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Está quebrado o silêncio. Cristiano Ronaldo falou pela primeira vez sobre a polêmica em torno do abandono do estágio da seleção nacional. Afinal, sairá ou não da equipe das Quinas em definitivo? Foi lançado e enviado às redações um comunicado de seis páginas, assinado por Cristiano Ronaldo, em que fala de absolutamente tudo. Deixa várias críticas ao selecionador nacional, que acusa de ter faltado com a palavra e mostra-se disponível para voltar a competir pela seleção nacional. E essa é mesmo a palavra-chave: competir. Não quer falar para já em jogos de despedida. Diz que sim, esses jogos de despedida vão acontecer, mas que para já continua a estar disponível para esses jogos a competir pela seleção nacional. Mostra-se também disponível para uma punição severa. Assume que não devia ter feito aquilo que fez. José Rafael Lopes, jornalista da Rádio Observador, tem estado ao longo dos últimos minutos a olhar para esse longo comunicado de Cristiano Ronaldo. José, o que nos podes avançar já? Sei que é um longo comunicado e que ainda tens estado a olhar para tudo.
Longo, Vasco, é a palavra correta. São seis páginas escritas por Cristiano Ronaldo, assinadas pelo internacional português. Vamos começar pelo fim, momento em que Cristiano Ronaldo assegura, como dizias, a porta da seleção nacional não está encerrada. Diz Ronaldo que está pronto para representar Portugal, voltar à seleção, desde que esteja bem fisicamente, a jogar pelo Al-Nassr e a marcar gols pelo clube. Cristiano Ronaldo diz, neste comunicado de seis páginas, que quando pensa na seleção nacional, pensa em competir e em ganhar, e não numa despedida. Vamos então ao que diz Cristiano Ronaldo, que revela, e esta história regressa até ao último Campeonato do Mundo, que escreveu uma carta para ser apresentada depois do Campeonato do Mundo, a dar conta de que ia deixar a seleção nacional. Seria um ponto final na carreira internacional de Cristiano Ronaldo ao serviço de Portugal. Depois do Campeonato do Mundo, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, terá pedido a Cristiano Ronaldo que reconsiderasse a decisão de sair e perguntou-lhe mesmo a opinião sobre que treinador é que poderia ajudar a seleção nacional. Cristiano Ronaldo não foi, numa primeira fase, apresentado o nome de Jorge Jesus. Mais tarde, diz Ronaldo ter apoiado a escolha do agora selecionador nacional. Dias mais tarde, Jorge Jesus entrou mesmo em contacto com Cristiano Ronaldo, é o que se pode ler no comunicado, e apresentou-lhe um plano para a utilização para os primeiros compromissos da seleção portuguesa, a Liga das Nações. O plano previa que Ronaldo jogasse o primeiro e o último jogo da Liga das Nações. Nessa mesma conversa, diz Cristiano Ronaldo que o selecionador colocou outra possibilidade, a de Cristiano Ronaldo ir a jogo no primeiro encontro e depois não viajar com a equipa para a Noruega e para a Dinamarca, ficando em Portugal à espera desse quarto duelo da Liga das Nações. Ronaldo diz ter recusado prontamente esse convite. Já antes do estágio, nova conversa, agora em casa de Cristiano Ronaldo. Os princípios definidos foram novamente confirmados. Ronaldo jogaria o primeiro e o quarto, o segundo e o terceiro seria para gerir o esforço do capitão da seleção nacional, que tem 41 anos. Ronaldo conta que estava, por isso, focado num plano de recuperação física a apontar para o jogo no Estádio do Dragão, frente à Noruega. Foi então que surgiu o primeiro momento de tensão. No dia do jogo com a Noruega, à hora de almoço, escreve Cristiano Ronaldo, um dos adjuntos terá informado o jogador de que o selecionador queria falar com ele. Diz Ronaldo que o treinador lhe perguntou se estava disponível para jogar 30 minutos. Seria a primeira alteração ao que estava acordado com o capitão português. Cristiano Ronaldo aceitou, apesar de isso alterar o plano de recuperação que tinha sido previamente definido. A resposta do selecionador, segundo Ronaldo, foi clara: Cristiano Ronaldo tinha de estar pronto para ir a jogo. Ronaldo aqueceu durante toda a segunda parte, os minutos passaram e a verdade é que o jogador acabou por nunca entrar em campo. Uma questão que revela que Cristiano Ronaldo o deixou frustrado e que isso o levou a não cumprimentar os adeptos. Um comportamento que Cristiano Ronaldo, neste comunicado de seis páginas que estamos a detalhar nesta emissão especial, diz que não foi correto para com os adeptos.
Deixa-me interromper, José, só para dizer que é aí, neste comunicado, que Cristiano Ronaldo diz que foi a primeira falha com a palavra do selecionador nacional.
A primeira falha, diz Cristiano Ronaldo, que assume que esse comportamento de não cumprimentar os adeptos foi errado, pediu desculpa aos portugueses e dias depois, Cristiano Ronaldo, o treinador e também Simeão Coutinho reuniram-se para discutir o assunto. Ronaldo descreve a conversa como profunda e frontal e diz que chegaram a acordo sobre a forma como encerrar a polêmica. O selecionador devia explicar publicamente aquilo que, segundo Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus tinha acabado de reconhecer em privado, que tinha errado na forma como geriu o tempo de jogo e a forma como Cristiano Ronaldo ia atuar. O jogador diz que o que foi combinado na conferência de imprensa, o treinador Jorge Jesus iria reconhecer que tinha sido ele próprio a propor o plano de utilização e que Ronaldo nunca tinha pedido para jogar certos ou determinados minutos e que tinha sido um erro colocá-lo a aquecer para depois não utilizar. É aqui que começa a grande tensão, o momento que terá levado Cristiano Ronaldo a abandonar o estágio da seleção nacional. E importa também dizer que este acabou por ser também um dos pontos que Jorge Jesus acabou por, de certa forma, admitir que Cristiano Ronaldo é um jogador com um estatuto diferente e que não deveria ter ficado a aquecer como acabou por acontecer. Segundo Ronaldo, a conferência de imprensa foi então muito diferente do que deveria ter sido. Diz o jogador português, neste comunicado, que não gostou da postura e da agressividade de Jorge Jesus, que não tinham existido na conversa que tinha tido com o jogador português. E é aí Vasco que Cristiano Ronaldo decide abandonar o estágio.
E diz Cristiano Ronaldo que Jorge Jesus tinha assinado ou concordado com um documento que foi mostrado ao próprio Cristiano Ronaldo e que tinha oito pontos que Jorge Jesus deveria levar a essa conferência de imprensa. São vários os pontos, mas apenas para ilustrar, Jorge Jesus teria que assumir nessa conferência de imprensa, logo que começasse, que foi ele que propôs a Cristiano Ronaldo o plano desportivo para ser executado na seleção nacional, que sabe o quanto Cristiano Ronaldo ama a seleção e a influência positiva que tem na equipa das Quinas, que Cristiano Ronaldo aceitou esse plano e nunca questionou as opções do selecionador. E diz também, é talvez um dos pontos mais marcantes deste comunicado, teria Jorge Jesus de dizer nessa conferência de imprensa que errou ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Este foi um documento para o qual Cristiano Ronaldo olhou e para o qual concordou. E Jorge Jesus também teria de dizer, Zé, que quer Cristiano Ronaldo na seleção nacional e agora passo a citar: "Não quero pouco, quero muito. Felizmente, ele também acredita em mim, acreditou no Al-Nassr e aqui também." Zé, esta parte de Jorge Jesus, eu creio que está encerrada. Já aqui vimos praticamente tudo, mas o essencial, e quando chegamos ao fim desse comunicado, é que Cristiano Ronaldo está disponível para, um, voltar a competir pela seleção nacional e dois, para uma punição severa.
