Ainda vamos a tempo.

Desta vez são 3 da manhã e não estou na rádio. Talvez a ironia desta noite seja o facto de ter passado horas a ouvir canções novas, coisa que nem sempre temos tempo de fazer… Estava eu esta noite a trocar canções e discos com o meu colega e amigo Duarte Pinto Coelho da Radar, um dos maiores apreciadores que conheço de Sharon Jones. Não é irónico? Enquanto escrevo estas palavras, ele não sabe que ela morreu. Vai ser só mais um estremeção no nosso coração que está mais vulnerável este ano. Mas já agora, como disse nos últimos dias, sem coração, as canções morriam, e nós precisamos tanto de nos agarrar às melodias mais bonitas… Continuemos a por o masoquismo ao serviço da criação.

Esta foi a tal noite em que me dediquei ao novo – a noite em que Jones de 60 anos morre e eu escrevo esta coisa perigosa assumindo o risco que ela acarreta; a cultura é seletiva e implacável; Nós até achamos que a escolhemos, mas é ela que nos escolhe a nós; ouvimos, vemos e lemos quando a rotina nos liberta. Quando o mundo se abre para nós. Na aldeia onde vivi, todos os meses chegava uma carrinha de chapa ondulada onde se escondiam os livros todos que eu julgava existir. Pelo menos era de lá que eu trazia mundo e fiz do meu, melhor, com a biblioteca itinerante da Gulbenkian. Li dos Sete a Kafka e sabem os meus, como isso me fez mais exigente, mas lá está, para isso acontecer é preciso que uma carrinha atravesse o país e nós hoje em dia temos é alcatrão feito portagem (sem lugar para a velha carrinha de chapa onde ondulava a sabedoria de uns quantos…).

3 da manhã sim. Soube há pouco que Sharon Jones morreu. E muitos de vocês perguntarão, quem foi a Sharon Jones? E eu digo-vos sem contar muito: era um portento da Soul. Uma mulher com um talento muito maior do que aquele que o seu corpo comportava e onde cabe a música de tantos anos de luta, de vida, de dádiva. A Sharon cantou Gospel e militou no Funk mas era claramente uma mulher da Soul. Um corpo pequeno e endiabrado onde cabiam canções a que ela dava voz como se deslindasse mistérios para a sua vida. Reparem nós fazemos todos isso: uns colecionaram selos para escapar ao quotidiano da prateleira, e outros puderam escrever livros ou canções. Todos nos salvamos em doses homeopáticas mesmo os pouco crentes das alternativas.

Sempre admirei Sharon Jones. Era a mulher negra cujo o suor escorria em bica e às vezes se fundia nas lágrimas. Sabe Deus como às vezes disfarçamos o que se junta na pele e é só emoção. Sharon Jones essa formato de gente feito soul, tantas vezes comparada a James Brown no feminino, era uma mulher sofrida de amores e da vida que só conheceu o sucesso muito tarde. E é agora que o português resignado chega e diz: “coitada, não teve sorte nenhuma!”. Este é o tipo de pensamento que devia dar multa por tudo o que traduz: a fatalidade, a culpa, a ausência de futuro. Sharon Jones morreu aos 60 anos (deixa 7 álbuns com os Dap Kings – a banda que a acompanhava) e um sorriso que muitos de nós – por muito que nos esforcemos nunca vamos ter. Sabem, mais vale uma felicidade inteira mesmo que vivida só por instantes do que uma vida feita de felicidadezinhas incompletas. Ela de cabeça rapada pelo cancro, e sorriso coberto pelo seu carisma, dizia: eu tenho cancro mas o cancro não me tem a mim. E ele, esse manhoso sorrateiro que nos leva a vida pela calada, acabou por silenciar a nossa Sharon que deu concertos inesquecíveis em Portugal como o do Meco ou da Aula Magna.

Nunca é tarde para chegarmos a nada, e acreditem, a Sharon Jones pode não ter conhecido a fama merecida em vida, mas continua aqui à espera de ser ouvida.

Mereçam-na.