Filho da Mãe

Mergulho

Que não se assuste quem nunca deu tempo às artes de Rui Carvalho. Quando alguém disser que “este é o disco de um virtuoso da guitarra” não há nada a temer. “Mergulho”, como nos discos anteriores do músico, é o palco privado de um verdadeiro herói da guitarra. Mas por mais técnica que o homem por aqui empregue nunca ficamos à parte, nunca sentimos que este Filho da Mãe é de outro mundo. Nunca o ouvimos como quem se limita a sobrepor matemáticas complexas sobre seis cordas.

“Mergulho” é mais um disco que resulta da reclusão, de dias solitários, desta vez no minhoto Mosteiro de Rendufe, em Amares. Porque Rui Carvalho quer entregar tudo o que é e o que tem à guitarra. Um disco pode ser um compêndio de desabafos, um aglomerado de emoções que surgem sem plano nem aviso. É isso que aqui acontece, guitarras com nervo e sem travão mas que surgem à nossa frente com um conforto difícil de explicar. E há concertos em breve para testemunhar tudo isto ao vivo, para já nos Claustros da Igreja de S. Domingos, em Viana do Castelo (dia 12), Teatro Maria Matos, em Lisboa (a 18) e festival Tremor (19). Que filho da mãe este, não podia haver nome mais acertado.

Sensible Soccers

Villa Soledade

Lá vêm eles outra vez, estes tipos que insistem em dar a volta às coisas da pop. Pegam em tudo o que ouvem e baralham até não se perceber bem de onde vem o quê. Se o primeiro tema, “Clausura”, é a banda sonora perfeita para uma nave alienígena que aterra neste planeta devagar devagarinho, com o suspense que lhe é devido, já “Bolissol” é um passeio de descapotável e roupa de verão como mandavam os 80s vestidos de branco ao sol.

São ambientes, são repetições, é minimalista mas também pode ter quantidade ambiciosa. “Villa Soledade” manipula os sons e manipula-nos a nós. E há poucas coisas melhores do que deixar que isso aconteça com boas canções. Filipe Azevedo, Hugo Gomes e Manuel Justo, com estes três tudo pode acontecer. E apresentam “Villa Soledade” ao vivo na ZDB dias 10 e 11.

M. Ward

More Rain

Um rocker que queria ser folkie, um discípulo de Dylan com os discos todos de Elvis no quarto. E só com isto já ficava bem lançado o caminho de M. Ward. Mas ele quer mais e isso fica-lhe bem. Vai daí, transforma estas paixões em discos que têm uma tendência boa para espalharem encanto. “More Rain” vai pelo mesmo caminho da obra que fez até aqui. É o regresso aos álbuns depois de “A Wasteland Companion”, de 2012, e de mais duas coleções de temas gravados com Zooey Deschanel.

E é outra vez M. Ward como cowboy perdido no meio da cidade, um tipo viciado na América profunda mas pronto para a levar até às cidades mais concorridas. Ao mesmo tempo, M Ward sempre foi fiel seguidor das regras que construíram a pop americana nos anos 50. “More Rain” também acaba por funcionar como uma espécie de elogio ao doo wop que há décadas criou heróis e ainda hoje deixa influências.

Kendrick Lamar

Untitled Unmastered

A mania de nunca estar satisfeito é isto que tem de bom: até os restos valem a pena. Enquanto gravava “To Pimp a Butterfly”, disco que ganhou estatuto de clássico assim que foi lançado, que conquistou as primeiras posições de tudo o que foi listas de melhores do ano, em 2015, Kendrick Lamar gravou também o que se ouve em “Untitled Unmastered”. São sobras de uma obra maior, ou assim o artista apresentou a coisa. É aquele vício de colocar a falsa modéstia à frente de tudo, quando o rapaz sabe bem que é, nesta altura, o maior da aldeia.

Nenhuma das canções tem título, apenas número e uma data, possivelmente a de gravação. Como se fosse um arquivo de material para esquecer, mas que na verdade é mais uma vez coisa pronta para marcar o ano. Não é bem um álbum, não é bem um EP. E na verdade nada disso interessa. É hip hop como mais ninguém faz. Lamar diz que são esboços. Lamar que não brinque connosco.

Heron Oblivion

Heron Oblivion

Parece uma moda mas não é bem assim. O psicadelismo anda por aí há muito tempo, muito mais do que a maioria de nós se lembra. Mas isto da música pop é como a economia, faz-se de ciclos, altos e baixos e outros movimentos do género. Os Heron Oblivion sabem-no. Ainda que este seja o primeiro álbum com esta assinatura, vem tudo de um grupo de músicos habituados a explorar os limites de uma canção, para a levar mais alto e mais longe.

Meg Baird, dos Espers, é a voz que dá o toque de folk espacial a toda a distorção que por aqui anda. Fuzz de garagem nascido no campo, é o que é, que o resto da banda mete comparsas vindos dos Comets on Fire, Sic Alps ou Six Organs of Admittance. O delírio está lá e com toda a eficácia, daquela que não nos deixa prestar atenção a mais nada.