E diz também que este não é o fim da carreira internacional, é o que diz Cristiano Ronaldo, que pede desculpa aos companheiros, diz que deve ser punido pela federação, mas o estatuto de capitão, defende Cristiano Ronaldo, deve ser considerado uma agravante e que as regras têm de ser iguais para todos. Mensagem de Cristiano Ronaldo que termina com uma mensagem final: a polêmica com o selecionador pode ter provocado uma ruptura de confiança. Cristiano Ronaldo admite também o erro de não ter cumprimentado os adeptos e de ter abandonado o estágio, mas diz CR7 que isto não é para já um adeus à seleção portuguesa.
E convém lembrar que a punição para este tipo de casos, para abandono de um estágio ou dos trabalhos da seleção, geralmente anda entre um a seis meses de suspensão e, por isso, aos 41 anos, pode ser um castigo pesado para Cristiano Ronaldo, que aqui se mostra disponível para essa punição. Nesta emissão especial da Rádio Observador, em que estamos a detalhar esta longa carta de Cristiano Ronaldo, recebemos agora em linha conosco o Bruno Batista. Bruno, bem-vindo. Eu começo por lhe perguntar como é que sai Cristiano Ronaldo desta situação? O capitão da seleção nacional põe aqui uma pedra sobre o assunto ou isto vai continuar a dar pano pra mangas, exigindo até uma resposta de Jorge Jesus e até de Pedro Proença?
Boa noite a todos. Eu penso que esse é o ponto fundamental. Se olharmos para este longo comunicado do ponto de vista estratégico, ele está muito bem redigido, ele está muito bem pensado, faz uma cronologia, tem uma assunção de culpas, pede até um castigo, mas Ronaldo, a seguir, aponta o dedo ao longo deste comunicado, aponta o dedo a Jorge Jesus. Depois, tem aqui uma parte que eu acho que é a mais polêmica de todas e que será muito dissecada ao longo destes dias, que é onde é que esteve a federação no meio disto tudo, porque ao longo deste comunicado ficamos a saber que foi o diretor desportivo do Al-Nassr, Simon Coutinho, que acompanhou e que moderou a primeira reunião entre Ronaldo e Jorge Jesus. Logo de seguida, aparece Tiago Craveiro para redigir um documento que tem oito pontos que Jorge Jesus deve seguir, no fundo, o guião daquilo que Jorge Jesus tem que dizer. E aí vai haver muita polêmica, porque aqui claramente mostra o poder que Ronaldo tinha ou tem nesta federação e nesta seleção para impor até uma estratégia de comunicação e ninguém da federação acompanha estes momentos. Não há ninguém por parte da Federação Portuguesa de Futebol que estivesse nesta primeira reunião entre o capitão e o selecionador e depois na produção deste guião, que validada por Ronaldo, é entregue a Jorge Jesus, como quem quer dizer: "Aqui está a tua penitência por tudo isto". Portanto, este é o ponto mais polêmico. Mas dizia eu que do ponto de vista estratégico, Ronaldo quer deixar aqui a bola do lado de Jorge Jesus. É Jorge Jesus quem tem que se redimir de tudo isto, quem tem que vir a aceitar de volta Ronaldo, que apesar de surgir num castigo, diz que o que quer é competir e, portanto, está disponível não para jogos de homenagem, mas para voltar à competição. No fundo, o que ele está a dizer é que eu quero voltar à seleção e estou disponível, mas agora Jorge Jesus tem que assumir isto, porque o que se põe agora aqui é que se Jorge Jesus ignorar e a federação ignorarem todo este comunicado e o aceitarem de volta, Jorge Jesus está a assumir que tudo isto é verdade. Está a assumir que se comprometeu em dizer, porque há aqui um ponto que eu não entendo, e vou citar um bocadinho do comunicado, onde diz que A primeira reunião decorreu entre Simão Coutinho, Jorge Jesus e o próprio Ronaldo e logo em seguida, a pedido do selecionador, e estou a citar: decorreu uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos. Qual foi a necessidade da entrada de Craveiro aqui para definir uma estratégia de comunicação? E a seguir sabemos que Jorge Jesus recebe este documento e não o aceita, porque não diz nada disto na conferência de imprensa. E este é que é o ponto nevrálgico que interessa esclarecer. O que é que combinaram naquela reunião, que depois de feito este debriefing dessa reunião e determinado por parte do staff de Ronaldo, um guião, Jorge Jesus se recusou. Portanto, aqui entre emissor e recetor da palavra, entre aquilo que foram as declarações de Jorge Jesus ou conversa de Jorge Jesus com Cristiano Ronaldo e o entendimento dele, que depois produz e aprova, e diz isto no comunicado, aprova aquilo que Jorge Jesus tem que dizer, Jesus disse que não é nada disto que eu combinei ou não é nada disto que eu senti ou quis transmitir e não vou, até pelas declarações públicas que sabemos dele, pedir desculpa. Portanto, eu acho que este caso só se encerra se agora Jorge Jesus aceitar este comunicado, reagir como que está tudo resolvido, foi um mal-entendido como aquilo que disse, mas há aqui pontos muito graves, como esta Federação Portuguesa de Futebol, que não acompanhou o caso, que não esteve presente nestas reuniões entre dois dos seus principais ativos, o treinador e o capitão, e em que a comunicação também não está em lado nenhum.
Bruno Batista, deixe-me já agora perguntar-lhe, porque carregou bastante neste tema. Fala muito Cristiano Ronaldo aqui em Simão Coutinho, o diretor desportivo do Al-Nassr, que ficamos a saber que circula bastante pelos estágios da seleção nacional. Isto faz sentido? Ou seja, um dirigente de um clube da Arábia Saudita que tem influência e circula, que está presente nos estágios da seleção nacional.
Não só circula, como pelos vistos ficamos a saber que é o responsável por gerir crises, porque é ele que faz de mediador naquela terça-feira à noite, Pedro Proença estava a viajar para o pé da seleção, não estava lá, mas é o diretor desportivo do Al-Nassr que é chamado, não sei onde é que estava, não sei se estava no estágio, se estava perto, se estava de prevenção já depois do que aconteceu no jogo anterior. A verdade é que é ele que chega e que reúne com as duas partes. E aqui eu acho que a Federação Portuguesa de Futebol também tem que explicar o papel destas terceiras pessoas, que aliás, pessoas externas, Jorge Jesus já falou nelas na conferência de imprensa e disse que havia pessoas externas a rondar e que provavelmente não estavam a contribuir para resolver nada disto. Claro, ia comentar demasiado. E depois ainda há uma videoconferência com Tiago Craveiro, que é conhecido por ser, e legitimamente, um dos principais conselheiros e assessores de Cristiano Ronaldo. Não é que nada disto seja um problema, desde que do lado da Federação também estivessem altos responsáveis, mas parece que dá aqui a ideia que Ronaldo teve que chamar um advogado de defesa e um assessor e um consultor, e do lado da Federação deixaram Jorge Jesus sozinho, porque o que temos neste comunicado é que a reunião decorreu entre estas pessoas, mais ninguém é citado. Então Jorge Jesus foi deixado sozinho para resolver o tema com o staff todo do Ronaldo. Aqui a Federação vai ter muito que explicar, porque não percebo como é que se alheou completamente da responsabilidade, onde é que esteve a liderança da Federação, até porque no dia em que Cristiano Ronaldo assiste à conferência de imprensa, não gosta, sabemos que não reagiu muito bem e se foi embora, Pedro Proença, o maior responsável pelo futebol em Portugal e líder daquela comitiva, estava no mesmo sítio. Portanto, ele estava lá naquele estágio, naquele treino. E não conseguiu conter esta crise e este problema, que para mim não fica resolvido aqui, a não ser que Jorge Jesus desista desta polêmica e aceite o que está aqui escrito, que faz graves acusações contra até o caráter de Jorge Jesus, porque é dito que se comprometeu. Eu também li, é verdade que o comunicado tem poucos minutos, eu já o reli duas vezes, não encontrei nunca aqui a palavra promessa. Portanto, há cinco vezes um pedido de desculpas de Cristiano Ronaldo, e salvo erro de eu não ter lido da melhor forma tudo o que está aqui, mas, na verdade, eu não consegui ler que Jorge Jesus tivesse prometido a Ronaldo que ele ia jogar. Diz que contava com ele para o jogo, mas não há uma promessa de jogar.
