Começou esta quarta-feira, em Seattle (EUA), mais uma conferência da Microsoft destinada a programadores. A Microsoft Build (#MSBuild) é o evento onde são apresentados os projetos e tendências de futuro da empresa. Não são apenas ideias, são já ferramentas concretas, com as quais os programadores e as empresas podem começar a desenvolver produtos. O poder dos gigantes como a Microsoft passa por aqui, por apontar uma direção.

Na grande apresentação deste primeiro dia (keynote), o diretor executivo da Microsoft, Satya Nadella, lançou os tópicos de discussão que vão ser desenvolvidos nas inúmeras sessões paralelas que vão decorrer ao longo dos próximos três dias. O responsável da Microsoft segue em linha com o mercado tecnológico, apontando os três vetores do futuro: Cloud, Internet das Coisas e Inteligência Artificial.

Com cada vez mais dispositivos ligados em rede – e os milhares de milhões de pequenos gadgets que se vão ligar ao que se designa por Internet das Coisas – é preciso encontrar respostas para colocar, de forma eficaz, toda a tecnologia que nos rodeia a funcionar. É com base nesta exigência que Satya Nadella sublinhou os três valores e princípios que regem o desenvolvimento tecnológico da Microsoft: dar o poder às pessoas (de construir mas também de controlar); tornar a interface inclusiva (descomplicar); construir confiança na tecnologia.

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Numa keynote muito virada para o mundo empresarial, o responsável máximo da Microsoft fez saber que mais de 90% das 500 empresas que constam da lista Fortune usam os serviços Microsoft Cloud. É um número que vale o que vale, mas ninguém tem dúvidas que posiciona a Microsoft na disposição de delinear caminho.

O grande salto da Inteligência Artificial (IA) está para breve mas, para que ele se dê, é preciso versatilidade e capacidade de processar informação. É aqui que entra a Cloud, onde se armazena um número crescente de dados. Algumas demonstrações desses processos foram aqui apresentadas (numa linguagem bastante técnica e nem sempre interessante, diga-se de passagem), mas ficou a ideia de que ensinar máquinas a “pensar” é cada vez mais fácil. Provavelmente é mesmo esse o caminho, a capacidade de gigantes como a Microsoft de construir ferramentas capazes de permitir (e de condicionar, também) a inovação tecnológica.

No primeiro dia desta conferência destinada sobretudo a programadores, o foco apontou para as empresas de todos os tamanhos. Aliás, a escalabilidade (a capacidade do software se adaptar ao crescimento de uma empresa) foi uma palavra utilizada muitas vezes. À medida que uma empresa cresce acumula mais dados, que precisam de ser processados e que podem aumentar na complexidade. É por isso que a Microsoft aposta em serviços de armazenamento mais rápidos e inteligentes, como o Azure IoT Edge, que oferece rapidez, integração com IA e baixa latência (menos de 10 milissegundos).

O assunto é complexo mas foi bem exemplificado. Por exemplo, pelo modo como a IA pode aumentar a segurança no trabalho, através de um sistema de identificação de problemas numa fábrica ou numa obra de construção civil, ou ainda num hospital, na monitorização de doentes. As câmaras e os sensores registam informação (27 milhões de vezes por segundo), esta passa para a “nuvem” e a Inteligência Artificial faz o resto: envia alertas, liga pessoas, agiliza a informação.

Outros exemplos passam pela produtividade nas coisas do dia-a-dia, que vão desde a organização da agenda até à comunicação com os colegas de trabalho – Microsoft Teams – quando estamos a conduzir um carro. Tudo isto, claro, de viva voz e sem nunca tirar as mão do volante. A Cortana, a assistente pessoal da Microsoft, portou-se muito bem durante as demonstrações. Está mais rápida e compreende melhor o contexto.

A Microsoft lançou o desafio aos programadores para utilizar o poder de computação da Cloud. Foi esse o mote para a apresentação do SQL Server 2017 e do Azure Cosmos DB, um sistema que replica automaticamente os dados para os vários servidores da Microsoft espalhados pelo mundo, de acordo com o fluxo de tráfego de cada empresa. A grande vantagem prática é adaptar a resposta de um site ou serviço às exigências cada vez mais globais.

Outras novidades: a app Azure já pode ser descarregada em Android e iOS, o Visual Studio já está disponível para macOS e o PowerPoint vai utilizar a IA para fazer tradução em tempo real. Uma manhã inteira que teve por trás um princípio tecnológico com o qual vamos ter de aprender a viver. A Microsoft chama-lhe Cognitive Services, o que se pode traduzir na capacidade de transformar a tecnologia em algo mais “humano”.

Neste capítulo houve ainda espaço para um daqueles momentos a puxar para a emoção, mas pertinente. Satya Nadella disse que a tecnologia traz duas coisas: oportunidade e responsabilidade. Para o ilustrar deu o exemplo do Emma, um dispositivo que se usa no pulso que permite a doentes com Parkinson serem capazes de escrever ou desenhar.

https://www.youtube.com/watch?v=k9Rm-U9havE

Maior capacidade de computação, algoritmos mais poderosos e um número de dados que não pára de crescer. Os ecossistemas dos gigantes (e não só) caminham no sentido de resolver esta equação. Resta saber até que ponto toda esta “inteligência” será capaz de se cruzar. Porque isso de ser “inteligente” tem de ser bem mais do que poder usar uma app num iPhone e num Android ou num Mac e Windows. Para que a tecnologia venha a ser verdadeiramente “inteligente” vai ter de saber comunicar interplataforma (ou seja, entre ecossistemas tecnológicos).

Mas ninguém falou sobre se ou quando isto vai acontecer.

O Observador viajou a Seattle a convite da Microsoft Portugal.