Bowie. Prince. Cohen. E agora George Michael, para não falar de outros. “Ai, agora de repente gostam todos do (inserir aqui nome de estrela recentemente falecida) desde pequeninos”, lê-se nas redes. Assim se vive a morte por lá: uns começam por espetar umas homenagens mais ou menos sentidas, outros questionam a autoridade de quem as publicou e outros ainda mandam umas piadas cínicas sobre a comunidade enlutada.

Mas o luto de uma figura transversal da cultura popular é como a água, não se nega a ninguém. Mesmo os que não choram tão sinceramente a morte de uma estrela — quase todos, na verdade — choram certamente a sua própria. Podem não saber o que tem andado o Prince ou o George Michael a fazer nos últimos anos, mas não resistem a dançar “Kiss”, “Let’s Dance” ou “Wake Me Up Before You Go-Go” naquela pista ébria às 3 da manhã, ou talvez deixem cair uma lágrima quando ouvem “Hallelujah” interpretada por um anónimo num concurso de talentos. E, ainda que nenhuma destas manifestações faça de ninguém perito numa obra, confere a qualquer pessoa o direito inquestionável de sofrer uma perda: a perda de uma parte de si ao morrer o autor da banda sonora de uma memória.

Esta despedida de nós próprios é também julgada por quem se compadece mais das grandes tragédias da humanidade do que das grandes neuroses inerentes à condição humana — como se estivéssemos no balneário a comparar o tamanho das tristezas. É que, tal como há pessoas acham que pensar na fome em África é a solução para qualquer depressão, também há quem dite que não se pode chorar mais a morte de Prince do que a das crianças em Aleppo. A propósito, recordo o que em tempos me disse uma amiga: “Eu amo-te a ti, mas também amo os timorenses”. Foi uma amiga que, em Janeiro, também sofreu com a morte de David Bowie, provando que nenhum amor — e, por conseguinte, nenhum sofrimento — é mutuamente exclusivo.

Menos superioridade moral nas redes sociais permitir-nos-ia sofrer, sem culpa, mais pela morte de Prince do que pela morte de uma tia ou mais pelo Coro do Exército Vermelho do que pelo avô do nosso melhor amigo. Chorar como deve ser — consoante a empatia e o sentimento de perda. Venham cá impor-me o protocolo do luto que eu logo vos digo o que me passou pela cabeça quando uma senhora me disse que “devia ter havido missa” no funeral do meu pai ateu.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Para esta que vos escreve, George Michael nem sequer foi um ídolo, é apenas a memória daquele momento, em 1985, em que confessei à minha avó que o achava bonito e ela me respondeu “que mariquinhas!”; ou daquele outro em que, pela primeira vez na vida, decidi tirar a letra de uma canção (“Heal the Pain”, uma parceria bonita com Paul McCartney) só com um dicionário e o miserável inglês do 5º ano. É a memória de ter fantasiado o meu futuro (gorado) de estilista enquanto via repetidas vezes os vídeos de “Freedom 90” ou, mais tarde, de “Too Funky”. E de me ter arrepiado contra a vontade do rock quando ouvi o dueto com Elton John em “Don’t Let the Sun Go Down on Me” naquela altura da pré-adolescência em que os prazeres eram realmente culpados. Esse foi o meu George Michael, aquele que perdi. Não é igual ao vosso e não deve ter nada a ver com o homem que morreu ontem, aos 53 anos. A perda é coisa íntima. Já dizia a anedota: cada um chora por onde tem mais saudades.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3