Outubro de 2015. Passam 40 anos sobre o fim do império colonial português, sobre a descolonização, sobre a maior ponte aérea da história da aviação civil (Luanda-Lisboa). Entraram em Portugal mais de meio milhão de pessoas (os números são incertos) vindas das ex-colónias africanas, como já antes tinham regressado da Guerra Colonial milhares de homens estropiados, traumatizados e com o futuro hipotecado para sempre. Mas Portugal vivia os dias eufóricos da revolução e, depois de décadas de ditadura, “a última coisa que queria era ter de enfrentar as narrativas disfóricas de fragilidade e luto” de todos aqueles homens e mulheres que chegavam apenas com a roupa do corpo, como escreve Margarida Calafate Ribeiro, especialista em literatura pós-colonial na Universidade de Bolonha.

Com a independência das colónias, calaram-se os retornados. Passámos a ser europeus e a escrever romances sobre um exótico paraíso perdido ao estilo de Karen Blixen em África Minha. Margarida Calafate Ribeiro chama “literatura pós-luso-tropical” a este tipo de ficção em que a violência política e social do colonialismo nunca é objecto de reflexão e se opta por aquilo que Eduardo Lourenço chamou de “colonialismo ingénuo”. E dá como exemplos os romances Deixei o meu Coração em África, de Manuel Arouca, Os Colonos, de António Trabulo, Os Retornados, de Júlio Magalhães, O Último Ano em Luanda, de Tiago Rebelo, ou Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra.

Há, claro, as exceções dos romances de António Lobo Antunes e João de Melo. Estes livros marcaram nos anos 80 uma ruptura com o nosso passado colonial expressa numa tomada de consciência da relação entre colonizadores e colonizados e a brutalidade da Guerra Colonial.

Em 2015, 40 anos depois das independências, surgiram mais obras sobre o tema. Mas para que servem tantos livros e tantas imagens se nenhuma nos traz uma visão nova e corajosa desse “passado que continua silenciado na nossa História recente”, como afirma em entrevista ao Observador a escritora Isabela Figueiredo, autora de Caderno de Memórias Coloniais. “A primeira edição do meu livro foi muito bem recebida pelos académicos, mas nos blogues e nas caixas de comentários dos jornais fui insultada de tudo, porque o meu livro é o contrário daquilo que as pessoas querem lembrar”,

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

De que nos serve repisar datas para se dizer de novo as mesmas coisas, reavivar as mesmas narrativas? Como diz Margarida Calafate Ribeiro, “é preciso empreender uma viagem de regresso a África, é preciso uma rutura com a culpa para um enfrentamento das marcas que o império deixou em todos nós e que se manifestam todos os dias na nossa identidade cultural”. Tanto esta docente como a escritora Isabela Figueiredo afirmam que “os portugueses não quiseram, nem querem saber do que aconteceu aos retornados”. Já Vasco Luís Curado, autor de O País Fantasma, fala de “um recalcamento” feito pelos portugueses desta parte da sua História. E continua:

“Mas, como todos os recalcamentos psicológicos, também este não cessa de produzir fantasmas, desordens, violência”.

Ao contrário do que nos diz tanto saudosismo, há uma história de violência profunda que poucos se atreveram a contar. São quase todos livros escritos por filhos de colonos, que viveram a descolonização mas já cresceram em Portugal. São, na opinião de Calafate Ribeiro, “os testemunhos do silenciamento e do luto dos seus pais” e neles irrompe essa fúria inusitada que troca as paisagens bilhete-postal e contos melopeicos por corpos estilhaçados, por gente desesperada, enlouquecida, por uma luta sem tréguas entre senhores e escravos. Livros que confrontam a génese do colonialismo, mas também  a forma sangrenta e vingativa como este terminou.

Um clássico da literatura anti-bilhete-postal é Mais um Dia de Vida – Angola 1975, de Ryszard Kapuscinscki. Trata-se de um olhar estrangeiro que foi durante muitos anos a melhor narrativa sobre os dias da descolonização. Kapuscinscki  estava em Luanda, nas vésperas da independência, e escreveu relatórios para uma agência de notícias polaca. Repórter com talento de romancista, descreveu uma cidade onde os últimos brancos viviam o frenesim e o nervosismo dos preparativos da fuga: fugiam da guerra, dos sequestros, das violações; e viviam uma situação de caos, desordem e penúria. Refugiados vindos de toda a Angola entupiam o aeroporto.

Numa Luanda que se ia esvaziando, os brancos ainda estavam esperançosos em que a FNLA tomasse a cidade e derrotasse o MPLA. Com um punhado de imagens impressionistas, Kapuscinscki apresentava algumas das pessoas com quem partilhava o hotel: o casal jovem que queria ir para o Brasil, o ourives que enterrou a mulher morta de cancro e escondeu uma fortuna em diamantes no forro do casaco, a mulher das limpezas que acreditava que os negros iam matar os brancos que restavam e arrasar a cidade, o playboy dono de uma discoteca que se mostrava desejoso de matar comunistas. Comunista ele próprio, Kapuscinscki temia pela sua vida e chegou a pensar que estaria mais seguro na frente de combate, entre guerrilheiros do MPLA.

Depois , em 2012, com O Retorno, Dulce Maria Cardoso conseguiu recolocar o tema dos retornados e do seu drama na agenda mediática. Infelizmente, teve poucos herdeiros na literatura. Enquanto os livros de Vasco Curado e Isabela Figueiredo têm na sua base histórias verídicas, O Retorno, de 2012, constrói com detalhes ínfimos e pequenas perceções a história de Rui, um refugiado adolescente que chega a Portugal com a família depois de o pai ter desaparecido misteriosamente em Angola.

