O Centro Cultural de Belém, em Lisboa, deu “carta branca” ao músico e cronista Kalaf Epalanga, que responde ao desafio com um espetáculo “sobre um angolano em Lisboa”, influenciado por sembas e kizombas.

“Vou fazer um concerto, vou voltar à minha condição de declamador/poeta/spoken word que foi o meu início, a minha escola. Foi aí que tudo começou”, há mais de dez anos, contou o músico à agência Lusa.

Kalaf Ângelo Epalanga nasceu em Benguela, Angola, há 37 anos, mas já viveu mais de metade da vida em Lisboa, “cidade-nação” que escolheu na adolescência e a partir da qual se ligou à música e à escrita, escapando a um curso de gestão.

O músico, produtor e editor diz que é um péssimo dançarino e que não sabe cantar. Kalaf editou dois discos de eletrónica e “spoken word”, antes de cofundar a editora Enchufada e integrar os Buraka Som Sistema, o lado mais visível desse trabalho artístico.

A isso junta ainda as crónicas que tem escrito ao longo dos anos em Portugal e em Angola, reunidas em dois livros – “Estórias de amor para meninos de cor” e “O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)”.

É este livro recente de crónicas que dá mote ao espectáculo no CCB, com os textos a serem transformados em quase-poemas que Kalaf dirá acompanhado dos músicos Toty Sámed, Ndu, Demian Cabaud e dois convidados, ainda por revelar.

Musicalmente, Kalaf convocou canções de Angola dos anos 1960 e 1970, de artistas que sempre fizeram parte da memória musical, como Rui Mingas, Bonga e Duo Ouro Negro. O músico resume esta “carta branca”, meio a brincar: “Acho que estou a fazer o jazz angolano, nesse momento”.

O que é que será dito em cima do palco? Aquilo que Kalaf foi escrevendo no livro de crónicas: “Nunca me expus tanto como me expus neste livro e é isso que as pessoas vão ver”, disse à Lusa.

No livro fala da herança Epalanga – apelido que herda do avô -, da vaidade dos angolanos, da genética africana de Lisboa, da kizomba, do kuduro e do banho de caneca.

“Faço uma ode à arte do banho de caneca. É importante não esquecer. Vou todos os anos a Angola e sou confrontado com essa realidade. E, de repente, há duas maneiras de pensar isto: Lamentar que ao fim destes anos todos ainda tomamos banho de caneca ou usar isso e refletir sobre a nossa forma de estar e de ser; como é que isso nos influencia”, afirmou.

Kalaf Epalanga diz que observar, falar e escrever sobre estes assuntos, ajudam-no a compreender o que o rodeia. “A escrita é o denominador comum nestas coisas todas. Vou procurando outras formas de passar as minhas histórias. Acho que nem todas as histórias cabem num livro, nem todos os poemas cabem numa canção. Vou encontrando formas de escoar essa matéria”.