Onde estavas no dia em que os Buraka Som Sistema se despediram dos palcos? Ainda está por fazer uma História da música do Portugal deste início de século, mas parece evidente que a meteórica passagem desta banda pelas nossas vidas (dez anos não é nada) vai lá ter um cantinho especial. O grupo conquistou o direito de dar o último concerto junto à Torre de Belém, em Lisboa, e, pois claro, não desaproveitou a multidão.

As despedidas não costumam ser tão animadas. Mas quando a música é o que é, não são precisos grandes artifícios para pôr toda a gente a saltar. Mal subiram ao palco, pouco passava das dez da noite, os Buraka mostraram porque chegaram até aqui e porque é que nós viemos atrás. Com o mesmo estrondo com que abalaram a música portuguesa, a banda de Kalaf, Riot, Branko, Conductor e Blaya apresentou-se em palco com “Hangover (BaBaBa)”. Ficava o aviso de que este concerto não era para meninos: quem queria aqui estar, tinha de mexer.

E poucos foram os que não se mexeram. Os miúdos que ainda não eram nascidos quando saiu From Buraka to the World (2006), os pais e avós deles, os estrangeiros em Erasmus que acham tudo isto muito pitoresco, as raparigas que querem ser como a Blaya, os casais vindos das duas Linhas, a de Sintra e a de Cascais. Dez anos de carreira deu para tudo. Os Buraka levaram a música dos subúrbios até ao Chiado, o que equivale a dizer que a levaram aos círculos burgueses que têm vergonha de admitir que gostam de abanar o rabo. Mas mais do que isso: levaram esta música suburbana para fora da cidade, até locais como o Crato ou Cantanhede e sítios onde muita gente não sabe sequer o que é a Buraca ou a Damaia. Levaram-na à Austrália, à China, ao Japão, à Rússia, aos Estados Unidos e a toda a Europa.

“Nós somos os Buraka, vimos da Amadora”, disse Kalaf a dada altura. Como é que aconteceu mesmo isto de eles serem estrelas mundiais? Nem os próprios sabem, segundo o que o mesmo Kalaf disse em entrevista ao Observador. Mas, ao ver Blaya sentar uma plateia de milhares para logo de seguida pôr toda essa gente a descobrir músculos dos glúteos que nem sonhava que existiam, a questão parece não fazer sentido.

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O concerto, versão “discos pedidos” — como a certo momento diz Conductor –, segue a ritmo imparável e por vezes sente-se que o público não consegue acompanhar a energia da banda, o que nos faz pensar que estes cinco ainda têm muita coisa para mostrar daqui para a frente. Mas não é só excesso de energia que amolece a audiência — é a simples passagem do tempo. Temas como “Yah!” (a música que os catapultou para o sucesso) ou “Wawaba” (“Quem é aquela mulher”) são cantaroladas apenas por uma parte do público, que, por outro lado, explode quando soam os primeiros acordes de “Kalemba (Wegge Wegge)”.

A dança, contudo, é linguagem universal. Quando Blaya se propõe “abanar o rabo até cair”, um grupo de dez ou quinze raparigas sobe ao palco para também abanar o que lá tem, ao som de “Tira o Pé” (“A Buraka é dona do terreno”). No intervalo da dança desenfreada, e para provar que a música da banda não é só batida sem sentido, lá vem a ótima “Vuvuzela”, a curiosa “Parede” e a orelhuda “(We Stay) Up All Night”. Para fim de festa, num encore com quase meia hora, os Buraka trazem “Voodoo Love” e “Eskeleto”.

E a festa foi bonita, não há dúvidas. Mas terá valido a pena? Na entrevista que deu ao Observador, Kalaf lamentava que, tantos anos depois, os Buraka ainda não sejam vistos como mais do que meros “momentos” de boa disposição, chicletes passageiras que se mastigam e deitam fora sem demora e com alguma vergonha. Lamenta que ainda não haja uma escola, uma corrente saída do que os Buraka fizeram. É capaz de ter razão. A festa foi bonita. Mas quem vai continuar o legado dos Buraka? Quem nos vai fazer abanar o eskeleto?