Um dos mais populares e reconhecidos realizadores americanos, Jonathan Demme morreu esta quarta feira, aos 73 anos. Associado quase sempre a filmes como “O Silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia” (ambos vencedores do Óscar para melhor filme), Demme foi também um revolucionário na hora de filmar a música, deixando documentos fundamentais como “Stop Making Sense”, o filme-concerto dos Talking Heads, e os vários filmes que fez com Neil Young.

[o trailer de “O Silêncio dos Inocentes”]

Demme começou como argumentista e colaborador de Roger Corman, produtor e realizador dedicado à exploitation, em filmes como “Angels Hard as They Come” (1971), uma história de sexo e violência com motards pelo meio, protagonizada por Scott Glenn (que viria a integrar o elenco de “O Silêncio dos Inocentes”) e “The Hot Box” (1972), com a ação a acontecer numa prisão de mulheres no meio de uma selva tropical.

Estreou-se como realizador logo depois, em 1974, mas foi em 1980 que conquistou primeiro reconhecimento com “Melvin e Eu” e a história de Melvin Dummar, o funcionário de uma bomba de gasolina que afirmou ser o único titular da herança de Howard Hughes, depois de, alegadamente ter salvo o milionário americano no deserto do Nevada em 1967 (anos antes da estreia do filme os tribunais americanos decretaram que o testamento apresentado por Dummar era falso).

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Foi o princípio de um percurso criativo que levou Demme a cruzar o mainstream e indie, cinema popular e comercial com histórias pouco ortodoxas, na adaptação de romances ou com histórias quase-verídicas. Seria “O Silêncio dos Inocentes” a dar estatuto maior a Jonathan Demme mas antes o realizador levou Melanie Griffith, Jeff Daniels e Ray Liotta até à comédia “Selvagem e Perigosa” (1986), dois anos antes de assinar “Viúva… Mas Não Muito”, com Michelle Pfeiffer e Matthew Modine.

[trailer de “Selvagem e Perigosa”]

A adaptação de um dos romances de Thomas Harris sobre Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), um psiquiatra canibal, que ajuda uma agente do FBI (Jodie Foster) a capturar um serial killer, transformou-se no maior sucesso de Jonathan Demme, gerando depois uma sequela, uma prequela e uma série de televisão. “O Silêncio dos Inocentes” conquistou os Óscares de melhor Realizador, Filme, Ator, Atriz e Argumento Adaptado.

Dois anos depois chegou às salas “Filadélfia”, com Tom Hanks e Antonio Banderas, que trouxe a sida para os cinemas como ainda não tinha acontecido, através de um relato ficcionado mas que procurava alertar para a realidade de quem tinha de lidar com tudo o que a doença provocava: a incapacidade gradual e os tratamentos, claro, mas sobretudo a discriminação.

Haveria o remake de “O Candidato da Verdade” e o “Casamento de Rachel”, referências de Demme já no século XXI. Mas a história do cineasta também já tinha sido feita com música na televisão e no cinema. Só com Neil Young assinou três documentários/concertos: “Heart of Gold”, “Trunk Show” e “Journeys”. No ano passado fez “Justin Timberlake + Tennessee Kids”, a partir de uma atuação do americano em Las Vegas (com distribuição da Netflix).

Demme realizou também vídeos para gente como os New Order ou Bruce Springsteen, mas foi com “Stop Making Sense”, logo em 1984, que marcou o género – pelos aspetos técnicos envolvidos mas também pela forma como o concerto foi filmado (em três noites diferentes, em Los Angeles, em 1983) e montado, congregando atenções e críticas positivas sobre um género que habitualmente não as recebia.

[“Psycho Killer”, dos Talking Heads, em “Stop Making Sense”]

https://www.youtube.com/watch?v=phvKAm_v5og&list=PLke4g-fS3LOaaUgmHkFiQ8K9Bww8dfKTf

Um representante da família de Jonathan Demme confirmou ao site Indiewire a morte do realizador (que tinha cancro) através de um comunicado. Neste mesmo dia, 26 de abril, está prevista na televisão americana a transmissão de um episódio da série “Shots Fired”, produzida pela Fox.