Na última série de Bruno Aleixo, “Aleixo Psi”, há um momento em que se discute aquela mania das pessoas dizerem que já não veem televisão, que veem as coisas no computador. Aleixo aponta, e bem, que isso é ver televisão. Afinal os conteúdos foram concebidos para aí e ainda são mencionados como televisivos. Há gente que gosta de bater na televisão, de a considerar irrelevante mas alguma da cultura popular consumida em massa ainda acontece graças ao velhinho aparelho. Se fosse obsoleta, se os miúdos agora só ligassem aos tablets e aos vídeos no YouTube, fenómenos como Ariana Grande dificilmente aconteceriam.

O seu sucesso musical deu os primeiros passos na televisão. Tal como tantos antes dela: Miley Cyrus, Jonas Brothers, Selena Gomez, Hilary Duff, Britney Spears, Christina Aguilera, Justin Timberlake, etc. A lista continua. A sua história arranca na Broadway, no musical “13” em 2008, quando tinha 14 anos. Foi o início do sonho desta rapariga que chegou ao mundo em 1993, Boca Raton, na Florida; mudou-se para Nova Iorque ainda bebé, cidade dos sonhos, diz-se. Esse sonho apareceu-lhe cedo: queria ter uma carreira musical.

Teve uma grande vantagem em relação a outros artistas: não precisou de mudar o nome do seu passaporte. Batizada Ariana Grande-Butera, deixou cair o Butera e ficou Ariana Grande, um nome que causará sempre alguma estranheza em português (porque, afinal, o que é uma ariana grande?). Pode-se nunca encontrar resposta para isso, mas sabe-se quem é Ariana Grande.

A Nickelodeon tornou isso possível. Um ano depois de “13” conseguiu o papel de Cat Valentine na série “Victorious”, uma sitcom naquelas escolas que só existem na televisão, onde a miudagem está num eterno concurso de talentos. A ruiva Cat começou a convencer e Ariana aproveitou-se disso para lançar no YouTube uma série de vídeos em que interpretava canções de alguns dos seus ídolos, como Mariah Carey ou Whitney Houston. Imitar celebridades é um dos seus talentos e até chegou a explorar isso, anos mais tarde, quando foi ao Saturday Night Live em 2016. Há quem lhe chame mini-Mariah Carey.

Em 2013 a série terminou mas a personagem Cat Valentine manteve-se activa em “Sam & Cat”, um spin-off de “Victorious” e de outra série da Nickelodeon, “iCarly”. Contudo a coisa não pegou e foi cancelada ao fim de uma temporada. Nesse verão lança o seu primeiro álbum, Yours Truly, que se tornou num sucesso imediato, e fez com que a sua carreira musical arrancasse à séria. O single “My Way”, com Mac Miller, entrou diretamente para a décima posição na Billboard Hot 100. Foi o seu primeiro single a atingir o top 10. Nesse mesmo ano ainda piscou o olho à criançada, e ao seu talento para versões, ao lançar um EP com versões suas de canções de Natal (Christmas Kisses). Repetiu a dose em 2015, com Christmas & Chill, desta vez só com canções suas e a piscar o olho com aquele “Chill” (googlem “Netflix & Chill”) de que se quer mostrar mais adulta.

Lançou mais dois álbuns, My Everything (2014) e Dangerous Woman (2016), ambos com uma série de singles orelhudos: “Love Me Harder”, com The Weeknd, “Bang Bang”, com Jessie J e Nicki Minaj, “One Last Time”, “Into You” e “Dangerous Woman”. E três digressões mundiais, The Listening Sessions (2013), The Honeymoon Tour (2015) e a que irá passar por Lisboa, Dangerous Woman Tour. No ano passado teve o desplante de falhar a sua estreia em Portugal no Rock in Rio Lisboa, por motivos de doença, mas no próximo domingo irá redimir-se de tudo isso na Meo Arena.

Apesar do que aconteceu em Manchester há três semanas, Ariana Grande parece estar em forma. Sentiu-se isso quando no passado domingo subiu ao palco para o concerto de solidariedade pelas vítimas de Manchester, “One Love Manchester”, e pelos relatos do concerto em Paris na quarta-feira passada. Musicalmente está num lugar já distante da ruiva Cat Valentine, mas a maior parte do seu público continua a ser adolescente (ou pré-adolescente). O futuro, pela progressão nos seus dois últimos álbuns, indica que se irá distanciar disso. Por enquanto, é um fenómeno que nasceu na televisão, cresceu e distanciou-se disso. Ariana Grande já não é a ruiva Cat. Agora é só esperar que os seus fãs cresçam.