Hans-Joachim Roedelius gosta de ver as coisas estruturadas, seja no trabalho que tem pela frente ou no tempo que tem de usar com cuidado e sem desperdício. Por isso, se é para conversar sobre o concerto que vem dar a Lisboa, este sábado, dia 16, então o melhor é enviar as perguntas por mail que ele responde assim que puder. Mas isto é tudo meio psicológico. A verdade é que Roedelius responde quase de imediato, resolve o que tem a resolver para depois passar a assuntos mais importantes. “Tenho muito que fazer com a minha família e o meu trabalho.” Tem mesmo e ele explica até que ponto: “Não costumo ouvir música, não sei muito bem o que se vai passando. Ouço mais música no carro, quando estou a conduzir. E mesmo assim não o faço muitas vezes. Vou sabendo do que se faz quando estou com a minha mulher em concertos e festivais em que me convidam para tocar, é mais isso.” Não é isto que se espera de um visionário mas a expectativa, por vezes, é uma coisa sobrevalorizada. Mas é ele que nos visita, Roedelius, o arrojado criador de novos mundos. E ao que parece vai continuar assim.

Claro que para o próprio a história é um pouco diferente. Nada de elogios muito elaborados, não vale a pena. “Não posso dizer que o que faço seja avant-garde, nada disso. Sou um fisioterapeuta/massagista de formação. Queria estudar medicina e transformei-me, por acaso, num músico, compositor e autor quando tinha 34 anos.” Roedelius merecia um prémio por, pelo menos, sintetizar uma vida inteira (já conta com 81 anos) numa frase. Mas merece mais, mesmo que ele diga que não. Destemido explorador de electrónicas e ambientes, amigo das coisas do krautrock que fizeram a revolução a partir da Alemanha dos anos 70, mestre de grupos como os Cluster ou os Harmonia. Resumindo, um daqueles raros profetas que mudou a forma como vivemos os espaços sonoros. De tal maneira que até o próprio Roedelius, umas linhas e frases à frente, deixa escapar um “talvez o que fizemos nessa altura tenha sido de facto vanguardista e ainda hoje continua a ter ecos”. O senhor Hans-Joachim a cair na real, aconteceu connosco, uma sorte.

Fica-nos bem agora regressar a “essa altura” de que o músico nos fala, mas antes deixemos esclarecimentos sobre o que vai acontecer no Maria Matos. O princípio é o mesmo que gerou o concerto de Roedelius no festival Semibreve, em Braga, no ano passado. “Fui convidado para tocar e desafiaram-me a fazê-lo com o Rui Dias, o André Gonçalves e o José Alberto Gomes. Confiei que era uma boa ideia e claro que foi. Esperava tudo de bom no resultado final, que foi ainda melhor.” Sintetizadores e computadores num diálogo raro de ouvir, ou como as electrónicas podem ser sempre surpreendentes, assim sejam bem domesticadas. Roedelius toma o protagonismo também com o piano e ainda haverá projecções de Maria Mónica e a fotografia de Alex Gonzalez. “Em Braga foi realmente incrível”, diz o alemão. “Em Lisboa também vai ser assim mas diferente. Na forma, no conteúdo, enfim.”

Nazismo, comunismo e Bowie

E este é só mais um capítulo da infinita produtividade de Roedelius. Ainda este ano, por exemplo, haverá mais um disco dos Qluster (que se escreve assim desde 2011, ano em que o grupo voltou a trabalhar). “Chama-se Echtzeit, que quer dizer ‘tempo-real’, e vai ser uma colecção de faixas, de excertos de concertos que os Qluster deram nos últimos anos.” Gravações sucessivas, novos espectáculos e ideias que continuam por concretizar. Hans-Joachim diz que tem tudo a ver com o passado e com o futuro, pouco com o presente: “Estou a tentar seguir o que os meus antepassados fizeram, de alguma maneira. Professores, músicos, gente que pensava a sua arte. E vou pensar a minha enquanto conseguir, não estou a ponderar parar. Não sei o que aí vem mas sei que serão os problemas habituais que nos acompanham desde sempre. Isso tenho como garantido, o resto vou fazendo à minha maneira.”

Foi o que sempre fez, daí aquela história do fisioterapeuta que se dedicou às electrónicas quando tinha 34 anos. Os Kluster em 1970 (com K e ainda com Conrad Schnitlzer), em 73 os Harmonia (com Michael Rother dos também indomáveis Neu!). E mesmo que nada mais tivesse acontecido já estava feita história. Uma nova música, vinda do rock’n’roll e, ao mesmo tempo, de um outro planeta, que vinha a este mundo confirmar que as possibilidades são, de facto, infinitas.

A grande transformação para Roedelius aconteceu quando se mudou de Berlim Oriental para o lado Oeste. “Foi em 1960”, conta, “e foi um choque cultural. Ainda antes disso tive de passar por tempos muito difíceis durante o domínio nazi, era uma criança. A guerra, os bombardeamentos, depois o sistema comunista que se instaurou no lado Leste.” Diz que ambas as filosofias o tentaram convencer, ambas falharam redondamente. Depois, ao mudar-se em 60, a tal liberdade: “Podia escolher o que quisesse, o que sentia que era certo para mim. Ainda assim, tive muitos empregos porque o ensino não era equivalente de um lado e do outro da Alemanha.” Jardineiro, detective, empregado de mesa ou porteiro, foi tudo isto. Mais tarde, chegou-lhe aos ouvidos o rock’n’roll e à carne o flower power. “Novas dimensões, nunca as tinha experimentado.” E temos a História para nos confirmar que nunca mais as largou.

Não vive em Berlim desde 1978, ano em que se mudou para Baden, perto de Viena, capital austríaca. Da cidade que lhe serviu de laboratório sabe pouco e menos ainda da criatividade alemã. “Não sei, não sigo, não faço ideia nenhuma do que se passa na música contemporânea alemã. Mas tenho quase a certeza que não há nada tão desafiante a acontecer como havia naquele tempo, com tanta gente.” Palavras de Hans-Joachim Roedelius, que reconhece como é óbvio, mais de 40 anos depois, associar o seu nome a um passado tão marcante. “É o que sou, é daí que venho”, conta. “A música é a rainha das artes, é a mais sensível e é a mais delicada. E é também a que mais fica na memória. Esquecê-la é impossível.”

Este pergunta-resposta por email aconteceu antes da morte de David Bowie. Tivesse ocorrido depois e das duas uma: ou era cancelada ou seria apenas sobre o músico inglês. O Facebook e o Twitter de Roedelius têm sido exclusivamente dedicados a Bowie, com quem esteve em diferentes ocasiões e com quem cruzou caminhos criativos, à conta de, por exemplo, terem ambos trabalhado com Brian Eno em momentos próximos. No mais recente tweet que deixou, Roedelius escreveu “até depois, David, foi bom ter estado contigo várias vezes em Viena”.

Concerto no Teatro Maria Matos, este sábado, dia 16 às 22h. Bilhetes entre os 7 e os 14 euros.