A arte é uma ancestral luta contra o esquecimento e “Não Quero Morrer”, que está em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas, em Lisboa, faz uma tentativa artística de resgate das memórias de um conjunto de actores e actrizes que, com os anos, se distanciaram dos palcos e com isso caíram num inevitável esquecimento. A ideia para o espectáculo surgiu quando o actor e encenador português Elmano Sancho e a bailarina colombiana Juanita Barrera assistiam em 2014, em Nova Iorque, a uma cena de um documentário sobre Annie Girardot (sim, celebrizada como Nadia em “Rocco e os Seus Irmãos”, de Luchino Visconti) na qual a actriz não sabe quem é quando a abordam. Era a doença, o Alzheimer, a revelar-se. Os anos de glória já haviam passado e as oportunidades de trabalho começavam a rarear.

Foi esse o ponto de partida para uma investigação que os iria levar ao contacto com diversos actores e actrizes portugueses e colombianos entre os 65 e os 98 anos para construir um texto fragmentário, feito a partir de várias vozes e vivências, que pode no final ser entendido como se fosse a fala, digressiva, de uma só pessoa-personagem. Não deixa de causar uma certa estranheza inicial a circunstância, durante a peça, de não ouvirmos, no relato de Elmano, num tom que consegue consagrar a dignidade de quem não a perdeu, episódios ligados à arte de representação e aos seus bastidores. O que nos chega são histórias privadas, de mulheres e homens, dificuldades relacionais, situações de angústia económica, evocações de pais e tios, sonhos e viagens, desilusões amorosas, lamentos pelo envelhecimento e pelo esquecimento. Quando convocados, durante as entrevistas, para falarem do passado das profissões e vocações, deixaram o camarim fechado e abriram a porta para as suas fendas nunca encerradas e resolvidas. Misterioso? Humano.

Os fios biográficos que se abrem e fecham são entrecortados pela representação da cena que resolve “Rocco e os Seus Irmãos”. A peça “Não Quero Morrer”, que conta com um apoio dramatúrgico (de Rui Catalão), som (de Pedro Costa) e iluminação (de Alexandre Coelho) adequados, rigorosos, sem alaridos, pode ser vista sem necessidade de pistas e glosas. Mas não deixa de ser importante, para entendê-la nas suas diversas camadas, conhecer a valorização, feita pelos criadores, das ocorrências, sobretudo as finais, da biografia de Annie Girardot e a forma como estes fazem rimar o que se passou na arte – na própria cena do filme de Visconti – como Girardot experimentou nos seus últimos dias.

O conhecimento de algumas das assumidas inquietações pessoais dos autores e actores também acrescenta e aproxima. Elmano Sancho e Juanita Barrera admitem que dançam aqui a valsa da sua própria biografia e da sua despedida dos anos em que, para citar Ruy Belo, “tudo era possível era só querer”. Quando esboçaram o projecto tinham 35 anos, fase da vida em que muitos autores que admiram atingiram o auge dos seus percursos para depois começarem a conhecer, uma a uma, as sombras do ocaso. Entenderam que era a altura de fixar o tempo que foge em direcção a um retiro qualquer. Sentiram estar a atravessar uma fronteira do calendário e quiseram tirar uma polaroid. Ou seja: ao fixarem outros, através da voz e do corpo, do som e do movimento, também se estão a fixar a si próprios, em idade de passagem.

Depois das apresentações em Lisboa, que terminam no domingo, “Não Quero Morrer” vai ser representado no Teatro Académico de Gil Vicente (31 de Janeiro), no Teatro Municipal de Vila Real (3 de Fevereiro) e no Teatro Nacional de Bogotá (2 a 18 de Março). Elmano e Juanita já decidiram que na Colombia vão trocar de papel. Sim, é essa a forma que têm de confrontar medos e inevitabilidades: chamando os fantasmas que não tiraram senha, correndo riscos por nós.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.