Foi na casa onde vive, na Musgueira, com a mãe, que Estraca começou a escrever os primeiros versos e treinar os rappers. Foi também no bairro na Alta de Lisboa que soube que a OPA — Oficina Portátil de Artes, um projeto pedagógico da associação Sons da Lusofonia que reúne jovens de diversas origens e bairros de Lisboa, andava à procura de artistas na área da música. Não hesitou e mostrou o que sabia fazer a Francisco Rebelo, o músico dos Orelha Negra que dirige a oficina. Tinha apenas 15 anos. “Nunca tinha tido oportunidade de tocar e a OPA deu-me essa possibilidade”, relembra Carlos Guedes, o nome verdadeiro de Estraca, que sobe ao palco esta noite no Largo do Intendente no Festival Lisboa Mistura.

O projeto do Sons da Lusofonia foi o empurrão que precisava para se entregar de corpo e alma ao hip-hop. Deixou de parar com os amigos do bairro e dedicou-se à escola e à música. “Tinha dois caminhos. Escolhi este [da música]. Tenho as pessoas certas à minha volta. Preciso de trabalhar e aproveitá-las”, conta o jovem, hoje com 19 anos ao Observador. Deixou a escola na Musgueira e inscreveu-se no Liceu Passos Manuel, “ligado ao mundo teatro e das artes”, no bairro alto, em Lisboa, para terminar o ensino secundário.

Com a orientação de Francisco Rebelo, o jovem teve oportunidade a gravar num estúdio a sério e aprender estar em palco. Começou a trabalhar no estilo musical, lançou singles e produziu videoclipes que contam com a participação de Valete e Sam the Kid. “O Estraca é um exemplo deste projeto. Sempre se destacou no grupo onde estava. Acredito que pode ir mais longe e construir uma carreira”, explica Francisco Rebelo, um dos mentores.

[vídeo para “Minha Vida”, de Estraca]

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A solo ou em parcerias, Estraca ainda não parou. Em 2015 foi vocalista na banda JAZZOPA, um projeto que funde Jazz com Hip hop. Foi ainda convidado a participar em residências artistas em Itália e na Sérvia projeto internacional Roots and Ways of Cultural Diversity in Music. Tudo isto ao mesmo tempo que terminava o 12º ano. “Nem sempre foi fácil e há três anos quase desisti de tudo por não ter dinheiro para gravar, instrumentos. Se não fosse o Chico [Francisco Rebelo], não estaria aqui”, afirma.

Do maestro aos músicos

Nos últimos 10 anos, Francisco Rebelo tem tentando encontrar os protagonistas que podem fazer a identidade dos sons de Lisboa. “Ao trabalhar em vários bairros de Lisboa tenho tentando encontrar jovens artistas que, de uma forma ou outra, não teriam ou não têm os meios para trabalhar”, explica o mentor que quer ajudar os músicos a perceber que é possível “ter uma carreira artística e viver disto”.

Ensaio, Musica, RESTART, auditorio, 2016, concerto,

Francisco Rebelo

Da Alta de Lisboa à Musgueira, às Galinheiras, à Cova da Moura, à Buraca, a equipa da OPA tem estabelecido parcerias com as associações locais para “descobrir músicos”. O projeto evoluiu e há dois anos que conta com a ajuda da Restart, onde os jovens podem “experienciar o que é ensaiar” num auditório com instrumentos de verdade e profissionais. “Estarmos na escola permitiu que eles pudessem gravar em estúdio em condições que eles não têm em casa”, explica Francisco.

Com a experiência de décadas enquanto profissional, o Francisco quer mostrar com o Festival Lisboa Mistura quais os vários estilos e músicas que coabitam em Lisboa:

O que mais me interessa neste projeto e na OPA é conseguir colocar a rapaziada a trabalhar a sério e depois aproveitar as sinergias e criar misturas. Muitos deles conhecem se aqui e depois vão fazer coisas juntas”.

A partilha de estilos e de estéticas permite trazer conceitos diferentes para o palco. São esses os sons que Guida, cantora cabo-verdiana de afro-house, Mynda Guevara, rapper da Cova da Moura, Vera Sforce, cantora R&B cabo-verdiana, Estraca e o duo de Cascais DMK vão apresentar no concerto da noite desta quarta-feira. “Não é só a influência do bairro de onde vêm mas o centro da cidade está dominado por estes estilos”, afirma Francisco.

Por isso, o Largo do Intendente não podia ser a melhor escolha para os receber. “Se fizeres uma rota pelo centro da cidade e pela periferia, vais ver que são estes os estilos que tocam. Porque é aquilo que mais consomem, que é mais popular e os jovens reveem se muito no hip hop. Pelo discurso, pela forma, ritmo”, explica o músico.

Ambições

Tal como ele, não faltam histórias no projeto OPA de jovens que querem ser músicos de hip-hop, kizomba ou kuduro. Mynda Guevara é uma delas. Começou a fazer refrões e backs com 14 anos. Foi o irmão que lhe apresentou os primeiros rappers. “Já percebia e encaixava as metáforas nessa época”, recorda Mynda hoje com 20 anos. Andava pelo bairro da Cova da Moura, onde mora, quando soube que “estavam a precisar de uma voz feminina” no estúdio do Espaço Jovem da Associação Cultural Moinho da Juventude. Fez dupla com Ridell outro artista do bairro, durante três anos e aos 18 anos lançou-se a solo com Mudjer no rap krioulo. “Pensava que não era possível ser mulher e cantar rap”, confessa.

[“Hey Mana”, de Mynda Guevara]

Por isso, a primeira música é dedicada às mulheres. “O fato de ser mulher e cantar rap é uma forma de me impor neste mundo. O rap não tem género”, acrescenta. Mynda utiliza os seus versos para mostrar bons exemplos à sociedade. “Quero ser um bom exemplo. Dizer às mulheres que há coisas que não se fazem, fica feio. Quero tentar educar a minha geração”, afirma a jovem.

Por isso, Carminda Pinho não escolheu o nome artístico por acaso. Mynda Guevara é o grito de guerra, inspirado no Che Guevara. “Representa o peso da mudança e da revolução que quero fazer no mundo do rap feminino”, conta ao Observador. Já recebeu convites vindos de Luxemburgo e de Londres. Mas há um lugar especial: “Gostava de ir cantar a Cabo Verde”.

Francisco Rebelo quer continuar este trabalho e quem sabe, repercutir a ideia pelo resto do país. “Gostava muito de levar outras cidades e estabelecer parcerias. Criar uma rede de oficinas em que pudéssemos fazer uma espécie de tour e engajamos mais gente e as coisas iam se construindo”, revela. Hoje o palco deles é no festival Lisboa Mistura no Largo do Intendente às 21h30.

Veja aqui o cartaz completo do Lisboa Mistura, que também conta com atuações de NBC, Valete ou Waldemar Bastos.