Sim, nem creio que faça sentido fazer promessa a jogadores de minutos, como já explicou.
Claro, obviamente. O decorrer do jogo é que vai ditar a estratégia que tem que se seguir. Portanto, não faz sentido que nenhum treinador prometa a um jogador que vai entrar.
Bruno Batista, e com isto liberto, eu queria perguntar-lhe: há condições para Cristiano Ronaldo voltar à seleção depois de um comunicado em que acusa tantas vezes Jorge Jesus de estar a mentir?
Acho que este comentário ainda veio dificultar mais este tema. Eu já tinha dito publicamente que Pedro Proença tinha poucas horas para atuar, que deveria rapidamente chegar a fala com Ronaldo. Deveria até colocar-se, sem câmaras de televisão, colocar-se num avião e ir em direção a Cristiano Ronaldo para resolver este atrito o quanto antes, porque se Pedro Proença não conseguisse conter esta crise antes do Ronaldo falar, iríamos ter isto, que é um lado, uma verdade de Cristiano Ronaldo. Jorge Jesus não adiantou muitas coisas, mas foi dizendo algumas em conferência de imprensa e neste momento temos um conflito entre dois dos principais ativos da federação. Portanto, a solução fica mais difícil de conseguir quando há duas partes que estão em rutura. Ronaldo volta aqui a deixar a porta entreaberta. Ontem surgiram na comunicação social algumas notícias que davam conta que Ronaldo não voltaria com Jorge Jesus. Eu acho que isso não está explícito neste comunicado. Portanto, Ronaldo deixa aqui a porta aberta. No entanto, deixa o ônus no lado de Jorge Jesus. É Jesus que vai ter que ou desmentir o que está aqui e dizer que não se comprometeu com nada disto, ou ficar calado, dizer que o tema está resolvido e tal como disse na última conferência de imprensa, que Ronaldo se estiver em condições, será convocado e voltará. Agora, não há ambiente, e eu acho que não é só com Jorge Jesus. Depois daquilo que lemos aqui, e são assumidas aqui várias pastas em que Ronaldo não passaria cartão à federação nas suas decisões, nomeadamente resolver o conflito sozinho com Jorge Jesus e com um emissário seu. Tratar da estratégia de comunicação sem passar conta da federação, sem passar nenhum cartão à federação, eu diria que até do ponto de vista institucional, a federação está a ser posta em causa com este comunicado. Não houve aqui uma intervenção. E depois há a parte do balneário. Como é que os jogadores vão reagir àquilo que está a acontecer e com o regresso de Ronaldo, é verdade que ele assume as culpas, que diz que tem que ser castigado por isso, mas a realidade é que acusa o treinador de falta de caráter. Isto são acusações graves e que não me parece que tenham uma solução assim tão simples, porque aquilo que conhecemos de Jorge Jesus, Jorge Jesus também tem, obviamente, o seu currículo, tem a sua postura de líder e não sei de que forma é que é possível encontrar uma boa saída para um problema que escalou. Porque fica-me claro neste comunicado, que na base de tudo isto está o tempo que esteve a aquecer. Só para dizer isto, eu sei que foquei muito aqui, mas é-me difícil entender esta ideia de que Cristiano Ronaldo quisesse que fosse comparado a Pelé e Maradona por Jorge Jesus nestes oito pontos que lhe pede para dizer. Não tenho forma de aceitar isto, não tenho forma de entender como é que a federação deixou que isto chegasse a este ponto de ser o jogador a redigir a comunicação que o treinador tem que passar. Não entendo isto.
Bruno Batista, deixe-me juntar à conversa Dias Ferreira, que está também já conosco em linha, a quem eu aproveitava para perguntar e agradecendo a disponibilidade para estar nesta emissão especial da Rádio Observador. Conhecendo o feitio de Jorge Jesus, conhecendo o feitio do selecionador nacional, que ficou até bastante patente nesta última conferência de imprensa, depois de uma entrada mais institucional, depois de picado por um dos jornalistas, acabou por lhe saltar a tampa, por assim dizer, a dizer que não tinha de pedir desculpa por nada, nem a ninguém. Conhecendo essa faceta de Jorge Jesus, é possível imaginar um cenário em que o selecionador nacional vai comer e calar este comunicado?
Ora boa noite. Boa noite a si, boa noite aos espectadores, boa noite ao Bruno Batista. Eu acho que uma das melhores soluções é seguir em frente e não levantar muito mais problemas com isso. Porque eu devo dizer que esperava do Cristiano Ronaldo, aliás, disse publicamente, que ele jamais iria aceitar um jogo de despedida ou de homenagem, ou fosse aquilo que quisessem chamar. E ao ver este comunicado, há pouco tempo, a primeira vez só ouvi metade, depois na segunda vez é que já ouvi inteiro, devo dizer que o Ronaldo fica a faltar apenas 14 gols, porque neste comunicado cada página é um gol que ele acrescenta para chegar aos 1000. Eu acho que ele põe termo de goleada, efetivamente, admitindo, e parece que sim, bate as coisas certas, a sua versão faz bater certo e faz justificar, entre aspas, a sua decisão, que ele próprio reconhece, como todos reconhecemos. Eu já falei nisso, até citando-me a mim próprio, que as pessoas em mentes quentes reagem de uma maneira que não devia ter reagido e disso pede desculpa. Acho que a carta dele, eu peço desculpa ao Bruno Batista de dizer que discordo completamente que a carta acuse Jorge Jesus de falta de caráter. Uma coisa é não dizer a verdade, que pode acontecer por muitas razões, porque houve mal-entendido, porque perceberam mal aquilo que ele disse ou perceberam mal alguns pontos, seja o que for. Acho que o Ronaldo não acusa o selecionador de falta de caráter, porque se o acusasse disso, então o assunto estava terminado e terminado mal, quer dizer, e não havia margem para qualquer recuo. Agora, aquilo que me parece foi que realmente o Ronaldo teve paciência, acabou-se os jogos, as pessoas manifestaram a disponibilidade de que Ronaldo regressasse à seleção E Ronaldo acaba por também dizer aquilo que se calhar não abria a porta a uma solução consensual, abriu-a e fecha-a quase de maneira com chave de ouro. Fecha este assunto com chave de ouro, quer dizer, tem que ser castigado. É evidente que ele é capaz de ter um processo, mas um processo não significa que por ele ter cometido uma falta que é punida com um a seis meses, não quer dizer que essa seja a aplicação, porque ele também avança com argumentos que devem ser tomados em consideração, se os factos forem todos verdadeiros, para que sejam atenuantes. O capitão é efetivamente um agravante, ele diz isso muito bem, ele reconhece isso muito bem e é verdade. Diz a verdade, por mais dura que seja, até para ele próprio, mas também tem atenuantes, que é os momentos em que as coisas se fazem, uma coisa ter sido combinada e logo a seguir não foi verdadeiramente. Eu e muita gente, não era a generalidade, mas eu acho que até que a maioria das pessoas, percebeu que o problema estava na conferência de imprensa. Aquilo que as pessoas estavam de saber é o que foi falado antes para depois na conferência de imprensa ser aquilo, isso não tínhamos dúvidas nenhuns, porque logicamente é a seguir que o Ronaldo rompe. Portanto, esta história contada desta maneira. É evidente que, a seguir nada disso ter passado, é realmente um bocado revoltante e justifica, em parte, uma atitude da parte de Ronaldo. Obviamente, e volto a dizer, não é se calhar a situação mais certa, mas é aquela que surgiu no momento e não vale a pena julgar as pessoas pelas decisões do momento. E, na realidade, a própria evolução do Jorge Jesus mostra que realmente ele próprio terá chegado à conclusão que não terá andado bem entre aquilo que terá sido a conversa e aquilo que foi a conferência de imprensa.
