Como se não bastasse ter visto o treinador campeão nacional sair para o rival da Segunda Circular; como se não bastasse ter visto um dos capitães, Maxi Pereira, assinar por outro rival, o da Invicta; como se não bastasse ter visto Lima, o goleador com pés de veludo, partir rumo às arábias em busca do contrato da sua vida; como se não bastasse tudo isto, o Benfica de Rui Vitória não vence. Em cinco jogos da pré-época, os encarnados perderam três, empataram dois, sofreram oito golos e só marcaram três. E nem o jogo contra o América, que o Benfica venceu, a custo, nos penáltis (no final dos 90 minutos o jogo ficou 0-0), chegou para “salvar” a pré-época. Nunca este século o Benfica agregou tão maus resultados na véspera de começar a rolar a bola à séria.

É certo e sabido que estes jogos de pré-época não contam para grande coisa. Mas nenhum adepto fica satisfeito quando a equipa não vence, mesmo que seja a feijões, mesmo que o jogo contra o Monterrey passe às quatro da madrugada, nenhum benfiquista o fica. E a Supertaça com o Sporting é já domingo, no Algarve.

Mas será mesmo caso para que soem as sirenes de alarme nas hostes encarnadas? Quim, guarda-redes trintão que ainda calça as luvas no Desportivo Aves, é um dos jogadores mais velhos e com mais títulos nos campeonatos profissionais. Jogou no Benfica durante seis temporadas, entre 2004/2005 e 2009/2010, sendo campeão na primeira, com Trapattoni, e na última, com Jorge Jesus. O ex-guardião benfiquista não crê que os maus resultados da pré-época venham afligir o balneário.

“Numa pré-época , mais a mais num clube como é o Benfica, os jogos são para vencer. Sempre. Mas é perfeitamente natural que não se vença sempre. Os treinadores ainda estão numa fase de estudo dos jogadores que têm à disposição. São jogos com muitas substituições, a condição física nem sempre é a desejada, e nem sempre se vence. É normal.” Já convencer os adeptos de que é normal, é outra conversa. “Os adeptos, que querem ganhar tanto quanto nós, ficam de ‘pé atrás’. Mas o treinador e o plantel, se sentirem que estão a trabalhar bem, não vêem nas derrotas da pré-época razão para alarmismo.” Quim, outrora campeão no Benfica, garante que na pré-época o mais importante é “formar um balneário, uma família”.

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Infografia: Milton Cappelletti

Não é como começa, mas como acaba?

O Benfica já fez magnificas pré-épocas. Em 2001/ 2002, a primeira temporada do século, em sete jogos, o clube da Luz só empatou um e contou por vitórias os restantes. Resultado final? A dupla Toni e Jesualdo separou-se com a Liga a meio, foi Jesualdo quem veio a terminar a época como treinador principal e o Benfica terminou fora do pódio, em 4º lugar. Em 2005/2006, com Ronald Koeman a substituir no banco a velha raposa Giovanni Trapatonni, que deixou a Luz campione, o Benfica terminou em 3º lugar, mesmo tendo feito uma pré-época digna de campeão: seis vitórias em nove jogos.

Em 2009/2010, Jorge Jesus, vindo de Braga, contrariou a história, e provou que é possível dar uma alegria aos adeptos de julho até maio. Nessa temporada, o Benfica não só foi campeão, como realizou uma das melhores pré-épocas da sua história. Curiosamente, na temporada passada, Jesus consegue o tão desejado “bi”– que teimava em fugir da Luz desde os dias em que Eriksson se sentava no banco dos encarnados –, mas o verão não lhe foi fácil: era do Benfica de Jesus o pior resultado do século em pré-épocas. Era. Rui Vitória superou esse registo na pré-época de 2015/2016.

O primeiro jogo oficial dos encarnados é a doer e pode vir a dar-lhes o “triplete” em 2014/2015: Liga, Supertaça e Taça da Liga. O troféu disputa-se este domingo, no Estádio Algarve. O adversário é o Sporting, detentor da Taça de Portugal, e no banco dos leões vai sentar-se Jorge Jesus, que nos últimos seis anos foi guiou o Benfica à conquista de três campeonatos.

Quim, apesar da má pré-época, tem esperança que o Benfica vença a Supertaça, mesmo que não seja o favorito. “Uma coisa é um jogo de pré-época, outra é um jogo ‘a doer’, um jogo que vale um título. Na pré-época vimos um Benfica a sentir muitas dificuldades, é verdade, um Benfica que tem um treinador novo, com métodos igualmente novos, saíram muitos jogadores que são importantes, e não senti um Benfica tão forte como em temporadas passadas. Mas espero que seja um bom jogo, bem disputado, e que, vencendo o Benfica, a moral suba e ninguém se lembre mais da pré-época.”

Pela primeira vez, o Benfica não pisou a relva da Luz na pré-época

O Benfica andou pela América do Norte na pré-época — a imprensa desportiva garante que os clube terá recebido cerca de 3,5 milhões pelo tour americano –, o que significa que, pela primeira vez na sua história, o Benfica não se apresentou aos adeptos no Estádio da Luz. Foram dezoito dias a viajar, do Canadá aos Estados Unidos, dos Estados Unidos ao México. A diferença horária chegou a ser de cinco horas, os jogos, cá, eram transmitidos de madrugada, e a equipa só esta segunda-feira chegou a Lisboa.

Agora, há que recuperar. Mas há tempo para recuperar até domingo? Henrique Jones, o antigo diretor clínico da seleção nacional, acredita que sim. Ele que foi o médico da seleção que disputou, por exemplo, o Mundial da Coreia do Sul e do Japão, ou, mais recentemente, em 2010, o do Brasil, duas competições que são de má memória para Portugal.

“O jet lag é um problema. Mas é importante dizer que nem todos os futebolistas reagem da mesma forma à mudança de fuso horário e de continente. Na hora de recuperar um atleta, há várias soluções à nossa disposição: o uso de medicamentos, a introdução imediata no horário do país de destino, a adequação das horas de treino, o reforço da hidratação ou o ajuste da alimentação.”

Quanto à recuperação do Benfica para o jogo de domingo, com o Sporting, Henrique Jones acredita que é possível, mas muito, muito em cima da hora. É que o Benfica jogou com uma média de cinco fusos horários de diferença — de Lisboa para Monterrey, no México, a diferença horária é de seis horas. “Normalmente, por cada fuso horário, nós definimos, à partida, que será necessário, pelo menos, um dia de recuperação. Mas hoje, quando necessário, é-nos possível reduzir esse tempo de recuperação.”