A seguir ao anúncio da descoberta de água salgada em Marte, a estreia de “Perdido em Marte”, de Ridley Scott, é a melhor coisa que aconteceu à NASA nos tempos mais recentes. Baseado no livro “The Martian”, de Andy Weir, que apesar de ter sido auto-editado se transformou num “best-seller”, o filme, sobre o astronauta e botânico Mark Watney (Matt Damon), que é julgado morto por uma tempestade em Marte, e deixado para trás pelos outros membros da missão, e tem de sobreviver com os poucos meios de que dispõe até que outra missão o venha salvar, é uma celebração da capacidade da sobrevivência humana num planeta desolado e mortífero através da aplicação dos conhecimentos científicos, da utilidade da exploração espacial e da figura do astronauta enquanto símbolo de intelecto, engenho e ciência, e não apenas de arrojo, ação e aventura.

Eis uma fita de ficção científica (FC) passada num futuro próximo, onde a ênfase é muito mais dada à ciência do que à ficção. Não há um marciano à vista excepto o próprio Watney, que, por força das circunstâncias, se transforma no primeiro – e único, e relutante – habitante do planeta vermelho.

Neil deGrasse Tyson “explica” a missão do filme:

Basicamente, “Perdido em Marte” é parte filme “Robinson Crusoé” transportado para o espaço, parte filme de “resgate impossível”, ambientado num planeta Marte ora reconstituído em estúdio, ora com os desertos da Jordânia a fingir que são aquele. E tal como Christopher Nolan fez em “Interstellar”, o argumentista Drew Goddard e Ridley Scott esforçaram-se para que, como no livro, a ciência e a tecnologia do filme fossem representadas de forma rigorosa ou então o mais plausível possível, e os seus protagonistas sejam homens e mulheres determinados, abnegados e corajosos, mas também desembaraçados, criativos e inteligentes, estejam eles isolados em Marte, confinados a uma nave no espaço ou na Terra a pensar na melhor maneira de salvar um astronauta perdido.

Estamos perante um “blockbuster” com um cérebro a funcionar em pleno – mais ação, “suspense”, aperto dramático, capacidade de deslumbramento, confiança optimista na ciência e sentido do espectáculo cinematográfico (o visual planetário, cósmico e astronáutico é magnífico, e se o “merchandising” do filme incluir miniaturas, eu candidato-me a um modelo da Ares 3).

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Isto sem falar, “last but not least”, do humor na adversidade, que se manifesta nos monólogos da personagem de Matt Damon, enquanto este tenta cultivar batatas em solo marciano e “fabricar” água no exíguo “habitat” da base, ou arranjar meio de comunicar com Cabo Canaveral recorrendo a tecnologia ultrapassada ou improvisada; no seu ódio reiterado á música “disco”, favorita da comandante da sua missão (Jessica Chastain); e na banda sonora, que nos põe a ouvir “Hot Stuff” de Donna Summer ou “Waterloo” dos ABBA em plena desolação marciana.

A ação saltita entre a base marciana onde Watley, sozinho, tenta manter-se vivo e não desesperar ou ficar pírulas, a nave da missão que faz a sua longa viagem de regresso à Terra, e as instalações da NASA (que colaborou com a produção da fita), onde directores, engenheiros, astrofísicos, matemáticos e outros, tentam pensar na maneira mais rápida e eficiente de ir buscar o seu astronauta, enquanto se debatem com outros dilemas (avisar ou não os membros da equipa que voltam à Terra, que o seu companheiro afinal está vivo?) e acabam por receber uma generosa e decisiva ajuda da China, cujo programa espacial tem tido mais investimento do que o dos EUA. E tal como sucedia em“Apollo 13”, de Ron Howard, assistimos ao funcionamento da NASA durante uma crise grave (mesmo que esta seja fictícia, ao invés da daquele filme) de forma detalhada e convincente.

Apesar de todo o aparato científico-tecnológico de “Perdido em Marte”, e da elaboração dos efeitos especiais, Ridley Scott nunca se deixa deslumbrar por eles e não perde de vista o factor humano, esteja a história em Marte com Mark Watney, no espaço com a Ares 3 ou em terra firme. Com este filme, quase aos 80 anos, o realizador reentra no cinema de FC pela porta grande, a que abre para o cosmos.

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