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Esta é a história do dia de fim de semana da Rádio Observador. Há uma mão escondida por detrás dos movimentos de protesto? Espero que os partidos políticos, movimentos associativos, organizações portuguesas não caiam na tentação de, por razões meramente egoísticas da sua própria ação, importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não têm, de fato, respaldo na sociedade portuguesa. Nesta declaração, Luís Montenegro não chega a concretizar, mas deixa no ar a ideia de que aquilo que se tem visto nos últimos dias, em especial no Porto, tem dedo de partidos políticos. Aliás, no Parlamento chegou a apontar diretamente aos partidos mais à esquerda e acusou-os de tentarem recriar movimentos de indignação social. Hoje é sobre isto a história do dia. Há alguma estrutura organizada por detrás destes movimentos? Um partido político, por exemplo, ou o que há são militantes sem uma presença formal do partido onde militam? Ou então, nenhuma destas hipóteses e na verdade, estes protestos são movimentos puramente inorgânicos que nasceram espontaneamente. A conversa vai ser com o editor de política do Observador, o Rui Pedro Antunes. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de 17 e 18 de outubro. Olá Rui, bem-vindo.
Olá Pedro.
Vamos começar aqui por tentar responder à provocação ou à sugestão de Luís Montenegro de que estes protestos que temos visto nos últimos dias, em particular aqueles que decorrem no Porto, têm por detrás movimentos, organizações e até partidos políticos. Ele foi muito claro nessa acusação no Parlamento, dizendo que são os partidos mais à esquerda. Tendo em conta o trabalho que tu fizeste, a investigação que tu fizeste, pode dizer-se com certeza de que há partidos políticos atrás destes movimentos a financiá-los, por exemplo?
Olha Pedro, do ponto de vista do financiamento, eles garantem, pelo menos os principais movimentos que fazem parte da plataforma Casa para Viver, que é a que é mais expressiva neste momento, garantem que não têm esse tipo de financiamento dos partidos. Não há grande maneira de o provar. Alguns nem sequer têm personalidade jurídica, ou seja, nem sequer têm contas, porque são meio inorgânicos ou não oficial, e mesmo os que têm, garantem que não têm esse tipo de financiamento, o que é mais ou menos plausível, porque também seria difícil os partidos terem esse envio de dinheiro para associações, algumas que nem estão constituídas, por razões até daquilo que é o próprio controle do financiamento partidário. A grande questão é se os partidos estão ou não por trás destes movimentos, ou seja, se na verdade os movimentos são de alguma forma manitiados, de alguma forma são controlados pelos próprios partidos. Isso é que é mais difícil de tentar perceber e que também é relevante para a acusação do primeiro-ministro, porque ele parece sugerir, de fato, que de alguma forma esses partidos à esquerda do Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, acima de tudo, que têm de alguma forma um controle sobre este tipo de movimentos, que neste caso lutam pelo direito à habitação.
E como é que nós podemos dizer que isso é mais difícil de perceber, em que medida é que se pode entender que eventualmente pode haver ali, talvez não controle, mas pelo menos uma ligação muito forte entre os partidos e estes movimentos?
Sim, isso já é mais fácil de chegar a uma grande afinidade e uma grande ligação aos partidos. Desde logo porque os principais dirigentes destes movimentos ou são militantes, ou são dirigentes, ou em algum momento foram mesmo eleitos ou candidatos em eleições importantes, mais ou menos importantes, por esses dois partidos, acima de tudo. E, portanto, de alguma forma, não há dúvida que são pessoas do PCP e do Bloco de Esquerda que estão a coordenar muitos destes movimentos, ou pelo menos estão integrados na direção destes movimentos. É preciso dizer, Pedro, em nome da transparência ou da falta dela, que muitas destas associações até têm sites bastante evoluídos, mas depois falta-lhes um organigrama de quem é que está por trás. É verdade que tendo em conta a própria dinâmica destas associações, algumas têm estruturas horizontais e não gostam que ninguém mande, mas há outras que têm bem definido quem são os porta-vozes, quem é que faz parte da coordenação, mas não divulgam essa informação. O que é que acontece? Como é que nós chegamos lá? Estas pessoas têm falado em nome destas organizações e algumas apresentam-se como porta-vozes e também naquelas que estão constituídas como associação, ou seja, aquelas que têm personalidade jurídica, foi possível ir aos registros e perceber quem é que foram os fundadores. E, portanto, por aí dá para perceber que, de fato, ou são pessoas que são militantes do PCP ou do Bloco de Esquerda, ou pelo menos estão na órbita destes partidos, ou seja, em lutas comuns, ou seja, em apoios que dão a candidatos destes partidos. E, portanto, eu acho que podemos afirmar com bastante segurança, e aí não é tão difícil, que obviamente há pessoas destes dois partidos muito envolvidas nas direções destes movimentos.
