Voz e violão. O subtítulo do concerto de Caetano Veloso não enganava nada. Era só ele e a caixa de madeira nas mãos, a tal de onde consegue, quem sabe por que artes mágicas, extrair os sons que calam um Coliseu dos Recreios praticamente cheio. E, de facto, para quê mais artifícios se este que aqui vemos tem a plateia rendida antes de sequer abrir a boca, se se dá ao luxo de ceder uma hora de concerto a uma mulher cuja voz é praticamente desconhecida em Portugal e se, ainda assim, cumpre com um rigor espantoso quando é chamado a tal?

É ao cantar “Cucurrucucu Paloma”, lá para a sétima ou oitava posição no alinhamento, que a voz de Caetano Veloso ataca os agudos sem medo e segue sem hesitações pelos caminhos sinuosos da canção, sempre a exigir jogo de cintura ao cantor de 74 anos. É aí que não restam dúvidas de que o brasileiro está numa belíssima forma, que demonstra também em temas como “Love For Sale” e “London London”. Curiosamente, parece que é nas músicas em que não canta em português que Caetano mais gosta de brincar com a voz, ora levando-a aos agudos mais estridentes, ora dando-lhe aqueles graves que o tornam inconfundível.

Antes de tudo isso, porém, o brasileiro sobe ao palco para apresentar uma desconhecida aos portugueses. Vinte minutos depois da hora marcada, Teresa Cristina, carioca que já leva mais de vinte anos desta vida, começa a mimar o público do Coliseu. O calor na sala lisboeta é praticamente insuportável. Ao receber um leque de alguém da plateia, a cantora comenta: “Essa é a pessoa mais generosa do mundo, que aqui ‘tá quente!” Mais tarde, até Caetano se vê obrigado a despir o casaco. “‘Tá mais quente aqui que no Rio”, dirá.

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Teresa Cristina fez o aquecimento para Caetano Veloso com músicas escritas por Cartola (Fotografia: ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR)

Desenvolta em palco e com uma voz segura, Teresa Cristina embala o público ao som de baladas e canções de amor que parecem deixar a audiência num estado talvez um pouco mais letárgico do que o suposto. O calor, é certo, não ajuda. E a animação regressa ao Coliseu quando a cantora faz uma declaração apaixonada a Lisboa, a Sintra, a Portugal. “Vir p’ra cá é como um sonho com laço rosa”, diz, aparentemente muito emocionada, já quase no fim de uma hora da atuação onde trouxe temas do compositor Cartola, ícone do samba.

Depois reaparece Caetano. De repente, o palco, até então ocupado por Teresa Cristina e um tocador de violão, parece gigante para um só homem. Mas ele sabe o que faz e não perde tempo a puxar o público para o seu lado. Canta “Um Índio”, arranca aplausos fora de tempo e a audiência parece reanimada. À terceira canção, refere-se a um discurso do “ex-presidente interino no Brasil”. Nunca chega a nomeá-lo, mas a plateia reage com gritos de “Fora Temer!” E Caetano explica que só está a falar em Michel Temer porque este usou uma mesóclise num discurso recente. Uma quê? Uma mesóclise consiste em colocar um pronome no meio de um verbo quando este está conjugado no futuro (ex: dir-lhe-ei). Isto para dizer que o samba que cantará de seguida tem várias mesóclises. “Vocês pensaram que eu ia dizer ‘fora Temer’?”, ri-se.

Logo à sexta canção, o brasileiro serve um dos pratos fortes da noite. “Leãozinho” é o primeiro tema a pôr o público em uníssono. O outro, “Sozinho”, vem já quase no fim, e é recebido com um coro ainda mais expressivo e aplausos mais animados. Pelo meio, uma competentíssima e surpreendente interpretação de um fado de Amália Rodrigues, “Libertação”, logo seguida de uma música de ritmo oposto: “A Luz de Tieta”.

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Três pessoas, duas violas. A simplicidade é um dos segredos na receita de Caetano Veloso e Teresa Cristina (Fotografia: ANDRÉ MARQUES/OBSERVADOR)

Entre o constante abanar de papéis, envelopes e leques na plateia, Caetano sai do palco e regressa um minuto depois com Teresa Cristina e o tocador de violão. O primeiro encore oferece “Tigresa”, “Miragem de Carnaval”, “Como Dois e Dois” e “Desde que o Samba é Samba”. Logo depois, e sob aplausos intermináveis, uma canção para encerrar em beleza: “Odara”.

Acaba assim um concerto com mais de duas horas em que Caetano consegue transformar o calor abrasador do Coliseu em amor que dilata corações. E até parece fácil. Esta quarta-feira há mais, no mesmo sítio. Conselho de amigo: leve um leque e água fresca.