E que tal um livro-disco para crianças onde o afrobeat, o hip hop, o rock e a música havaiana se misturam com rimas sobre a agricultura, o aquecimento global e os hábitos saudáveis? Apresentamos-lhe Mão Verde, o novo projeto de Capicua e Pedro Geraldes, que é editado esta sexta-feira.

Há muito tempo que Ana Matos Fernandes, o nome verdadeiro da rapper Capicua, tinha vontade de fazer um livro de lengalengas. “Mas não tinha nenhum reportório infantil”, conta ao Observador. Em 2015, recebeu o convite do teatro de Municipal de São Luiz, em Lisboa, para fazer alguns concertos para o público mais novo no Jardim de Inverno.

Ali estava a grande oportunidade para retomar o antigo desejo. Capicua sempre gostou de escrever rimas para gente mais nova e percebeu que a música poderia ser o veículo ideal para fazer com que as suas histórias ganhassem vida. Convidou Pedro Geraldes, dos Linda Martini, para fazer a composição.

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De um lado, uma rapper, do outro, o guitarrista de uma banda do rock. Ana escrevia as letras pedagógicas disfarçadas de lengalengas. Pedro fazia a base musical com as melodias assertivas. “Não somos consumidores deste tipo de música. Era um mundo desconhecido”, diz Capicua que acabou por gostar da liberdade e ingenuidade de principiante neste projeto. “Recuperámos a forma intuitiva de compor e de escrever. Gosto de brincar a musicalidade das palavras e do jogo de repetição”, acrescenta.

E assim foi. As rimas foram o instrumento de transmissão de recados importantes sobre temas do dia-a-dia e do meio ambiente para as crianças mas também para os pais, avós e tios. “O vocabulário vai a outros territórios mas a missão é a mesma: por a escrita ao serviço de uma mensagem”, explica Capicua.

Para crianças e para os outros

As preocupações ambientalistas refletem a sua postura pessoal. Ana é apaixonada por ervas aromáticas, por distinguir e conhecer cheiros, aromas e infusões. Tem até uma horta em casa. “As questões ecológicas, as minhas preocupações em relação ao consumo, ao ambiente, o meu interesse pela agricultura estão presentes no meu dia-a-dia”, afirma a cantora que não aqui não está muito longe do que é a sua escrita habitual, onde fala “sobre as medidas políticas e sociais através das palavras e da música”.

mao verde

Foi fácil mergulhar no ambiente infantil e falar de “igual para igual”. Ana recorreu às memórias de quando era miúda. “Toda a gente tem uma criança dentro de si. Há uma criança bem viva dentro de nós. É um processo intuito de quase voltar à simplicidade, de ir ao Peter Pan que há dentro de nós”. Ao mesmo tempo, os músicos quiseram sempre manter seriedade para não “tornar a coisa pateta”.

Com batidas alegres e acompanhadas por diversos instrumentos tocados ao vivo, Pedro quis mostrar às crianças todo o universo colorido que a música pode criar. “Tinha que ser algo animado, bem-disposto, com diferentes géneros e ao mesmo tempo didático”, explica.

“O mundo aqueceu, e o deserto cresceu” é exemplo disso. Na letra de “Quente&Frio”, Pedro foi buscar o género musical do calipso, onde aborda os problemas do aquecimento global:

“Quisemos brincar por aí. A base musical tem esses estilos diversos. Queríamos mostrar às crianças as diferentes texturas e linguagens musicais”.

Também pensaram em quem lia as histórias: “Os pais são as principais vítimas das músicas para crianças e por isso queremos também comunicar com eles”.

Em pouco tempo, tinham o concerto preparado para apresentar. Correu tão bem que decidiram gravar tudo em disco e acrescentaram mais duas músicas novas, “Quente&Frio” e “Mão Verde”, que deu nome ao título do projeto. “Foi uma experiência completamente nova para nós, mas sempre a tentar não cair na coisa moralista”, esclarece Capicua.

Hip hop, rock e o resto

Mão Verde chega agora às lojas e “A ideia é deixar as pessoas conhecerem-no nos próximos meses”, dizem. A partir de janeiro de 2017, querem voltar à estrada e tocar em espaços ao ar livre e em formato banda, com outros músicos e equipamentos. “As crianças são muito mais espontâneas, sinceras, e nestes concertos eles fazem perguntas pelo meio”, recorda Capicua. “É muito engraçado ter o feedback imediato. E eles são muito engraçados”, diz Pedro.

Apesar de ser um livro para crianças, a rapper e o guitarrista não esqueceram os pais dos mais pequenos. “Deixamos umas private jokes que só os leitores graúdos compreendem”, afirmam. Ao longo do livro, os leitores vão também encontrar as ilustrações criativas da espanhola Maria Herreros e pequenas notas do agricultor Luís Alves, que explicam temas como a compostagem ou a vida animal. Todo o design está a cargo de Dário Cannatà, com quem Capicua trabalha desde 2012.

As coisas fluíram tão bem entre os músicos que quando acrescentaram as duas últimas canções ao disco, gravadas em março, nem foi preciso mexer no alinhamento dos concertos dados no teatro de São Luiz. “A ordem pela qual fui enviando as músicas ditou a disposição final. A narrativa constrói-se naturalmente”, diz Pedro. “Tal como funciona a natureza.” “Comecei num concerto, fui a um disco e acabei num livro, o que eu realmente queria fazer”, termina Capicua.