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Arte Contemporânea

Entre vaias e aplausos, já há novo Museu do Chiado

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O elogio à inauguração das novas instalações do MNAC é unânime, mas as boas notícias para a arte contemporânea contrastam com a demissão do diretor do museu e as críticas a Barreto Xavier.

Sebastião Almeida/Observador

Há mais de duas décadas que se esperava pela ampliação do Museu do Chiado, em Lisboa. Tutela e comunidade artística concordam que esta é uma boa notícia, mas a demissão de David Santos da direção do museu por causa do futuro da coleção do Estado levou a que dezenas de pessoas vaiassem o secretário de Estado à entrada do espaço, esta quarta-feira.

Quem entrar pela Rua Serpa Pinto ainda não tem acesso aos 1.600 metros quadrados do novo espaço. É preciso aceder pela Rua Capelo que, em dezembro, quando for concluída a ligação interior entre salas, se vai tornar na única entrada do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC). Ao cimo das escadas está logo a primeira obra da exposição inaugural, “Narrativa de uma Coleção – Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990)”, que reúne cerca de 70 peças de arte contemporânea do acervo do Estado, de 48 artistas. É “Sombras Deitadas”, de Lourdes Castro, onde se pode ver o recorte de duas silhuetas em tecido branco. Um aviso possivelmente casual para a cor que acompanhará o visitante ao longo das 30 salas (duas reservadas para serviços educativos e outras duas para restauros). O projeto do arquiteto Paulo Freitas procurou manter o possível do edifício. O branco impera, das paredes aos tetos trabalhados. Até o chão foi uniformizado e, no final, pintado de branco.

As obras têm espaço para ‘respirar’. Há salas onde existe apenas uma peça, sem mais distrações para os sentidos. É o que acontece logo à entrada, com uma solitária “Inês de Castro”, acrílico sobre pasta de papel que José de Guimarães criou em 1986. Óleos sobre tela, fotografias, esculturas, tinta-da-china sobre papel e serigrafias compõem esta exposição, com peças da autoria de nomes como Paula Rego, Julião Sarmento, René Bértholo, António Charrua, Fernando Calhau, António Dacosta e Helena Almeida.

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Pormenor de “Inês de Castro”, de José de Guimarães. ©Sebastião Almeida/Observador

Para uma segunda fase – ainda sem data de inauguração – ficam mais 2.000 metros quadrados de espaço expositivo, para os quais ainda falta financiamento. As obras que compõem “Narrativa de uma Coleção – Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990)” fazem quase todas parte do depósito da Fundação de Serralves e ficam no Museu do Chiado, por empréstimo, até 12 de julho de 2016.

As obras foram selecionadas pelo ex-diretor do museu, David Santos. Com a demissão, há uma semana e, em solidariedade, da curadora Adelaide Ginga, a mostra foi montada por Ricardo Nicolau e Marta Almeida, de Serralves. No entanto, os dois nomes não constam em nenhum dos materiais da exposição. “Ficou estabelecido que não haveria aqui um cunho pessoal, mas sim um cunho institucional que é o Museu do Chiado – Museu de Serralves, de mãos dadas a trabalhar pelo futuro da arte contemporânea”, disse ao Observador Samuel Rego, subdiretor da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) e temporariamente à frente do Museu do Chiado.

O que virá depois de 12 de julho de 2016 ainda não se sabe. Mas Samuel Rego explicou que o espaço foi pensado para exibir arte contemporânea “das últimas quatro, cinco décadas”. Quanto à segunda fase de ampliação também ainda nada está definido, mas o diretor lembrou que o museu “tem um importantíssimo espólio em reserva, não disponível ao público, e esse espaço novo vai permitir colmatar essa lacuna”.

Jorge Barreto Xavier vaiado à porta do museu

A inauguração aconteceu envolta em polémica. Às 18h25, quando Jorge Barreto Xavier chegou à Rua Capelo, foi vaiado por dezenas de artistas, curadores e galeristas que aguardavam em frente ao museu. Raquel Henriques da Silva, historiadora de arte que contesta a gestão da coleção do museu, disse aos jornalistas que há muito que se aguarda a abertura das novas instalações, mas que é necessário protestar face ao comportamento “absolutamente vergonhoso do secretário de Estado da Cultura”, não só para com David Santos, mas também por causa do futuro da Coleção SEC (mais de mil obras de arte contemporânea que o Estado vem adquirindo desde 1976). “O homem é tão mau, tão mau, que criou aqui um conflito inútil e lamentável entre duas instituições sérias”, referindo-se ao Museu do Chiado e a Serralves.

raquel henriques da silva

A historiadora de arte Raquel Henriques da Silva tem sido a porta-voz dos protestos. ©Sara Otto Coelho

O historiador David Santos demitiu-se da direção do MNAC por causa do recuo sobre o destino a dar às obras da Coleção SEC. Mais de 500 obras estão depositadas no museu da Fundação de Serralves, no Porto, num protocolo que vigora até 2027 e cuja tutela estava na Direção-Geral das Artes. Em fevereiro de 2014, um despacho assinado pelo secretário de Estado da Cultura determinava a “afetação” da Coleção SEC à DGPC, e a “incorporação” da Coleção SEC no Museu do Chiado, “salvaguardando acordos entretanto celebrados”, como o depósito em Serralves. Mas o despacho foi revogado na última semana, provocando a demissão do diretor.

A Secretaria de Estado da Cultura justificou ao Público que a revogação do despacho foi feita porque se “considerou que a apresentação institucional da Coleção SEC não estava a ser feita de forma correta pelo Museu do Chiado”. Isto porque Serralves não concordou que as obras fossem apresentadas como “Narrativa de uma coleção – o legado da Secretaria de Estado da Cultura ao MNAC-MC”, proposta por David Santos, e protestou. A tutela decidiu, no final, que o título oficial seria “Narrativa de uma Coleção – Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990)”, sem referência a nenhum dos museus. E, para que o despacho não “fosse utilizado contra os seus próprios critérios de leitura institucional […] decidiu revogar”, lê-se na resposta dada por e-mail ao Público.

Revogado o despacho, as mais de mil obras ficam novamente sem destino. “Esta coleção tem andado sem dono desde 1976, de tal forma que ninguém sabe onde está metade dos quadros”, queixou-se Raquel Henriques da Silva. Defende que a coleção tem de ter uma tutela e lembra que “o despacho não punha em casa o protocolo assinado com Serralves, logo não há motivo para a revogação”.

A administração da Fundação de Serralves afirmou esta noite estar a ver com “grande perplexidade (…) os acontecimentos relacionados com a inauguração da exposição no Museu do Chiado”, por estarem traçadas, à partida, as normas do empréstimo dos quadros ao museu lisboeta.

Num comunicado de três páginas enviado às redações, e no qual é relatada a sequência de correspondência entre as duas instituições, Serralves realça que o então diretor do Museu do Chiado, David Santos, “concordou integralmente e de forma explícita com as condições” pedidas, ou seja, que as 114 obras da designada “Coleção da SEC” emprestadas por Serralves fossem creditadas como “obras da Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) em depósito na Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea”.

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