uma exposição e programas de rádio realizados para várias estações em toda a Europa.
1.370 participantes de 60 países, 50 sessões, 100 oradores, cinco milhões e meio de posts nos sites de redes sociais e um alcance (reach) online de mais de sete milhões de pessoas. Dúvidas sobre a dimensão do Radiodays Europe?

Cinco anos depois da primeira edição, o Radiodays Europe é objetivamente o maior evento de rádio na Europa, com operadores e organizações parceiras em diferentes países. Ser o maior em dimensão não significa que seja o melhor mas, no caso, também o é. No Radiodays Europe encontramos uma programação diversificada que procura dar resposta às principais necessidades de formação e informação da indústria europeia de radiodifusão. E estas, não se limitam à rádio. Os sites de redes sociais, aplicações móveis e a integração do vídeo na comunicação radiofónica são os temas mais relevantes do Radiodays.

Este ano a paixão foi ao encontro do progresso (passion meets progress). Um tema que se traduziu na união entre a paixão da rádio e a necessidade de constante evolução: na forma de fazer rádio, nas técnicas de produção, na realização de programas, bem como a sua distribuição e rentabilização.

Numa das sessões mais comentadas, Ben Cooper (Radio One) afirmou a morte da rádio e, enquanto uns vaticinam o seu fim, outros reiventam-na (Sam Cavanagh, Southern Austereo) ou arregaçam as mangas (Anna Sale, WNYC) para testar aquilo que os habituais treinadores de bancada não se cansam de afirmar.

Sobre a rádio, enquanto meio de comunicação, não restam dúvidas da sua mudança. Esse, aliás, já não é o tema. A perceção da “hibridização” da rádio está consolidada, persistindo a dúvida sobre as formas de ação, comportamento da audiência e, principalmente, a sua rentabilização. As dúvidas são muito semelhantes às da imprensa ou da televisão: os media, no geral, já se adaptaram ao digital. Resta agora saber como o rentabilizar em pleno.

Continuamos todos a dizer que a rádio vence serviços como o Spotify porque provoca surpresa e faz companhia, mas também não nos cansamos de repetir que, para vencer as batalhas que se seguem, a rádio tem de proporcionar momentos memoráveis aos seus ouvintes, criar-lhes emoções e aproximá-los entre si. Resta saber exatamente como. Porque, simplesmente, ainda que a rádio, no geral, seja bastante igual (sem grandes diferenças entre países para estações de rádio com o mesmo tipo de programação), os formatos resultam, mas o diabo está nos detalhes porque o que resulta aqui não tem necessariamente de resultar ali.

No entanto, uma comunicação honesta, feita por pessoas, para outras pessoas, na qual se dá mais destaque ao locutor que assume a sua personalidade musical e faz escolhas que nos agradam, é rádio. Quase perfeita, se criar um conteúdo que, apesar de ter a mesma base musical, desenvolve ligações e estabelece uma comunidade, relacionando-se com o que acontece aqui. Que não tem de ser o que está a acontecer ali. No fundo, aquilo que se espera da comunicação social: humanização, personalização e localização.

Relativamente à morte da rádio, Ben Cooper queria, tão simplesmente, dizer que a grande ameaça para a rádio não é a Internet, mas sim um aparelho mais pequeno do que um computador, que nos permite fazer mais ou menos o mesmo. Em qualquer lado. O smartphone é atualmente uma ameaça não pelo dispositivo em si, mas por aquilo que podemos fazer com ele. Neste domínio, o som da rádio foi menosprezado. Ou deixou-se menosprezar…

Contudo, alguns estão a desbravar caminho, criando estratégias que são, na ausência de melhor definição, nativas digitais. Ou seja, não são pensadas para levar a rádio para a web ou para a distribuir em plataformas digitais. São concebidas a partir deste novo discurso que o digital encerra em si mesmo, integrando-o na rádio e, simultaneamente, integrando a rádio neste contexto. A isto chama-se narrativa transmediática, que a 2dayfm apresenta para o programa Dan&Maz, contando a mesma estória de forma diferente, adaptando-a ao Facebook, Twitter ou Instagram, respeitando as características de cada um destes sites e as expectativas dos seus utilizadores. Estratégia a adoptar pela rádio e restantes meios de comunicação social.

Em boa verdade, andamos todos – estações de rádio incluídas – um bocadinho iludidos com os sites de redes sociais, principalmente o Facebook. António Mendes, director da RFM, foi um dos oradores deste ano que colocou o dedo na ferida: FYI – Facebook doesn’t love you (that) much. A sua apresentação pode resumir-se nesta frase porque nos deixamos convencer que o Facebook está ao nosso serviço e que a audiência faz o trabalho pelas marcas, comentando e partilhando. Os ouvintes usam as páginas das estações de rádio para substituir as cartas, o telefone ou o correio eletrónico. Ainda assim, não podemos deixar de considerar a presença nestas redes, para manter ligação a um grupo ao qual o alemão Lars Peters chamou generation headphones, pessoas entre os 14 e os 39 anos que estão sempre ligadas, usando o seu smartphone para tudo e para nada, especialmente para definirem o seu consumo mediático. No qual raramente a rádio está incluída.

https://twitter.com/ipaulacordeiro/status/577787025757200384/

Texto: Paula Cordeiro, Provedora do Ouvinte da RTP