Em nove anos, os peixe:avião lançaram um EP e três álbuns de estúdio. O quarto, Peso Morto, chega às lojas a 19 de fevereiro, o que faz da banda bracarense um exemplo de produtividade capaz de deixar qualquer ministro da Economia orgulhoso. Não só têm cinco discos gravados como ainda tiveram tempo para fazer um desvio no percurso e mudar. Para melhor. “Fomo-nos libertando. A ruptura do Madrugada [2010] para esta fase dois de peixe:avião foi muito importante”, dizem ao Observador André Covas e José Figueiredo no Porto, antes do concerto deste sábado no Teatro Rivoli, há muito esgotado. Toda a negritude presente na estética da capa de Peso Morto engana. Eles estão felizes: “Somos cada vez mais honestos em relação à nossa música“.

A mudança não aconteceu agora. Pode dizer-se que Peso Morto é a continuação de um caminho que se alterou definitivamente em 2013, com o lançamento do terceiro disco, homónimo. É que se no início os peixe:avião cabiam facilmente na família pop, hoje existem dúvidas. “O formato por vezes ainda é pop, porque temos umas canções lá no meio”, explica o guitarrista André Covas. “Disfarçadas”, acrescenta rapidamente o baixista José Figueiredo. “Mas se disseres a alguém que peixe:aviao é pop, esse alguém gostar de pop e for ouvir, vai ficar desiludido [risos]”.

Em 2008, um ano após Ronaldo Fonseca, Luís Fernandes, Pedro Oliveira, André Covas e José Figueiredo se terem juntado, os peixe:avião apresentaram-se certinhos e competentes no disco de estreia, 40:02. Formato canção clássico, cerebral, tudo pensado ao pormenor, confirmado dois anos depois com Madrugada, o segundo álbum. Com a apresentação do primeiro single de Peso Morto, “Quebra”, está visto que passado é passado. “Agora não há uma estrutura harmónica muito clara”, explica José Figueiredo. Uma das mudanças fundamentais para que isso acontecesse deve-se a uma grande mudança no processo criativo: o coletivo ganhou ao individual. E todos saíram a ganhar com isso.

“Antes o trabalho era muito feito em casa. Agora vamos muito mais para a sala de ensaio e as coisas tem de acontecer ali naquele momento, acabam por ser mais espontâneas e mais densas ritmicamente. Há um desvio em relação àquilo que nós fazíamos inicialmente, do conteúdo musical, para o timbre dos instrumentos, para o ritmo”, sublinha o baixista, que também faz parte dos Smix Smox Smux. A partir do terceiro disco, começaram a explorar muito mais a plasticidade dos instrumentos. “Se dantes compúnhamos a coisa muito mais friamente, agora compomos de facto com os instrumentos, para cinco coisas a acontecer em simultâneo.”

Em Peso Morto, essa plasticidade e fisicalidade dos instrumentos ainda se nota mais. “Usamos muito as guitarras com instrumentos de ritmo e de textura, muitas vezes as melodias são mais definidas pelo baixo do que propriamente pelas guitarras ou sintetizadores, e tentamos trabalhar os instrumentos de forma diferente, processando a bateria como se fosse uma guitarra”, diz o guitarrista. Mesmo a voz é cada vez mais tratada como um instrumento. Vai-se diluindo no instrumental, com letras mais pequenas.

– “Há muitas coisas de percussão que não soam a bateria, hás de reparar”, atira José Figueiredo;

“E há coisas de voz que não soam a voz, guitarra que não soa a guitarra”, completa André Covas.

Libertadas as amarras, o guitarrista considera que os cinco são agora “cada vez mais honestos” em relação à música que fazem. Ainda que toda a estética — da capa do disco aos videoclips, passando pelo ambiente musical — possa soar a desilusão, amargura, um certo entorpecimento. Prova de que nem tudo é o que parece. “Não estamos de facto a tentar passar uma mensagem”, diz José. “Gostamos dessa estética, embora sejamos todos pessoas bastante bem dispostas [risos]. É um gosto. Se tivesses umas letras muito animadas não fariam tanto sentido com a música.

Não há ali nenhuma mensagem subliminar, mas a mudança cromática não aconteceu por acaso. “Começamos a adotar esse esquema mais escuro ao mesmo tempo que também mudamos as nossas ideias acerca da música que fazemos”, realça André. Mais uma vez, uma mudança que se nota a partir do terceiro disco e que vem, não só de influências musicais, mas também do cinema e das artes plásticas. Um álbum que influenciou muito os cinco músicos nos últimos anos foi Third, dos Portishead, bem como outras coisas que o teclista da banda, Geoff Barrow, tem vindo a fazer.

Em 2014 foram convidados pelo festival Curtas de Vila do Conde a compor uma banda sonora para o clássico “Ménilmontant”, um filme de 1929 do russo Dimitri Kirsanoff. O despreendimento total do formato canção, por oposição a uma peça contínua, obrigou a banda a procurar coisas novas. “Foi interessante e ajudou-nos, ou fez parte do processo de composição deste disco, embora depois não tenhamos usado nada que tivéssemos feito”, admite o baixista. Essa forma de compor “foi bastante libertadora”, concorda André Covas. “Trouxemos algumas dessas experiências para este disco.”

Editado pela PAD, que os peixe:avião fundaram, Peso Morto e as suas oito músicas mostram-se ao vivo pela primeira vez este sábado à noite, no Teatro Rivoli do Porto. No dia 18, a banda de Braga desde até à discoteca lisboeta Lux e, dois dias depois, atua no Theatro Circo, em Braga. No alinhamento também se recuperarão bastantes canções do disco anterior, peixe:avião.

José: “Dos dois primeiros álbuns dificilmente se ouvirá alguma coisa…”
André: “Soam sempre ovnis.”
José: “Não só não nos identificamos tanto com elas como é difícil metê-las no meio deste alinhamento sem pensar: eish, isto está esquisito.”
André: “Exato: quem é que entrou aqui no palco agora?”

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