Mas, Luís Ferreira, permita-me interromper. Mas aceitando essa versão a Jorge Jesus, aceitando que falhou com Cristiano Ronaldo e aceitando o capitão da seleção nacional de volta ao estágio ou a um futuro estágio, não estará também a abrir um precedente perigoso para outros jogadores da seleção nacional?
Deixemo-nos disso. Os precedentes já foram tomados por outros. Ninguém morreu, a seleção nacional não morreu. Efetivamente, o Ronaldo nem sequer põe em equação aquilo que seria a situação que toda a gente disse que era o mais difícil, que era que o Ronaldo se calhar iria exigir que Jorge Jesus pedisse desculpa, e todos nós pensamos que o Jorge Jesus jamais pediria desculpa. Portanto, isto é um ato e não vale a pena nós agora continuarmos a malhar nisto e a ver o que é. O Jorge Jesus já deixou a porta aberta. Ele com certeza que sabe bem o que é que disse, se se atrapalhou ou não se atrapalhou, se teve um mal-entendido ou não teve um mal-entendido. Se calhar, foi isso mesmo. Se calhar, o mal-entendido é a expressão correta. Eu também sempre disse que achava que o Jorge Jesus tinha andado mal, mas que não era por maldade. Portanto, não fez de mal, realmente terá sido um mal-entendido.
Uma falha de comunicação. É assim que eu penso.
Eu nem chamo de falha de comunicação, porque todos nós sabemos que ele tem dificuldade em exprimir-se, de uma certa maneira. Quer dizer, tem uma linguagem própria. Às vezes ele próprio usa palavras que não têm nada a ver com a frase, nem com aquilo objetivo que ele pretende atingir. Portanto, temos que dar essa coisa por bem. E eu acho que o Ronaldo abriu a porta a isso, efetivamente. Acho que tem uma saída que culpando-se a si próprio e responsabilizando-se a si próprio, sai em grande, quer dizer, sai com elevação e não pede agora Jorge Jesus ter de pedir desculpa. O Jorge Jesus agora é que há de decidir o que é que há de fazer, porque também sabe que se ele regressar à seleção, que era uma coisa que toda a gente estava a pedir, toda a gente estava a dizer que o aceitavam de novo, que o queriam na seleção, que ele continuava a ser preciso e que gostam muito dele. Portanto, agora é só tirar as consequências disso. Pode dizer: "Realmente, talvez não tenha me exprimido bem, mas claro, não fiz isto por mal". E é o suficiente. Isto tem que ter uma saída airosa e parece-me a mim que, finalmente, depois de alguém ter dito e eu ter citado também essa frase que o adulto na sala foi o Bruno Fernandes, agora parece-me também que o Ronaldo tem uma saída também de adulto e não de chumbingas ou de querer girar cabeças de alguém ou de que peça desculpa publicamente. Eu acho que ele deixa a porta aberta para tudo e é humilde quando reconhece que cometeu uma infração e, portanto, que está disposto a sofrer essa punição. Mas acho que a injustiça também não é agora fazer de outra maneira.
Deixe-me voltar aqui ao Bruno Batista para perguntar como é que entende que vai ser também a reação dos adeptos, porque este é também já um caso, chamemos-lhe assim, de psicodrama nacional. Como é que os adeptos portugueses, os portugueses no geral, podem ler este comunicado?
Deixe-me só cumprimentar o estimado Dias Ferreira e tentar explicar quando eu disse que acho que Jorge Jesus não sai beneficiado neste comunicado e onde é que pode ser acusado de falta de caráter. É quando Ronaldo diz que não foi cumprida a palavra, que foi dita uma coisa que depois não foi cumprida.
Diz duas vezes que isso aconteceu.
Sim, diz duas vezes isto, que foi faltar à palavra, foi nesse sentido, coisa que eu também não acho. Aqui deixe-me concordar. Deixe-me concordar com o Dias Ferreira. Certo, é isso que eu lhe ia dizer. É uma interpretação minha que posso estar a exagerar e, portanto, dizer que também não é assim. Pode não ser uma falta de caráter, mas é dizer que faltou à verdade. E, portanto, acho que aqui pode ser difícil para Jorge Jesus aceitar isto, tal como, e aqui o tema do comunicado dos oito e a forma como é redigido estes oito pontos e aquilo que a equipa de Ronaldo e que Ronaldo diz que validou, queriam que Jorge Jesus dissesse, eu também acho que o selecionador não ia nunca aceitar que pusessem palavras daquele gênero na boca dele. Agora, respondendo diretamente a esta pergunta, eu acho que os portugueses querem ver este tema solucionado. Primeiro ponto, acho até que na gestão de crise se devia ter atuado antes para não deixar que Ronaldo saísse daquele estágio para que houvesse um entendimento ali, porque se formos à gênese disso tudo, não me parece um problema assim tão grave, tal que Ronaldo acaba por assumir que não devia ter ido embora e, portanto, se tem ficado, eu acho que isto podia ter outro entendimento. E aqui há uma culpa também do lado da estrutura da federação que devia ter atuado antes. Neste momento, e para responder à pergunta sobre o que os portugueses querem. Os portugueses querem acabar com esta novela, isto não interessa a ninguém. Toda a gente reconhece a carreira de Cristiano Ronaldo, a grandiosidade, a forma como tornou Portugal muito mais conhecido no mundo. Quer dizer, nada disto, os 23 ou 24 anos em que nos deu títulos, em que marcou gols, nada disto pode ser deixado para trás. Acho que a grande maioria dos portugueses, no meu entender, querem que a Ronaldo seja feita uma justa homenagem e até acham que Ronaldo ainda tem espaço como líder e como capitão nesta seleção, pelo menos até o final da Liga das Nações ou o que seja. Enquanto Ronaldo jogar, eu acho que ele pode estar presente nesta figura, tal como ele diz no comunicado também, que tinha combinado com Jorge Jesus que só jogava dois jogos e a proposta de Jesus fosse que essas duas partidas fossem as em Portugal e que ele não viajasse com a equipa, e ele pré-predisse que queria viajar, porque como figura de capitão, mesmo que não entrasse, queria exercer esta liderança. E tem toda a legitimidade para exercer, porque Ronaldo é, sem dúvida, o maior símbolo do futebol e do desporto em Portugal nas últimas décadas ou sempre.
