Cinema

“Piratas das Caraíbas: Homens Mortos não Contam Histórias”: cansados da pirataria

O quinto (e, aparentemente, o último) filme da multimilionária série de aventuras de piratas da Disney com Johnny Depp, iniciada em 2003, é mais do mesmo. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Hollywood vive presentemente a idade da clonagem cinematográfica, cultivando um modelo de produção assente em “franchises” (ou séries) de filmes que se sucedem e que, no essencial, são iguais uns aos outros. “Transformers”, “Guerra das Estrelas”, “Missão: Impossível”, “The Fast and the Furious”, as de super-heróis da Marvel e da DC ou “Guerra das Estrelas”, são algumas delas. Uma das mais lucrativas é “Piratas das Caraíbas”, da Walt Disney, baseada numa atração dos parques temáticos do estúdio, e iniciada em 2003 com “Piratas das Caraíbas: O Segredo do Pérola Negra”. O sucesso do filme, com Johnny Depp a fazer de Jack Sparrow, um pirata desastrado, aldrabão e titubeante de beber tanto rum, e que combinava um enredo de piratas clássico com comédia e sobrenatural, foi tão grande que surpreendeu até a própria Disney, e abriu as portas ao que em princípio seria uma trilogia.

[Veja o ” trailer” do novo “Piratas das Caraíbas”]

Não foi, porque por alturas daquele que seria o terceiro e último filme, “Nos Confins do Mundo” (2007), a série, produzida pelo homem com o toque de Midas em Hollywood, Jerry Bruckheimer, já tinha embolsado mais de dois milhares de milhões de dólares em lucros de bilheteira em todo o mundo. E também já se havia transformado em mais um fenómeno de clonagem cinematográfica. Os filmes, sempre capitaneados pelo Jack Sparrow de um Johnny Depp rodeado por um punhado de personagens “residentes”, enquanto outras entram e saem, seguem estritamente a fórmula ganhadora do original: aventura de piratas + comédia “slapstick” + elemento fantástico-sobrenatural, com este a pesar cada vez mais, por causa da crescente importância dos efeitos computacionais na indústria do cinema americano, e de cada filme ter que superar o anterior em aparato formal e vertigem visual.

[Veja a entrevista com Johnny Depp]

O quinto filme da série, “Piratas das Caraíbas: Homens Mortos não Contem Histórias”, assinado não por um realizador mas por dois, os noruegueses Joachim Ronning e Espen Sandberg, autores de “Kon Tiki-A Viagem Impossível”, vem anunciado como sendo o último. A Disney pensou primeiro em fazer dois filmes “back to back” para rematar a série, mas depois desistiu do sexto. Só que há poucas semanas, Ronning disse que “Homens Mortos não Contam Histórias” poderá afinal ser “o início da última aventura”, embora no final deste todas as pontas soltas do enredo que tem vindo a ser continuado de fita para fita aparentem ter sido satisfatória e definitivamente atadas. Até o capitão Jack Sparrow recuperou o Pérola Negra e navega nele, com uma tripulação completa, rumo ao horizonte (digital).

[Veja os bastidores da rodagem do filme]

Este “Piratas das Caraíbas: Homens Mortos não Contam Histórias”, rodado na Austrália (pela primeira vez, a produção abandonou as Caraíbas) não foge à tirania da clonagem. O Jack Sparrow de Johnny Depp desdobra-se nas costumeiras (e já cansadas) momices e partes gagas, há um objeto mítico cobiçado por todas as personagens (o tridente de Neptuno), um vilão sobrenatural (o amaldiçoado capitão Salazar de Javier Bardem), uma heroína forte (a astrónoma proto-feminista de Kaya Scodelario), um jovem membro da família Turner (Brenton Thwaites) e um convidado-surpresa.

A ténue e muito, muito desconchavada história está vergada ao peso dos efeitos digitais que dão vida às paisagens e às colossais sequências de fantasia, e a sensação de espetacularidade mecânica, de gigantismo bocejante, de maravilhoso artificial, nunca foi tão grande como neste filme. Era bom que fosse o último da série, porque os piratas estão cansados, e nós também. Deles, dos “softwares” que os clonam e dos responsáveis dos grandes estúdios sem ideias nem audácia.

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