O fim da infância de Rui é também o fim do tempo dos brancos em África, e esse crescimento faz-se mais pela impossibilidade de partilhar a sua experiencia e o seu luto do que pela mudança de país. E através dele a autora pergunta onde está, em todos nós, aquilo a que Primo Levi chamava “o dever da memória”. Até que ponto já percebemos que, como portugueses, temos o dever de incorporar na nossa História as histórias dos retornados?

A estas duas obras juntamos mais três propostas de livros que acabam de sair ou estão a ser reeditados, e que constituem um olhar impiedoso sobre a descolonização e as suas consequências. Veja também as imagens dos três autores ainda em África nesta nossa fotogaleria.

3 fotos

1. O País Fantasma, de Vasco Luís Curado (D.Quixote, 2015)

O colonialismo como uma máquina de matar e de enlouquecer

O colonialismo como uma máquina de matar e de enlouquecer

Vasco Luís Curado tinha 4 anos quando deixou a Gabela, numa longa caravana de automóveis em direção ao aeroporto de Luanda. Nessa estrada sem fim quase todos deixavam tudo para trás, do mato vinham balas perdidas ou direcionadas e houve quem tivesse que enterrar filhos mortos à beira da estrada. Durante a noite, o carro onde seguia Vasco Curado e a família resvalou para uma valeta e foi de imediato rodeado por negros que gritavam “mata, mata” e enfiaram uma catana pela janela do carro. No meio da confusão, um deles reconheceu Manuel Curado, o pai do escritor, e, dizendo que ele “era uma pessoa de bem”, ordenou que ajudassem a pôr o carro na estrada.

Demasiado pequeno para ter memórias visuais deste acontecimento, o escritor sentiu-se sempre no dever de contar esta narrativa de horror. Fá-lo agora neste O País Fantasma. Um país que é ao mesmo tempo Angola e Portugal, um império que é só já uma alucinação e uma metrópole que é tão só um fantasma. O livro começa com os massacres de colonos no norte de Angola, em 1961, e termina já em Lisboa em pleno PREC.

O País Fantasma é também o primeiro romance onde a questão central é a máquina administrativa e burocrática criada pelos impérios europeus para manterem o poder sobre os nativos. Todas as personagens se movem dentro desta máquina fiscal que se chamava Imposto Indígena (que aprisionava os negros à obrigação de trabalharem para os brancos pela obrigação de juntarem dinheiro para pagar esse imposto), fornecendo assim uma mão-de-obra sem fim, a baixíssimos custos e pela qual ninguém se responsabilizava. Esta lei e as complexas relações de poder que ela originava era “idêntica ao nazismo”, afirma Vasco Luís Curado.

2. Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (Caminho, 2015)

Memórias foram agora reeditadas com capítulos novos

O livro foi agora reeditado com alguns capítulos novos

Estas memórias contadas na primeira pessoa foram lançadas em 2009 pela Angelus Novus e acabam de ser reeditadas agora pela Caminho. As edições anteriores esgotaram e o livro é hoje estudado em várias universidades nos departamentos de Estudos Coloniais. Isabela Figueiredo voltou sozinha para Portugal, vinda de Moçambique. Não é como tantos outros uma retornada, é mais uma sem terra, porque não há lugar que sinta ser a sua casa, conta ao Observador.

Tal como no livro de Vasco Luís Curado, aqui as descrições são frias e a linguagem duríssima. A orfandade de terra, de pai e de uma memória que Portugal não quis para si, não a tornaram fraca. No seu livro não há sentimentalismo ou saudosismo — há um regresso à África que abandonou na adolescência para ajustar contas com ela e com um pai colonialista e racista. O império e o pai confundem-se e ambos têm de morrer para que os filhos possam enfim tornar-se heróis das suas próprias histórias.

Isabela testemunha os dias de terror do império, mas também a vingança que estava a ser levada a cabo pelos negros ao abrigo do processo de descolonização: “Havia campos de reeducação para brancos, desaparecimentos, assassinatos, torturas, ajustes de conta. Não havia lei e Portugal deixou-nos completamente entregues à nossa sorte”, lembra a escritora, hoje com 52 anos.

3. Partes de África, Helder Macedo (Presença, 1991/Record, 2000)

Partes D' África será em breve publicado pela universidade de Oxford

Partes de África será em breve publicado pela universidade de Oxford

Considerado o primeiro romance da literatura pós-colonial portuguesa, Partes de África é uma pérola esquecida na literatura contemporânea. É errado chamar-lhe romance porque na verdade é um hibrido, que junta memórias, diários, teatro, ficção — e é também o primeiro livro que regressa a África, neste caso a Moçambique, para confrontar um império, mais uma vez identificado com a figura de um pai colonialista que é preciso matar.

“Era um belo jardim. Mas não era nosso”, diz o escritor, mostrando que seria fácil enveredar por engendrar a memória de uma infância passada num paraíso perdido, mas que se queremos ser verdadeiros temos que ser estóicos. “Tudo ali estava errado”, diz o escritor, filho de um governador colonial que viveu em Moçambique, Guiné- Bissau e S. Tomé e Príncipe. Helder Macedo veio para Lisboa aos 13 anos, ainda na década de 40, para frequentar o liceu. As suas opções políticas colocaram-no em colisão com a figura paterna, que é também a figura de Salazar. Um pai, um ditador, um império com o qual ele não se pode identificar e por isso tem de partir.

Infelizmente, este romance, publicado em 1991, e traduzido e estudado em vários países, e que terá em breve uma edição pela universidade de Oxford, não se encontra à venda nem mesmo neste ano em que se assinalam os 40 anos das independências. O livro já só pode ser encontrado em alfarrabistas e sebos (no Brasil foi editado pela Record).