Até porque tu tocaste aí num ponto que é importante, que há uma gestão mais ou menos profissional de algumas coisas, desde logo esse site evoluído que tu falas, a forma como os próprios protestos são organizados, as redes sociais que funcionam de uma forma também Aparentemente profissional, nem que seja para a convocação deste tipo de manifestações. Portanto, não estamos a falar, e isso é mais ou menos seguro dizer, de movimentos puramente inorgânicos, em que as pessoas que têm uma causa comum juntaram-se coincidentemente. Há, de facto, aqui uma organização profissional, nem que seja uma escola de protesto. Não é que isso exista nestes termos, mas quem lá está e quem está a organizar estes protestos sabe exatamente o que está a fazer.
Sim, a estrutura é muito profissional e o know-how que muitas daquelas pessoas adquiriram nos partidos, ou algumas nas suas vidas profissionais, também é fundamental. Mas para nos tentar ajudar aqui a perceber estas ligações que eu falava, por exemplo, há três grandes movimentos que estão na plataforma Casa para Viver. O Habita, por exemplo, a porta-voz que tem falado em televisões e que representa é a Rita Silva, que era a número dois do Bloco de Esquerda à Câmara de Lisboa quando Robles foi o cabeça de lista e foi assessora do grupo parlamentar do Bloco. No caso do Vida Justa, por exemplo, temos o Nuno Ramos de Almeida, que também já fazia parte do Que Se Lixe a Troika, e que também é do PCP e trabalha inclusivamente como assessor de um vereador da CDU. No caso do Porta a Porta, que é outro dos grandes movimentos, também é o Andrés Koval, que não só é do Partido Comunista como chegou a ser dirigente em Vila Franca de Xira, embora agora já não esteja na estrutura partidária. E depois vemos por aí fora ver pessoas que falam em nome dos partidos e percebemos que, de facto, há uma grande ligação entre estes movimentos e alguns dos partidos políticos. Isto não significa, Pedro, no entanto, que todas as pessoas que estejam na Praça Dom João I ou que se mobilizem em manifestações da habitação, emanem dos partidos. Agora, que há aqui uma grande ligação e que é difícil não haver influência dos partidos nestes movimentos, isso parece-me absolutamente claro. O que também tentei perceber é se de alguma forma lhes davam apoio, nem que fosse logístico. E também aí os movimentos juraram a pés juntos que nem uma carrinha, nem uma impressora de um partido utilizaram e que fazem tudo com base em donativos das próprias organizações e que às vezes recorrem a apoio de autarquias. Claro, podem ser autarquias do Partido Comunista. Em Lisboa, por exemplo, recorrem às juntas de freguesia de todas as cores políticas, menos da AD, porque acham que efetivamente Carlos Moedas não pactua com aquilo que é causa destes movimentos. Mas um exemplo que o Nuno Ramos de Almeida dá é que no caso do Vida Justa, já foi preciso ir dar boleia a umas cadeiras para uma das ações e foi pedido à Câmara de Oeiras, que é liderada por Isaltino Morais, que não é propriamente um bloquista. Portanto, há esse apoio das autarquias e é natural que haja um grande suporte nas autarquias que são da cor política destes partidos. E eu acho que não há grande forma de mascarar ou esconder que há uma ligação muito forte aos partidos, o que não significa que aquelas pessoas sejam todas, de alguma forma, manipuladas e controladas pelos partidos. Mas que ajuda estas pessoas terem know-how e conhecimento e virem dos partidos, isso ajuda, certamente.
Sendo que há aqui várias questões. Para organizar estes protestos, há uma série de questões logísticas e essas percebe-se que é com esses apoios e com essas estratégias para conseguirem ter aquilo que precisam para os protestos. Mas depois há outras questões que envolvem, pura e simplesmente, dinheiro. Por exemplo, eu não sei se está a ser pago ou não, mas estes movimentos têm um advogado, o que já de si também dá logo um ar menos inorgânico do que aquilo que eventualmente se possa ver olhando para as imagens. Portanto, eles têm um advogado. Eles têm que ter mecanismos de funcionamento. Como é que estas associações que fazem parte desta plataforma conseguem esse financiamento?