E não está posta em causa essa liderança no grupo da Seleção Nacional?
Sim, isso admito que possa estar posta em causa. E Ronaldo também o admite aqui, dizendo que errou.
Ele também pede diretamente aos colegas de equipa.
À equipa, aos colegas. Eu também concordo aqui com o Dias Ferreira.
Isso é um problema para resolver no balneário. Deixa estar. Os jogadores encontram-se nessa forma internamente.
E aqui o estatuto do Ronaldo. Também concordo consigo, é um problema que se resolve dentro de casa. Aqui, sim, é hora de puxar pelo estatuto, nos lembrarmos daquilo que Ronaldo já fez.
Exatamente. O reconhecimento dele, da sua responsabilidade, o seu pedido de desculpas a toda a gente e não exigir pedir desculpas a ninguém, eu acho que abre a porta completamente e mostra grandeza. Eu acho que é um gesto de grandeza. É um gesto nobre, foi ponderado, com certeza, bem aconselhado e ponderado e deixar de passar o ar quente dessa situação toda. Eu acho que ele depois acaba disso da melhor maneira. Eu devo dizer francamente que não esperava tanto. Esperava que fizesse algumas exigências. Sempre disse que ele não ia aceitar a festa de despedida, e acho que tem toda a razão. Dou-lhe o meu aplauso por isso. Não é isso que se trata, nem é isso que salva as coisas. O que salva é jogar o filme atrás. Quanto aos jogadores, eu não tenho dúvidas nenhuns. Aquilo que o Bruno Fernandes disse é a expressão. Recebeu muito bem naquele dia.
Eu já não tenho tanta certeza de que esteja tudo bem no regresso. Mas enfim, será um regresso sempre temporal, porque Ronaldo está em fim de carreira e também merece ser recebido com o final que deve ser feito e com essa grandiosidade. Mas eu acho que ele exagerou um bocadinho neste comunicado no excesso de informação que dá. Não havia necessidade de explicar estes oito pontos que tinha que o Jorge Jesus dissesse. Acho que exagerou aqui.
A não ser quando tem toda a gente a dizer: "Agora queremos ouvir o Ronaldo", e ele não contava as coisas todas. E, acima de tudo, tendo a personalidade e fazendo aquilo que fez.
Mas é que eu acho que isso não abona a favor dele, mostrar que queria dominar esta comunicação e que teve estas reuniões sem ninguém da federação presente. Acho que são detalhes demais que podiam ter ficado dentro de casa.
Isso não é culpa dele. Nós não temos culpa, é que não estando o presidente da federação, que estava noutras atividades.
Mas havia mais pessoas lá, havia mais dirigentes. Lourenço Coelho, por exemplo, estava lá.
Isso foi aquilo que eu disse há dias. Aproveitemos isto para discutir como é que é a estrutura da federação e como é que eles são eleitos e por quê. Isso é que é importante. É a lição que temos que tirar disso tudo. Porque as pessoas só tratam as coisas pelas pontas do acontecimento. Ir à questão de fundo é isso, por que a federação é assim, por que a federação tem essa estrutura, como é que os presidentes são eleitos. É tudo para o equilíbrio de coisas. Quando chega a altura de uma pessoa ser vice-presidente, não é vice-presidente qualquer coisa, não é só para encher papel ou para encher rotinas. Tem que desempenhar essas funções. Não está o presidente e o presidente não pode estar em todo lado. Eu estava, acho que a apoiar a seleção sub-20 ou sub-21, lá o que era.
E a prosas artes.
Bruno Batista, permita-me interromper, porque estamos nesta altura em condições também de juntar a esta conversa o José Guilherme Aguiar, a quem eu agradeço por ter aguardado e a quem eu pergunto se também concorda que um dos principais culpados neste caso, ou no mínimo, se é isso que transparece deste comunicado, acaba por ser a própria Federação Portuguesa de Futebol
Boa noite. Há 25 minutos que eu estou aqui a ouvir os meus colegas comentadores. Tem sido muito agradável. Eu agradeço à Beatriz Maia que me mandou a mensagem se eu estaria disponível para entrar. E eu disse que sim, que estava disponível, não conhecia o comunicado, ela mandou-me um comunicado. Mas estes 25 minutos foram muito agradáveis, porque naturalmente que é sempre muito agradável para quem está a ouvir a Rádio Observador. Se não fosse assim, eu não estaria a ouvir a Rádio Observador. Finalmente deram-me o uso da palavra e agora dentro de dois minutos vão acabar, porque vai acabar o tempo que eu terei para falar.
O José Maria tem vários minutos para falar.
Tenho o quê?
Vamos continuar em emissão especial.
Vamos continuar em missão especial. Pronto, então está bem. Eu li o comunicado, eu vi o comunicado. Não sei quem fez o comunicado, que o Cristiano Ronaldo assinou o comunicado. Quem o fez, vamos ver, é uma questão que depois se verá. Mas isso não é importante. Importante é aquilo que as coisas devem ser postas desde o princípio. Há uma Federação Portuguesa de Futebol que tem um presidente, que é legitimamente eleito, e com a qual ele tem uma direção com não sei quantos vice-presidentes, todos eles profissionais. O presidente está quando pode, quando não pode, não está, mas há, como disse o Elias Ferreira, e bem, há outros colegas dele que estão com a seleção. Aliás, julgo que estarão dois ou três na seleção. Por isso eu não percebo por que razão, estando o Jorge Jesus a falar com o Cristiano Ronaldo na presença de um sujeito qualquer que vem do Al-Nasr ou lá de onde é que ele vem da Arábia Saudita, não está ninguém da federação. E não percebo. Isso é exatamente a federação eximir-se de qualquer responsabilidade. O presidente da federação também se eximiu de qualquer responsabilidade e deixou tudo ou para o Jorge Jesus ou para o Cristiano Ronaldo. A federação está sempre bem. Quer o Cristiano Ronaldo, porque o Cristiano Ronaldo efetivamente é uma imagem extremamente valiosa para a própria Federação Portuguesa de Futebol, que sem ele se calhar perderá alguns milhões em contratos de publicidade e noutras questões. O Jorge Jesus foi contratado pela Federação Portuguesa de Futebol, não foi contratado pelo Cristiano Ronaldo, foi contratado pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Mas com o aval do Cristiano Ronaldo.
