A Inspeção-Geral do Ambiente enfrentou “constrangimentos inusitados” na recolha de amostras de água perto das tubagens da empresa Celtejo. A unidade de pasta e papel de Vila Velha de Ródão é apontada como a maior contribuinte para as descargas orgânicas realizadas naquele zona do Tejo, sendo um dos principais alvos da investigação ao manto de espuma que cobriu o rio no final de janeiro. Estas dificuldades, cuja causa não está explicada, “nunca tinham acontecido”, nem na Celtejo, nem em outro lugar, disse o Inspetor-geral do Ambiente, em conferência de imprensa.

Nuno Banza confirmou que os inspetores do ambiente tiveram por duas vezes problemas com os coletores automáticos que estão colocados ao pé das zonas de descarga da Celtejo. Na terceira tentativa, foi pedido o apoio da GNR e o coletor foi guardado durante 24 horas, mas mesmo assim continha apenas espuma e pouco líquido. Só à quarta tentativa, e depois de colocar três inspetores no local, por mais 24 horas, é que foi possível assegurar amostras completas das descargas da empresa que estão agora a ser analisadas.

Os resultados destas análises só serão conhecidos na próxima semana, adiantou Nuno Banza. Mas ainda esta segunda-feira, o Ministério do Ambiente deverá anunciar se as restrições à produção da Celtejo se mantêm, ou se serão levantadas ou agravadas. A empresa de pasta foi obrigada a reduzir a sua atividade em 50% para conter o nível de efluentes no rio, durante dez dias, prazo que termina hoje.

Após o alerta sobre a presença de espuma no 24 de janeiro, a IGAMAOT (Inspeção-Geral do Ambienta) isolou os atos com maior risco de estarem na origem do problema. O Inspetor-geral, Nuno Banza, adiantou que foram identificadas três ETAR (estações de tratamento de águas residuais) urbanas (Mação, Vila Velha de Ródão e Abrantes) e três unidades industriais — Celtejo, Navigator e Paper Prime, que foram alvo de inspeções.

Em apenas uma delas, a ETAR de Abrantes, foram detetados incumprimentos em relação aos níveis de carência bioquímica e química de oxigénio e de sólidos suspensos totais. No entanto, apesar de esta unidade não estar a cumprir, “não consideramos estes incumprimentos expressivos”, disse Nuno Banza, uma vez que esta ETAR apenas contribui com 5% da carga orgânica despejada no Tejo.

Carga de carência química de oxigénio (um indicador de poluição) autorizada nas licenças dos operadores

Nuno Banza não consegue compreender o que aconteceu no caso da Celtejo e, sublinha, nunca tinha acontecido. Admite vários cenários possíveis para o coletor não ter recolhido amostras e diz que inicialmente até foi substituído. Depois receou-se que o coletor estivesse em risco — o Inspetor-geral não especifica que risco — tendo finalmente sido decidido recolher as amostras à mão. Estas dificuldades na recolha de prova já tinham sido noticiadas pelo jornal Público no domingo.

O responsável avisa contudo que as amostras recolhida durante condições normais de funcionamento das instalações em causa não vão permitir identificar se houve uma descarga específica a causar o problema de poluição no rio Tejo, porque elas revelam é a atividade industrial no momento em que são recolhidas.

Logo, no dia em que tiver os resultados da Celtejo “teremos uma representatividade da operação da empresa no momento da recolha. Não sabemos se podemos dizer que houve um episódio ou se a espuma depende de descarga extraordinária ou de descargas contínuas”, eventualmente realizadas dentro dos limites das licenças emitidas para estas unidades. O inspetor-geral foi ainda questionado sobre se o episódio de poluição no Tejo podia ter sido causado pelas descargas regulares das empresas feitas no quadro das licenças concedidas.

Nuno Banza admite que podemos estar “perante uma circunstância em que aquela a outras empresas estejam a descarregar efluentes autorizados em contexto diferente do atual (seca e redução do caudal do rio)“. E lembra que a Agência Portuguesa do Ambiente está a rever as condições das licenças atribuídas às indústrias de celulose.

A possibilidade de ter ocorrido um crime ambiental está a ser investigada pelo Ministério Público por iniciativa do Ministério do Ambiente, mas Nuno Banza não quis confirmar se recebeu uma denúncia a apontar para incidentes na unidade da Celtejo que terão estado na origem das descargas. O caso está em segredo de justiça.

As primeiras análises conhecidas na semana passada apontam para a concentração excessiva de carga orgânica com origem na indústria da pasta e papel. As análises efetuadas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) à qualidade da água no Rio Tejo na zona de Abrantes detetaram níveis de celulose cinco mil vezes superiores aos recomendados. A Celtejo, fábrica do grupo Altri em Vila Velha de Ródão, será responsável por 90% das descargas de matéria orgânica feitas neste local do Tejo e com origem nas indústrias de celuloses.

Apesar destes resultados atirarem responsabilidades para estas indústrias na situação de espuma e água escura que afetou o rio em janeiro, ainda faltava conhecer as análises às instalações suspeitas de terem provocado este quadro.