Eles dizem que passa sempre por festas que organizam. Por exemplo, no caso do movimento Vida Justa, há uma grande festa no 25 de Abril em que, segundo o porta-voz, o dinheiro que é angariado só no 25 de Abril dá quase para todo o funcionamento da associação durante o ano. No caso, por exemplo, do Porta a Porta, recentemente vimos algumas imagens disso, que é aquela rampa que no bairro da Graça sobem vários moradores de bicicleta, que há uma festa e que vendem cerveja e que também o fazem nas festas populares de Lisboa, e que através disso, como não são estruturas que tenham custos muito elevados, conseguem de alguma forma pagar os cartazes e pagar toda essa parte logística. Claro, o advogado que falas e que tem falado, por exemplo, no Porto, eu suspeitaria que ele será um dos manifestantes e de alguma forma representa, sendo advogado, deve representar a causa de alguma forma. Não sei se formalmente é pago, apostaria que se calhar não é, tendo em conta até a forma como se tem envolvido a falar em nome da própria causa. Há também aqui situações em que, por exemplo As pessoas, e isso é assumido pelos organizadores, dizem que recebem donativos, mas para a própria associação e, neste caso, só aquelas que estão inscritas, ou seja, que têm um NIF. Porque se olharmos, por exemplo, para aquilo que são os movimentos e plataformas associadas do Casa Para Viver, se calhar são mais de 50 e são muito diferentes. Algumas têm uma sede, têm uma morada e têm um número de identificação fiscal e outras são apenas uma espécie de manifestos ou subscritores de um determinado movimento ou um coletivo criado de forma informal, que de alguma forma assume um nome, um movimento e depois as pessoas juntam-se em torno daquele nome. Portanto, há situações muito diferentes entre estas associações que de alguma forma estão por trás desta luta, sendo que, mais uma vez, eu acho que os próprios partidos nem escondem o seu envolvimento nestas manifestações. Aliás, o líder do Bloco de Esquerda ainda na quinta-feira tinha marcado uma intervenção e de repente desmarcou, para a comunicação que é feita do Bloco de Esquerda para os jornalistas, dizendo que está a caminho do Porto e vai fazer a declaração de lá. E já Catarina Martins tinha participado. Os partidos nem sequer escondem que apoiam estes movimentos em várias das suas dinâmicas. O que falta aqui talvez esclarecer ainda é o grau de influência que têm. E depois vamos lá ver, estas pessoas fazem parte destes partidos, têm como objetivo derrotar as políticas do governo. Esse objetivo é comum destas pessoas, tanto existe nestes movimentos como existe nos partidos, portanto, de alguma forma, até têm um objetivo comum. É por isso natural que haja uma certa contaminação daquilo que é a estratégia dos partidos por parte destes movimentos, o que não significa, mais uma vez, que eles controlem todas as pessoas que estão na manifestação e que não haja quem se manifeste de forma espontânea, naturalmente.
Rui Pedro, muito obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei hoje com o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes, sobre a ligação de partidos como o Bloco de Esquerda ou o PCP aos movimentos de protesto pela habitação. Começámos o episódio com uma espécie de aviso do Luís Montenegro sobre a tentação de algumas forças políticas quererem recriar o nível de violência que se vê noutras cidades da Europa. E para provar essa teoria, ao final do dia de sexta-feira, o gabinete do Primeiro-Ministro divulgou um vídeo onde se vê a manifestação no Porto e se ouve isto.
A gente precisa de, sim, descobrir o endereço da casa do Primeiro-Ministro e jogar um tijolo. É pra ter mais umas coisas assim. Vocês querem se juntar à revolução que está acontecendo na Orocha ou vocês querem fazer tudo na paz e ser pisado por cima?
Com Luís Montenegro a denunciar um apelo direto à violência e uma ameaça a si próprio e à sua família, vamos continuar a olhar para aquilo que se passa na Praça Dom João I, no Porto. Esta foi a história do dia de fim de semana. A sonoplastia é da Beatriz Gardete, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até segunda.