Desculpe, com o aval, mas aqui quem é que dá o aval? Eu peço desculpa, eu respeito muito o Cristiano e comecei a última minha intervenção aqui na Rádio Observador por considerar o Cristiano Ronaldo uma figura rara no futebol, o português de sempre e um dos melhores jogadores de futebol do mundo. Isto não quer dizer que o Cristiano Ronaldo tenha que dar a opinião, porque ou há quem manda, e o presidente da federação aceitava que fosse falar com o João Pinto, que é vice-presidente, com o Zé Coulson, que até estiveram ligados com o futebol. Agora, jogar com o Cristiano Ronaldo, que é um jogador que o treinador, que foi contratado por ele, chamará ou não chamará. É evidente que dizem assim: "Ah, mas o Jorge Jesus chamou o Cristiano Ronaldo". O Jorge Jesus já sabe muito da vida. O Jorge Jesus sabe perfeitamente que se pusesse o Cristiano Ronaldo do lado, entrava numa circunstância de rutura com a própria federação. Os jogadores que toda a gente diz: "Coitados, eles nem sabiam". Claro que sabiam, claro que souberam, claro que tiveram conhecimento. Sabem qual foi a resposta dos jogadores? Foi dentro do campo. Sabem o que é importante para os portugueses? É que Portugal tivesse ganho os quatro jogos. Isso é que foi importante, porque eu fui dirigente de um clube, aliás, como o Elias Ferreira, que foi dirigente de um clube durante muito tempo, eu fui dirigente numa circunstância até bastante desagradável. Eu era dirigente do Futebol Clube do Porto, quando o Fernando Gomes, que era o grande craque do Porto, o pivota de ouro, se envolveu numa discussão pública com o Artur Jorge. O Teles Gomes estava lá no estágio, o Jorge Lobo Pinto da Costa não estava, porque isto foi na Madeira, e eu assumi, como eu era vice-presidente também, assumi a responsabilidade. Instaurei um processo disciplinar ao Fernando Gomes. Isso custou-me algumas circunstâncias bastante desagradáveis, mas foi assumido o processo disciplinar ao Fernando Gomes, tal como já deveria ter sido instaurado um processo disciplinar ao Cristiano Ronaldo, por muita razão que ele tenha, ele diz e bem: "Eu cometi um erro grave. Eu disse-o". É grave, porque ele é capitão de equipa e não se faz de uma equipa. A equipa ganhou. Os portugueses, neste momento, estão à espera que a equipa continue a jogar como jogou nestes últimos quatro jogos, como uma verdadeira equipa de futebol. Como alguém que deixou de ser o eterno candidato e passou a ser uma realidade com que nós poderemos contar com eles em circunstâncias, naturalmente, que há equipas melhores, há equipas piores, há dias em que são melhores, há dias em que são piores. Uma coisa é certa: a equipa da seleção nacional, os jogadores que jogaram, jogaram como equipa e mostraram-se como equipa e tiveram uma intenção como equipa. E por isso é normal que eles não venham dizer no final do jogo: "Epá, o Cristiano Ronaldo não serve para nada". Porque ninguém diz que o Cristiano Ronaldo não serve para nada. Serviu para a imagem da seleção. O Cristiano Ronaldo foi fundamental durante 24 anos para que a seleção nacional fosse respeitada, como foi fundamental no Real Madrid, como foi fundamental no Manchester United, como está a ser agora fundamental na Arábia. Isto é que é uma realidade. O que é que querem os portugueses? Querem aquilo que querem os italianos quando ele jogava no Juventus, querem aquilo que querem os ingleses quando jogava no Manchester United, querem aquilo que jogavam os madrilenos quando jogavam no Real Madrid: que ganhem os jogos. E o Cristiano Ronaldo fazia uma coisa que era fundamental e que ajudava a ganhar os jogos. Mais, ele sozinho muitas vezes ganhava os jogos Isso é que fez a imagem do Cristiano Ronaldo. Não é a liderança, porque o Cristiano Ronaldo é capitão de equipa pela simples razão de que é o jogador que tem o maior número de seleções. Porque se não fosse, o Cristiano Ronaldo não era capitão de equipa. É nessa perspectiva. Agora, que é uma imagem, que é alguém que efetivamente está ligado umbilicalmente e para toda a vida ao futebol português. E burros serão aqueles que, burros ou pelo menos com falta de interesse e de inteligência, se calhar, não pegarem no Cristiano Ronaldo e não o puserem exatamente no sítio onde ele deve estar. Como está o Eusébio no Estádio da Luz, como está muita gente nos outros sítios. Não vamos aqui discutir numa competição como a Liga das Nações, quem é que tem razão. Ninguém teve razão. A federação foi a que teve menos razão. O Jorge Jesus também, deixem-me dizer com toda a sinceridade, e toda a gente sabe que o que eu estou a falar é verdade, o Jorge Jesus aproveitou-se do Cristiano Ronaldo, serviu-se do Cristiano Ronaldo. E o Cristiano Ronaldo, como também tem um ego, também se serviu deles. Também achou que estão a dar-me o valor que eu mereço. E merece. Agora, já não merece é ser titular da seleção. Isso viu-se. Isso é evidente, isso viu-se nos jogos da seleção nacional no Campeonato do Mundo.
Permita-me, desculpe.
Por que toda a gente fala nisso e agora toda a gente esquece isso? Vamos pensar futebol. O futebol não é uma coisa que se faça fora do campo. Futebol é dentro do campo com os jogadores, naturalmente com o selecionador, que é o treinador, ou numa equipa de futebol, num clube, com o treinador e com os dirigentes. Os dirigentes é para dirigir, treinador é para treinar, os jogadores são para jogar. O público é fundamental, porque sem o público a apoiar, as coisas não são nada. E como nós vimos, os portugueses foram à Dinamarca, os portugueses foram à Noruega, os portugueses estiveram no Estádio do Alvalade, os portugueses estiveram no Estádio do Dragão. Em uníssono. Não tivemos um único português nesses locais a dizer: "Eu não apoio Portugal porque não quero o Cristiano Ronaldo". Não! O que os portugueses queriam era que Portugal ganhasse. Portugal ganhou, e bem. E Portugal mostrou que tem uma extraordinária equipa e que tem jogadores para o futuro. Terá algum Cristiano Ronaldo? Se calhar, não. Se calhar, os Cristianos Ronaldos aparecem de geração em geração. Agora, se tem jogadores que podem fazer uma grande equipa, isso não tenho a mais pequena dúvida que tem. Agora, não ponham dúvida. O comunicado, é triste termos um comunicado do Cristiano Ronaldo quando o presidente da federação pode dizer: "Nós estamos disponíveis". Mas disponíveis para quê? Deviam ter instaurado já um processo disciplinar, porque como a Federação Portuguesa de Futebol, uma estrutura direcional, independentemente como o Dias Ferreira diga isso, instaurar um processo disciplinar não quer dizer que ele seja condenado. A pessoa não é arguida e não está desde logo condenado. Na dúvida, é para o réu. E uma pessoa até ser condenada é inocente. Agora a federação manifestou-se perante um facto que foi a saída de capitão de equipa da seleção. E nesta perspectiva tinha que reagir em conformidade, como agiu com o Ricardo Carvalho. O Ricardo Carvalho não era um craque também na equipa de Portugal? Também não abandonou a seleção, não abandonou a equipa. Qual foi a consequência? Levou um ano de suspensão, não sei se levou multa, se não levou, mas isso é indiferente. Teve suspenso durante um ano. E o Cristiano Ronaldo, por muito valor que tenha, há uma coisa que ele tem que ter e ele próprio o diz. Porque o que eu acho espantoso é que as pessoas todas: "Não, o Cristiano Ronaldo". As pessoas não, porque eu, com toda a sinceridade, ouvi dois colegas meus com os quais normalmente estou em acordo. Normalmente, se estivermos em desacordo, também não tem problema nenhum. Mas agora, o Cristiano Ronaldo diz: "Eu tenho que ser castigado". Cristiano Ronaldo tem a consciência de que é um jogador de futebol e tem a consciência de que estando numa seleção, está debaixo de um regulamento disciplinar, como sendo jogador, também está debaixo de um regulamento disciplinar.
E acha por isso que esse processo já devia ter sido aberto.
Pronto, já satisfiz o meu ego para falar também. E por isso, já posso ir embora?
Ainda terá a oportunidade de voltar a falar se assim quiser continuar conosco. Eu, já agora, aproveitava para perguntar ao Bruno Batista se considera que esta atitude quer pôr-se imundo, que é descrita por Cristiano Ronaldo em Jorge Jesus, estou a citar o comunicado, diz que viu no selecionador nacional uma atitude quer pôr-se imundo. Com este comunicado, não estará a querer reclamar essa atitude para si mesmo, Cristiano Ronaldo?
