Filha de escravos libertados e a mais nova de 13 irmãos, Hattie McDaniel tinha 44 anos, e uma boa carreira como cantora, compositora e atriz atrás de si, quando a sua interpretação de Mammy, a fiel e respigona criada de casa e ama da família O’Hara em “E Tudo o Vento Levou”, de Victor Fleming (1939), lhe deu, em 1940, o Óscar de Melhor Atriz Secundária (na realidade, uma placa de ouro com uma base e uma estatueta embutida, como era habitual na altura para as categorias de interpretação secundária), o primeiro atribuído a uma artista negra, e a fez entrar para a história das estatuetas, e do cinema. Na cerimónia de entrega, McDaniel e o seu acompanhante tiveram que ficar numa mesa separada daquelas onde se sentavam os colegas e outros membros da indústria cinematográfica, mas foi a primeira negra a participar na mesma como convidada e não como criada. Que tinha chegado a ser, bem como cozinheira e empregada de lavabos de um clube noturno, durante os anos da Grande Depressão, nos intervalos de não conseguir papéis no cinema e no palco, ou concertos na rádio e ao vivo.

[Veja uma cena de “E Tudo o Vento Levou”]

Já antes, Hattie McDaniel havia sido pioneira a ultrapassar outras barreiras raciais no meio do espetáculo dos EUA. Em 1915, apenas com 20 anos, foi a primeira cantora negra a apresentar-se na rádio, acompanhada pela Negro Orchestra do Prof. George Morrison, numa estação de Denver. Mais tarde, em 1947, tornou-se na primeira artista negra a ter o seu próprio programa de rádio, “Beulah”, que conheceria ainda uma versão televisiva no início dos anos 50 com o título “The Beulah Show”, pouco antes da morte prematura de McDaniel, em 1952, aos 57 anos, de cancro da mama. Nesta série, McDaniel conseguiu que lhe pagassem exatamente o mesmo que a uma atriz branca.

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[Veja a atriz a receber o Óscar]

Quando David O. Selznick fez o “casting” para “E Tudo o Vento Levou”, Hattie McDaniel era já uma cantora e actriz cómica muito popular, embora quase sempre confinada, no cinema, ao papel da criada negra arquetípica, que contava entre os seus amigos muitos dos grandes nomes da Hollywood daquele tempo, entre os quais o “rei” Clark Gable (que a terá recomendado para o papel a Selznick), Bette Davis, Shirley Temple, Henry Fonda, Jean Harlow ou o futuro presidente dos EUA Ronald Reagan. O papel de Mammy era cobiçadíssimo, e Eleanor Roosevelt, mulher do então presidente Franklin Delano Roosevelt, decidida a que fosse a sua criada pessoal, Elizabeth McDuffie, a tê-lo, meteu uma cunha a David O. Selznick. Tenha havido ou não intervenção do seu amigo Clark Gable junto deste, a verdade é que Hattie McDaniel conseguiu o papel, depois de comparecer no “casting” vestida à época.

A vitória da actriz nos Óscares foi vista como um pau de dois bicos por outros artistas negros e pelas instituições que à época pugnavam pelos direitos civis e contra a segregação racial. Se por um lado era mais uma barreira que era derrubada, e logo na mais importante cerimónia de prémios dos EUA, com a devida repercussão mundial, pelo outro tinha-o sido à custa de um papel estereotipado, num filme que a NACCP (National Association for the Advancement of Colored People) considerava ser, tal como o livro que o tinha originado, “um elogio do sistema esclavagista”.

[Veja a mini-biografia da actriz]

Aliás, durante toda a sua vida, Hattie McDaniel foi alvo da hostilidade da NACCP, que a criticava por fazer carreira essencialmente à custa de papéis de servas e por não ser uma militante ativa da causa dos negros, como a também cantora, actriz e activista Lena Horne, que chegou a ser simpatizante do Partido Comunista dos EUA. “Estão-me sempre a impingir a Lena!”, queixou-se McDaniel certa vez. E quando fazia “Beulah” na rádio, comentou: “Porque é que eu me devia queixar por ganhar 700 dólares por semana a interpretar uma criada? Se fosse uma criada a sério, estava a ganhar sete dólares.” Estas críticas vindas dos seus magoavam McDaniel, que respondia ter sempre feito o seu melhor, que trabalhava não só para si mas também a pensar nas futuras gerações de artistas negros e que muitos dos que a atacavam não faziam a menor ideia do que ela tinha passado nos primeiros anos da carreira. “Dei o meu melhor e Deus fez o resto”, sublinhava.

[Veja Hattie McDaniel na sua série de TV “The Beulah Show”]

Hattie McDaniel deixou, por testamento, o seu Óscar à Universidade de Howard, frequentada apenas por estudantes negros, que a tinham convidado para um almoço de homenagem depois dela ter ganho a estatueta de Melhor Atriz Secundária. O Óscar acabou por ser vendido para pagar dívidas da atriz, mas nos anos 60 foi finalmente entregue àquela universidade, onde ficou em exposição, numa vitrina do Departamento de Teatro. Acabaria por desaparecer nos armazéns da instituição, depois dos motins raciais de finais da década de 60 e início da de 70, e de muita especulação quanto às razões desse desaparecimento: políticas, para alguns, mero e lamentável desleixo, para outros. A verdade é que ninguém em Howard sabe ao certo o paradeiro do histórico prémio concedido pela Academia em 1940 à atriz e cantora filha de escravos libertados.

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