É um dos nomes confirmados para o cartaz do festival Zona Não Vigiada, que pela tarde deste sábado, dia 17, ocupa a Zona J de Chelas com o que de menos óbvio e mainstream se faz na música de diferentes partes do mundo. Pessoas, canções e liberdade, a ideia é juntar estes três ingredientes e Tomasa del Real vem do Chile a simbolizar tudo isto num espírito de farra sem regras. É reggaetón, é mesmo, seguindo todos os tiques e regras do género, mas com mais de tudo: conteúdo, confronto, exagero, sexo e dança. Antes do festival falámos com Valeria Cisternas por telefone. Valeria é o nome verdadeiro mas a arte de Tomasa é tudo menos coisa de ficção:

Como é que uma miúda de uma pequena cidade do Chile se transforma na nova rainha do reggaetón?
Tudo começou no meu estúdio de tatuagens. Passava muito tempo sozinha e começava a gravar. Colocava as coisas no Youtube e os meus amigos pediam-me para enviar mais. As pessoas gostavam de ver e faziam like. Tinha meio milhão de visualizações e pouco tempo depois já me estavam a convidar para gravar com outros cantores.

Mas porquê reggaetón? Há aquele preconceito que os tatuadores são todos fãs de rock?
Porque em Iquique, a minha cidade natal, é muito quente todo o ano. É o primeiro porto do Chile e tem acesso a muita tecnologia barata. O reggaetón ouve-se em todo o lado. Nos rádios dos carros, nos telemóveis ou nas colunas dos bares. É cultural. Não foi uma decisão pensada. Foi algo que surgiu naturalmente. Agora rock? Não, nunca fui de ouvir.

Existe alguma ligação entre a música e a arte de tatuar?
Para mim, não. São coisas muito diferentes. Gosto muito de cantar, exige muito de ti. Comecei a trabalhar como tatuadora por acaso. Era um trabalho normal, das 9h às 18h, e conseguia pagar as minhas contas. Decidi viajar e tatuar nos sítios por onde passava. Fui com uma amiga e o primeiro país que escolhemos foi Argentina.

https://www.youtube.com/watch?v=J34e6kL1Xlk

Tatuar e só depois cantar? Como uma espécie de part-time?
Sim, comecei a unir isso. Fizemos outros países da América do Sul, fomos também à Europa. Quando ia a um lugar tatuar, convidavam-me também para cantar. As pessoas começaram a escrever-me para ir atuar. Era um alívio.

Porquê?
Foi a cereja no topo do bolo. Podia viver de algo que gostava, sem ter que estar fechada no estúdio a cumprir horário. Quando tatuava, comprava as viagens e marcava os hotéis. Agora, pagam-me tudo e dá-me muito mais prazer.

É caso para dizer “Viva a internet”!
Sim, claro. Sou uma artista da internet. Antigamente íamos aos bares e discotecas para ouvir música. Hoje basta abrir o Youtube ou o Spotify e temos uma série de estilos, artistas, géneros a um simples clique. A internet funciona como uma plataforma de artistas sobre a qual podemos construir um estilo alternativo.

Festival Zona Não Vigiada regressa no sábado à zona J de Chelas em Lisboa

E acessível a todos.
Sim, claro. É mais fácil ter resultados e é mais compensador, acho. Quando comecei a receber pedidos de colaborações de outros artistas, gravava a maior partes das letras em casa e mandava por email. Escrevia-as e enviava-as. Não misturava ou editava. E não sou nenhuma cantora lírica, muito longe disso. Trabalho com artistas que sabem mais do que eu.

E que música é esta que faz, como a descreveria?
A música que estou a fazer é muito um resultado de tudo que ouvi, das minhas influências e uma mescla de ideias e sentimentos atuais. As minhas letras são fortes e falam de várias coisas. Sobretudo coisas que nunca éramos capazes de dizer. É libertador. E as pessoas gostam, identificam-se. São músicas fáceis de digerir. O que mais interessa é que as pessoas se sintam bem e acabem a dançar. Dá-me prazer ver que as faço felizes.

O reggaetón tem sido um mundo mais reservado aos homens, enquanto intérpretes?
Não sei… mas as minhas músicas são iguais às dos homens. Só é mais chamativo porque sou mulher e visto-me mais arrojada. Não há uma versão feminina. É a realidade urbana do reggaetón, do sexo informal, da noite, da violência, do que estás agora a fazer. Antigamente servia para mostrar fantasias e esconder a verdade. Agora é mais representar a realidade.

Mas é sexy?
É a forma como as pessoas dançam, se revelam enquanto ouvem a música. Não é sexualista. É música de festa. É uma ilusão, por exemplo, dizer que quando um homem e uma mulher estão a dançar reggaetón e o homem falta ao respeito. A dança é sensual, é assim que é suposto ser. As mulheres não podem ficar ofendidas e ninguém pode querer que p reggaetón acabe.

Isso quer dizer que o reggaetón não morreu?
Não, não morreu. É a pop da América Latina. É a identidade de um povo que faz parte do imaginário de todos. É como o samba para o Brasil. O reggaetón é um estilo de música acessível a tanta gente. Sinto que, de repente, um grupo de artistas surgiu com este novo tipo de música, mais bailante. O que eu faço não é um “purista” reggaetón como existe em Puerto Rico. É mais pop, com a sua roupa própria.

https://www.youtube.com/watch?v=wIA65Yx3ePM

Muitos falam da Tomasa como autora de um “reggaetón do futuro”?
Essa coisa do reggaetón do futuro é uma cena nova, meio estranha e que já existe em muitos países. Falo de sexo, drogas e muito bling bling. Não é diferente do reggaetón tradicional. Os de Porto Rico é que acham que sim. Nos meus concertos tenho todo o tipo de pessoas: gays, travestis, hipsters que achavam o reggaetón horrível mas agora para eles é bom. Na Alemanha e Estocolmo, igual. Eles ouvem e gostam. Canto, digo asneiras. Eles não entendem uma única palavra, mas inevitavelmente acabam a dançar.

Mas nem todo o público é igual?
Não, o público é diferente. Primeiro porque na América Latina não há tantos bares. Por isso, quando há uma festa, vai muita gente. São logo 300 pessoas, no mínimo. Na Europa é o contrário. Há muitos lugares, mais pequenos, que comportam menos gente e há sempre muita coisa a acontecer. Festas, festivais, concertos. Lá, estou mais habituada a ver o público a dançar, em par ou a três. Aqui isso não é tão normal, é uma cena mais individual. Acho que aqui é porque as pessoas são mais restritas, têm medo de invadir os espaços dos outros. Mas, no final, acabam todos em festa. Neste momento estou em Madrid. Mas tenho concertos em Lisboa, Viena, Amesterdão.

E Portugal?
Não conheço muito. Viajo muito, conheço tantos países que às vezes nem sei onde ficam no mapa. Mudei-me para o México, que é a minha base agora, e isso permite-me viajar para vários pontos do mundo. Mas o que eu queria mesmo era voltar para a minha cidade Iquique, fazer uma viagem durante alguns meses e depois voltar a ter a minha vida tranquila.

Festival Zona Não Vigiada, Polidesportivo da Praça Dr. Fernando Amado, Chelas, Lisboa, sábado, 17 de setembro, a partir das 16h.