Pois, é isso mesmo. Está a admitir que ele tem essa mesma atitude na seleção e vamos ver. E agora já digo eu, e é a minha responsabilidade, e provavelmente teve durante muitos anos. Provavelmente durante muitos anos, Ronaldo liderou e fez o que quis na federação, jogou e fez as convocatórias provavelmente de quem entendeu e de quem não entendia. E agora, pela primeira vez, está a ter um treinador que não é Martinez, que é Jesus, e que não dispensa de liderar e não dispensa de ser ele a escolher os jogadores. Porque esta história, e Jorge Jesus disse isto, pedir desculpa de quê? De fazer o trabalho dele? É verdade, podemos achar assim, o Ronaldo esteve a aquecer 35 minutos e isto está na génese de tudo. Eu volto a dizer, nós estamos com esta discussão toda no país há mais de oito dias, e com todo o respeito pelo que é Ronaldo, mas naquela circunstância em que está agora, é um jogador de futebol em final de carreira, com 41 anos, esteve a aquecer 35 minutos e não entrou. E agora digo eu: e depois? Qual é que é o problema? Se aquele gol do Gonçalo Ramos não tem sido anulado, o terceiro gol, provavelmente hoje não estávamos aqui a discutir isto, estaríamos a discutir outro problema qualquer muito mais grave, como a inflação ou o preço dos combustíveis. Agora, o gol foi anulado e Portugal ficou a ganhar 2x1, num jogo que estava difícil, onde a equipe da Noruega cresceu depois desse gol. É que não temos falado de futebol, é que podemos falar disto. Portugal precisava de manter uma pressão alta, que o Gonçalo Ramos faz. Precisava de continuar a ter uma defesa a partir do meio-campo muito sólida para não deixar que a Noruega viesse. E Ronaldo já não é esse jogador que vem atrás. E, portanto, o que entendeu Jorge Jesus, e entendeu bem porque ganhou o jogo, é que Ronaldo não fazia sentido entrar. Mas provavelmente, se a cinco minutos do fim, Portugal faz o terceiro gol, Ronaldo entrava. Se calhar, também ficava chateado porque só jogou cinco minutos. E eu ainda faço outra reflexão que já fiz durante estes dias: qual é que seria a saída que Ronaldo queria? De que forma? Porque no dia 23, na Cidade do Futebol, nós assistimos a uma conferência, até não foi uma conferência de imprensa, foi um circo perante uma plateia num evento onde estava Ronaldo com Jorge Jesus ao lado, e onde Ronaldo diz que está ali para fazer o que o mister quiser, para jogar, para ficar no banco, para ficar na bancada, para entrar, para sair, para aquilo que fizesse falta. E meia dúzia de dias depois, dá-se o que dá, porque não entrou a jogar. Portanto, é preciso ir aqui um pouco à Terra e perceber o que estamos a discutir.
Também disse que quando não se sente desejado, faria a mala e iria embora. O que acabou por acontecer.
E fez da pior maneira, mas fez. Mas aqui eu também concordo, tenho aqui um pouco do Dias Ferreira e um pouco do meu querido José Guilherme Aguiar. É que eu entendo que já devia ter sido aberto esse tal processo disciplinar, apesar de não irmos punir Ronaldo, porque aqui o estatuto tem que contar. É uma multa, é uma coisa simbólica. Agora, tudo isto devia ter sido feito fora das câmaras. Pedro Proença, eu estou aqui atento às notícias e dizem que neste momento está em reunião na Cidade do Futebol com os seus assessores. É tarde. É tarde para esta reunião, já devia ter feito antes.
Bruno Batista, e coragem para fazer isso.
Então não podem estar estes cargos.
E coragem para fazer isso. Não é evidente, não tivesse o Ronaldo sido para ser castigado e ninguém o castigaria.
Se não têm coragem, não estejam neste sítio. Eu sou alentejano com muito orgulho. Na minha terra há um ditado que diz: "Não estás capaz, não vinhas". E portanto, se não conseguem ter coragem de enfrentar o elefante na sala, que é dizer ao Ronaldo e combinar com ele um plano de saída, então não podem liderar estas coisas, não podem andar aqui. Porque vamos lá ver, Ronaldo não é maior que a federação, nem é maior que o país. Portugal já existia, a federação já existia, deu muito, nada disso está em causa. Mas isso tem que ter uma liderança. Então, mas tem que passar a fazer.
Dias Ferreira.
Aliás, eu não quero ser aquele que utiliza pessoas que não se devem utilizar, mas era essa é que traz isto. Não há capacidade para fazer isso. Esqueçam, não há. Na linguagem portuguesa, o Dias Ferreira diz que falta um luz e eu agora ponho aqui três pontinhos. Mas é preciso não esquecer que Cristiano Ronaldo, na tal feira que foi aquela conferência de imprensa com Jorge Jesus, que foi de facto uma feira de vaidades. É exatamente. Bruno, também é exatamente isso. Mas Cristiano Ronaldo disse que a comunicação social o queria matar, mas que ele até se afastava das balas.
Mas tem esse sentimento de perseguição por quê? Mas por que acha que está sendo perseguido pelos portugueses?
Eu não digo mais nada. Vocês querem mais sangue e eu não quero. Desculpa.
Não.
Já que estão a falar de coisas que falaram atrás, eu ia dizer que não dá nenhum lado do jogo. É evidente que a gente da comunicação social também o quer abater, mas também não tem coragem para o fazer diretamente.
Eu não concordo com nada disso. Eu acho que Ronaldo sempre foi reconhecido pelos portugueses. Ronaldo tem um aeroporto com o nome dele, com toda a dignidade.
Eu vou pedir aos três, por favor, Bruno Batista, Dias Ferreira, José Guilherme Aguiar, eu vou pedir que não falem os três ao mesmo tempo, porque fica mesmo muito complicado de ouvir.
Peço desculpa, tem razão.
Sem problema. Estamos aqui para ouvir os três e eu aproveitava já agora esta deixa do Dias Ferreira para lhe perguntar se concorda com o Bruno Fernandes de que este caso devia ter sido gerido internamente e que não havia necessidade de tudo isto.
Claro, exatamente. E quem é que o geriu externamente? Quem é que o falou para o exterior sem dizer mais nada? Essa é a pergunta. Então o Ronaldo foi-se embora, sei lá uma coisa a mais a ver com o assunto?
Mas isso não é uma declaração?
Não é uma declaração. Se calhar se ficasse era pior. A discussão continuava. Era um problema de não cumprimento de uma coisa, foi-se embora. E aguardou que tudo passasse E todos fizeram as coisas, pelos vistos, ninguém quis tomar as medidas e agora levaram com seis golos. Cada página, mais nada. É só isso.
Zé Guilherme Aguiar concorda?
Eu acho que, de facto, o comunicado do Cristiano Ronaldo foi muito inteligente. Ainda não o li em profundidade, mas percebo que é muito inteligente. Toma lá uma no pau, toma outra na ferradura. O Eugénio de Ferreira também diz: "A comunicação social falta-lhe aquilo que falta aos outros, que falta à federação, que deve ser um problema nacional também. Somos descapacitados, pelo menos nessa questão". E relativamente ao Bruno Fernandes, submeto ao nome de um teia de todas mentiras e pergunto-lhe: você gostava quando o Cristiano Ronaldo jogava na seleção? Então por que você fazia sempre aquelas trombas? Por que estava lá como se tivesse a fazer um frete? E deixem o Bruno Fernandes falar, conta todo mentiras. Não misturem. Como é evidente, os jogadores, o que eles queriam, o que eles querem é a mim não me interessa nada.
Estás a chamar mentiroso ao Bruno Fernandes? Não.
Politicamente correto, é o que se está a chamar.
É isso?
Politicamente correto. Se uma pessoa está a mentir, conta teia todo mentiras.
Conta teia todo mentiras, exatamente.
Então vai estar a chamar de mentiroso. É uma maneira inteligente de chamar.
Não, não é uma maneira inteligente. É uma forma que nós dizemos que efetivamente faltam. Eu quase que me atrevia a dizer na Rádio Observador, mas não digo. A palavra correta, não digo, ainda me podem instaurar não um processo disciplinar, mas um processo-crime por falar em vegetais na altura em que estamos a falar de futebol. Mas, de facto, eu e o Bruno Batista andamos há muito tempo no futebol. Eu também sei a questão do processo disciplinar, deixem-me dizer, o processo disciplinar ao Fernando Gomes, que se calhar merecia uma punição extremamente grave, passou por uma repreensão por escrito, porque o Fernando Gomes tinha muita rédea que era antes, agora tinha atenuantes, como ao diabo, como ao Cristiano Ronaldo tem.
E tem que ser tudo em conta.
Como ao Cristiano Ronaldo tem. Agora, uma coisa é certa, submetam-no. Mostrem que o Cristiano Ronaldo, dentro da seleção, é um jogador igual aos outros, que se submete a um determinado condicionalismo disciplinar. Agora, não façam disto: "Eu espero que ele venha e ele tem a porta aberta e tem a porta fechada e tem a porta entreaberta e talvez não sei quanto". Isso é brincadeiras. São brincadeiras.
Bruno Batista.
É aquilo que eu posso pensar.
Acabamos por não nos debruçar muito sobre um dos primeiros parágrafos deste comunicado, e não temos muito mais tempo para o fazer, mas em que Cristiano Ronaldo assume que a seguir ao Mundial escreveu uma carta já a preparar o abandono da seleção, à semelhança do que fez Lionel Messi. Isto é surpreendente?
Não, isto é um enquadramento para este comunicado, que eu também comecei logo por dizer que ele estava muito bem escrito, é inteligente, ele faz uma cronologia, ele assume culpas, ele diz que tem que ser punido, ele começa precisamente por dizer que queria ir embora no final e tem uma carta escrita aos portugueses como se de uma missão se tratasse, e tratou de uma missão para Ronaldo representar a seleção e Portugal ao longo destes anos todos, não estou longe de me desvalorizar nada disso. Agora, foi escrito e está pensado para estrategicamente deixar o ónus do lado de Jorge Jesus, que é isso que tentou aqui. E com esse parágrafo que estamos a falar, ele começa por dizer que queria abandonar a seleção no final do Mundial, mas que Jorge Jesus lhe pediu e lhe disse que contava com ele. Aliás, ele chega mesmo a dizer que Jorge Jesus foi a casa dele. Portanto, foi a casa dele aqui em Lisboa, antes da partida para a Taça das Nações, para a Liga das Nações, e para combinar aquilo que seria a utilização dele. Portanto, Ronaldo quis mostrar que foi a federação e foi Jesus que o quiseram, que ele só aqui está por espírito de missão, para depois dizer aquilo que estava a dizer o Zé Guilherme Aguiar, dizer uma no cravo, outra na ferradura, deixar a porta entreaberta. Diz que não pensava que fosse o último jogo, aquele em Alvalade quando saiu, mas depois no final diz que está disponível, mas coloca em Jorge Jesus que só tem uma de duas coisas: ou aceita e fica aqui numa posição que eu diria incômoda para ele, portanto, aceitando tudo que é dito aqui para receber de novo Cristiano Ronaldo e Cristiano Ronaldo sai por cima, ou então Jesus não o convoca e tem aqui um problema institucional para o lado da federação, que é para mim quem tem mais responsabilidade no meio disto tudo, porque foi péssima na gestão de crise, foi péssima na gestão deste conflito e deixou que viessem pessoas. E este para mim é o erro do comunicado, é assumir que há aqui Tiago Craveiro, que há aqui o diretor do Al-Nassr, que foi quem liderou este processo, quando a federação deixou que tudo isto acontecesse sem uma palavra a dizer. Portanto, agora tem um enorme problema Pedro Proença para resolver, aí se tem.
Deixe-me perguntar também, e temos mesmo que fechar, mas queria perguntar ao José Guilherme Aguiar, e pedi-lhe que fosse breve, se espera ver Cristiano Ronaldo na próxima convocatória da seleção nacional.
Não. Com toda a sinceridade, com toda a franqueza, não. E com toda a certeza, não. Admitindo sempre que eu sou um ser humano e que falho e que posso efetivamente ser um ser humano que falha, mas um ser humano também demasiado ingênuo Porque dizer isto e depois vir a convocatória do Cristiano Ronaldo era uma ingenuidade. Eu, honestamente, já não tenho idade para isso. Aliás, já nenhum de nós tem idade para sermos ingénuos. Cristiano Ronaldo, enquanto lá estiver Jorge Jesus, não é mais convocado. Isto partindo do princípio que Jorge Jesus vai cumprir os tais quatro anos e vai ter que cumprir, porque ele tem um contrato que é um dos cinco mais bem pagos do mundo e a federação para lhe pagar a indenização vai ser o fim do mundo. Já foi com o outro, com o Martínez, que era um bom criado de servir, sempre com aquela personalidade bem vincada e também sabia demais para estas coisas e foi ganhando, porque os portugueses, efetivamente, são muito ingénuos. Não consigo perceber essa afirmação, Guilherme, desculpa.
Deixe-me fazer uma última pergunta.
Então ele abre-lhe a porta a dizer: "Volta, és preciso". E depois não o convoca? Isso é a mesma coisa que o pôr a aquecer outra vez. Agora é pô-lo a aquecer durante um mês ou dois meses. Ó José Eugénio, há uma coisa que eu reconheço, tu tens muitas qualidades e muitos defeitos. Agora, há uma coisa que tu não és, é ingénuo. E, por isso, tu quando estás a dizer isso, também não és ingénuo. Sabes perfeitamente que Cristiano Ronaldo diz: "Passou a bola. Bola para Jesus e Jesus vai matar." Claro, está tudo lá.
Para Jesus?
E Jesus remata. Mas por quê? Remata e como. Lhe abriram a hipótese da seleção, porque eu sempre disse que quando falavam da história: "O Porto sempre vai lá para a festa de despedida", eu disse: "O Ronaldo não quer festa de despedida para coisa nenhuma". Como é evidente, ele não precisa de festa de despedida. Ele lá tem muitas festas de despedida quando se fode, não é só uma, é várias. As festas de despedida do Ronaldo são quando lhe vão comprar a federação. A federação não está a ver.
A conversa está boa, José Guilherme Aguiar Dias Ferreira e Bruno Batista, mas o nosso tempo chegou mesmo ao fim. Eu agradeço aos três pela paciência, por terem estado conosco ao longo desta hora a analisar este comunicado.
É um gosto estarmos aqui a falar destas coisas, porque quando estamos a falar de futebol, estamos a falar de muitas coisas. Eu discuti, bati muitos anos com o José Eugénio de coisas que às vezes nós saíamos e dizíamos: "Como é que nós fizemos isto?" Enfim.
São sempre bem-vindos à antena da Rádio Observador. Agradeço aos três que tivemos ao longo desta hora a analisar o comunicado de resposta da quebra do silêncio de Cristiano Ronaldo depois do abandono do estágio da Seleção Nacional.